
Chegamos hoje ao décimo verbete do Glossário Silviano Santiago. Jorge “Joca” Wolff (UFSC) analisa o ano de 1970 como marco simbólico para entender a virada intelectual de Silviano Santiago, que, após chegar a Paris em 1961, mergulha na atmosfera da Guerra Fria, da descolonização e da neovanguarda francesa. Nesse contexto, Silviano assimila a desconstrução derridiana e a conecta à crítica pós-colonial, questionando o “vírus colonial lusitano” que marca a história brasileira. Acompanhando o percurso do crítico mineiro desde a releitura fundacional de textos como a Carta de Caminha até a criação do conceito de entre-lugar, Wolff mostra como Silviano lança, em torno de 1970, uma contra-pedagogia pioneira, plantando as bases da desconstrução e do pensamento pós-colonial no Brasil.
Acompanhe novas publicações do Glossário Silviano Santiago, organizado por Mario Cámara, todas as quintas-feiras, com versões em português e espanhol.
Boa leitura! Para saber mais sobre este projeto da BVPS Edições, clique aqui. Outros verbetes podem ser conferidos aqui.
1970*
Por Jorge “Joca” Wolff (UFSC)
1970 representa um ano específico ou aponta para uma década, marcando o fim e o começo de um decênio. Não é um ano qualquer, como se sabe, no Brasil e no mundo, com o poder de despertar inúmeras referências que, afinal, se verão fatalmente datadas. O jovem escritor de Formiga (MG) chegara a Paris nove anos antes, em 1961. Mineiro de província com vocação para ganhar mundos, foi afetado desde sempre pelo “vírus colonial lusitano” (na expressão do próprio) – e segue sendo-o, produtivamente – quando mergulha, aos vinte e cinco anos de idade, “no cotidiano europeu tomado pelos plásticos explosivos dos argelinos” (Santiago, 2014: 5). Em pleno ambiente da Guerra Fria e da neovanguarda política e cultural em solo francês, afetar e criticar o “vírus colonial lusitano” é a tarefa do tradutor tupiniquim em Paris. A sangrenta guerra da Argélia está nos estertores após quase uma década. Não à toa, Silviano Santiago ficaria tomado pelo pensamento de Jacques Derrida (1930-2004), o filósofo nascido em El-Biar (nos arredores da capital Argel), cujo pensamento gramatológico e desconstrutivo ele passa a incorporar na pele e na carne do corpo e do texto desde meados dos anos 1960.
Nesse contexto político e intelectual da capital francesa, ocorre o gradual abandono do existencialismo sartriano via estruturalismo lévi-straussiano e barthesiano, sem nunca deixar de lado, no entanto, o viés – o vírus, a virose – pós-colonial que o acompanha precoce e intuitivamente. Comove-o – quer dizer, excita, movimenta, estimula-o – o conceito de différance, sobre o qual falará em ene entrevistas de maneira objetiva, como no caso da que concedeu no ano da desgraça de 2020: “Por meio do termo différance, de Derrida, passo a propor leituras transdisciplinares e a articular ideias do pós-colonialismo”. Assim, “Différance é um neografismo – diz ele, ex-professor de literatura francesa nos Estados Unidos – produzido a partir da introdução da letra ‘a’, só visível na escrita da palavra différence [diferença, em francês]”. Mas o ponto central da proposição se encontra no “duplo movimento do signo linguístico”, o qual, “ao mesmo tempo, diferencia e difere, colocando em questão a ideia da existência de um começo incontestável, de um ponto de partida absoluto” (Silviano, 2020). Diferencia, quer dizer, muda, movimenta, toca, desloca, reorienta, desorienta no espaço; e Difere, isto é, demora, retarda, arrasta, rodeia, retrasa, reconfigura no tempo.
Na différance – na diferonça de Eduardo Viveiros de Castro que Alberto Mussa traduziria como Meu destino é ser onça – a abertura às múltiplas identidades somada à crítica de toda origem, à crítica de um “ponto de partida absoluto” (divino ou profano), permite a abertura para o entre-lugar das diferentes ficções do nacional, e contra qualquer identidade única e una, que resolveria “todas as questões étnicas” – diz ele na entrevista de 2020 – “por meio de um estereótipo: a figura do mulato”. A batalha contra o estereótipo eugenista e racista de origem europeia se dá, portanto, nos termos de Silviano, em nome de “formas de identidade”, referenciando explicitamente o “continente brasileiro”: “A noção de identidade em um país complexo e rico como o Brasil, que experimentou violências como o genocídio indígena e a escravidão negra, precisa ser inclusiva, ou seja, é necessário trabalhar com formas de identidade e não com uma identidade única” (Silviano, 2020).
Contra-colonialista pioneiro, Silviano Santiago ao mesmo tempo cruza a década da emergência da contracultura e da conquista do espaço em zigue-zague, entre a França, os Estados Unidos – onde se torna professor universitário em 1962, “por questões financeiras” – e o Brasil. A nova enfermidade jovem se espalha pele e carne adentro do escritor, que delira, como o expôs em “Anatomia da formação”, texto ensaístico-memorialístico publicado no suplemento cultural da Folha de S. Paulo no dia 7 de setembro de 2014. Diz o escritor, apelando à lembrança e ao esquecimento: “Com o corpo tomado por virose pós-colonial, deliro. Instruído pelos intelectuais e escritores africanos e pela França, apaixono-me pela poesia de Aimé Césaire. Leio as revistas Temps Modernes e Présence Africaine” (Santiago, 2014: 5). E na esteira de um Roland Barthes, crítico-pensador-escritor tão fundamental para Silviano quanto Derrida, vai saindo de cena aos poucos a revista Temps Modernes e entra a revista Tel Quel, sem que se ausente a “presença africana” na diáspora: a paixão pelo poeta-político martinicano Aimé Césaire, por exemplo, é sintoma de sua intuição contra-colonial de largo alento. Já o “vírus colonial lusitano” joga a tradição ocidental no delírio moderno e pós-moderno de Silviano Santiago; o vírus pós-colonial vai fazê-lo mergulhar no “jogo da diferença”. Em outra abordagem de sua crítica da identidade, a propósito do “outro mesmo brasileiro” que é, Silviano expõe do seguinte modo esse jogo:
Sem ser mero silêncio, o outro brasileiro não seria – embora estivesse sendo dado pela tradição eurocêntrica – o mesmo europeu. Duplicata. Por essa fórmula simplificada, fui levado a questionar o conceito de identidade e a conjurar, enfatizando-a, a noção de diferença, de que Jacques Derrida será o grande teórico a partir de 1967 (Santiago, 2014: 6).
Assim, conforme a sina norte-americana (ou seja, Estados Unidos mais Canadá) de Silviano, sua vocação cosmopolita contra-colonial vem colada à vocação de intérprete do país do pau-brasil, que frutifica no espaço da sala de aula de literatura brasileira quando chega ao país de tio Sam. Tratava-se como ainda se trata de chafurdar criticamente na história da ocupação violenta e gananciosa de vasto território alheio e, para tanto, “[eu] catava metáforas no texto da época colonial”, como rememora, sendo que sua “primeira cobaia” foi a “Carta de Pero Vaz de Caminha”:
Intuía que, pelo privilégio concedido a certa(s) metáfora(s), o texto da carta abria uma fascinante descendência na história da cultura e da literatura brasileira, cujos tataranetos no modernismo brasileiro são “Macunaíma” (Mário de Andrade) e “Poesia Pau-Brasil” (Oswald de Andrade). A primeira metáfora privilegiada, dada, aliás, como “principal” pelo próprio texto, foi “sêmen” em latim, semente em português, e sua descodificação pode ser feita a partir do sintagma de origem bíblica: “Semen est verbum Dei” (A semente é a palavra de Deus) (Santiago, 2014: 7).
Silviano Santiago narra neste ponto de sua “Anatomia da formação” – formação do outro (nacional) e de si mesmo (plurinacional) – o percurso que desemboca no texto “A palavra de Deus”, escrito em 1969 nos Estados Unidos e publicado no Brasil em 1971, resumindo as ideias postas em prática nas salas de aula universitárias nos Estados Unidos. Essas aulas o levam ao encontro, inusitado na época, dos velhos textos fundadores da ficção da nação brasileira (de Caminha a Vieira e Alencar) com a teoria contemporânea mais inovadora e vanguardista encontrada nos textos de Claude Lévi-Strauss, Gilles Deleuze, Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida. De modo que era preciso operar por deslocamentos na leitura dos textos literários, tanto em sala de aula quanto nos ensaios que delas adviriam. Nesse sentido, Silviano precisa e como que aconselha na fala de 2020:
Conhecemos melhor as obras literárias quando as deslocamos de seu contexto nacional. Os deslocamentos provocam ruptura, mas não devemos pensar essa ruptura como geradora de processos de exclusão. As correntes se complementam. Por exemplo, podemos ler um autor como José de Alencar [1829-1877] dentro da temática do nacionalismo brasileiro, mas também há outra leitura possível, que questiona até mesmo a busca por uma identidade nacional que não abriga a noção de diferença (Silviano, 2020).
Por uma ideia de identidade nacional como diferença, o autor de Em liberdade apropria-se, portanto, da contra-metodologia de pensamento e intervenção crítica derridiana, que irá atravessar toda sua trajetória, como o comprovam alguns ensaios mais recentes, a exemplo da Genealogia da ferocidade (2016) e Fisiologia da composição (2021), sempre com os olhos postos nos textos fundacionais de Jacques Derrida. Assim, fala-escreve ele na “Anatomia da formação”, em nome da “desconstrução da literatura comparada”:
De acordo com o simulacro analítico que então esboço, a descendência colonial de Caminha passa – em movimento de repetição e de diferença – pelo padre Antônio Vieira e o “Sermão da Sexagésima” (1655). (…) Passa também pelo romântico José de Alencar e “Iracema” (1865), onde a metáfora bíblica ganha conotação amorosa e serve a traduzir o processo conturbado, embora pacífico, da posse pelo macho português da fêmea indígena. (…). Naquele momento, a descendência colonial da semente ia até o pré-modernista Lima Barreto e o romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1915). (…) Pouco a pouco, o esquema inicial foi-se enriquecendo e redundou num curto e temeroso ensaio, “A Palavra de Deus”, que escrevo no final da década de 1960 e publico no número 3 da revista “Barroco” (abril de 1971), dirigida por Affonso Ávila. Pouco mais tarde, ele foi também testado no primeiro curso que dou na PUC-RJ como professor visitante. Levava o título de “A semente, ou a impossibilidade de se escrever a origem”. Associada a “semente”, a palavra “origem” é um tanto pedante, mas julgava-a importante para trabalhar a distinção entre “origem” (valores ocidentais) e “começo” (valores brasileiros)[1], que tomei de empréstimo a Joaquim Nabuco. Encaminho os dois conceitos, com a ajuda de Derrida, à desconstrução da literatura comparada (Silviano, 2014: 8-9).
Assim, utilizando as mesmas metáforas de que se utilizou no texto “A palavra de Deus” e no primeiro curso que o traz de volta ao Brasil em 1972, enquanto professor universitário da PUC-Rio, pode-se afirmar que Silviano Santiago é o semeador mais persistente da desconstrução no país. Sua contra-pedagogia derridiana se estabelece desde então, em torno de 1970, e vai fornecer a base para o conceito de “entre-lugar” que esboça em seguida e como consequência desta prática contra-pedagógica de literatura, ao se transferir para a Universidade de New York at Buffalo, em que a “teoria crítica francesa” ou os telquelismos lhe dão régua e compasso:
Precisava constituir as bases de uma disciplina acadêmica que recusaria adotar o centramento europeu – sua esplêndida e trágica tradição milenar – como forma de organizar e qualificar a produção literária nas metrópoles colonizadoras e sua disseminação inferior e desafortunada nas colônias. Foi naquela época que tive a ideia de introduzir nos estudos sobre literatura comparada a noção de “entre-lugar”, espaço negociável de leitura das literaturas latino-americanas e das que passaram por processos semelhantes de colonização, cujo principal intuito era dar o troco pela diferença (pela originalidade), valor sempre neutralizado pela literatura comparada tradicional (Silviano, 2014: 9).
Portanto, como crítica aos valores ocidentais, a abordagem desconstrucionista de Silviano contrasta “origem” e “começo” na teoria contemporânea e na prática da literatura colonial com pioneira visada pós-colonial. Da mesma maneira que lemos na conclusão de “A palavra de Deus”, Silviano postulará a “semente da imaginação” contra o “servilismo da letra” (Santiago, 2018: 275) que vem associado ao sentido da visão na retórica ultra-cristã de Padre Vieira:
A palavra, apreendida pelo ouvido, apela para a interpretação, ao passo que a imagem dos olhos que ouvem a doutrina, esta imagem transmite apenas o conceito de cópia, de reprodução verossímil, de mímica, deixando de lado para sempre o possível remendo do ouvinte (Santiago, 2018: 278).
Apesar de que ainda não o tivesse feito por volta de 1970, Derrida desenvolverá em meados da década o conceito de “otobiografia”, no qual, justamente contra a tradição cristã, ele buscava o trágico nietzscheano a partir do Ecce homo para mostrar que o “auto” é “oto” (do grego antigo ōt-, raiz da palavra oûs, orelha): é dos “ouvidos de ouvir” que se municia a desconstrução da metafísica da Presença ocidental, tão moderna e iluminista quanto colonial e imperialista, contra os “ouvidos de ver” que a retórica do Padre Vieira queria impor, temendo – como lemos em “A palavra de Deus” – que “cresça esta fauna imprevisível e profana, humana e palavrosa, que pouco a pouco vai desvirtuando o papel do pregador sobre a terra e o colocando entre os artistas” (Santiago, 2018: 275, grifo meu). Como na célebre “Farmácia de Platão” de Derrida, em que o filósofo franco-argelino denuncia a visão preconceituosa da tradição filosófica ocidental segundo a qual a verdade estaria na palavra falada da dialética socrática, esses artistas são os desprezados sofistas do grafo, da palavra escrita, que, no entanto, reinventam mundos a partir da imaginação ilimitada de seus “ouvidos de ouvir”.
Notas
* Versão inicial de texto em desenvolvimento sobre Silviano Santiago em torno de 1970.
[1] Conceitos aplicados pela primeira vez no ensaio Carlos Drummond de Andrade, publicado pela editora Vozes em 1978, como informa em nota da sua Fisiologia da composição (2021).
Referências
DERRIDA, Jacques. (2019). A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras.
DERRIDA, Jacques. (1968). “La différance”. In: SOLLERS, P. (ed.). Théorie d’ensemble. Paris: Seuil.
DERRIDA, Jacques. (2009). Otobiografías. La enseñanza de Nietzsche y la política del nombre propio. Buenos Aires: Amorrortu.
MUSSA, Alberto. (2009). Meu destino é ser onça. Rio de Janeiro: Record.
NIETZSCHE, Friedrich. (1995). Ecce homo. Como alguém se torna o que é. Tradução, notas e posfácio de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
SANTIAGO, Silviano. (2014). Anatomia da formação. Suplemento “Ilustríssima”, Folha de S. Paulo, 7 setembro 2014.
SANTIAGO, Silviano. (2006). Destinos de uma carta. In: Ora (direis) puxar conversa!: ensaios literários. Belo Horizonte: Editora UFMG.
SANTIAGO, Silviano. (2020). “Silviano Santiago: o literato cosmopolita” [entrevista a Cristina Queiroz]. Pesquisa Fapesp, n. 292, junho 2020.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. (2008). Encontros. Organização Renato Sztutman. Rio de Janeiro: Beco do Azougue.
Sobre o autor
Jorge “Joca” Wolff é professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É membro do Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) e do Núcleo Juan Carlos Onetti de Estudos Literários Latino-americanos, ambos da UFSC.
1970[1]
1970 representa un año específico o señala una década, marcando el final y el inicio de un decenio. No se trata de un año cualquiera, como se sabe, ni en Brasil ni en el mundo, pues tiene el poder de despertar numerosas referencias que, al fin y al cabo, acabarán fatalmente datadas. El joven escritor de Formiga (MG) había llegado a París nueve años antes, en 1961. Minero de provincia con vocación de conquistar el mundo, fue afectado desde siempre por el “virus colonial lusitano” (en expresión suya), y sigue estando – productivamente – cuando se sumerge, a los veinticinco años de edad, “en el cotidiano europeo tomado por los bombas molotov de los argelinos” (Santiago, 2014: 5). En pleno auge de la Guerra Fría y de la neovanguardia política y cultural en suelo francés, afectar y criticar el “virus colonial lusitano” es la tarea del traductor brasileño en París. La sangrienta guerra de Argelia está en sus estertores tras casi una década. No en vano Silviano Santiago quedaría prendado por el pensamiento de Jacques Derrida (1930-2004), el filósofo nacido en El-Biar (en las afueras de Argel), cuyo pensamiento gramatológico y desconstructivo empieza a incorporar en la piel y la carne del cuerpo y del texto desde mediados de los años sesenta.
En ese contexto político e intelectual de la capital francesa sucede el abandono gradual del existencialismo sartriano vía el estructuralismo de Lévi-Strauss y Barthes, sin dejar de lado, sin embargo, el sesgo – el virus, la virosis – poscolonial que lo acompaña de forma precoz e intuitiva. Lo conmueve – es decir, lo excita, lo moviliza, lo estimula – el concepto de différance, sobre el cual hablará en innumerables entrevistas de manera objetiva, como en aquella que concedió en el año de la desgracia, 2020: “Por medio del término différance, de Derrida, paso a proponer lecturas transdisciplinarias y a articular ideas del poscolonialismo”. Así, “Différance es un neologismo – dice él, exprofesor de literatura francesa en Estados Unidos – producido a partir de la introducción de la letra ‘a’, solo visible en la escritura de la palabra différence [diferencia, en francés]”. Pero el punto central de la proposición se encuentra en el “doble movimiento del signo lingüístico”, el cual, “al mismo tiempo, diferencia y difiere, poniendo en cuestión la idea de la existencia de un comienzo incontestable, de un punto de partida absoluto” (Silviano, 2020). Diferenciar significa cambiar, mover, tocar, desplazar, reorientar, desorientar en el espacio; y diferir, es decir, demorar, retardar, arrastrar, rodear, retrasar, reconfigurar en el tiempo.
En la différance – en la diferonça de Eduardo Viveiros de Castro que Alberto Mussa traduciría como Mi destino es ser jaguar – la apertura a múltiples identidades, sumada a la crítica de todo origen, a la crítica de un “punto de partida absoluto” (divino o profano), permite la apertura hacia el entre-lugar de las diferentes ficciones de lo nacional y contra toda identidad única y una, que resolvería “todas las cuestiones étnicas” – dice en la entrevista de 2020 – “por medio de un estereotipo: la figura del mulato”. La batalla contra el estereotipo eugenista y racista de origen europeo se da, por lo tanto, en términos de Silviano, en nombre de “formas de identidad”, refiriendo explícitamente al “continente brasileño”: “La noción de identidad en un país complejo y rico como Brasil, que experimentó violencias como el genocidio indígena y la esclavitud negra, necesita ser inclusiva, es decir, es necesario trabajar con formas de identidad y no con una identidad única” (Silviano, 2020).
Contra-colonialista pionero, Silviano Santiago cruza al mismo tiempo la década de emergencia de la contracultura y de la conquista del espacio en zigzag, entre Francia, Estados Unidos – donde se convierte en profesor universitario en 1962, “por cuestiones financieras” – y Brasil. La nueva enfermedad juvenil se extiende por la piel y la carne del escritor, que delira, como lo expuso en “Anatomía de la formación”, texto ensayístico-memorial publicado en el suplemento cultural de Folha de S. Paulo el 7 de septiembre de 2014. Dice el escritor, apelando a la memoria y al olvido: “Con el cuerpo tomado por virosis poscolonial, deliro. Instruido por intelectuales y escritores africanos y por Francia, me enamoro de la poesía de Aimé Césaire. Leo las revistas Temps Modernes y Présence Africaine” (Santiago, 2014: 5). Y en la estela de un Roland Barthes, crítico-pensador-escritor tan fundamental para Silviano como Derrida, va saliendo de escena poco a poco la revista Temps Modernes y entra la revista Tel Quel, sin que se ausente la “presencia africana” en la diáspora: la pasión por el poeta-político martiniqués Aimé Césaire, por ejemplo, es síntoma de su intuición contra-colonial de largo aliento. El “virus colonial lusitano” lanza la tradición occidental en el delirio moderno y posmoderno de Silviano Santiago. El virus poscolonial lo hará sumergirse en el “juego de la diferencia”. En otro enfoque de su crítica de la identidad, a propósito del “otro mismo brasileño” que es, Silviano expone de la siguiente forma este juego:
Sin ser mero silencio, el otro brasileño no sería – aunque estuviera dado por la tradición eurocéntrica – el mismo europeo. Duplicado. Por esta fórmula simplificada, fui llevado a cuestionar el concepto de identidad y a conjurar, enfatizándola, la noción de diferencia, de la cual Jacques Derrida será el gran teórico a partir de 1967 (Santiago, 2014: 6).
Así, conforme a la suerte norteamericana (es decir, Estados Unidos más Canadá) de Silviano, su vocación cosmopolita contra-colonial viene unida a la vocación de intérprete del país del pau-brasil, que fructifica en el espacio del aula de literatura brasileña cuando llega al país del Tío Sam. Se trataba, como aún se trata, de hurgar críticamente en la historia de la ocupación violenta y codiciosa de vastos territorios ajenos y, para ello, “[yo] buscaba metáforas en el texto de la época colonial”, como recuerda, siendo su “primer conejillo de Indias” la “Carta de Pero Vaz de Caminha”:
Intuía que, por el privilegio concedido a cierta(s) metáfora(s), el texto de la carta abría una fascinante descendencia en la historia de la cultura y la literatura brasileña, cuyos tataranietos en el modernismo brasileño son Macunaíma (Mário de Andrade) y Poesía Pau-Brasil (Oswald de Andrade). La primera metáfora privilegiada, dada, por cierto, como “principal” por el propio texto, fue semen en latín, semilla en portugués, y su decodificación puede hacerse a partir del sintagma de origen bíblico: Semen est verbum Dei (La semilla es la palabra de Dios) (Santiago, 2014: 7).
Silviano Santiago narra en este punto de su “Anatomía de la formación” – formación del otro (nacional) y de sí mismo (plurinacional) – el recorrido que desemboca en el texto “La palabra de Dios”, escrito en 1969 en Estados Unidos y publicado en Brasil en 1971, resumiendo las ideas puestas en práctica en las clases universitarias en Estados Unidos. Esas clases lo llevan al encuentro, inusitado en la época, de los viejos textos fundacionales de la ficción de la nación brasileña (de Caminha a Vieira y Alencar) con la teoría contemporánea más innovadora y vanguardista encontrada en los textos de Claude Lévi-Strauss, Gilles Deleuze, Roland Barthes, Michel Foucault y Jacques Derrida. De modo que era preciso operar por desplazamientos en la lectura de los textos literarios, tanto en aula como en los ensayos que de ellas se derivarían. En ese sentido, Silviano precisa y como que aconseja en la entrevista de 2020:
Conocemos mejor las obras literarias cuando las desplazamos de su contexto nacional. Los desplazamientos provocan ruptura, pero no debemos pensar esa ruptura como generadora de procesos de exclusión. Las corrientes se complementan. Por ejemplo, podemos leer a un autor como José de Alencar [1829-1877] dentro de la temática del nacionalismo brasileño, pero también hay otra lectura posible, que cuestiona incluso la búsqueda de una identidad nacional que no contempla la noción de diferencia (Silviano, 2020).
Por una idea de identidad nacional como diferencia, el autor de En libertad se apropia, por lo tanto, de la contrametodología de pensamiento e intervención crítica derridiana, que atravesará toda su trayectoria, como lo demuestran algunos ensayos más recientes, como Genealogía de la ferocidad (2016) y Fisiología de la composición (2021), siempre con los ojos puestos en los textos fundacionales de Jacques Derrida. Así, escribe él en “Anatomía de la formación”, en nombre de la “desconstrucción de la literatura comparada”:
De acuerdo con el simulacro analítico que entonces bosquejo, la descendencia colonial de Caminha pasa – en movimiento de repetición y diferencia – por el padre António Vieira y el “Sermón de la Sexagésima” (1655). (…) Pasa también por el romántico José de Alencar e Iracema (1865), donde la metáfora bíblica adquiere connotación amorosa y sirve para traducir el proceso turbulento, aunque pacífico, de la posesión por el macho portugués de la hembra indígena. (…). En aquel momento, la descendencia colonial de la semilla llegaba hasta el premodernista Lima Barreto y la novela Triste Fin de Policarpo Quaresma (1915). (…). Poco a poco, el esquema inicial se fue enriqueciendo y redundó en un breve y temeroso ensayo, “La Palabra de Dios”, que escribo a finales de la década de 1960 y publico en el número 3 de la revista Barroco (abril de 1971), dirigida por Affonso Ávila. Poco después, también fue probado en el primer curso que dicto en la PUC-RJ como profesor visitante. Llevaba por título “La semilla, o la imposibilidad de escribir el origen”. Asociada a “semilla”, la palabra “origen” es algo pretenciosa, pero la consideraba importante para trabajar la distinción entre “origen” (valores occidentales) y “comienzo” (valores brasileños)[2], que tomé prestada de Joaquim Nabuco. Dirijo ambos conceptos, con la ayuda de Derrida, a la desconstrucción de la literatura comparada (Silviano, 2014: 8-9).
Así, utilizando las mismas metáforas que utilizó en el texto “La Palabra de Dios” y en el primer curso que lo trae de regreso a Brasil en 1972, como profesor universitario de la PUC-Rio, se puede afirmar que Silviano Santiago es el sembrador más persistente de la desconstrucción en el país. Su contra-pedagogía derridiana se establece desde entonces, hacia 1970, y va a proporcionar la base para el concepto de “entre-lugar” que esboza como paso siguiente y como consecuencia de esa práctica contra-pedagógica de la literatura, al trasladarse a la Universidad de New York at Buffalo, donde la “teoría crítica francesa” o los telquelismos le dan regla y compás:
Necesitaba constituir las bases de una disciplina académica que se rehusara a adoptar una perspectiva eurocéntrica – su espléndida y trágica tradición milenaria – como forma de organizar y calificar la producción literaria en las metrópolis colonizadoras y su diseminación inferior y desafortunada en las colonias. Fue en aquella época cuando tuve la idea de introducir en los estudios sobre literatura comparada la noción de “entre-lugar”, espacio negociable de lectura de las literaturas latinoamericanas y de aquellas que pasaron por procesos similares de colonización, cuyo principal objetivo era devolver la diferencia (la originalidad), valor siempre neutralizado por la literatura comparada tradicional (Silviano, 2014: 9).
Por lo tanto, como crítica a los valores occidentales, el enfoque desconstructivo de Silviano contrapone “origen” y “comienzo” en la teoría contemporánea y en la práctica de la literatura colonial con una mirada poscolonial pionera. Del mismo modo que leemos en la conclusión de “La Palabra de Dios”, Silviano postulará la “semilla de la imaginación” contra el “servilismo de la letra” (Santiago, 2018: 275) que viene asociado al sentido de la visión en la retórica ultracristiana del Padre Vieira:
La palabra, captada por el oído, apela a la interpretación, mientras que la imagen de los ojos que escuchan la doctrina transmite solo el concepto de copia, de reproducción verosímil, de mímesis, dejando de lado para siempre la posible reinterpretación del oyente (Santiago, 2018: 278).
Aunque aún no lo hubiera hecho hacia 1970, Derrida desarrollará a mediados de la década el concepto de “otobiografía”, en el cual, justamente contra la tradición cristiana, buscaba lo trágico nietzscheano a partir del Ecce homo para mostrar que el “auto” es “oto” (del griego antiguo ōt-, raíz de la palabra oûs, oído): es de los “oídos para oír” que se nutre la desconstrucción de la metafísica de la Presencia occidental, tan moderna e iluminista como colonial e imperialista, contra los “oídos para ver” que la retórica del Padre Vieira quería imponer, temiendo – como leemos en “La Palabra de Dios” – que “crezca esta fauna imprevisible y profana, humana y palabrera, que poco a poco va desvirtuando el papel del predicador sobre la tierra y lo coloca entre los artistas” (Santiago, 2018: 275, énfasis mío). Como en la célebre “Farmacia de Platón” de Derrida, en la que el filósofo franco-argelino denuncia la visión prejuiciosa de la tradición filosófica occidental según la cual la verdad estaría en la palabra hablada de la dialéctica socrática, esos artistas son los despreciados sofistas del grafo, de la palabra escrita, que, sin embargo, reinventan mundos a partir de la imaginación ilimitada de sus “oídos para oír”.
Notas
[1] Versión inicial de un texto en desarrollo sobre Silviano Santiago en torno a 1970.
[2] Conceptos aplicados por primera vez en el ensayo Carlos Drummond de Andrade, publicado por la editorial Vozes en 1978, como se indica en una nota de su Fisiología de la composición (2021).
Referencias
DERRIDA, Jacques. (2019). A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras.
DERRIDA, Jacques. (1968). “La différance”. In: SOLLERS, P. (ed.). Théorie d’ensemble. Paris: Seuil.
DERRIDA, Jacques. (2009). Otobiografías. La enseñanza de Nietzsche y la política del nombre propio. Buenos Aires: Amorrortu.
MUSSA, Alberto. (2009). Meu destino é ser onça. Rio de Janeiro: Record.
NIETZSCHE, Friedrich. (1995). Ecce homo. Como alguém se torna o que é. Tradução, notas e posfácio de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
SANTIAGO, Silviano. (2014). Anatomia da formação. Suplemento “Ilustríssima”, Folha de S. Paulo, 7 setembro 2014.
SANTIAGO, Silviano. (2006). Destinos de uma carta. In: Ora (direis) puxar conversa!: ensaios literários. Belo Horizonte: Editora UFMG.
SANTIAGO, Silviano. (2020). “Silviano Santiago: o literato cosmopolita” [entrevista a Cristina Queiroz]. Pesquisa Fapesp, n. 292.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. (2008). Encontros. Organização Renato Sztutman. Rio de Janeiro: Beco do Azougue.
Sobre el autor
Jorge “Joca” Wolff es profesor de Literatura Brasileña en la Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Es miembro del Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) y del Núcleo Juan Carlos Onetti de Estudios Literarios Latinoamericanos, ambos de la UFSC.
