
Morreu Marília Rothier Cardoso, professora e pesquisadora de literatura brasileira muito respeitada e querida por gerações de estudantes e colegas. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1967, Marília fez mestrado, sob a orientação de Afonso Romano de Sant’Anna, em 1976, e doutorado, sob a orientação de Luiz Costa Lima, em 1990, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Justamente na PUC-Rio, ela viria a dar aulas a partir de 1996, após 20 anos de carreira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Seu último projeto de pesquisa, “Escritas experimentais: trajetórias de construção conservadas em arquivos”, propunha o exame crítico da dimensão inventiva de experiências de escrita verbal e plástica, em contraponto aos documentos que registram as circunstâncias e os processos de construção das mesmas, guardados nos arquivos. Nesse quadro, tratava especialmente do trabalho de Flávio de Carvalho, Arthur Bispo do Rosário e de Carolina Maria de Jesus.
Convidada pela BVPS para escrever o seu necrológio, Aline Leal materializou, em gesto e letras, a presença de Marília: nos trouxe uma bela homenagem em muitas mãos, todas elas formadas e tocadas pela mestra em algum momento de suas trajetórias acadêmicas.
O velório de Marília Rothier Cardoso e seu sepultamento ocorrerão amanhã, dia 31 de julho, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Nosso sincero pesar pela perda da professora e nossos cumprimentos aos seus familiares, muitos amigos e estudantes.
Marília Rothier Cardoso possuía um ethos próprio de pesquisadora (discreto, generoso, refinado), que se refletia profundamente nos alunos, orientandos e colegas com quem conviveu. Em um meio frequentemente marcado por títulos, disputas e protagonismos, ela se destacava justamente pela delicadeza com que atravessava a universidade. Seu olhar atento aos textos alheios era notável, já que lia com rigor, sugeria com precisão e escutava com uma atenção rara, profunda, fechando os olhos como se agarrasse os pensamentos com as mãos. Cultivava aquele “olhar apalpado” de que fala Rosa, uma visão de curta distância, apegada às coisas, vinculada efetivamente àquilo que olha. Isso lhe permitia perceber as filigranas do texto, como se vê nos artigos que escreveu ao longo dos anos sobre obras e autores que a ocuparam, e sobretudo nos comentários sempre minuciosos sobre a escrita dos alunos que tiveram a sorte de ter Marília como leitora.
Com frequência, fazia parcerias com alunos e alunas mais jovens na composição de seus cursos de graduação e de pós-graduação. Quem visse de fora poderia pensar que eram os mais jovens a incrementar os programas de seus cursos com novidades no campo da literatura e das artes. Ao contrário, Marília surgia a cada encontro com uma bibliografia renovada, interessada em temas, autores e artistas que recém-surgiam no cenário contemporâneo, traçando relações surpreendentes com questões de outras épocas que igualmente a entusiasmavam. Seus cursos ficaram marcados por uma ousadia particular: eram sempre inéditos, desafiadores, reunindo autores esquecidos, díspares ou menores em constelações surpreendentes. Ensinava a pensar não só com a cabeça, mas com a escuta, a pausa e o gesto. As aulas pareciam números de dança, corpo de baile: a forma como passeava pelos textos, recitava trechos, os movimentos reflexivos bem-torneados, a intensidade de força e leveza que conseguia imprimir ao pensamento, sua postura delicada, sua frágil-força inclinada sobre os textos, sua letra caligráfica em giz no quadro-negro. Algo de uma performance fina, finíssima. “Acontecimento”, talvez seja esta a expressão exata para a presença de Marília na vida de uma geração de estudantes que tiveram a alegria de assistir suas aulas, sempre concorridas, às sextas-feiras, na PUC-Rio.
Era anárquica, vanguardista e anti-poder, costumava-se brincar. Certa vez, perguntada em sala de aula sobre sua relação com o feminismo, respondeu: “não sei nem se sou humana, imagina feminista!”. Mais que uma professora, ela descobria o pesquisador que habitava cada um. Dizia-se também que, se alguém tinha um projeto de pesquisa bastante ousado, era a ela quem deveria procurar no departamento, já que acreditava incondicionalmente na potência dos seus alunos. Era capaz de acolher projetos experimentais, fragmentários, à margem dos caminhos tradicionais da pesquisa, com entusiasmo e firmeza. Para muitos, foi o impulso decisivo para continuar dentro da universidade.
A pesquisa em arquivos deixou também um grande legado em vários alunos, em quem incutiu o gosto por observar esta dimensão dos textos, tão propícia ao olhar desta professora atenta às margens, ao ainda inacabado. Dessa relação é testemunho o pioneirismo, na PUC-Rio, do seu trabalho junto a instituições de guarda de arquivo. Ressaltamos sua atuação na Casa Rui Barbosa, na organização de acervos, como pesquisadora e como orientadora de pesquisas que se tornaram referência no campo dos estudos de literatura. Do trabalho com arquivos, destacam-se as investigações sobre Glauber Rocha, Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso e Carolina Maria de Jesus. Seu interesse pelos cadernos aparecia também no jeito peculiar como anotava suas aulas, folhas soltas, caderninhos, rascunhos, tudo amontoado numa letrinha miúda, rosto perto da mesa, caneta na mão e anotações infinitas. Seu próprio arquivamento imitava a arte.
Marília cultivava laços profundos com seus alunos, vínculos que, à primeira vista, pareciam singulares, mas que logo se revelavam parte de um modo muito próprio de estar no mundo: ela tinha o dom raro de reconhecer a força de cada um e de estabelecer relações de afinidade. Essa sabedoria não vinha da idade, embora gostasse de brincar dizendo que tinha 8 mil anos, mas de uma disposição antiga e constante, como atestam os relatos dos amigos de infância e das parcerias de longa data. Marília partiu, mas deixa entre nós um modo de estar com o outro que seguirá reverberando por muito tempo. Um legado de afeto, pensamento e escuta.
Nos últimos dias, revezando-nos para estar ao seu lado no leito do hospital, os corredores e a sala de estar ficavam preenchidos a tal ponto de exigir certo controle da equipe médica. Quem são todos esses que de manhã à noite visitam a paciente e permanecem por longas horas ao seu lado? São alunos e alunas que se tornaram amigos, filhos, netos e até bisnetos. E de que dava aula? Dava aulas de literatura, mas, se falasse de matemática, de química ou mecânica, se dissertasse sobre as qualidades de diferentes biscoitos ― iguaria, aliás, de sua preferência ― a sala estaria igualmente repleta, pois para além do centro, estavam as margens, muitas e muitas margens, rios e afluentes, corredeiras, correntezas e cascatas. Pedimos perdão pelo tom grandiloquente, que certamente Marília rejeitaria com suas lições de discrição: mas é que se trata de nossa vó-menina; nossa mestra-sábia; nossa xamã, são as enormes quantidades de tempo, afeto e saber dispensados, o que significa dizer, como quem faz um colar: sentido, biscoito, superfície, efeito, café, pensamento, alunos, amizade, sala de aula, amor.
Aline Leal
Francisco Camelo
Gabriel Martins
Glaucia Bastos
Helena Martins
Joana Passi
Julia Klien
Natalie Lima
Rosana Kohl
Suzana Macedo




A foto que abre o post é de Mariana Kaufman.