Modulações | Coluna de Alcida Rita Ramos

Em mais uma edição da coluna Modulações, Alcida Rita Ramos (UnB) recebe a antropóloga Karenina Vieira Andrade (UFMG) para um mergulho na cosmopolítica dos Ye’kwana, povo indígena do norte da Amazônia. Os conceitos clássicos de Ágora e Fórum são evocados. Mas seriam eles suficientemente precisos para dar conta das particularidades do fazer político Ye’kwana? Assim, a partir do testemunho de Andrade, o ensaio nos conduz diretamente ao interior da ättä, casa cerimonial que abriga um cosmos replicado em arquitetura. Ali, sob o teto cônico, desenrolam-se noites de escuta coletiva que contrastam com os impasses das democracias ocidentais. E é justamente nesses contrastes, sustentados por uma sabedoria que resiste há séculos, que se abre a chance de repensar o próprio – e já antigo – sentido da democracia. Leitura indispensável.

Não deixem de acompanhar a coluna de Alcida na BVPS, lançada mensalmente às sextas-feiras, que conta com a ilustração de Joana Lavôr. Para saber mais, clique aqui.

Boa leitura!


Um Fórum chamado Ättä

Por Alcida Rita Ramos (UnB) &
Karenina Vieira Andrade (UFMG)

Mais ainda, concluirás que a sapiência de nossos ancestrais deve ser louvada
(Cícero, Sobre a República)

Não é raro apelarmos, nós, antropólogos, para termos e conceitos da nossa tradição para tentar explicar certas facetas que encontramos entre povos indígenas e que são plenamente opacas a quem não as conhece de perto. Na ânsia de nos fazermos entender, buscamos aproximações que nunca fazem total justiça ao que aprendemos lá e que nunca têm correspondente perfeito nas nossas línguas.

Evocamos aqui dois desses conceitos: o grego Ágora e o romano Fórum; o primeiro, espaço aberto de encontros sociais, políticos, recreativos; o segundo, recinto fechado com funções semelhantes. Ambas estão presentes no mundo indígena no Brasil e alhures. A praça central do povo Krahô é um exemplo de Ágora. A casa cônica Ye’kwana lembra o Fórum romano. Ambos são espaços primordialmente masculinos.

Aldeia Krahô

Para nos instruir sobre o Fórum Ye’kwana, a fabulosa Ättä, Karenina Vieira Andrade toma a palavra durante sua mais recente estada entre os Ye’kwana há cerca de 10 dias.

Ättä, Fórum Ye’kwana

Em todos estes anos trabalhando em Fuduuwaadunnha, no alto rio Auaris, jamais me acostumei com a incrível beleza da casa redonda ye’kwana, a ättä. Mesmo agora, quando escrevo este texto sentada em seu interior, não posso deixar de admirar o sofisticado conhecimento arquitetônico ye’kwana que lhe dá vida. Para mim, acostumada com a parafernália de que nos valemos para construir nossas casas, há algo de mágico em ver ganhar forma uma construção tão imponente a partir de madeira, barro e cipó. À grandiosidade arquitetônica da ättä soma-se o que ela representa: nada menos do que o cosmos, do qual é uma réplica. O intrincado teto cônico é dividido internamente em seções como as dimensões celestes. São oito e abrigam, cada uma delas, um sol e os duplos dos ancestrais ye’kwana. A viga central, que atravessa o teto, reproduz o axis mundi, o eixo central da terra. Uma estrutura de vigas de madeira entre a parede e o eixo central forma dois círculos concêntricos: dama, o mar para os ye’kwana, está no centro da terra, formando dois círculos concêntricos, um pelos limites internos de dama e outro por seus limites externos.

Abóbada da Ättä
Foto: Karenina Vieira Andrade, Auaris, 2025.

Quando uma ättä é habitada, as famílias residentes amarram suas redes no espaço circular entre a parede e as vigas do círculo interno de madeira, ocupando seções da casa de acordo com cada arranjo doméstico. Esteiras trançadas podem servir de divisórias entre os espaços domésticos, caso a família deseje. O espaço entre a viga central e a estrutura de madeira circular é chamado annaka. Aí acontecem as refeições comunais, as festas, e aí se reúnem os homens à noite para fumar e debater os assuntos cotidianos. Em dias de festas e rituais, a annaka é o palco principal, pois é aí que se dança. Uma meia-lua é formada por homens e mulheres que, de braços entrelaçados como as fibras do teto de palha, seguem o compasso marcado pelo som do chocalho enfiado na ponta de um longo cajado batido no chão de terra pelo dançarino numa das pontas da meia-lua. O passo de dança é repetido a cada batida do cajado-chocalho. As pernas dos dançarinos fazem um movimento semelhante ao de uma tesoura, em que uma perna dá um passo adiante e a outra, repete atrás o mesmo movimento. O semicírculo de gente entrelaçada segue dando voltas em torno da viga central da casa, onde estão os cantores. Algumas festas podem durar dois ou três dias, quando se entra num ritmo quase hipnótico. Os dançarinos se revezam até que acabe o yadaaki (bebida alcóolica de mandioca fermentada) ou os cantores percam a voz.

Dança Ye’kwana
Foto: Alcida Rita Ramos, Auaris, 1974.

Na região do alto rio Auaris, no extremo norte do Brasil, a ättä já não é residência familiar há muitas décadas. Com o crescimento populacional, multiplicaram-se casas no padrão retangular chamado de fammakadi. A comunidade hoje é formada por várias seções residenciais compostas por uma ou mais casas no estilo fammakadi que abrigam as famílias extensas. A ättä, situada no centro da aldeia, converteu-se em espaço comunal para festas e reuniões. Todas as noites, a annaka continua a receber os homens maduros da aldeia, que se reúnem para fumar, comentar as notícias do dia e discutir os assuntos importantes ou as demandas do momento.

Embora a estrutura política ye’kwana conte com uma dupla de chefes, os ädhajä, as decisões são tomadas pelo trabalho cuidadoso de produção de consenso, que tem seu ponto alto nas noites de discussão na annaka. Participam das reuniões noturnas todos os homens maduros, pais de família. Não há nenhum tipo de posição hierárquica entre eles, embora a opinião dos mais  velhos seja especialmente respeitada. No mundo ye’kwana, a autoridade conferida aos mais velhos, tanto homens (inchonkomo) quanto mulheres (no’sankomo), é oriunda da sabedoria e do conhecimento acumulados ao longo da vida. Quando um determinado assunto é levado à annaka para que a comunidade tome uma decisão, o debate se inicia.  A regra de ouro da etiqueta ye’kwana considera desrespeitoso interromper quem fala. Todos têm direito a falar pelo tempo que quiserem, até que tenham exposto suas ideias sobre o assunto. Caso a discussão se estenda e o assunto seja importante, muitas noites poderão transcorrer até que se esgote o debate. Há ainda outra regra, que nunca me foi explicitada verbalmente, mas que pude observar nestes vinte anos de convivência: na annaka não há confronto direto entre pessoas com opiniões distintas. Quem tem opinião divergente espera que outras pessoas falem e só então expõe suas ideias – isso acontece, eventualmente, na noite seguinte. Ao longo das falas de cada um, as ideias vão se assentando, novos aspectos vão sendo debatidos, opiniões poderão ser reformuladas e, assim, o consenso vai se fazendo num longo cozimento em fogo baixo. É comum os velhos serem os últimos a falar. Afinal, suas opiniões pesam mais e produzirão uma espécie de síntese de tudo que foi dito. Gosto de pensar também que ao falar por último, eles dão aos mais jovens uma lição pelo exemplo, pois, embora respeitados e reverenciados, escutam a todos com paciência para só então manifestarem sua opinião.

Só há lugar para os homens na annaka? A presença exclusivamente masculina nas reuniões noturnas pode enganar o observador desavisado. As mulheres têm suas opiniões ecoadas na annaka, sem se dar ao trabalho de sair de casa. É preciso dizer que o mais comum é um homem ye’kwana passar boa parte da vida adulta se sentindo um tanto estrangeiro em sua própria casa. Se tiver seguido o padrão ideal de residência após o casamento, ele terá se mudado para a casa do sogro, onde residirá até que sua própria família tenha crescido com a chegada dos filhos e construa sua própria casa anexa à do sogro, na mesma seção residencial. As mulheres, por sua vez, ficam na zona de conforto, vivendo na casa dos pais, junto a irmãs e irmãos solteiros. Quando os homens se refugiam na ättä após a refeição noturna para debater assuntos do dia, já ouviram a opinião de suas mulheres em casa e a trazem ao debate.

Para ilustrar, compartilho o relato de uma amiga ye’kwana com quem eu conversava há dois dias. No final do ano, época em que novas roças familiares são abertas em mutirão, os homens decidem coletivamente na annaka quando começa o trabalho, quantas roças serão abertas, qual será a sua ordem de abertura. Cada chefe de família diz que tamanho de roça atende às suas necessidades. Isso posto, todas as roças são derrubadas, queimadas e plantadas coletivamente. Pouco antes desses debates na annaka, o marido da minha amiga disse-lhe que deveriam abrir suas novas roças longe da aldeia, próximo à região conhecida como Tajäde’datonnha (Pedra Branca), devido às constantes rusgas e acusações de roubo de roças pelos Sanumá, os vizinhos yanomami. Outra família ye’kwana também optou por abrir suas roças naquela região localizada a um dia de canoa a montante da aldeia. O marido gostou da ideia. Entretanto, minha amiga me relatou que, com firmeza, disse ao marido: “não, nós vamos abrir nossas roças aqui mesmo este ano. Por enquanto, vamos ficar por aqui”. Na noite fria de Auaris, o marido atravessou o espaço entre a casa do sogro e a ättä e apresentou à annaka a decisão da esposa como fato consumado.

No convívio com o mundo dos yadanaawi [brancos], os Ye’kwana são cada vez mais chamados a opinar sobre diferentes assuntos. São fruto de instrumentos importantes, como a Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário, que determina que os povos indígenas devem ser consultados a respeito de todas as ações que tenham impacto em suas vidas e seus territórios. Pude acompanhar, ao longo dos anos, diferentes situações em que atores políticos solicitavam uma reunião na annaka para fazer uma consulta à comunidade. Exército, saúde e FUNAI reproduziam sempre o mesmo esquema: expunham suas demandas ao conselho de homens maduros e esperavam uma resposta imediata. A lógica ye’kwana resiste, refratária à máquina voraz do Mercado, seguindo a tradição de criar uma voz em coro, resultado de um consenso a que se chega após muitas horas de ensaio-e-erro, num ir e vir de opiniões, como os passos circulares dos dançarinos em dias de festa na annaka.

Interior da Ättä. Foto: Karenina Vieira Andrade, Auaris, 2025.

Tudo isto para abordar um tema que nos é caro: a importância do consenso no mundo indígena. Antiautoritaristas por excelência, os povos indígenas regulam-se pelo que podemos chamar de política da persuasão, em flagrante contraste com a política da coerção, vigente em muitas das chamadas democracias modernas, descendentes de ancestrais clássicos que se apropriaram do termo sem realmente lhe fazer jus. A tão apregoada democracia grega não resiste a um escrutínio mais cuidadoso, ao virem à tona os seus escravos, o seu chauvinismo, o seu elitismo.

“Onde há sociedades igualitárias”, diz David Graeber, “geralmente se considera errado impor coerção sistematicamente” (There never was a West, em Possibilities, 2007). E continua: “É precisamente quando surge o problema do monopólio da força coercitiva pelo Estado moderno que a pretensão à democracia se dissolve numa pletora de contradições”. Parte dessa pretensão está contida na noção de que o voto garante à população a justiça para todos, quando, de fato, o sistema de eleições garante o surgimento de “humilhações, ressentimentos e ódios que, em última análise, leva à destruição de comunidades” (p. 341), como nós, no Brasil, conhecemos bem de alguns anos para cá.

É contra esse pano de fundo que as sociedades indígenas se destacam por se precaver tão sabiamente contra a coerção instituída, como, aliás, proclamou Pierre Clastres há mais de meio século. Até hoje, que saibamos, ainda não foi desmentido. Sobre dois pilares centrais ‒ decisões coletivas por consenso e repulsa por autoritarismo ‒ os povos indígenas erigiram um universo (como uma ättä feita de afeto e razão) que os tem salvaguardado de armadilhas postas constantemente no seu caminho por mais de meio milênio. Esse passado abona-nos a ousadia de lhes preconizar um futuro igualmente sábio e possível.

In many ways, anthropology seems a discipline terrified of its own potential
(David Graeber, Fragments of an anarchist anthropology.)