
Ontem, 10 de agosto, completaram-se 30 anos do falecimento de Florestan Fernandes (1920-1995). Sua trajetória e vasta obra continuam inspirando novas gerações de sociólogos e sendo objeto de inúmeros debates e pesquisas.
No projeto “O artesanato intelectual de Florestan Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, coordenado por Diogo Valença (UFRB), pesquisadores/as de diferentes instituições brasileiras investigaram o caráter “processual” e “artesanal” da obra de Florestan, a partir da análise de marginálias, fichamentos e manuscritos inéditos de sua biblioteca pessoal e do Fundo Florestan Fernandes, localizados na UFSCar.
Neste post, publicamos um texto assinado pelos/as pesquisadores/as e compartilhamos em primeira mão um vídeo com alguns dos resultados do projeto desenvolvido entre 2022 e 2025 com apoio do CNPq.
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Anotações sobre o projeto “O artesanato intelectual de Florestan Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”
O projeto de pesquisa “O artesanato intelectual de Florestan Fernandes: uma perspectiva latino-americana sobre o desenvolvimento”, financiado com recursos do Edital Universal 2021 do CNPq, teve vigência entre 16 de março de 2022 e 31 de março de 2025. Foram três anos de trabalho intenso envolvendo debates sistemáticos entre os membros da equipe, a saber: Diogo Valença de Azevedo Costa (Coordenador – UFRB), Ana Rodrigues Cavalcanti Alves (UFBA), Aristeu Portela Jr. (UFRPE), Eliane Veras Soares (UFPE), Lucas Trindade da Silva (UFRN), Maria de Fátima Souza da Silveira (Doutora em Sociologia pela USP e à época da pesquisa atuando como professora substituta da Unilab), Remo Mutzenberg (UFPE) e Wilson Rogério Penteado Jr. (UFRB) – e que contou também com a participação de bolsistas de iniciação científica e mestrandos.
O objetivo foi investigar o caráter “processual” e “artesanal” do pensamento de Florestan Fernandes, explorando os “bastidores” da sua produção intelectual, por meio de uma análise das marginálias contidas nos livros de sua biblioteca, bem como seus fichamentos e manuscritos inéditos. O locus da pesquisa foi a biblioteca e o Fundo Florestan Fernandes, organizados e preservados pela Coordenadoria de Obras Raras e Coleções Especiais (ColEsp) da Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos (BCo/UFSCar).
A primeira visita de campo à biblioteca de Florestan Fernandes ocorreu entre os dias 22 e 26 de maio de 2023. A perspectiva metodológica assumida pela equipe foi a de uma verdadeira etnografia dos acervos pessoais. Cada membro da equipe se dedicou a um aspecto particular da obra de Florestan Fernandes: a) Wilson Penteado às pesquisas e reflexões sobre o folclore; b) Fátima Silveira à questão indígena; c) Ana Rodrigues e Eliane Veras aos estudos sobre relações raciais; d) Aristeu Portela aos debates sobre o papel político do sociólogo, dentre outras questões, fazendo incursões na questão indígena, relações raciais e revolução burguesa no Brasil; e) Lucas Trindade se dedicou aos problemas da síntese teórica na sociologia de Florestan Fernandes, relacionando-os à temática do capitalismo dependente; f) Remo Mutzenberg desenvolveu uma abordagem inovadora sobre as reflexões de Florestan Fernandes relativas ao movimento negro, situando-as no debate mais contemporâneo sobre as teorias dos movimentos sociais; g) Diogo Valença, na condição de coordenador do projeto e pelo seu conhecimento prévio da biblioteca de Florestan Fernandes, auxiliou todos os participantes da equipe de pesquisa na busca da documentação e das marginálias, desenvolvendo reflexões sobre aspectos variados da obra do sociólogo paulistano.

A sistemática de trabalho do grupo consistia em reuniões mensais, realizadas remotamente, pois os integrantes se encontravam em diferentes cidades (Muritiba/BA, Feira de Santana/BA, Salvador/BA, Recife/PE, Brasília/DF, Natal/RN, Redenção/CE). No primeiro ano, a equipe decidiu não realizar uma pesquisa de campo na Biblioteca de Florestan Fernandes. Estávamos no final da emergência sanitária da Covid-19 e refletimos que seria melhor esperar mais um tempo, período em que poderíamos planejar com mais detalhes a visita à biblioteca e ao Fundo Florestan Fernandes. Assim, o ano de 2022 foi dedicado à leitura dos livros de Florestan Fernandes, tendo em vista os objetivos da pesquisa, a elaboração das categorias de análise e formulação de hipóteses de trabalho. Tais debates ensejaram a produção do texto “Etnografando o artesanato intelectual de Florestan Fernandes: a pesquisa sociológica em arquivo e biblioteca pessoais,” comunicação apresentada no 46º Encontro Anual da ANPOCS (2022) por Diogo Valença. Esse texto representa uma síntese da metodologia de pesquisa que orientou os trabalhos da equipe.
Nas reuniões mensais eram discutidos tanto os textos de Florestan Fernandes como os trabalhos produzidos pelos membros da equipe, sendo formulados questionamentos e críticas que impulsionaram as reflexões individuais em cada setor da pesquisa. As críticas e sugestões ajudavam cada pesquisador(a) a reformular seus problemas e hipóteses diretrizes, num ambiente acadêmico solidário e de ampla cooperação. Ao exigir muito de si mesmo, cada membro desse corpo coletivo também exigia dos demais, todos irmanados e motivados pela crença nas potencialidades individuais e do grupo. As conquistas individuais eram sempre valorizadas pelo conjunto e tomadas como um ganho coletivo. As diferenças individuais e as discordâncias eram sempre vistas como necessárias. Em termos de experiência acadêmica e universitária, essa foi uma experiência ímpar.
O convívio com os colegas servidores públicos da ColEsp/UFSCar se desenvolveu de maneira bastante respeitosa e colaborativa. A coordenadora da ColEsp, a bibliotecária Izabel Franco, sempre esteve disposta a auxiliar a equipe na busca dos livros e dos documentos existentes no arquivo pessoal de Florestan Fernandes. Também recebemos inestimável apoio nos trabalhos de Ricardo Pertile, sempre disposto a tirar dúvidas e empenhado no trabalho de divulgação dos acervos da ColEsp. Na ColEsp convivem lado a lado importantes acervos: Florestan Fernandes (FF)/Florestan Fernandes – Distrito Federal (FF-DF); Luís Martins (LM); Henrique Luís Alves (HLA); Brasiliana (C); Revista Ilustração Brasileira (ILB); Luiz Carlos Prestes (LCP); Ficção Científica (FC); Série Especial (SE). Muitas dessas coleções dialogam entre si. Por exemplo, se quisermos consultar a primeira edição do livro Mudanças Sociais no Brasil, podemos recorrer à Coleção Luís Martins, pois essa edição não consta na biblioteca do próprio Florestan.
Durante a realização das visitas de pesquisa de campo na biblioteca de Florestan Fernandes, conhecemos o trabalho de Vera Lúcia Cóscia, responsável pela organização do acervo de cartas e outros documentos de Luiz Carlos Prestes. Essa interlocução foi muito proveitosa, sobretudo considerando o papel assumido por Prestes e Florestan como dois grandes nomes da esquerda brasileira que, num momento da vida, aproximaram-se. Prestes apoiou a candidatura de Florestan para deputado federal na Constituinte e o sociólogo paulistano analisou o significado político do líder comunista para a história brasileira.
Diogo Valença realizou duas visitas individuais à Biblioteca e ao Fundo Florestan Fernandes nos meses de agosto e dezembro de 2024; Wilson Penteado realizou mais uma visita em fevereiro de 2025. A última visita coletiva ocorreu no mês final de vigência do projeto, em março de 2025. Nessa ocasião, a equipe de pesquisadores se uniu com a ColEsp e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), vinculada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) para organizar o evento “O Pensamento Vivo de Florestan Fernandes: 50 Anos de A Revolução Burguesa no Brasil”, realizado no dia 27 de março de 2025 no Anfiteatro Bento Prado Jr. da UFSCar. As duas mesas-redondas do evento estão disponíveis no canal da ColEsp no YouTube (confira aqui e aqui).
O vídeo que ora apresentamos foi realizado nessa última visita coletiva, com filmagem e edição da discente do curso de Imagem e Som da UFSCar, Hárpia Rebolo da Costa, a quem a equipe agradece a competência e excelente trabalho. Nesse vídeo, gravado na sala da ColEsp/UFSCar, destacamos aspectos essenciais da obra de Florestan Fernandes e os caminhos metodológicos utilizados pela equipe de pesquisadores(as). Ficamos imensamente felizes e agradecemos o convite do Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) e a oportunidade de divulgarmos o vídeo num dos mais fundamentais espaços de debate público e acadêmico.
– Equipe de pesquisadores(as) do projeto
