Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Atlântico (10 de dezembro, 4 horas)

Ainda hoje chegará Mário de Andrade ao Recife. Esta é sua última crônica de navio. O mar se acaba, e com ele, Laura Moura. O modernista enfim descobriu o incômodo de gostar dessa mulher pequena e próxima, tão próxima quanto os pés de mesa. E assim, como se tudo no navio se evaporasse em chegada, Laura vira verso: seu rosto misturado ao som do jazz, à poeira do Piauí, ao sonho de uma casa que ainda não existe. Despedir-se, afinal, é também um jeito de gostar. O que Pernambuco reserva?

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Atlântico (10 de dezembro, 4 horas)

Mario de Andrade, por Lasar Segall.

Hoje com alguma probabilidade chegaremos a Recife e o mar se acaba. Isso me enquisila bem porquê estou principiando a gostar frequentemente de Laura Moura. Ela afinal resolveu ser um bocado mais amavel comigo e mesmo na janta de anteontem conversâmos com fartura e se deu entro nós dois a semelhança dum prazer. Semelhança apenas porquê depois do desentendimento eu inda estava muito paulista e ela pra se justificar da aspereza passada botara na fala a prudencia das insensiveis. A conversação me lembro que correu principalmente sobre bananas. Afinal a amabilidade fez o resto e já no fim da comida tomei a liberdade de dizer bem nos olhos de Laura Moura o desejo sincero de ir comer bananas em Terezina. Ela ficou bem quietinha e não nos arrependemos.

Laura Moura afinal é uma dona regularmente vulgar e sou obrigado a reconhecer que si de primeiro a distingui dentre as cunhãs de bordo foi por uma simples questão topographica. Ela senta a meu lado na mesa e estou com vontade de falar que senta a meus pés tanto a acarinho agora e ela é mirim junto a meu corpo grande. E alem de sentar a meus pés, os vizinhos proximos de mesa tiveram a discreção de se conservarem enjoados pra nunca mais. Não vêm á mesa, que nem ela nos primeiros dias, e Laura Moura mais eu vogamos sozinhos numa jangada desoladamente insubmersivel pelos mares.

Porêm agora o mar se acaba, Laura Moura vai-se emhora, eu sofro. Nada mais razoavel do que esta precisão de esvaziar o desejo nalgum verso… Porquê Laura Moura deixou de ser vulgar, é rapida, é admiravelmente central — coisa rara nestes tempos de ambição e ganancia. E no rostinho piauiense as linhas todas convergem prá boca nova, tão vertiginosamente nova que é justo a gente se enganar tendo a impressão de que ensina pra ela… de novo a abertura do beijo, Laura Moura.

Quando as casas baixarem de preço

Lá na cidade, Laura Moura,

Uma delas será sua sem favor.

Será num bairro bem central

Pra que o nosso misterio engane mais

Quando as casas baixarem de preço

Você ha-de ter a vossa, Laura Moura,

Lá na cidade em que trabalho…

Ha-de ser bom, pousando o rosto em vosso colo

Prenda minha,

Me entediar como um dono,

Mal escutando as maguas de você.

Laura Moura viverá bem sossegada,

Me servindo,

Toda puzada pelo Piauí.

Num longing quasi bom,

Comendo alimentos comprados

Laura Moura falará de Terezina

E das boiadas dos boiadeiros

E da polvadeira seca do Piauí

Quando as casas baixarem de preço,

Laura Moura, prenda minha,

Uma delas será sua sem favor.

Lá fora a bulha vasta da cidade

Disfarçará nosso prazer.

E a gente numa rede marenhense

Ao som dum jazz bem blue,

Balancearemos no calor da noite

Sonhando com o sertão…

MÁRIO DE ANDRADE