Glossário Silviano Santiago | Inserção, por Maurício Hoelz

Chegamos ao vigésimo verbete do Glossário Silviano Santiago, projeto coletivo organizado por Mario Cámara.

Maurício Hoelz (UFRRJ) mostra como o conceito de Inserção é elaborado por Silviano Santiago como contraponto crítico à ideia de formação, paradigmática na tradição intelectual brasileira. Se esta operava de modo normativo e teleológico, mirando a passagem da incompletude à plenitude a partir de parâmetros eurocêntricos, a inserção propõe uma abertura policêntrica, voltada ao diálogo com o mundo e à escuta das vozes historicamente silenciadas. Segundo o autor, embora Silviano tenha se dedicado pouco a sistematizá-la, essa noção oferece uma rotação de perspectivas que responde aos desafios e às exigências do contemporâneo. 

Acompanhe, na próxima quinta-feira, a publicação do último verbete desta série da BVPS Edições.

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Inserção

Por Maurício Hoelz (UFRRJ)

A ideia de inserção é forjada por Silviano Santiago como contraponto crítico ao conceito de formação. Mais do que apenas um paradigma alternativo, trata-se de uma rotação de perspectivas, como veremos, que responde às exigências e potencialidades históricas impostas pelos desacoplamentos do contemporâneo. Apesar disso, Silviano dedicou-se pouco a sistematizá-la[1], deixando os leitores a especular as razões.

Como já reiteradamente observado (Arantes, 2021; Ricupero, 2007; Schwarz, 1999), é prolífico o número de obras no Brasil que trazem no título ou no subtítulo a palavra “formação”, o que, se não indica a fecundidade desse paradigma, parece ser sintoma de uma obsessão social particular, a saber, “o propósito coletivo de dotar o meio gelatinoso de uma ossatura moderna que lhe sustentasse a evolução” (Arantes, 2021: 12). Esse quase gênero é composto por livros capitais da cultura brasileira, como Minha formação (1900), de Joaquim Nabuco, Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Jr., Formação econômica do Brasil (1958), de Celso Furtado, Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido, e Formação política do Brasil (1967), de Paula Beiguelman. Além de Casa-grande & senzala (1933), de Gilberto Freyre e Os donos de poder (1958), de Raymundo Faoro, cujos subtítulos são “formação da família patriarcal brasileira” e “formação do patronato político brasileiro”, respectivamente; e Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, cujo título por sua vez revela se tratar do mesma problemática.

Esquematicamente, tomando como objeto o clássico de Antonio Candido, Formação da literatura brasileira (1959), que será alvo do acerto de contas feito por Silviano, o estudo da “formação” implica analisar o estabelecimento de uma causalidade interna num sistema cultural em constituição, isto é, um nexo orgânico de autores, obras e público que seja capaz de incorporar a partir de critérios próprios o “influxo externo” inevitável (de teorias, conceitos, formas, doutrinas etc.), dado o caráter recente e subordinado da cultura brasileira em relação à europeia. Assim, numa análise da “formação” é decisivo indicar o momento em que se delineiam, a despeito do constante influxo externo que ameaça dissolver o processo, linhas evolutivas internas mais ou menos contínuas e estruturadas – isto é, detectar quando o processo está em vias de se “completar”. A noção de formação possui inegável caráter normativo, espelhada pelo ideal europeu de civilização integrada, já que supõe um fim positivo e necessário: a passagem – evocada pela célebre imagem da transmissão da tocha entre corredores – de uma situação inicial de “manifestações avulsas” para uma “formação” sistêmica orgânica e estruturada segundo linhas mais ou menos definidas.

Silviano Santiago irá realizar um cirúrgico estudo de “anatomia da formação”, problematizando, a partir de um diálogo crítico com as formulações de Antonio Candido, os pressupostos e limites ideológicos dessa “episteme”, como chega a nomeá-la, que deu curso a uma variedade de “visões históricas e de versões identitárias de Brasil” (Santiago, 2012: s.p.). Diz Silviano: “Pela escrita da Formação da literatura brasileira e pela sua leitura, pesquisador, aluno e a própria literatura escrita por brasileiros desde meados do século XVIII significam estar em vias de chegar à plenitude de suas respectivas e variadas vidas”. Erigido a paradigma, o conceito de formação “funda e estrutura (no século XX brasileiro) […] determinadas características gerais da brasilidade ou formas do nosso ser e estar em processo de desenvolvimento” (Santiago, 2023: s.p.). Assim, o conceito de formação implica um amadurecimento, uma passagem da incompletude para a plenitude – ressoando as noções de evolução e progresso, que prescrevem uma temporalidade em que o passado não apenas está antes como é inferior ao futuro. Não custa lembrar que no célebre ensaio “Literatura e cultura de 1900 a 1945”, Antonio Candido (1985) afirma que “se fosse possível estabelecer uma lei de evolução da nossa vida espiritual, poderíamos talvez dizer que toda ela se rege pela dialética do localismo e do cosmopolitismo”.[2] A matriz histórica do conceito de formação, indica Silviano, é a tradição germânica da Bildung, instrumento pedagógico que designa a formação como “lento e longo processo de interiorização do saber” e que se torna “peça importante no surgimento e afirmação universal do ideário iluminista, evidentemente eurocêntrico” (Santiago, 2023, s.p.). Retomando o que foi dito acima, vale lembrar a propósito a célebre afirmação de Kant de que o iluminismo representaria o estágio em que a humanidade estaria atingindo sua maioridade. Herdeira da paideia grega e da humanitas latina, a Bildung traduz o desejo dos brasileiros de ter uma nação soberana: “nomeia o trabalho indispensável dos cidadãos privilegiados e letrados para que o adjetivo nacional aposto à literatura – ou à nação e sua história, ou à economia nacional, ou à filosofia uspiana etc. – possa se afirmar como autêntico e original e se manter afirmativo, estável e rentável no conjunto das nações modernas do Ocidente” (Santiago, 2023, s.p.).

A formação está baseada em uma premissa hierárquica e normativa. Se formar-se significa tornar-se o que ainda não se é, pressupõe-se que estamos num estágio anterior em relação – e, no melhor cenário, rumando – a um ponto futuro ideal, estabelecido por um horizonte eurocêntrico de desenvolvimento social, econômico e cultural. Pode-se dizer que o conceito também deita raízes no historicismo, que, de acordo com o historiador bengalês Dipesh Chakrabarty (2000: 8), consistia em um modo de os europeus acomodarem o resto do mundo numa espécie de “sala de espera imaginária da história”. Nesse discurso em que a Europa domina como sujeito soberano de todas as histórias, estaríamos todos a caminho do mesmo destino, mas algumas sociedades chegariam antes. Como nota Alfredo Cesar de Melo (2016), não por acaso o vocabulário das agências internacionais reforça essa concepção de um perene estado de transição que nunca se completa inteiramente ou de uma posição hierarquicamente inferior, como sugerem respectivamente os termos país em desenvolvimento ou, mais atual, emergente; e subdesenvolvido ou de terceiro mundo. A noção de formação pressupõe ainda a existência de um sujeito coletivo – cultura, nação, sociedade, economia ou literatura – capaz de tomar as rédeas do próprio destino e de se equiparar aos seus pares das “latitudes superiores”.

É justamente aí que entra a crítica de Silviano. Para ele, ao ser transplantado para os trópicos, o paradigma da formação produz um deslocamento significativo: ele reproduz a lógica do centro europeu como modelo normativo e teleológico de maturidade e excelência, relegando a experiência brasileira a um estágio “verde”, sempre em busca de um devir pleno definido de fora. O conceito de formação, assim, se constitui ao mesmo tempo como emancipador e subalternizante: liberta da herança colonial portuguesa, mas ao preço da domesticação pelo “centramento ocidental”.

Além disso, Silviano aponta que, no Brasil, a “boa formação” nunca foi um processo universal, mas sim privilégio concedido pela família ou pelo Estado a grupos restritos. O paradigma de formação, longe de ser neutro, funda as formas de saber (científicas, artísticas, confessionais) do século XX brasileiro, cujo sentido social e político não é democratizante, mas elitista e excludente. O conceito opera como critério de distinção social e cultural, estruturando hierarquicamente a própria ideia de brasilidade a partir de cima. Por isso mesmo, diz Silviano em outro contexto, o intelectual deve aprender a “saber saber”, isto é, “depois de saber o que sabe, deve saber o que o seu saber recalca” (Santiago, 1989: 36).

Silviano mostra, portanto, a ambiguidade do conceito de formação, que, por um lado, cumpre o papel de legitimar a existência de uma literatura “brasileira” e a inscrição do Brasil no Ocidente moderno, mas, por outro, funciona como vacina contra o “vírus colonial lusitano”, recalcando o passado colonial e substituindo a dependência em relação a Portugal por outra, em relação ao modelo iluminista europeu. Por essa via, afirma, “se desconstruía o inevitável esteticismo disciplinar da formação literária proposta por Antonio Candido”, levando-nos a “questionar o conceito de identidade e a conjurar, enfatizando-a, a noção de diferença” (Santiago, 2023: s.p.).

Inserção é uma noção pós-Bildung e responde ao que Silviano vê como esgotamento[3] dos vários e notáveis “‘discursos de formação’ que constituíram o paradigma nacionalista e desenvolvimentista como tarefa prioritária” (Santiago, 2023: s.p.). O paradigma da formação, segundo ele, entra em exaustão como consequência de seu próprio êxito relativo, que gerou efeitos transformadores no cidadão e na sociedade; e agora essas novas condições materiais exigem um passo adiante, um outro feixe amplo e crítico de discursos que configurem um novo paradigma: o da inserção. O foco já não é mais a interiorização inevitável de saberes estrangeiros para o autoaperfeiçoamento, mas a projeção daquele “brasileiro” (já formado, mesmo que a seu modo) no conjunto das nações – em um cenário globalizado, cosmopolita (em acepção agora não mais ilustrada) e interdependente. O Estado nacional democrático assume papéis internacionais e se torna ator de relações multilaterais; os sujeitos discursivos se tornam capazes de autocrítica em diálogo com debates universais; e os problemas locais só ganham relevância à luz de dinâmicas globais. A crítica de Silviano, portanto, é cumulativa e dialógica com os próprios pressupostos do conceito de formação, baseados na “verificação crítica da tradição” como “força produtiva deliberada” (Schwarz, 1999: 46): ela reconhece o papel do passado no processo que aponta para um futuro em que a relevância do Brasil não depende mais de sua medida em relação aos padrões europeus, mas da participação na cena contemporânea e da intervenção transformadora no debate global, a partir de sua linguagem própria. Silviano então retoma como mote a formulação “premonitória” de Hélio Oiticica em Brasil diarreia (1973), por sua vez repetida com diferença de Mário de Andrade antes dele, sobre a urgência da “inserção da linguagem-Brasil em contexto universal”, entendido como campo múltiplo, aberto, policêntrico, em que experiências situadas (como a brasileira) podem interferir e deslocar parâmetros hegemônicos.

Cabe notar que a palavra “inserção”, em sua origem etimológica latina, significa “ação de introduzir” ou “enxerto”. Inicialmente utilizada na botânica para descrever o ato de enxertar plantas, o vocábulo passou a ter um sentido mais amplo de introdução ou inclusão em diferentes contextos. É possível ver aqui a sinergia, no pensamento de Silviano, entre as ideias de inserção e enxerto, este operacionalizado como método de criação literária, por exemplo, em Menino sem passado (2021). Através do enxerto, produzem-se variedades a partir da combinação de duas plantas diferentes. O enxerto também aparece no Glossário de Derrida (1976), organizado por Silviano, como uma possibilidade de tradução de la greffe, consistindo em “um signo que, ao associar-se a uma cadeia de signos, altera a própria natureza significante daquilo com o que ele se associa, modificando também a sua própria natureza” (Silva, 2024: 458-459). Essa mudança mútua dos signos é também em boa medida justamente o que está em jogo com a ideia de inserção por ele formulada.

Silviano sabe que sua proposta é demolidora, já nem diria desconstrutora simplesmente, das bases da nação. Mas, nos perguntamos: por que escolher jornais paulistas para veicular suas ideias a respeito, mesmo que os dois artigos em questão sejam tipicamente herméticos, e não dar continuidade direta à rotação que poderia se seguir e se completar ao desmoronamento?

No novo paradigma da inserção, como assinala Melo (2016: 44), “o motor da reflexão sobre o país não parte de dentro, como no caso do paradigma da formação, mas dos múltiplos lugares de fora”. Ele se interessa, prossegue, por uma “outra dinâmica – centrífuga, ao invés de centrípeta: que é a de como a cultura brasileira se torna fluxo internacional, e quais seriam as implicações teóricas da presença da cultura e literatura brasileira no mundo”. Em outras palavras, o conceito de formação é voltado para dentro. Sua preocupação está no autoaperfeiçoamento da identidade e na unidade nacional, ainda que por meio de uma espécie de atualização (de acerto dos ponteiros do relógio) da cultura local com o moderno (representado pelos países centrais), dado o influxo externo coercitivo. Ao passo que a noção de inserção é voltada para fora e para dentro ao mesmo tempo; para o que Silviano denomina universalidade diferencial, que não implica identidade, hierarquia e unidade centralizada, mas abertura às multiplicidades, entendidas como redes de diferenças em processo, num mundo multilateral sem centro ou origem, em que os modos de ser não se subordinam a uma unidade transcendente. Referindo-se justamente a como Lélia Gonzalez teria complementado sua leitura do “vírus colonial lusitano”, Silviano explica: “Os grupos étnicos excluídos do processo civilizatório ocidental passam também a exigir alterações significativas e participativas no que é dado como representativo da tradição erudita e branca brasileira ou no que é dado como a mais alta conquista da humanidade, a democracia representativa. Os excluídos exigem, por um lado, autonomia cultural e, pelo outro, inclusão” (Santiago, 2023: s.p.). Eis aí a senha do sentido mais radical e democrático da noção de inserção proposta por Silviano. Ele se volta também para dentro, explicitando os limites do paradigma (elitista, branco e ocidentalizado) da formação, ao se propor a escutar as vozes antes silenciadas dos excluídos – sobretudo de grupos étnicos, culturais e sociais marginalizados no processo de formação nacional e que agora reivindicam reconhecimento, autonomia cultural e participação efetiva nas instâncias que definem o que conta como representativo. A “linguagem-Brasil” de que falava Oiticica não pode ser apenas a língua erudita dos privilegiados; precisa ser polifônica e formada também pelos sujeitos que exigem visibilidade e representatividade. Se o paradigma da formação traduzia um desejo individual e coletivo de autonomia, o conceito de inserção vocaliza um desejo de inclusão, participação e igualdade. A “atração do mundo” dos sujeitos subalternos, o cosmopolitismo dos pobres e das diásporas. Não mais as raízes do Brasil, mas os rizomas dos brasis.

Notas

[1] A noção é mais enunciada do que propriamente desenvolvida em três oportunidades. Primeiro, em “Formação e inserção”, artigo publicado no Estadão em 2012. Depois reaparece em “A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial, um depoimento”, conferência pronunciada na Universidad Nacional Tres de Febrero, em Buenos Aires, quando o autor recebeu o título de Doutor Honoris Causa, em 2014, e republicada em português no Blog da BVPS, em 2023. E, por fim, um resumo da conferência saiu com o título “A anatomia da formação: a literatura brasileira à luz do pós-colonialismo” também em 2014 na “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo.

[2] A desconstrução dessa abordagem dialética também é parte do programa crítico de Silviano e dela nos ocuparemos em texto em preparação intitulado “Aberto para balanço”.

[3] Melo (2016: 44) lembra que há importantes análises da exaustão desse paradigma, como as de Roberto Schwarz e de Marcos Nobre. Para Roberto Schwarz “a desintegração do projeto desenvolvimentista deixou por terra um conjunto impressionante de ilusões” em virtude da “inviabilização global das industrializações retardatárias”. Já Marcos Nobre assinala “mudanças estruturais do capitalismo que simplesmente inviabilizaram a continuidade de qualquer projeto de tipo nacional-desenvolvimentista”.

Referências

ARANTES, Otília B. F. & ARANTES, Paulo E. (2021). Sentido da formação. Três estudos sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Lucio Costa. São Paulo: Paz e Terra.

CANDIDO, Antonio. (1985). Literatura e cultura de 1900 a 1945 (Panorama para estrangeiros). In: Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, p. 109-138.

CHAKRABARTY, Dipesh. (2007). Provincializing Europe. Postcolonial Thought and Historical Difference. Princeton: Princeton University Press.

MELO, Alfredo C. B. de. (2016). Antropófagos devorados e seus desencontros: da “formação” à “inserção” da literatura brasileira. Literatura e Sociedade, v. 21, n. 22, p. 42-54.

RICUPERO, Bernardo. (2008). Da formação à forma: ainda as “idéias fora do lugar”. Lua Nova. Revista de Cultura e Política, n. 73, p. 59-69.

SANTIAGO, Silviano. (1989). O narrador pós-moderno. In: Nas malhas da letra: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, p. 38-52.

SANTIAGO, Silviano. (2012) Formação e inserção. Estadão, 26 de maio de 2012. Disponível em: https://www.estadao.com.br/amp/cultura/formacao-e-insercao-imp. Acesso em: 15 jun. 2025.

SANTIAGO, Silviano. (2014). A anatomia da formação: a literatura brasileira à luz do pós-colonialismo. Folha de S. Paulo, 7 set., Ilustríssima. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/184397-anatomia-da-formacao.shtml?origin=folha. Acesso em: 15 jun. 2025.

SANTIAGO, Silviano. (2023). A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial, um depoimento. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social. 20 jun. 2023. Disponível em: https://blogbvps.com/2023/06/20/a-literatura-brasileira-da-perspectiva-pos-colonial-um-depoimento-por-silviano-santiago/. Acesso em: 15 jun. 2025.

SCHWARZ, Roberto. (1999). Sequências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras.

SILVA, Gabriel M. da. (2024). Os enxertos de Silviano Santiago e Jacques Derrida. Outra Travessia, v. 1, n. 37, p. 450-476.

Sobre o autor

Maurício Hoelz é doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).


Inserción

La idea de inserción es forjada por Silviano Santiago como un contrapunto crítico al concepto de formación. Más que un paradigma alternativo, se trata de una rotación de perspectivas, como veremos, que responde a las exigencias y potencialidades históricas impuestas por los desacoplamientos de lo contemporáneo. A pesar de ello, Silviano se dedicó poco a sistematizarla[1], dejando a los lectores especular sobre las razones.

Como se ha señalado reiteradamente (Arantes, 2021; Ricupero, 2007; Schwarz, 1999), es prolífica la cantidad de obras en Brasil que llevan en el título o subtítulo la palabra “formación”, lo que, si no indica la fecundidad de ese paradigma, parece ser síntoma de una obsesión social particular, a saber, “el propósito colectivo de dotar al medio gelatinoso de una osamenta moderna que le sustentara la evolución” (Arantes, 2021: 12). Ese casi género está compuesto por libros capitales de la cultura brasileña, como Minha formação (1900), de Joaquim Nabuco; Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Jr.; Formação econômica do Brasil (1958), de Celso Furtado; Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido; y Formação política do Brasil (1967), de Paula Beiguelman. Además de Casa-grande & senzala (1933), de Gilberto Freyre y Os donos de poder (1958), de Raymundo Faoro, cuyos subtítulos son “formação da família patriarcal brasileira” y “formação do patronato político brasileiro”, respectivamente; y Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, cuyo título, a su vez, revela que se trata de la misma problemática.

Esquemáticamente, tomando como objeto el clásico de Antonio Candido, Formação da literatura brasileira (1959), que será el blanco del ajuste de cuentas realizado por Silviano, el estudio de la “formación” implica analizar el establecimiento de una causalidad interna en un sistema cultural en constitución, es decir, un nexo orgánico de autores, obras y público capaz de incorporar a partir de criterios propios el “influxo externo” inevitable (de teorías, conceptos, formas, doctrinas etc.), dado el carácter reciente y subordinado de la cultura brasileña en relación con la europea. Así, en un análisis de la “formación” resulta decisivo señalar el momento en que se delinean, a pesar del constante influjo externo que amenaza con disolver el proceso, líneas evolutivas internas más o menos continuas y estructuradas –es decir, detectar cuándo el proceso está en vías de “completarse”. La noción de formación posee un innegable carácter normativo, reflejado en el ideal europeo de civilización integrada, ya que supone un fin positivo y necesario: el paso –evocado por la célebre imagen de la transmisión de la antorcha entre corredores– de una situación inicial de “manifestaciones aisladas” hacia una “formación” sistémica orgánica y estructurada según líneas más o menos definidas.

Silviano Santiago realizará un estudio quirúrgico de la “anatomía de la formación”, problematizando, a partir de un diálogo crítico con las formulaciones de Antonio Candido, los presupuestos y límites ideológicos de esa “episteme”, como llega a denominarla, que dio curso a una variedad de “visiones históricas y versiones identitarias de Brasil” (Santiago, 2012: s.p.). Dice Silviano: “Por la escritura de la Formação da literatura brasileira y por su lectura, el investigador, el alumno y la propia literatura escrita por brasileños desde mediados del siglo XVIII significan estar en vías de llegar a la plenitud de sus respectivas y variadas vidas”. Erigido en paradigma, el concepto de formación “funda y estructura (en el siglo XX brasileño) […] determinadas características generales de la brasilidad o formas de nuestro ser y estar en proceso de desarrollo” (Santiago, 2023: s.p.). Así, el concepto de formación implica una maduración, un paso de la incompletud a la plenitud – resonando las nociones de evolución y progreso, que prescriben una temporalidad en la cual el pasado no solo está antes sino que es inferior al futuro. Vale recordar que en el célebre ensayo “Literatura e cultura de 1900 a 1945” Antonio Candido (1985) afirma que “si fuera posible establecer una ley de evolución de nuestra vida espiritual, podríamos tal vez decir que toda ella se rige por la dialéctica del localismo y del cosmopolitismo”.[2] La matriz histórica del concepto de formación, señala Silviano, es la tradición germánica de la Bildung, instrumento pedagógico que designa la formación como “lento y largo proceso de interiorización del saber” y que se convierte en “pieza importante en el surgimiento y afirmación universal del ideario ilustrado, evidentemente eurocéntrico” (Santiago, 2023, s.p.). Retomando lo dicho arriba, cabe recordar la célebre afirmación de Kant de que la Ilustración representaría la etapa en la que la humanidad estaría alcanzando su mayoría de edad. Heredera de la paideia griega y de la humanitas latina, la Bildung traduce el deseo de los brasileños de tener una nación soberana: “nombra el trabajo indispensable de los ciudadanos privilegiados y letrados para que el adjetivo nacional añadido a la literatura – o a la nación y su historia, o a la economía nacional, o a la filosofía uspiana etc. – pueda afirmarse como auténtico y original y mantenerse afirmativo, estable y rentable en el conjunto de las naciones modernas de Occidente” (Santiago, 2023, s.p.).

La formación está basada en una premisa jerárquica y normativa. Si formarse significa llegar a ser lo que aún no se es, se presupone que estamos en una etapa anterior con relación – y, en el mejor de los casos, avanzando – hacia un punto futuro ideal, establecido por un horizonte eurocéntrico de desarrollo social, económico y cultural. Puede decirse que el concepto también echa raíces en el historicismo, que, de acuerdo con el historiador bengalí Dipesh Chakrabarty (2000: 8), consistía en una forma en que los europeos acomodaban al resto del mundo en una especie de “sala de espera imaginaria de la historia”. En ese discurso en el que Europa domina como sujeto soberano de todas las historias, estaríamos todos en camino hacia el mismo destino, pero algunas sociedades llegarían antes. Como observa Alfredo Cesar de Melo (2016), no por casualidad el vocabulario de los organismos internacionales refuerza esa concepción de un perenne estado de transición que nunca se completa del todo o de una posición jerárquicamente inferior, como sugieren respectivamente los términos país en desarrollo o, más actual, emergente; y subdesarrollado o del tercer mundo. La noción de formación presupone además la existencia de un sujeto colectivo –cultura, nación, sociedad, economía o literatura– capaz de tomar las riendas de su propio destino y de equipararse a sus pares de las “latitudes superiores”.

Es precisamente ahí donde entra la crítica de Silviano. Para él, al ser trasplantado a los trópicos, el paradigma de la formación produce un desplazamiento significativo: reproduce la lógica del centro europeo como modelo normativo y teleológico de madurez y excelencia, relegando la experiencia brasileña a una etapa “verde”, siempre en busca de un devenir pleno definido desde afuera. El concepto de formación, así, se constituye al mismo tiempo como emancipador y subalternizante: libera de la herencia colonial portuguesa, pero al precio de la domesticación por el “centrismo occidental”.

Además, Silviano señala que, en Brasil, la “buena formación” nunca fue un proceso universal, sino un privilegio concedido por la familia o por el Estado a grupos restringidos. El paradigma de formación, lejos de ser neutro, funda las formas de saber (científicas, artísticas, confesionales) del siglo XX brasileño cuyo sentido social y político no es democratizador, sino elitista y excluyente. El concepto opera como criterio de distinción social y cultural, estructurando jerárquicamente la propia idea de brasilidad desde arriba. Por eso mismo, dice Silviano en otro contexto, el intelectual debe aprender a “saber saber”, es decir, “después de saber lo que sabe, debe saber lo que su saber reprime” (Santiago, 1989: 36).

Silviano muestra, por lo tanto, la ambigüedad del concepto de formación, que, por un lado, cumple el papel de legitimar la existencia de una literatura “brasileña” y la inscripción de Brasil en Occidente moderno, pero, por otro, funciona como vacuna contra el “virus colonial lusitano”, reprimiendo el pasado colonial y sustituyendo la dependencia respecto a Portugal por otra, en relación con el modelo ilustrado europeo. Por esa vía, afirma, “se deconstruía el inevitable esteticismo disciplinar de la formación literaria propuesta por Antonio Candido”, llevándonos a “cuestionar el concepto de identidad y a conjurar, enfatizándola, la noción de diferencia” (Santiago, 2023: s.p.).

Inserción es una noción post-Bildung y responde a lo que Silviano ve como agotamiento[3] de los varios y notables “discursos de formación” que constituyeron el paradigma nacionalista y desarrollista como tarea prioritaria (Santiago, 2023: s.p.). El paradigma de la formación, según él, entra en extenuación como consecuencia de su propio éxito relativo, que generó efectos transformadores en el ciudadano y en la sociedad; y ahora esas nuevas condiciones materiales exigen un paso adelante, otro haz amplio y crítico de discursos que configuren un nuevo paradigma: el de la inserción. El foco ya no es la interiorización inevitable de saberes extranjeros para el auto-perfeccionamiento, sino la proyección de aquel “brasileño” (ya formado, aunque a su modo) en el conjunto de las naciones, en un escenario globalizado, cosmopolita (en una acepción ya no ilustrada) e interdependiente. El Estado nacional democrático asume papeles internacionales y se convierte en actor de relaciones multilaterales; los sujetos discursivos se vuelven capaces de autocrítica en diálogo con debates universales; y los problemas locales solo adquieren relevancia a la luz de dinámicas globales. La crítica de Silviano, por lo tanto, es acumulativa y dialógica con los propios supuestos del concepto de formación, basados en la “verificación crítica de la tradición” como “fuerza productiva deliberada” (Schwarz, 1999: 46): reconoce el papel del pasado en el proceso que apunta hacia un futuro en el que la relevancia de Brasil ya no depende de su medida en relación con los patrones europeos, sino de la participación en la escena contemporánea y de la intervención transformadora en el debate global, a partir de su propio lenguaje. Silviano retoma entonces como lema la formulación “premonitoria” de Hélio Oiticica en Brasil diarreia (1973), a su vez repetida con diferencia por Mário de Andrade antes que él, sobre la urgencia de la “inserción del lenguaje-Brasil en contexto universal”, entendido como campo múltiple, abierto, policéntrico, en el que experiencias situadas (como la brasileña) pueden interferir y desplazar parámetros hegemónicos.

Cabe señalar que la palabra “inserción”, en su origen etimológico latino, significa “acción de introducir” o “injerto”. Inicialmente utilizada en la botánica para describir el acto de injertar plantas, el vocablo pasó a tener un sentido más amplio de introducción o inclusión en diferentes contextos. Es posible ver aquí la sinergia, en el pensamiento de Silviano, entre las ideas de inserción e injerto, este último operacionalizado como método de creación literaria, por ejemplo, en Menino sem passado (2021). A través del injerto se producen variedades a partir de la combinación de dos plantas diferentes. El injerto también aparece en el Glossário de Derrida (1976), organizado por Silviano, como una posibilidad de traducción de la greffe, consistiendo en “un signo que, al asociarse a una cadena de signos, altera la propia naturaleza significante de aquello con lo que se asocia, modificando también su propia naturaleza” (Silva, 2024: 458-459). Ese cambio mutuo de los signos es, en buena medida, justamente lo que está en juego con la idea de inserción formulada por él.

Silviano sabe que su propuesta es demoledora, ya ni siquiera diría simplemente deconstructora, de las bases de la nación. Pero nos preguntamos: ¿por qué elegir periódicos paulistas para difundir sus ideas al respecto, aun cuando los dos artículos en cuestión sean típicamente herméticos, y no dar continuidad directa a la rotación que podría seguirse y completarse con el derrumbe?

En el nuevo paradigma de la inserción, como señala Melo (2016: 44), “el motor de la reflexión sobre el país no parte de dentro, como en el caso del paradigma de la formación, sino de los múltiples lugares de fuera”. Le interesa, prosigue, “otra dinámica –centrífuga, en lugar de centrípeta: que es la de cómo la cultura brasileña se convierte en flujo internacional, y cuáles serían las implicaciones teóricas de la presencia de la cultura y literatura brasileña en el mundo”. En otras palabras, el concepto de formación está orientado hacia adentro. Su preocupación está en el auto-perfeccionamiento de la identidad y en la unidad nacional, aunque por medio de una especie de actualización (de ajuste de las manecillas del reloj) de la cultura local con lo moderno (representado por los países centrales), dado el influjo externo coercitivo. En cambio, la noción de inserción está orientada hacia afuera y hacia adentro al mismo tiempo; hacia lo que Silviano denomina universalidad diferencial, que implica no identidad, jerarquía y unidad centralizada, sino apertura a las multiplicidades, entendidas como redes de diferencias en proceso, en un mundo multilateral sin centro ni origen, en el que los modos de ser no se subordinan a una unidad trascendente. Refiriéndose justamente a cómo Lélia Gonzalez habría complementado su lectura del “virus colonial lusitano”, Silviano explica: “Los grupos étnicos excluidos del proceso civilizatorio occidental pasan también a exigir alteraciones significativas y participativas en lo que se da como representativo de la tradición erudita y blanca brasileña o en lo que se da como la más alta conquista de la humanidad, la democracia representativa. Los excluidos exigen, por un lado, autonomía cultural y, por el otro, inclusión” (Santiago, 2023: s.p.). He aquí la clave del sentido más radical y democrático de la noción de inserción propuesta por Silviano. Se vuelve también hacia adentro, explicitando los límites del paradigma (elitista, blanco y occidentalizado) de la formación, al proponerse escuchar las voces antes silenciadas de los excluidos –sobre todo de grupos étnicos, culturales y sociales marginados en el proceso de formación nacional y que ahora reivindican reconocimiento, autonomía cultural y participación efectiva en las instancias que definen lo que cuenta como representativo. El “lenguaje-Brasil” del que hablaba Oiticica no puede ser solo la lengua erudita de los privilegiados; necesita ser polifónica y formada también por los sujetos que exigen visibilidad y representatividad. Si el paradigma de la formación traducía un deseo individual y colectivo de autonomía, el concepto de inserción vocaliza un deseo de inclusión, participación e igualdad. La “atracción del mundo” de los sujetos subalternos, el cosmopolitismo de los pobres y de las diásporas. Ya no las raíces de Brasil, sino los rizomas de los “Brasiles”.



Notas

[1] La noción es más enunciada que propiamente desarrollada en tres oportunidades. Primero, en “Formación e inserción”, artículo publicado en el Estadão en 2012. Luego reaparece en ““La literatura brasileña desde una perspectiva poscolonial – un relato”, conferencia pronunciada en la Universidad Nacional de Tres de Febrero, en Buenos Aires, cuando el autor recibió el título de Doctor Honoris Causa, en 2014, y republicada en portugués en el Blog de la BVPS en 2023. Y por último, un resumen de la conferencia apareció con el título “La anatomía de la formación: la literatura brasileña a la luz del poscolonialismo”, también en 2014, en el suplemento Ilustríssima de la Folha de S. Paulo.

[2] La deconstrucción de este enfoque dialéctico también forma parte del programa crítico de Silviano y será abordada en un texto en preparación titulado “Aberto para balanço”.

[3] Melo (2016: 44) recuerda que existen análisis importantes sobre el agotamiento de ese paradigma, como los de Roberto Schwarz y Marcos Nobre. Para Roberto Schwarz, “la desintegración del proyecto desarrollista dejó en ruinas un conjunto impresionante de ilusiones” debido a la “inviabilización global de las industrializaciones tardías”. Por su parte, Marcos Nobre señala “cambios estructurales del capitalismo que simplemente hicieron inviable la continuidad de cualquier proyecto de tipo nacional-desarrollista”.

Referencias

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CANDIDO, Antonio. (1985). Literatura e cultura de 1900 a 1945 (Panorama para estrangeiros). In: Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, p. 109-138.

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MELO, Alfredo C. B. de. (2016). Antropófagos devorados e seus desencontros: da “formação” à “inserção” da literatura brasileira. Literatura e Sociedade, v. 21, n. 22, p. 42-54.

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SANTIAGO, Silviano. (2012) Formação e inserção. Estadão, 26 de maio de 2012. Disponível em: https://www.estadao.com.br/amp/cultura/formacao-e-insercao-imp. Acesso em: 15 jun. 2025.

SANTIAGO, Silviano. (2014). A anatomia da formação: a literatura brasileira à luz do pós-colonialismo. Folha de S. Paulo, 7 set., Ilustríssima. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/184397-anatomia-da-formacao.shtml?origin=folha. Acesso em: 15 jun. 2025.

SANTIAGO, Silviano. (2023). A literatura brasileira da perspectiva pós-colonial, um depoimento. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social. 20 jun. 2023. Disponível em: https://blogbvps.com/2023/06/20/a-literatura-brasileira-da-perspectiva-pos-colonial-um-depoimento-por-silviano-santiago/. Acesso em: 15 jun. 2025.

SCHWARZ, Roberto. (1999). Sequências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras.

SILVA, Gabriel M. da. (2024). Os enxertos de Silviano Santiago e Jacques Derrida. Outra Travessia, v. 1, n. 37, p. 450-476.

Sobre el autor

Maurício Hoelz es doctor en Sociología por la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ) y profesor de la Universidad Federal Rural de Río de Janeiro (UFRRJ).