
Mário de Andrade encontra Jorge Fernandes em Natal: poeta potiguar, modernista, que há pouco havia publicado o seu “admirável” Livro de Poemas (1927). Apesar da baixa repercussão desse primeiro (e único) livro de poesia de Fernandes – o que o faz ri meio desapontado – Mário reconhecia ali uma das expressões mais autênticas da poesia brasileira de seu tempo, profundamente ligada à vida nordestina. Como ele próprio diz: poesia popular, nascida da carne, em que a memória do corpo abandonou a memória literalista da inteligência.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (19 de dezembro, 19 horas)

Jorge Fernandes apeia do auto e fica entre nós. Abraço-o. Jorge Fernandes ri meio desapontado. É simples que nem a sêca. A princípio parece arido, monotono mas que nem a sêca mesmo, vai pouco a pouco mostrando aspetos interessantes, conta casos, curiosidades desta zona tão cheia de coisas maravilhosas.
Jorge Fernandes já é homem feito e vivido. Fala grave, ri discreto com uma experiencia contadeira do nordeste. Viveu tudo isto por aqui e viveu de verdade, ficou tudo impresso na carne dele que é memoria mais viva e menos literaria.
O admiravel “Livro de Pôemas” que publicou no ano passado é isso: uma memoria guardada nos musculos, nos nervos, no estomago, nos olhos, das coisas que viveu. O livro pode ser um bocado irregular pelos tiques de poetica antiga inda sobrados nele, porêm possui coisas esplendidas, das mais nitidas, das mais humanamente brasileiras da poesia contemporanea. São os poêmas, como falei, em que a memoria do corpo abandonou a memoria literalista da inteligencia. Então Jorge Fernandes apresenta coisas puras, fortes, apenas a vida essencial, coincidindo com o lirismo popular que nem este
MANUEL SIMPLICIO
Manuel Simplicio é como todos:
Brando no olhar e no sorrir…
No trote do alazão tardio e manso…
Olhar miudo investigando as serras…
Gestos lentos indicando tudo…
Voz pausada retumbante… forte…
Mão pesada de sincero apêrto…
Manuel Simplicio é como todos êles:
Alma de imburana: — pau de abelha…
Furia de joazeiro: — pau de espinho…
Mesmo sob o ponto-de-vista tecnico um poeminho dêsses é comovente. Se percebe pela naturalidade da concepção e da dicção a ausencia de literatice. Se tem a impressão do nascimento da Poesia. As fórmulas tecnicas surgem, aqui fatais e necessarias, que nem nos dois versos finais — fórmulas de que depois os poetas literarios haviam de abusar.
Quando Jorge Fernandes está livre assim, a Poesia nasce prá êle. E com uma fôrça vivida, com a esquematisação essencial da memoria fisica. É excelente.
Ultimamente no alto sertão do Rio Grande do Norte, e muito no Ceará tambem, a emigração prá S. Paulo está grassando. Centenas de homens, do dia prá noite resolvem partir. Partem, sem se despedir, sem contar prá ninguem, partem buscando o eldorado falso que nenhum deles sabe o que é… Vão-se embora, rumando prá sul… Isso Jorge Fernandes está vivendo agora. E isso floresce em poêmas de dor, que nem esta marchada.
CANÇÃO DA SÊCA
Entrou janeiro e o verão danoso
Sempre afitivo pelo sertão…
As cacimbas sêcas nem merejavam…
E o moço triste disperançado
Fez uma trouxa de seus trens…
De madrugada — sem despedida —
Foi prá cidade…
Foi prá S. Paulo… prás bandas do sul…
E a moça dele
Se amurrinhou
Ficou biqueira
Virou espêto
— Ela que era um mulherão…
Até que um dia já derrubada
De madrugada
Foi prá S. Paulo… foi prá um S. Paulo que ninguem sabe não…
Jorge Fernandes realisa coisas dessa fôrça — e… “ninguem sabe não”…
O livro dele foi pouco lido… Quasi nenhum crítico não falou nele. Então Jorge Fernandes se ri meio desapontado, me abraça, desce prá cite, vai lidar com as cifras verdadeiras duma fábrica de cigarros.
MÁRIO DE ANDRADE
