Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (20 de dezembro, 22 horas)

“Ai, redondo, sinhá!”, canta José. Na escuta de um “coqueiro” nordestino, em Natal, Mário de Andrade registra um mundo de sons que escapa à escala musical europeia. Impressiona-se com o que alguns poderiam chamar simplesmente de “fora de tom”, mas que, aos seus ouvidos, possui lógica própria: sistematizada, viva. E que voz! Exclama o modernista. Para Mário, o que se escuta é um fora de tom proposital – e, por isso mesmo, positivo – que ressoa a sonoridade encantadora de um povo.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (20 de dezembro, 22 horas)

Desde que os meus amigos nordestinos ahi em S. Paulo cantaram “cocos” prá eu escutar, faziam tanta letra com a entoação! fiquei ansiando por ouvir um “coqueiro” de verdade. Agora o coqueiro José canta pra mim.

Este outro José “homem do povo” que entra nestas sensações, é nordestino puro. Baixote, cabeça achatada, êle todinho tão achatado que tem todas as linhas do corpo, horizontais. As caatingas são tão planas, e no geral tão planas as terras de cá que, parece fenomeno de mimetismo, as linhas fisicas do ser humano se organisam por aqui todas no sentido do horizontal…

José tambem. De primeiro ficou meio encabulado, acabou dizendo que ia até na casa dele perto, já vinha. Foi mas é buscar um companheiro. E está tirando cocos.

Que voz!… Não é boa não, é ruim. Mas é curiosissima e a do companheiro dele é inda mais. Em que tonalidade estão cantando? A’s vezes é absolutamente impossivel a gente saber. Um dos fenomenos mais interrogativos da humanidade, é justamente a fixação dos sons da escala cromatica. A humanidade toda fixou 12 sons principais e que são sempre os mesmos no mundo inteiro. Entre o dó e o dó sustenido podem existir centenas de sons diferentes. O curioso é que chins, gregos e troianos, todas as nacionalidades empreguem o mesmo número de vibrações e possuam o mesmo dó e o mesmo dó sustenido.

Ora está me parecendo que os coqueiros nordestinos usam tambem entoar com numero de vibrações que afastam o som emitido dos 12 sons da escala geral. O quarto-de-tom de que a musica erudita não se utilisou na civilisação europea, êsse estou mesmo convencido que os nordestinos dão. Já topei com êle tres feitas nesta viagem, entoado pela preta Maria Joana, cantadeira famanada de Olinda, e por um catimbozeiro natalense. Mas pra decidir mesmo do caso de que trato carecia de aparelhos especiais que não tenho aqui.

Não é cantar desafinado não. Cantam positivamente “fora de tom” e êste fora de tom está sistematisado neles e é de todos. Si fixo uma tonalidade aproximada no piano e incito os meus dois coqueiros, cantando com êles, se… amansam, caem no re bemol maior, por exemplo. Si paro de cantar, voltam gradativamente pro “fora de tom” em que estavam antes. E é um encanto.

José tira o “Redondo, Sinhá”… Dentro da monotonia dos mesmos motivos melodicos, que variedade! Fico pasmo

— Ai, redondo, sinhá!…

— Eta lá, minha minina

Só fala quando eu mandá!

Quero que você mi diga:

— Ai, redondo, sinhá!…

A voz dele, cortada, pelo refrão coral do outro cantador, “Ai, redondo, sinhá!”: a voz do coqueiro vai subindo, vai subindo entre tiradas ritmicas batidas, ás vezes uma letra deliciosa, vem pra baixo, se torna grave, sobe, desce…

— Ai, redondo, sinhá!

— Ôh pueta novo,

Dêxa dessa suberbia!

Cruzêra! Santa Maria!

Mãi de Deus do Paraná!

— Ai, redondo, sinhá!…

MÁRIO DE ANDRADE