
Sociológicas é o novo espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e para o processo social que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva diferencialmente sociológica. O que tem a sociologia a dizer sobre o contemporâneo, sobre as diversas crises e incertezas que tecem a trama do social e, nela, das subjetividades de indivíduos e grupos, no Brasil e no mundo?
Nosso primeiro convidado desta nova série é Adalberto Moreira Cardoso, do IESP-UERJ, com ampla experiência e reconhecimento na área da sociologia do trabalho, especialmente, mas também um escritor de ficção que prima pela clareza da comunicação e compartilha o gosto por uma boa narrativa com leitores e leitoras.
Não perca, quinzenalmente, sempre às quintas-feiras, as publicações dessa nova série e deixem a sociologia fazer-lhes a cabeça!. Para ficar por dentro de todas as nossas postagens, você pode assinar nossa lista de e-mails, seguir nosso Instagram ou entrar no canal da BVPS no WhatsApp.
Antinomias do desenvolvimento
Por Adalberto Cardoso (IESP-UERJ)
Cá estou eu, encarando o desafio de escrever uma coluna para o Blog da BVPS. Agradeço muito o convite de André Botelho, e espero conseguir entreter seus/as leitores/as, seletíssima audiência. Esta primeira intervenção trata da relação entre desenvolvimento econômico e crise climática.
O termo “desenvolvimento econômico” nasceu em meados do século XVIII, emprestado da biologia. Para os naturalistas daquele tempo, desenvolvimento significava a realização plena de um organismo vivo: suas potencialidades seriam liberadas em sequência até alcançar uma forma final, previamente inscrita na natureza. Não se tratava de acaso, mas de uma trajetória teleológica, orientada por um fim. Quando Charles Darwin substituiu a noção de “desenvolvimento” por “evolução” para explicar o processo de seleção natural, rompeu-se a ideia de finalidade predeterminada: a adaptação das espécies passou a ser compreendida como resultado de diferenciações acumuladas, em constante interação com o meio ambiente. Essa mudança conceitual ocorreu justamente quando o capitalismo industrial se consolidava, e o vocabulário do desenvolvimento já havia migrado para os debates das ciências sociais.
No século XIX, o termo ganhou força na economia política, associado à ideia de progresso material e social. O industrialismo europeu, seguido pela experiência norte-americana, foi interpretado como a realização de uma promessa histórica: crescimento das forças produtivas, elevação da renda média, expansão da autonomia individual. Doutrinas liberais reforçaram essa visão, vinculando a inovação técnica e o avanço produtivo a uma noção de liberdade que parecia inseparável da prosperidade. O desenvolvimento passou, assim, a ser entendido não somente como um processo econômico, mas como um horizonte civilizatório. E durante pelo menos dois séculos e meio, essa promessa funcionou como horizonte normativo de boa parte da humanidade.
Na segunda metade do século XX, com a emergência da economia do desenvolvimento, a noção ganhou contornos globais. Países antes considerados “atrasados” passaram a ser avaliados pela sua capacidade de replicar a trajetória já percorrida pelas nações industrializadas. A metáfora biológica original (um caminho predeterminado que conduz ao florescimento) manteve-se, ainda que de forma implícita. Continuou-se a imaginar que as sociedades percorreriam estágios previsíveis até alcançar um ponto de maturidade econômica O sucesso de alguns países asiáticos nas últimas décadas reforçou a crença de que bastaria aplicar as “receitas corretas” para atingir prosperidade. Organismos internacionais, como o Banco Mundial e a ONU, transformaram o desenvolvimento em critério de legitimação de políticas públicas, medido por indicadores de crescimento econômico, escolaridade, expectativa de vida e, mais recentemente, sustentabilidade.
A promessa, contudo, mostrou-se desigual: enquanto alguns países avançaram, outros (na verdade, a maioria) permaneceram presos a armadilhas estruturais, dependência externa ou fragilidades institucionais. A trajetória do desenvolvimento revelou-se mais complexa e menos linear do que a narrativa clássica sugeria. Ainda assim, a promessa de um futuro melhor continuou a mobilizar governos, pesquisadores, ativistas e movimentos sociais.
Hoje, a confiança nas promessas do desenvolvimento é sinônimo de ingenuidade, ou talvez má-fé. Se a expansão industrial e tecnológica produziu inegáveis avanços no bem-estar da população em algumas regiões do planeta, foi também a principal responsável pela crise ambiental global. O crescimento econômico sustentado em energia fóssil, o aumento das emissões de gases de efeito estufa, a perda de biodiversidade e consumo de recursos naturais pressionam os limites do planeta, e a ideia de que o crescimento econômico traria, inevitavelmente, prosperidade e liberdade, num modelo baseado em expansão contínua, foi posta em xeque pelo iminente colapso climático.
A ontologia do desenvolvimento capitalista (o ser da modernidade industrial) sustentava que progresso e liberdade caminhavam juntos. Porém, diante da emergência climática, a pergunta se impõe: liberdade para quem, e a que custo? O conforto material de alguns grupos e nações mais ricas tem se sustentado na exploração intensiva do trabalho e da natureza dos países na periferia do sistema. A universalidade da promessa revelou-se ilusória.
No debate contemporâneo sobre isso é possível encontrar diferentes propostas para enfrentar a crise. Deixo de lado as vertentes negacionistas, que consideram a crise climática uma invenção de globalistas esquerdopatas, que têm representantes, hoje, no coração do Império. Já correntes de pensamento como o “decrescimento” defendem abandonar a ideia de crescimento econômico como medida de progresso. Em vez disso, sugerem priorizar o bem-estar, o “bem-viver”, a justiça social e a regeneração ambiental. Outras perspectivas, como o “pós-desenvolvimento”, sugerem que a própria noção de desenvolvimento, com sua carga histórica de colonialismo e eurocentrismo, deve ser substituída por modelos alternativos enraizados em contextos locais e em saberes plurais.
Essas críticas não significam negar os avanços trazidos pela industrialização, como a ampliação da expectativa de vida ou o acesso a bens que transformaram a qualidade de vida das pessoas. O ponto central é outro: esses avanços não podem mais ser pensados como efeitos automáticos de um crescimento indefinido. O planeta impõe limites materiais, e as desigualdades globais expõem os custos sociais e ambientais das promessas não cumpridas.
Diante disso, o futuro do termo “desenvolvimento econômico” está em disputa. Manter a metáfora biológica do florescimento inevitável é insustentável. A experiência histórica indica que o desenvolvimento não é um caminho linear nem universal, mas um processo permeado por contradições, rupturas e escolhas políticas. Talvez seja o momento de substituir a narrativa do desenvolvimento por outras, que reconheçam simultaneamente os limites ecológicos, a diversidade cultural e a urgência da justiça social. Se o capitalismo industrial já foi tratado como a era que confundiu desenvolvimento com liberdade, o desafio do presente é reimaginar o que pode significar viver bem em comum. A promessa de prosperidade, autonomia e felicidade precisa ser reconstruída em bases mais sólidas do que a expansão incessante da produção e do consumo. Às portas de um colapso climático, resta a questão: como formular promessas que possam, de fato, ser sustentadas, não apenas para alguns, mas para todos, e não somente para o presente, mas também para as futuras gerações?
