Resenha | Decolar, aterrissar, por Maria Lúcia de Souza Barros Pupo

A vida em outro lugar. Crônica do exílio é o novo livro de Angela Leite Lopes, em pré-venda pela Editora UFRJ. A obra relata com delicadeza a experiência de exílio vivida por Angela e sua família durante diferentes momentos da ditadura civil-militar brasileira.

Na resenha de Maria Lúcia de Souza Barros Pupo (USP), temos um vislumbre da trajetória sui generis que o livro entrega. Ao revisitar a formação da autora, a narrativa constrói um relato de memória e testemunho histórico atravessado por afetos e décadas de arbitrariedades, violência e iniquidades. Segundo Maria Lúcia Pupo, A vida em outro lugar pode ser lido, portanto, como o registro de uma gradativa tomada de consciência; uma síntese, pela autora, do sentido de sua própria atuação.

Confira abaixo a resenha e mais informações sobre a pré-venda do livro. Clique aqui para conferir um trecho do livro publicado pela BVPS.


Decolar, aterrissar

Por Maria Lúcia de Souza Barros Pupo (USP)

Acompanhamos nestas páginas o ponto de vista de uma menina, depois adolescente e mais tarde adulta, em percurso marcado pela porosidade entre a vida familiar na França e nos Estados Unidos, por um lado, e a violência da ditadura militar no Brasil, por outro. As turbulências familiares vividas pela filha de um prestigiado físico, docente na UFRJ e internacionalmente reconhecido, desfilam diante do leitor, ritmadas por uma sucessão de deslocamentos entre os dois hemisférios, boa parte deles sob a sombra do exílio. 

O olhar sensível de Angela revisita de modo delicado e cuidadoso a curiosidade, a vitalidade e o imaginário que a marcaram, em um texto que – à semelhança dos romances de formação – nos convida para caminhar ao seu lado em uma trajetória sui generis. Assim, visitamos diferentes apartamentos em Paris, Pittsburgh e Estrasburgo, sempre repletos de familiares e amigos cuja presença invariavelmente gerava especial entusiasmo em nossa heroína. Muitos eram os brasileiros vivendo de modo forçado naquelas cidades, alimentando a subjetividade da autora com notícias do Brasil e experiências singulares. Atenta e observadora, Angela evoca essas memórias mediante uma percepção sensorial que confere um sabor marcante à narrativa, como a lembrança do “elevador sem memória”, da “geladeira natural” ou das marcas de piche nos pés, contraídas na praia.

É em clima de rigidez disciplinar em uma escola parisiense que ela descobre a poesia, a literatura e mais tarde exercita seu prazer de refletir sobre os acontecimentos que abalavam o mundo enquanto o Brasil sofria o jugo dos anos de chumbo. E é em meio a tantas mudanças de endereço que Angela descobre, em grande parte no estrangeiro, nossa música, nosso cinema e a arte que se tornaria seu métier, o teatro.

Vai se engendrando assim um processo do qual a jovem Angela, agora docente universitária, vai tomando gradativamente consciência; graças aos seus sucessivos deslocamentos, ela é capaz de sintetizar com propriedade o sentido de sua atuação: “dar voz em francês à cultura brasileira”. A partir daí, é a arte da tradução – esse desafio fascinante e inesgotável de se colocar entre duas culturas – que passa a ocupar lugar privilegiado entre seus interesses. Em meio à presença compulsória fora do Brasil, à contínua expectativa do regresso, às dificuldades para reunir a família, mas também graças ao apoio recíproco de tantas amizades sólidas e a uma intensa abertura a outros modos de estar no mundo, foi que Angela foi se forjando.

Mediante essa narrativa atravessada por afetos cheios de calor, emergem décadas de arbitrariedades, violência e iniquidades. Que ela possa inspirar outras narrativas pessoais capazes de iluminar sob as mais diversas óticas aquele período sinistro de nossa História. Precisamos delas.

Sobre a autora

Maria Lucia de Souza Barros Pupo é professora titular da Universidade de São Paulo, onde vem atuando como docente e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Pedagogia das Artes Cênicas. É graduada em teatro pela Escola de Comunicações e Artes da USP, mestre em artes pela mesma instituição e doutora em Études Théâtrales pela Université de Paris III (Sorbonne-Nouvelle). Realizou investigação de pós-doutorado sobre jogos teatrais e textos literários em Tétuan, Marrocos; é bolsista de produtividade CNPq e autora de livros e artigos sobre a relação entre as artes cênicas e a educação.