
Aluízio Alves Filho, professor de Ciência Política do IFCS-UFRJ por décadas, faleceu em 14 de abril deste ano. Foi uma das vozes pioneiras e mais respeitadas nos estudos sobre o pensamento político e social brasileiro e sobre a obra de Monteiro Lobato e de Oliveira Vianna, especialmente. Ao longo de sua trajetória, formou gerações de jovens pesquisadores dedicados à reflexão sobre a imaginação sociopolítica no Brasil. Foi ainda professor da PUC-RJ e pioneiro nas publicações acadêmicas online nas Ciências Sociais com a revista Achegas.
Neste post, publicamos a homenagem de Carlos Henrique Gileno, professor da Unesp-Araraquara, ao amigo, na qual ele destaca o modo como Aluízio exercia a arte de existir no mundo intelectual, conjugando rigor com generosidade, crítica com acolhimento.
Boa leitura!
Aluízio Alves Filho: mestre do pensamento social e da amizade intelectual
Por Carlos Henrique Gileno (Unesp)
O nome de Aluízio Alves Filho chegou até mim de forma indireta, não pelas palavras que saíam de sua boca, mas pelos ecos que André Pereira Botelho, colega nos programas de mestrado e doutorado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, espalhava. Era por volta de 1995, e André, então aprofundando seus estudos sobre Manoel Bonfim, falava de Aluízio com reverência, como quem descreve luz que atravessa sombras densas. A intensidade de seu rigor analítico, a militância discreta, a clareza com que desvendava os labirintos de um autor marginal e, ao mesmo tempo, luminoso, tornavam Aluízio presença inevitável no pensamento social brasileiro.
Com o tempo, o que chegara como sombra distante transformou-se em marca viva no meu percurso intelectual. Suas conversas jamais se limitavam à formalidade; a voz firme atravessada pelo sotaque da Tijuca preenchia qualquer espaço com torrentes de ideias, relatos de autores esquecidos, tradições quase apagadas e deformações institucionais. Mesmo no turbilhão, suas palavras mantinham ordem e precisão, e o riso, fino, pontuado de ironia, oscilava entre esperança e desencanto, desmontando pretensões com leveza.
Em uma dessas conversas, revelou uma metáfora que guardei como ensinamento: seus orientandos eram balões, fabricados com cuidado e depois lançados ao vento. Não os prendia nem os monitorava; desejava-lhes liberdade, ainda que o voo fosse incerto e errático. “A gente nunca sabe para onde o balão vai, nem onde ele vai cair”, dizia, entre sorriso irônico e afetuoso. Na imagem simples, escondia-se a ética profunda de quem se compromete com a autonomia do outro, jamais com sua posse.
Aluízio não transmitia apenas métodos ou conhecimentos acadêmicos; exercia a arte de existir no mundo intelectual, conjugando rigor com generosidade, crítica com acolhimento. Em uma palestra, contestou um ponto consensual não para desautorizar, mas para provocar reflexão mais intensa, abrindo espaço para pensamento independente. Essa postura definia sua pedagogia: inquietação produtiva, coragem para duvidar, confiança na capacidade crítica do interlocutor.
A metáfora do balão refletia também o sentido do encontro: voos erráticos cruzam trajetórias, produzem diálogos, geram sentidos coletivos. O legado de Aluízio permanece convite à liberdade responsável, ao voo solitário acompanhado, à autonomia construída em companhia — lição viva para todos que tiveram a sorte de sentir seu sopro intelectual, seja por suas palavras, seja pelo rastro deixado em seus discípulos.
A primeira conversa telefônica com ele deixou-me marcado. A voz fluía sem interrupção, preenchendo o tempo com narrativas, análises e opiniões. Entre digressões, surgia a paixão pelo América Futebol Clube. A queda do clube na Copa União de 1987 não era mero desgosto esportivo, mas exemplo da lógica de exclusão e manipulação de regras no Brasil. Aluízio prometia provar a fraude, não por vaidade clubística, mas por senso de justiça histórica.
Foi nesse espírito de intensidade e cordialidade que me convidou a colaborar com a Revista Achegas.Net, da qual era diretor ao lado de Leonardo Petronilha. Ali publiquei quatro artigos e fui recebido com entusiasmo genuíno, crítica rigorosa e acolhimento atento — como quem lê com prazer e dialoga, sem impor pensamentos. Nessa sequência de leituras e conversas, consolidou-se amizade literária, filosófica e afetiva. Aluízio não cultivava discípulos, cultivava interlocuções; nelas oferecia-se como par, aquele que fabrica balões de reflexão e os solta ao vento, desejando que cada um encontre seu rumo, mesmo que desviado ou incerto.
Meu vínculo com ele aprofundou-se ao longo dos anos. Em 2016, convidei-o para proferir conferência sobre Manoel Bonfim na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus Araraquara. Diante de uma plateia jovem e numerosa, combinou erudição e generosidade: falava com precisão, afeto e atenção, investindo na juventude e nela apostando. Em 2022, retornou ao canal Ciências Sociais em Diálogo, defendendo Monteiro Lobato dos simplismos que o tachavam de eugenista — não por fidelidade cega, mas por convicção fundamentada.
Aluízio Alves Filho continuava com entusiasmo seus projetos intelectuais, como evidencia o livro Brito Broca: Uma Odisséia no Mundo das Letras, interrompido por seu falecimento antes da publicação. Confiou-me a escrita do prefácio, demonstrando segurança de que o trabalho seria apresentado com o cuidado e precisão que lhe eram próprios. O prefácio contextualiza o processo de pesquisa, revela a maturação do projeto ao longo de décadas e a profunda familiaridade do autor com o tema. As referências a outros estudos sobre Manoel Bonfim, Monteiro Lobato e Oliveira Vianna reforçam sua credibilidade e trajetória intelectual.
A comparação entre o memorialismo de Brito Broca e o de Pedro Nava é particularmente feliz, situando o crítico guaratinguetaense na tradição memorialística brasileira. A distinção entre memórias e confissões, presente no esboço original, é retomada com elegância. Destaca-se a articulação entre literatura e realidade social, recuperando a metáfora do espelho stendhaliano e estabelecendo conexões com György Lukács, ampliando o alcance teórico da obra.
A relevância de Brito Broca para debates contemporâneos sobre comunicação e polarização nas redes sociais é igualmente notável. O paralelo entre os “palpiteiros de plantão” e a preocupação do autor com o rigor intelectual torna-se especialmente pertinente.
O esboço apresenta qualidades que o tornam contribuição significativa para os estudos literários brasileiros. Sobressai pelo rigor metodológico e documental, evidenciado na pesquisa cuidadosa em fontes primárias, na análise detalhada de correspondências e na precisa contextualização temporal. A transparência do autor quanto às limitações de acesso às fontes também se destaca: em certo momento, diante de uma lacuna no material, surgiu a expressão “Um furo” — e nós, ao avaliar, pensamos “Um rombo”. Essa passagem revela não apenas a franqueza com que lidava com as dificuldades da pesquisa, mas também a integridade e honestidade intelectual que permeiam todo o trabalho.
A originalidade da abordagem também se evidencia: o texto resgata um intelectual injustamente esquecido, propondo leitura que supera o enquadramento simplista de Brito Broca como mero book review. A contextualização histórica é precisa, as teses sólidas, o diálogo com a fortuna crítica é evidente, e o estilo combina análise e narrativa com clareza, profundidade e elegância.
A obra recupera a dimensão humana de Brito Broca, oferecendo retrato multifacetado do intelectual e estabelecendo relações entre vida e obra sem determinismos simplistas. Este esboço, confiado a mim por Aluízio Alves Filho e ainda não publicado, possui potencial para se tornar referência nos estudos sobre crítica literária, historiografia cultural e intelectuais do século XX — e sua publicação permanece dever urgente da comunidade acadêmica, para honrar a memória e o legado do autor.
