Coluna Primeiros Escritos | Marx nos Andes: Mariátegui e o socialismo indo-americano, por Matheus de Carvalho Barros

Enquanto pensador, José Carlos Mariátegui é amplamente reconhecido como o fundador de um marxismo genuinamente latino-americano. Essa é a chave de leitura do texto que publicamos hoje na Coluna Primeiros Escritos, assinado por Matheus de Carvalho Barros (PPGSA/UFRJ), que defendeu, em 2023, no PPGS/UFF, a dissertação Raça e classe: um estudo comparativo entre José Carlos Mariátegui e Florestan Fernandes.

O texto mostra como Mariátegui reelabora o materialismo histórico ao articular o radicalismo político do marxismo com as lutas indígenas e populares do Peru, formulando o projeto do “socialismo indo-americano”. Segundo o autor, sua originalidade está em deslocar a “questão indígena” de um viés moral e cultural para uma análise econômica e política, integrando raça e classe em uma leitura descolonizadora da América Latina e antecipando debates dos estudos pós-coloniais e decoloniais.

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Marx nos Andes: Mariátegui e o socialismo indo-americano

Por Matheus de Carvalho Barros (PPGS/UFRJ)

A obra de José Carlos Mariátegui representa um marco no marxismo latino-americano, sendo amplamente reconhecido como o primeiro autor a desenvolver uma análise original da realidade da América Latina com base no materialismo histórico. Embora, em termos cronológicos, não seja possível afirmar que o jornalista peruano tenha sido o primeiro marxista do continente, Mariátegui é considerado por diversos analistas o mais original e criativo marxista do “Novo Mundo” e o fundador de um marxismo genuinamente latino-americano (Kaysel, 2012; Rubbo, 2021).

Acreditamos que a originalidade e a potência de Mariátegui como teórico se expressam não apenas na “aclimatação” do marxismo por ele operada, mas, fundamentalmente, em sua análise da história peruana a partir da denominada “questão indígena”. Por meio de uma perspectiva anticolonial, o autor dos Siete ensayos articulou o radicalismo político derivado das análises marxistas com a linguagem dos movimentos populares e indígenas da América Latina. Mariátegui soube sintetizar as dimensões universal e particular em um projeto político singular, combinando os movimentos subalternos regionais com a teoria revolucionária marxista e conformando aquilo que ficou conhecido como “socialismo indo-americano”.

Entretanto, cabe indagar: quais seriam as fontes do “marxismo Quéchua”[1] de Mariátegui? Como bem destaca Tible (2020), as influências europeias, marxista e não marxista, estão, em geral, bem desenvolvidas na literatura especializada na obra do autor (Aricó, 1987; Löwy, 2011; Quijano, 1982). Mas as referências às fontes peruanas geralmente estão centradas no debate com Haya de La Torre.[2] Se Mariátegui promoveu o encontro entre Lenin e Túpac Amaru,[3] este empreendimento precisou ser mediado, já que o jornalista não falava as línguas indígenas e nem pôde visitar as comunidades andinas devido seus problemas de saúde.

Provavelmente, a pesquisa mais importante sobre as fontes peruanas do pensamento de Mariátegui seja a obra El mito del socialismo indígena: Fuentes y contextos peruanos de Mariátegui, publicada em 1999 pelo historiador uruguaio Gerardo Leibner. O autor investiga e localiza as fontes do pensador peruano, de um lado, nos camponeses indígenas e militantes indigenistas; de outro, nos revolucionários de origem europeia. Leibner (1999) destaca que as diversas revoltas e o início de uma organização indígena em âmbito nacional foram fundamentais para o desenvolvimento das teses mariateguianas. Segundo o historiador uruguaio, foram essas lutas que colocaram a questão indígena na pauta política, social, cultural e econômica do Peru. Nesse contexto, “algo muito profundo se movia e Mariátegui foi um dos poucos limenhos a percebê-lo” (Leibner, 1999: 182).

No debate nacional peruano do início do século XX, a discussão girava em torno da possibilidade de integração dos indígenas à modernidade peruana. O usual termo “problema indígena” é um indicativo da tendência da maioria dos intelectuais criollos em considerar a presença indígena como um obstáculo para o progresso (Deveza, 2022). Como demonstrar Leibner (1999), no lado mais racista deste debate havia, inclusive, algumas “soluções” genocidas ou mesmo propostas de políticas de desapropriação em massa e colonização branca.

Nesse cenário, as principais questões postas no debate público peruano eram: como transformar os indígenas em um fator proveitoso para o desenvolvimento nacional? Como resgatá-los de seu estado de degeneração? Em meio à variedade de propostas e ideias, um grupo político tornou-se pioneiro no debate nacional e exerceu influência decisiva para formação teórica de José Carlos Mariátegui. Refiro-me aqui aos “anarco-sindicalistas”.

Mariátegui e seus companheiros do núcleo fundador do Partido Socialista Peruano (1928) não foram os primeiros a “peruanizar” uma ideologia revolucionária moderna e universalista de origem europeia. Os anarco-sindicalistas foram os primeiros a efetuar esse movimento teórico-político. O surgimento da questão indígena levou o movimento anarquista a reavaliar suas posições eurocêntricas, resultado justamente do contato com a realidade andina e suas convulsões sociais. Os indígenas deixaram de ser objeto de exploração, análise ou instrução e passaram a ser, enfim, vistos como sujeitos rebeldes contra a exploração e portadores da herança de um passado incaico comunista. Nesse contexto, González Prada[4], por exemplo, tornou-se uma referência incontornável para a formação teórico-política de Mariátegui.

Sendo assim, Leibner (1999) destaca que Mariátegui não inventou a ideia de um “socialismo indo-americano”, mas que sua contribuição-chave reside na formulação de uma proposta política radical de emancipação dos indígenas. Portanto, “a origem de sua criação marxista tão original (…) radica-se em suas fontes de inspiração peruanas, não menos que nas versões heterodoxas do marxismo que adotou na Europa” (Leibner, 1999: 42).

Em seu regresso da Europa, em 1923, Mariátegui empreendeu um esforço consciente e sistemático para acessar diversas fontes de informação, tanto escritas quanto orais, sobre a realidade andina. A partir da relação com autores indigenista, além da leitura de artigos sobre a “questão do índio” e de estudos históricos, sociais, econômicos, “Mariátegui foi se peruanizando” (Tible, 2020: 35).

Os Sete Ensaios

Entre 1925 e 1928, Mariátegui escreveu e publicou em jornais e revistas uma série de artigos sobre a realidade peruana, os quais posteriormente foram reunidos, reorganizados e ampliados. O resultado dessa compilação e reformulação foi publicado em novembro de 1928, com o título de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. É a partir desta obra que podemos localizar a formulações mais maduras de Mariátegui sobre a questão indígena.

Apesar de Mariátegui (2004) afirmar na Advertência que abre o livro que a obra não se constitui como um “livro orgânico”, podemos afirmar que os Sete Ensaios se apresentam como seu trabalho mais sistemático. Como salienta André Kaysel (2012), é possível observar, justamente pela ordem que os textos aparecem, uma estrutura interna que muito provavelmente foi previamente concebida. O autor peruano começa a obra com uma breve história econômica do Peru, seguindo com a questão indígena; a questão agrária; a educação; a religião; o problema regional e, por último, a literatura. Desta forma, “esse caminho é bastante coerente com o método do materialismo histórico, o qual parte das contradições na infraestrutura e segue para os domínios da superestrutura nos quais essas contradições se expressam e se complexificam” (Kaysel, 2012: 145).

Analisando o desenvolvimento desigual e combinado do Peru, Mariátegui (2004) afirma que a formação social de seu país era um amálgama de três “economias” (ou “modos de produção”): o socialismo ou comunismo primitivo, o feudalismo e o capitalismo (este último em fase de desenvolvimento). O socialismo ou comunismo primitivo sobrevivia nas comunidades rurais dos indígenas (o ayllú) do altiplano andino que havia sobrevivido à conquista e à colonização espanholas. Por outro lado, Mariátegui (2004) destaca que, legado pela colônia, o latifúndio feudal permaneceu e também se fortaleceu após o processo de independência a partir do seu entrelaçamento com a nascente economia capitalista. Esta, originada na costa, apoiava-se na exportação de produtos primários (minerais e agrícolas) e era dominada por capitais estrangeiros (britânicos em um primeiro momento e, posteriormente, norte-americanos).

Mariátegui (2004) demonstra que, mesmo com o desenvolvimento capitalista mais complexo do período imperialista – que envolve, sobretudo, a mineração e uma incipiente industrialização –, o regime burguês derivado da Revolução de independência peruana, por sua associação umbilical com o latifúndio, seria incapaz de alterar as relações sociais que excluíam o índio. Tendo em vista que o capitalismo é um sistema mundial, afirma que “a independência sul-americana apresenta-se ditada pelas necessidades do desenvolvimento da civilização ocidental ou, mais exatamente, capitalista” (Mariátegui, 2004: 6).

Portanto, para o nosso autor, a economia peruana de então matinha um caráter colonial: isto é, seus dinamismos eram ditados “de fora”, pelos interesses do capital financeiro internacional. O capitalismo, consolidado pela penetração do capital monopolista anglo-saxão, integrou-se e fortaleceu as relações “arcaicas” de produção, em vez de dissolvê-las. O legado colonial permanece como algo vivo e atuante no presente peruano. A “inorganicidade” da formação social do país andino aparece como resultado da permanência da herança da conquista. Sendo assim, na concepção de Mariátegui (2004), não apenas a economia nacional era dependente e desarticulada como também a cidadania era negada às massas populares. Nesse contexto, como constituir uma nação sem a integração econômica, política e social da maioria da população?

 Mariátegui começa o segundo dos sete ensaios afirmando que todas as teses que não consideram a questão indígena como um problema socioeconômico não passam de “estéreis exercícios teóricos condenados a total descrédito”. O escritor peruano advoga uma crítica que busque as raízes do problema do índio não nas determinações jurídicas, culturais ou morais, mas na estrutura econômica da sociedade peruana. Pois,

a questão indígena emerge de nossa economia. Suas raízes estão no regime de propriedade da terra. Qualquer tentativa de resolvê-la através de medidas administrativas ou policiais, através de métodos de ensino ou com obras de viação, constitui um trabalho superficial ou adjetivo, enquanto subsistir o método feudal dos “gamonales” (Mariátegui, 2004: 21).

 Os “Gamonales” eram essencialmente os latifundiários peruanos da região serrana que exploravam a força de trabalho do camponês local num regime de servidão – muito parecido com a forma feudal –, o que leva Mariátegui a caracterizar o fenômeno da pobreza camponesa como problema da “feudalidade” peruana (Galastri, 2017). Dessa forma, a marginalidade da massa quéchua só pode ser compreendida como resultado do regime de dominação social exercido pelos grandes proprietários rurais, em que o latifúndio e as relações de trabalho servil constituíam os pilares dessa configuração social.

 Na esteira desta argumentação, Mariátegui (2004) destaca que o regime de propriedade da terra condiciona o regime político de seu país. Ou seja, o problema agrário perpassa por todos os problemas do Peru, impedindo a formação e o funcionamento de qualquer instituição democrática e até mesmo liberal. Tendo em vista a relação de dominação e servidão as quais os povos indígenas estão submetidos, Mariátegui defende que não há como resolver o “problema do índio” sem extinguir o latifúndio.

Com base em uma visão materialista e dialética da realidade, o comunista peruano desloca a questão indígena de um viés culturalista, moralista e religioso para uma análise econômica e política. Sendo assim, “a solução do problema do índio tem de ser uma solução social. Os índios é que devem realizá-la” (Mariátegui, 2004: 31).

Portanto, para Mariátegui, seria necessário levar em consideração que a luta de classes – realidade primeira reconhecida pelo chamado “marxismo ocidental” – reveste-se de inevitáveis características especiais quando determinada fração da classe trabalhadora está sujeita a um processo de exclusão e “superexploração” devido à sua condição racial. Sendo assim,

O realismo de uma política revolucionária, segura e precisa, na avaliação e utilização dos fatos sobre os quais deve atuar nesses países em que a população indígena ou negra tem proporções e um papel importante, pode e deve converter o fato raça em um fator revolucionário. É imprescindível dar ao movimento do proletariado indígena ou negro, agrícola e industrial, um caráter claro de luta de classes (Mariátegui, 2021: 39).

***

Em abril de 2025, completaram-se 95 anos da morte de José Carlos Mariátegui. Pensar na atualidade de um autor que produziu, sobretudo, na década de 1920, não é tarefa fácil. No entanto, apesar do século que nos separa, as questões fundamentais suscitadas pelas “heresias” do revolucionário peruano continuam a nos interpelar no presente.

Em 1994, Florestan Fernandes publica o texto “Significado atual de José Carlos Mariátegui”, no Anuário Mariateguiano. Na ocasião, o sociólogo paulistano relembra a importância histórica do intelectual peruano e suas temáticas inovadoras. Segundo Florestan, os Sete ensaios enriqueceram o marxismo fora e acima dos eixos eurocêntricos. Nesse contexto, Mariátegui continuaria sendo

(…) o farol que ilumina dentro da pobreza e do atraso da América Latina, os limites intransponíveis da civilização capitalista e as exigências elementares da civilização sem barbárie, que as revoluções proletárias não lograram concretizar (Fernandes, 2015: 20).

José Carlos Mariátegui construiu, em suma, um pensamento crítico descolonizador, no qual a articulação entre raça e classe não é apenas um imperativo para a compreensão da realidade latino-americana, mas também um empreendimento fundamental para a construção de uma práxis radical de libertação dos povos oprimidos pela dominação colonial e imperialista. Ao analisar a sociedade peruana a partir da ótica das populações indígenas, Mariátegui compreende o racismo como um fator estruturante do capitalismo periférico, antecipando questões presentes nos chamados estudos pós-coloniais e decolonais.


Notas

[1] Expressão utilizada por Deni Rubbo e Leandro Galastri no texto de apresentação da 51ª edição da Revista Crítica Marxista (2020), em homenagem aos noventa anos da morte de Mariátegui.

[2] Víctor Raúl Haya de La Torre foi um político e intelectual peruano, fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA). Mariátegui rompe com o movimento em 1928, quando este decide se transformar em partido político de caráter reformista, disposto a agregar em suas fileiras as frações nacionalistas da burguesia peruana (Galastri, 2017).

[3] Túpac Amaru II, cujo nome verdadeiro era José Gabriel Condorcanqui, foi um líder indígena peruano que viveu no século XVIII. Ele liderou uma grande revolta contra o domínio colonial espanhol em 1780, conhecida como a Revolta de Túpac Amaru II. Seu movimento buscava pôr fim aos abusos dos colonizadores, especialmente à exploração dos povos indígenas. Apesar de ter sido capturado e executado em 1781, Túpac Amaru II tornou-se um símbolo de resistência e luta pela liberdade na América Latina.

[4] Nascido em Lima, em 1844, em uma família aristocrática da capital, Manuel González Prada atuou como líder intelectual e político dos grupos anarco-sindicalistas no início do século XX e foi considerado, pela geração intelectual de Mariátegui, o patriarca do radicalismo peruano.

Referências

ARICÓ. José. (1987). O marxismo Latino-americano nos anos da Terceira Internacional. In: HOBSBAWM, Eric (org.). História do marxismo; o marxismo na época da Terceira Internacional: o novo capitalismo, o imperialismo, o terceiro mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

DEVEZZA, Felipe. (2022). Mariátegui, González Prada e o indigenismo radical no Peru da década de 1920. Revista Tempo, v. 28, n. 2.

FERNANDES, Florestan. (2015). O significado atual de José Carlos Mariátegui. In: Mariátegui – Edição de homenagem das editoras Batalla de ideas (Argentina), Expressão Popular (Brasil) e Leftword Books (Índia).

GALASTRI, Leandro. (2017). A revolução russa no pensamento de José Carlos Mariátegui: uma leitura de Lênin. In: Anais do 41° Encontro Nacional da Anpocs, Caxambu- MG, p. 1-23.

KAYSEL, André. (2012). Dois encontros entre o marxismo e a América Latina. São Paulo: Hucitec.

LEIBNER, Gerardo. (1999). El mito del socialismo indígena. Fuentes y contextos peruanos de Mariátegui. Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Católica Perú.

LÖWY, Michael. (2011) Nem decalque, nem cópia: o marxismo romântico de José Carlos Mariátegui in: LÖWY, Michael (orgs.). Por um socialismo in-americano: ensiaos escolhidos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

MARIÁTEGUI, José Carlos. (2004). Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Prefácio Florestan Fernandes. São Paulo, Alfa-omega.

MARIÁTEGUI, José Carlos. (2021). El problema de las razas en la América Latina. In: MARTUSCELLI, Danilo & DA SILVA, Jair Batista. Racismo, etnia e lutas de classes no debate marxista (livro eletrônico). Chapecó: Coleção Marxismo21.

QUIJANO, Aníbal. (1982). Introducción a Mariátegui. México: Primeira edición em série popular Era.

RUBBO, Deni Alfaro. (2021). O labirinto periférico: aventuras de Mariátegui na América Latina. São Paulo: Autonomia Literária.

TILBE, Jean. (2021). Marx Selvagem. São Paulo: Autonomia Literária.