
Na nova rodada de postagens da Ocupação Mulheres, Ana Karla Canarinos (UERJ) analisa a obra de Flora Sussekind, uma das maiores críticas literárias brasileiras. Tomando como ponto de partida Tal Brasil, qual romance?, a autora mostra como Sussekind questiona o princípio da “identidade” e a permanência do naturalismo na tradição crítica nacional, tensionando modelos historiográficos consolidados. Segundo Canarinos, a originalidade de Sussekind reside na articulação entre marxismo e pós-estruturalismo, inaugurando com coragem uma mediação teórica singular no debate literário brasileiro.
Para saber mais sobre a quarta edição da Ocupação Mulheres, clique aqui. Outros textos já publicados podem ser conferidos aqui.
Boa leitura e continue acompanhando nossa intensa programação no final de semana!
Flora Sussekind e a teoria literária no Brasil
Por Ana Karla Canarinos (UERJ)
Flora Sussekind é uma das maiores críticas literárias brasileiras, cuja produção ainda não foi largamente estudada na universidade sob a perspectiva da metacrítica. Professora da Unirio desde 1985 e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) desde 1981, autora de inúmeras obras, artigos e ensaios – O negro como arlequim (1982), Tal Brasil, qual romance? (1984), Literatura e vida literária (1985), Cinematógrafo das letras (1987), O Brasil não é longe daqui (1990), Papéis colados (1993), Até segunda ordem não me risque nada (1995) e Coros, contrários, massa (2022) – Sussekind inaugura um modo de articulação crítica e teórica distinto do espírito polemista predominante nos anos 1960-1970. O debate em torno do lugar das ideias – travado entre Roberto Schwarz, Maria Sylvia de Carvalho Franco e Silviano Santiago – assim como a polêmica da teoria, ou mais especificamente do estruturalismo, cuja consequência foi uma forte oposição entre uma crítica literária marxista ou sociológica e uma crítica mais estrutural ou formalista, marcaram os anos 1970. Após o AI-5, críticos como Luiz Costa Lima, José Guilherme Merquior, Roberto Schwarz e Silviano Santiago são alguns exemplos importantes que marcaram uma espécie de “Fla-Flu” entre universidades paulistas e cariocas.
Em alguma medida, Flora Sussekind rompe com este formato crítico ao incorporar o pós-estruturalismo a uma certa leitura da crítica literária uspiana de Antonio Candido e Roberto Schwarz. Já no início da sua carreira, em Tal Brasil, qual romance?, a autora relaciona um arcabouço teórico marxista ao pós-estruturalismo, sobretudo o de Deleuze e Foucault, assim como dialoga abertamente com a crítica literária brasileira de Antonio Candido, Roberto Schwarz e Silviano Santiago. Andréa Catrópa da Silva, na tese “Itinerância crítica: o ensaísmo de Flora Sussekind” (2013), mapeia a relação de Sussekind tanto com o marxismo quanto com o pós-estruturalismo, delineando as mediações que ela realiza na leitura da permanência da estética naturalista na tradição literária brasileira. Tendo isso em vista, nossa hipótese para este texto é a de que a tese central de Tal Brasil, qual romance? a respeito da permanência do naturalismo na ficção nacional aponta para um problema não apenas crítico, mas também teórico. Isto é, ao discutir os conceitos de tradição, circularidade, repetição e crítica, a autora inaugura um diálogo original na crítica literária nacional entre marxismo e pós-estruturalismo.
O arco histórico de Tal Brasil, qual romance? parte das últimas décadas do século XIX, passa pelos anos 1930 e chega aos anos 1970. O principal incômodo crítico gira em torno da questão da “identidade”, cuja analogia é realizada com as relações familiares. “Paternidade, autoria e nacionalidade parecem ser, portanto, coisa que não se discute. São princípios a que se obedece com um pedido de benção […]. O patriarca costuma funcionar como princípio de identidade para a família” (Sussekind, 1984: 32). E quando há a fuga da identidade, ou “quando tal obra não corresponde a tal escritor e tal escritor, por sua vez, a tal tradição literária, não é mais a família, mas uma cultura nacional que se deixa invadir pela inquietação” (Sussekind, 1984: 33). Exemplos como O cortiço (1890), de Aluízio Azevedo, Cacau (1933), de Jorge Amado, e Infância dos Mortos (1977), de José Louzeiro são “três romances que parecem apontar para um significado que se situa fora deles, num contexto extraliterário. Negam-se enquanto ficção, enquanto linguagem, para ressaltar o seu caráter de documento, de espelho ou fotografias do Brasil. Do leitor exigem que os leia como se não se tratasse de ficção” (Sussekind, 1984: 37).
O argumento a respeito do princípio da identidade, cuja característica principal é o naturalismo, é elaborado a partir de dois pontos: 1) no problema da identidade entre obra e sociedade, ou seja, a constante fidelidade do texto literário com o documental, a paisagem, a realidade e o caráter nacional. Nas palavras de Sussekind (1984: 38): “não é o romanesco, o literário, o que importa, mas a possibilidade de tais narrativas retratarem com verdade e honestidade aspectos da realidade brasileira”. Ao mesmo tempo, e em alguma medida, consequência do primeiro ponto, 2) no problema da identidade entre a obra e a crítica, uma vez que tanto os críticos quanto os historiadores literários apresentam o modus operandi de taxar como “menor, texto circunstancial, desvio, qualquer texto que, de alguma forma, traga diferenças ou descontinuidades” entre a obra e a representação social. (Sussekind, 1984: 32-33). Sob este aspecto, para Sussekind, o documental pautado na busca incessante do nacional limitaria o papel do imaginário na ficção, e a crítica, por seu turno, endossaria o critério naturalista e nacionalista nas diversas narrativas historiográficas – de Silvio Romero a Antonio Candido – ao excluir experiências divergentes como Gregório de Matos, Sousândrade, Pedro Kilkerry e Qorpo Santo.
Em suma, podemos afirmar que, no primeiro caso, a identidade se configura enquanto um debate formal e estrutural do romance, considerando a relação entre forma e matéria local. No segundo aspecto, Flora realiza uma metacrítica ao legado de Antonio Candido em Formação da literatura brasileira, que, embora não esteja nomeado, tem sua interlocução evidente. Em trechos como “A construção de uma história literária, como a de uma árvore genealógica, se faz com o ocultamento das diferenças e descontinuidades” (Sussekind, 1984: 33) ou “uma literatura tem sua tradição equilibrada pela pedra das estátuas de seus ‘grandes’ escritores, pelas prateleiras de suas assépticas bibliotecas, pela filiação de uns a outros, pela enumeração de escolas diferentes que se sucedem ‘logicamente’, pela continuidade de um conjunto de obras e nomes que, sem ambiguidades, parecem repetir-se numa trajetória idêntica” (Sussekind, 1984: 34). Palavras-chave como “tradição equilibrada”, “continuidade de um conjunto de obras” e “árvore genealógica” remetem diretamente a conceitos e metáforas do autor da Formação. Entretanto, o duplo problema do princípio da identidade é construído em Tal Brasil, qual romance? sem escapar do pensamento dialético. Este é um primeiro aspecto importante de ser destacado: a crítica ao pensamento de Antonio Candido não implica necessariamente uma crítica à dialética.
Considerando que um dos principais traços do pós-estruturalismo francês é justamente a crítica, ou mesmo a recusa à dialética, a sua manutenção em Flora Sussekind é um dos traços que de alguma maneira a aproximaria do marxismo. Importantes teóricos pós-estruturalistas, como Foucault, Derrida, Lyotard, e principalmente Deleuze, cuja teoria intitulou como “anti-hegelianismo generalizado”, apontam a dialética como tributária de uma antropologia humanista, normativa e conservadora. Em poucas palavras, para estes teóricos, ela tem como diagnóstico o processo de anulação da diferença através de um giro falso do movimento e das transformações. Flora Sussekind, Em Tal Brasil, qual romance, a partir de suas próprias mediações, mostrará uma possibilidade de pensar dialeticamente o pós-estruturalismo francês em relação ao marxismo.
Ruy Fausto, em Sentido da dialética: lógica e política (2015), aponta que a dialética pressupõe simultaneamente o pensamento da supressão e da interversão. “Se o pensamento dialético é assim, por um lado, o pensamento que suprime para não cair na interversão, ele é igualmente o que, em outro nível, aceita a interversão, para não cristalizar como positivo o que contém o negativo” (Fausto, 2015: 88). A autora trata do problema da identidade e do primado da repetição do naturalismo na literatura brasileira a partir de Deleuze e Foucault, mas organizando a argumentação através de dualidades dialéticas que obedecem aos princípios da supressão e da interversão: labirinto/círculo, evolução/repetição, repetição conservadora/repetição diferencial. Conceitos como nacionalidade são negados e simultaneamente se deixam interverter no sentido contrário. Ou seja, a sua defesa como critério formal ao mesmo tempo que nega o elemento externo e estrangeiro, se converte na importação descabida de modelos e formas estrangeiras, cuja consequência é novamente a sua negação pela repetição não transformadora. Andréa Catrópa da Silva (2013: 68) observa como “Sussekind valoriza a virada dialética de Antonio Candido quando esta se transforma num ‘espaço de contradições capaz de abrigar múltiplas dissensões’ (Sussekind, 1993: 25)”. A visão do naturalismo de dois gumes também ressalta o método dialético em Tal Brasil, qual romance, ao afirmar que há o naturalismo capaz de romper com modelos estéticos, pautados num “salto dialético, uma ruptura contra-ideológica” (Sussekind, 1984: 93) e o que estaria pautado no compromisso ideológico com a nacionalidade, o qual seria de cunho conservador e, portanto, um “salto em trompe -l’oeil” (Sussekind, 1984: 93). O naturalismo que rompe seria aquele que não simplesmente importa a forma francesa, mas comporta-se de forma assimétrica, labiríntica e “dialeticamente ameaçaria a própria ideologia estética naturalista que lhes serve de base” (Sussekind, 1984: 93).
No subcapítulo “A estética naturalista e suas transformações”, a autora afirma que Marx, na Ideologia Alemã, chamou “a atenção por diversas vezes para as transformações por que passam necessariamente as ‘ideias’ quando transferidas de um contexto intelectual a outro” (Sussekind, 1984: 48). Na crítica literária brasileira, “De José Veríssimo e Sílvio Romero no século XIX ao recente José Guilherme Merquior, o que mais se repete são as acusações de ‘plágio’, ‘atraso’ ou ‘moda estrangeira’” (Sussekind, 1984: 49). A importação nem sempre implica repetição, assim como preconizar pela nacionalidade não pressupõe que a ausência da influência externa.
É bem possível que já a primeira transformação por que passa a estética naturalista no sistema intelectual brasileiro esteja na maneira como se integra às necessidades ideológicas do país. A passagem do “influxo externo” a elemento característico da cultura brasileira é, sem dúvida, sua primeira rearticulação, já analisada, no contexto do liberalismo por Roberto Schwarz. […] “Ideológica” talvez já seja, inclusive, a própria entrada do Naturalismo no país, caracterizada pela mesma “gravitação” de que falava Roberto Schwarz. (Sussekind, 1984: 50).
Flora Sussekind detecta uma questão insolúvel, que, em alguma medida, pode ser lida como complementar à das “ideias fora do lugar”: isto é, como resolver a contradição entre a repulsa à cópia do estrangeiro – ou às importações – e a exigência naturalista – portanto, importada – da cópia da realidade? Como justificar o horror das modas importadas constantemente e a permanência da ideologia naturalista (importada), na literatura e crítica brasileira? Pela leitura breve que ela faz de Marx, a importação enquanto fator sine qua non não é o problema. Na verdade, a questão, para ela, está na permanência do naturalismo que, de tão arraigado, pode ser lido como uma característica ideológica que formou, inclusive, uma tradição e uma norma. Importar o naturalismo em si não é a questão, mas ele tornar-se um paradigma ideológico cuja força determina o que deve e o que não deve ser lido. A ideologia naturalista seria o que uniria literatura brasileira e crítica literária. Ao analisar a recepção do naturalismo na historiografia de José Veríssimo, Flora elucida melhor a contradição:
Enquanto escola, o critica como mais uma importação dentre inúmeras que marcam a nossa vida intelectual; enquanto estética peculiar, chega a elogiar alguns dos lastros que deixa na ficção brasileira. Condenável enquanto “ideia importada”, chama a atenção, contudo, para alguns dos seus “bons serviços prestados” (Sussekind, 1984: 51).
De acordo com Veríssimo, enquanto uma escola, a importação do naturalismo era problemática, mas haveria um aspecto positivo, ou seja, a necessidade de representação da realidade seria o maior ganho que o naturalismo nos teria deixado de herança. Algo que, de acordo com Flora Sussekind, não foi questionado nem pelos autores, tampouco pela crítica. Portanto, até aqui, podemos afirmar que se a relação do “tal pai, tal filho” critica indiretamente o modelo historiográfico de Antonio Candido, o naturalismo, enquanto elemento externo que responde às necessidades ideológicas do país, aproxima Flora Sussekind de Roberto Schwarz. Uma aproximação, inclusive, declarada pela própria autora.
No subcapítulo “A história: evolução ou repetição?”, Sussekind critica a visão histórica pautada no evolucionismo, algo que ela relaciona à necessidade da identidade nacional: “entre evolução e repetição histórica, a preferência recai na primeira porque não há assim ameaças à identidade nacional” (Sussekind, 1984: 63). Em seguida, Flora recorre ao pensamento de Deleuze, em Diferença e repetição, e destaca que uma das forças da repetição está justamente na capacidade que ela tem de tornar evidentes as forças que agem para garantir a representação da identidade. Mais adiante, ela explica que a diferença entre os conceitos de repetição e identidade estaria na substituição da ideia da imagem do círculo pela do labirinto.
A repetição como labirinto é também elucidada por Foucault, no texto “Theatrum Philosoficum” para apontar a recusa em conceber a história como uma continuidade progressista. Nas palavras de Flora: “Repetição não exclui transformação, revolução” (Sussekind, 1984: 64). Neste ponto, ela traça um paralelo entre o marxismo de A ideologia alemã, e o pós-estruturalismo de Diferença e Repetição. A não recusa da história seria o elo entre Marx e Deleuze, cujas obras preconizam que a repetição traria dentro de si a diferença, a ruptura e a transformação.
Transformação e recorrência combinam-se para dar sentido à palavra “revolução”. E, não apenas ao termo, como às transformações de fato, não falta a ideia de uma repetição histórica. Sobre a História se poderia dizer coisa semelhante à que afirma Deleuze a respeito da experiência psicanalítica: “Toda cura é uma viagem ao fundo da repetição”. Talvez toda mudança social também seja uma viagem ao fundo da repetição.
Por um lado, a repetição pode possuir inequívoco caráter conservador. Sobretudo quando a ela se acha associado um desejo de cópia a um modelo anterior que se tenta ansiosamente repetir. Ou quando se tenta, por meio dela, estabelecer continuidades históricas pela homogeneidade. É esse traço conservador que permite a percepção do caráter ideológico de que se reveste a estética naturalista. Nela se procura estabelecer, não só a continuidade na história literária, que se constituiria num amálgama progressivo de repetições naturalistas até uma reduplicação cada vez mais fiel, mais fotográfica da nacionalidade (Sussekind, 1984: 65).
Sob este aspecto, Flora Sussekind recupera os conceitos de repetição e diferença, em Deleuze, para analisar o par dialético: repetição conservadora e repetição diferencial, destacando como a “ideologia naturalista” – uma expressão que ela relaciona com a “ideologia de 2 grau” ou “comédia ideológica” na caracterização do realismo no século XIX de Roberto Schwarz, em “ As ideias fora do lugar” – funciona como uma repetição conservadora, ao contrário da repetição diferencial, cujo conceito estaria vinculado a Deleuze e Foucault, que defendem a repetição enquanto diferença. É como se a autora lesse a contrapelo tanto o pós-estruturalismo quanto o marxismo, apontando pontos em comum que servem para a elaboração de seu argumento em Tal Brasil, qual romance?.
Com efeito, a autora propõe uma mediação em teorias que até então não eram relacionadas. Da mesma forma, Flora Sussekind reformula o “tal pai, tal filho” entre Antonio Candido e Roberto Schwarz, destacando seus pontos em comum com a produção de Schwarz, e questionando o modelo historiográfico de Antonio Candido. E a forma crítica que Flora Sussekind escolhe para realizar sua empreitada é através da coragem de relacionar marxismo e pós-estruturalismo, algo ainda raro na crítica literária nacional.
Referências
CANDIDO, Antonio. (2012). Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.
FAUSTO, Ruy. (2015). Sentido da dialética: (Marx: lógica e política). Rio de Janeiro: Vozes.
SCHWARZ, Roberto. (2012). Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades.
SÜSSEKIND, Flora. (1984). Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé.
Sobre a autora
Ana Karla Canarinos é professora de Literatura brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde desenvolve pesquisa em teoria literária e literatura brasileira. Atualmente coordena o projeto Regionalismos e ensino de literatura brasileira.
En la nueva ronda de publicaciones de la Ocupación Mujeres, Ana Karla Canarinos (UERJ) analiza la obra de Flora Sussekind, una de las mayores críticas literarias brasileñas. Tomando como punto de partida Tal Brasil, ¿cuál novela?, la autora muestra cómo Sussekind cuestiona el principio de la “identidad” y la permanencia del naturalismo en la tradición crítica nacional, tensionando modelos historiográficos consolidados. Según Canarinos, la originalidad de Sussekind reside en la articulación entre marxismo y posestructuralismo, inaugurando con valentía una mediación teórica singular en el debate literario brasileño.
Para saber más sobre la cuarta edición de la Ocupación Mujeres, haga clic aquí. Otros textos ya publicados pueden consultarse aquí.
¡Buena lectura y sigan acompañando nuestra intensa programación durante el fin de semana!
Flora Sussekind y la teoría literaria en Brasil
Por Ana Karla Canarinos (UERJ)
Flora Sussekind es una de las mayores críticas literarias brasileñas, cuya producción aún no ha sido ampliamente estudiada en la universidad desde una perspectiva metacrítica. Profesora de la Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) desde 1985 e investigadora de la Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) desde 1981, autora de numerosas obras, artículos y ensayos – O negro como arlequim (1982), Tal Brasil, qual romance? (1984), Literatura e vida literária (1985), Cinematógrafo das letras (1987), O Brasil não é longe daqui (1990), Papéis colados (1993), Até segunda ordem não me risque nada (1995) e Coros, contrários, massa (2022) –, Sussekind inaugura un modo de articulación crítica y teórica distinto del espíritu polemista predominante en los años 1960-1970.
El debate en torno al lugar de las ideas –entablado entre Roberto Schwarz, Maria Sylvia de Carvalho Franco y Silviano Santiago–, así como la polémica de la teoría, o más específicamente del estructuralismo, cuya consecuencia fue una fuerte oposición entre una crítica literaria marxista o sociológica y una crítica más estructural o formalista, marcaron los años 1970. Tras el AI-5, críticos como Luiz Costa Lima, José Guilherme Merquior, Roberto Schwarz y Silviano Santiago son algunos ejemplos importantes que configuraron una suerte de “Fla-Flu” entre universidades paulistas y cariocas.
En cierta medida, Flora Sussekind rompe con este formato crítico al incorporar el posestructuralismo a una determinada lectura de la crítica literaria uspiana de Antonio Candido y Roberto Schwarz. Ya al inicio de su carrera, en Tal Brasil, qual romance?, la autora articula un andamiaje teórico marxista con el posestructuralismo –especialmente el de Deleuze y Foucault–, al tiempo que dialoga abiertamente con la crítica literaria brasileña de Antonio Candido, Roberto Schwarz y Silviano Santiago. Andréa Catrópa da Silva, en la tesis Itinerância crítica: o ensaísmo de Flora Sussekind (2013), mapea la relación de Sussekind tanto con el marxismo como con el posestructuralismo, delineando las mediaciones que realiza en la lectura de la permanencia de la estética naturalista en la tradición literaria brasileña.
En vista de ello, nuestra hipótesis en este texto es que la tesis central de Tal Brasil, qual romance? acerca de la permanencia del naturalismo en la ficción nacional apunta a un problema no solo crítico, sino también teórico. Es decir, al discutir los conceptos de tradición, circularidad, repetición y crítica, la autora inaugura un diálogo original en la crítica literaria nacional entre marxismo y posestructuralismo.
El arco histórico de Tal Brasil, qual romance? parte de las últimas décadas del siglo XIX, pasa por los años 1930 y llega hasta los años 1970. El principal malestar crítico gira en torno a la cuestión de la “identidad”, cuya analogía se establece con las relaciones familiares. “Paternidad, autoría y nacionalidad parecen ser, por lo tanto, cosas que no se discuten. Son principios a los que se obedece con un pedido de bendición […]. El patriarca suele funcionar como principio de identidad para la familia” (Sussekind, 1984: 32). Y cuando hay una fuga de la identidad, o “cuando tal obra no corresponde a tal escritor y tal escritor, a su vez, a tal tradición literaria, ya no es la familia, sino una cultura nacional la que se deja invadir por la inquietud” (Sussekind, 1984: 33).
Ejemplos como O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, Cacau (1933), de Jorge Amado, e Infância dos Mortos (1977), de José Louzeiro, son “tres novelas que parecen apuntar hacia un significado que se sitúa fuera de ellas, en un contexto extraliterario. Se niegan en tanto ficción, en tanto lenguaje, para resaltar su carácter de documento, de espejo o de fotografías de Brasil. Exigen del lector que las lea como si no se tratara de ficción” (Sussekind, 1984: 37).
El argumento acerca del principio de la identidad, cuya característica principal es el naturalismo, se elabora a partir de dos puntos: 1) el problema de la identidad entre obra y sociedad, es decir, la constante fidelidad del texto literario a lo documental, al paisaje, a la realidad y al carácter nacional. En palabras de Sussekind (1984: 38): “no es lo novelesco, lo literario, lo que importa, sino la posibilidad de que tales narrativas retraten con verdad y honestidad aspectos de la realidad brasileña”. Al mismo tiempo, y en cierta medida como consecuencia del primer punto, 2) el problema de la identidad entre la obra y la crítica, ya que tanto los críticos como los historiadores literarios presentan el modus operandi de calificar como “menor, texto circunstancial, desvío, cualquier texto que, de alguna forma, traiga diferencias o discontinuidades” entre la obra y la representación social (Sussekind, 1984: 32-33).
Desde esta perspectiva, para Sussekind, lo documental, guiado por la búsqueda incesante de lo nacional, limitaría el papel de lo imaginario en la ficción, y la crítica, por su parte, respaldaría el criterio naturalista y nacionalista en las diversas narrativas historiográficas –de Sílvio Romero a Antonio Candido– al excluir experiencias divergentes como Gregório de Matos, Sousândrade, Pedro Kilkerry y Qorpo Santo.
En suma, podemos afirmar que, en el primer caso, la identidad se configura como un debate formal y estructural de la novela, considerando la relación entre forma y materia local. En el segundo aspecto, Flora realiza una metacrítica al legado de Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, que aunque no esté explícitamente nombrado, la interlocución resulta evidente. En pasajes como “La construcción de una historia literaria, como la de un árbol genealógico, se hace con el ocultamiento de las diferencias y discontinuidades” (Sussekind, 1984: 33) o “una literatura tiene su tradición equilibrada por la piedra de las estatuas de sus ‘grandes’ escritores, por los estantes de sus asépticas bibliotecas, por la filiación de unos a otros, por la enumeración de escuelas diferentes que se suceden ‘lógicamente’, por la continuidad de un conjunto de obras y nombres que, sin ambigüedades, parecen repetirse en una trayectoria idéntica” (Sussekind, 1984: 34). Palabras clave como “tradición equilibrada”, “continuidad de un conjunto de obras” y “árbol genealógico” remiten directamente a conceptos y metáforas del autor de Formação. Sin embargo, el doble problema del principio de la identidad se construye en Tal Brasil, qual romance? sin escapar al pensamiento dialéctico. Este es un primer aspecto importante a destacar: la crítica al pensamiento de Antonio Candido no implica necesariamente una crítica a la dialéctica.
Considerando que uno de los principales rasgos del posestructuralismo francés es precisamente la crítica, o incluso el rechazo, de la dialéctica, su mantenimiento en Flora Sussekind es uno de los rasgos que, de algún modo, la aproximan al marxismo. Teóricos posestructuralistas relevantes como Foucault, Derrida, Lyotard y, especialmente, Deleuze –cuya teoría se autodenominó “antihegelianismo generalizado”– señalan la dialéctica como tributaria de una antropología humanista, normativa y conservadora. En pocas palabras, para estos teóricos, su diagnóstico implicaría la anulación de la diferencia mediante un giro falso del movimiento y las transformaciones. Flora Sussekind, en Tal Brasil, qual romance?, a partir de sus propias mediaciones, mostrará una posibilidad de pensar dialécticamente el posestructuralismo francés en relación con el marxismo.
Ruy Fausto, en Sentido da dialética: lógica e política (2015), sostiene que la dialéctica presupone simultáneamente el pensamiento de la supresión y de la inversión. “Si el pensamiento dialéctico es así, por un lado, el pensamiento que suprime para no caer en la inversión, es igualmente el que, en otro nivel, acepta la inversión, para no cristalizar como positivo lo que contiene lo negativo” (Fausto, 2015: 88). La autora aborda el problema de la identidad y el primado de la repetición del naturalismo en la literatura brasileña a partir de Deleuze y Foucault, pero organizando la argumentación mediante dualidades dialécticas que obedecen a los principios de supresión e inversión: laberinto/círculo, evolución/repetición, repetición conservadora/repetición diferencial.
Conceptos como nacionalidad son negados y simultáneamente se dejan invertir en sentido contrario. Es decir, su defensa como criterio formal, al mismo tiempo que niega el elemento externo y extranjero, se convierte en una importación indebida de modelos y formas extranjeras, cuya consecuencia es nuevamente su negación por la repetición no transformadora. Andréa Catrópa da Silva (2013: 68) observa cómo “Sussekind valoriza el giro dialéctico de Antonio Candido cuando este se transforma en un ‘espacio de contradicciones capaz de albergar múltiples disensiones’” (Sussekind, 1993: 25).
La visión del naturalismo como arma de doble filo también subraya el método dialéctico en Tal Brasil, qual romance?, al afirmar que existe un naturalismo capaz de romper con modelos estéticos, basado en un “salto dialéctico, una ruptura contraideológica” (Sussekind, 1984: 93), y otro guiado por el compromiso ideológico con la nacionalidad, de carácter conservador y, por lo tanto, un “salto en trompe-l’oeil” (Sussekind, 1984: 93). El naturalismo que rompe sería aquel que no simplemente importa la forma francesa, sino que se comporta de manera asimétrica, laberíntica y “dialécticamente amenazaría la propia ideología estética naturalista que le sirve de base” (Sussekind, 1984: 93).
En el subcapítulo “A história: evolução ou repetição”, la autora afirma que Marx, en La ideología alemana, llamó “la atención en diversas ocasiones sobre las transformaciones que necesariamente atraviesan las ‘ideas’ cuando son transferidas de un contexto intelectual a otro” (Sussekind, 1984: 48). En la crítica literaria brasileña, “De José Veríssimo y Sílvio Romero en el siglo XIX al reciente José Guilherme Merquior, lo que más se repite son las acusaciones de ‘plagio’, ‘atraso’ o ‘moda extranjera’” (Sussekind, 1984: 49). La importación no siempre implica repetición, así como propugnar la nacionalidad no presupone la ausencia de influencia externa.
Es muy posible que ya la primera transformación por la que pasa la estética naturalista en el sistema intelectual brasileño resida en la manera en que se integra a las necesidades ideológicas del país. El pasaje del “influjo externo” a elemento característico de la cultura brasileña es, sin duda, su primera rearticulación, ya analizada, en el contexto del liberalismo, por Roberto Schwarz. […] “Ideológica” tal vez sea, incluso, la propia entrada del Naturalismo en el país, caracterizada por la misma “gravitación” de la que hablaba Roberto Schwarz (Sussekind, 1984: 50).
Flora Sussekind detecta una cuestión insoluble que, en cierta medida, puede leerse como complementaria a la de las “ideas fuera de lugar”: es decir, ¿cómo resolver la contradicción entre la repulsión a la copia de lo extranjero –o a las importaciones– y la exigencia naturalista –por lo tanto, importada– de la copia de la realidad? ¿Cómo justificar el horror ante las modas importadas y, al mismo tiempo, la permanencia de la ideología naturalista (importada) en la literatura y la crítica brasileñas? Según la breve lectura que ella realiza de Marx, la importación en cuanto factor sine qua non no es el problema. En realidad, para ella, la cuestión radica en la permanencia del naturalismo que, de tan arraigado, puede leerse como una característica ideológica que ha formado incluso una tradición y una norma. Importar el naturalismo en sí no es la cuestión, sino su conversión en un paradigma ideológico cuya fuerza determina qué debe y qué no debe leerse. La ideología naturalista sería lo que uniría literatura brasileña y crítica literaria.
Al analizar la recepción del naturalismo en la historiografía de José Veríssimo, Flora esclarece mejor la contradicción:
Mientras que como escuela lo critica como una importación más entre tantas que marcan nuestra vida intelectual, como estética peculiar llega a elogiar algunos de los lastres que deja en la ficción brasileña. Condenable en tanto “idea importada”, llama la atención, sin embargo, sobre algunos de sus “buenos servicios prestados” (Sussekind, 1984: 51).
De acuerdo con Veríssimo, como escuela la importación del naturalismo era problemática, pero habría un aspecto positivo: la necesidad de representación de la realidad sería la mayor herencia que el naturalismo nos habría dejado. Algo que, según Flora Sussekind, no fue cuestionado ni por los autores ni por la crítica.
Por lo tanto, hasta aquí podemos afirmar que si la relación del “tal padre, tal hijo” critica indirectamente el modelo historiográfico de Antonio Candido, el naturalismo, en tanto elemento externo que responde a las necesidades ideológicas del país, aproxima a Flora Sussekind a Roberto Schwarz –una aproximación, incluso, declarada por la propia autora.
En el subcapítulo “A história: evolução ou repetição?”, Sussekind critica la visión histórica basada en el evolucionismo, algo que ella vincula a la necesidad de la identidad nacional: “entre evolución y repetición histórica, la preferencia recae en la primera porque así no hay amenazas a la identidad nacional” (Sussekind, 1984: 63). A continuación, Flora recurre al pensamiento de Deleuze, en Diferencia y repetición, y destaca que una de las fuerzas de la repetición reside precisamente en su capacidad para hacer visibles las fuerzas que actúan a fin de garantizar la representación de la identidad. Más adelante, explica que la diferencia entre los conceptos de repetición e identidad radicaría en la sustitución de la imagen del círculo por la del laberinto.
La repetición como laberinto también es elucidada por Foucault, en el texto “Theatrum Philosophicum”, para señalar la negativa a concebir la historia como una continuidad progresista. En palabras de Flora: “La repetición no excluye transformación, revolución” (Sussekind, 1984: 64). En este punto, ella traza un paralelo entre el marxismo de La ideología alemana y el posestructuralismo de Diferencia y repetición. La no renuncia a la historia sería el vínculo entre Marx y Deleuze, cuyas obras sostienen que la repetición lleva en sí misma la diferencia, la ruptura y la transformación.
Transformación y recurrencia se combinan para dar sentido a la palabra “revolución”. Y no solo al término, sino también a las transformaciones efectivas, no les falta la idea de una repetición histórica. Sobre la Historia podría decirse algo semejante a lo que afirma Deleuze respecto de la experiencia psicoanalítica: “Toda cura es un viaje al fondo de la repetición”. Tal vez todo cambio social también sea un viaje al fondo de la repetición.
Por un lado, la repetición puede poseer un carácter inequívocamente conservador, sobre todo cuando a ella se asocia un deseo de copia de un modelo anterior que se intenta repetir ansiosamente. O cuando, por medio de ella, se procura establecer continuidades históricas por la homogeneidad. Es este rasgo conservador el que permite percibir el carácter ideológico de que se reviste la estética naturalista. En ella se intenta establecer no solo la continuidad en la historia literaria –que se constituiría en una amalgama progresiva de repeticiones naturalistas hasta una reduplicación cada vez más fiel, más fotográfica, de la nacionalidad– (Sussekind, 1984: 65).
En este aspecto, Flora Sussekind retoma los conceptos de repetición y diferencia, en Deleuze, para analizar el par dialéctico repetición conservadora/repetición diferencial, destacando cómo la “ideología naturalista” –expresión que ella relaciona con la “ideología de segundo grado” o “comedia ideológica” en la caracterización del realismo del siglo XIX realizada por Roberto Schwarz en “Las ideas fuera de lugar” – funciona como repetición conservadora, en contraste con la repetición diferencial, cuyo concepto estaría vinculado a Deleuze y Foucault, quienes defienden la repetición en tanto diferencia.
Es como si la autora leyera a contrapelo tanto el posestructuralismo como el marxismo, señalando puntos en común que sirven para la elaboración de su argumento en Tal Brasil, qual romance?. En efecto, propone una mediación entre teorías que hasta entonces no se relacionaban. Del mismo modo, Flora Sussekind reformula el “tal padre, tal hijo” entre Antonio Candido y Roberto Schwarz, destacando sus puntos en común con la producción de Schwarz y cuestionando el modelo historiográfico de Antonio Candido. Y la forma crítica que Flora Sussekind elige para llevar a cabo su empresa es la valentía de articular marxismo y posestructuralismo, algo todavía poco frecuente en la crítica literaria nacional.
Referencias
CANDIDO, Antonio. (2012). Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.
FAUSTO, Ruy. (2015). Sentido da dialética: (Marx: lógica e política). Rio de Janeiro: Vozes.
SCHWARZ, Roberto. (2012). Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades.
SÜSSEKIND, Flora. (1984). Tal Brasil, qual romance? Rio de Janeiro: Achiamé.
Sobre la autora
Ana Karla Canarinos es profesora de Literatura Brasileña en la Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), donde desarrolla investigaciones en teoría literaria y literatura brasileña. Actualmente coordina el proyecto Regionalismos y enseñanza de la literatura brasileña.
