Ocupação Mulheres 2026 | Coluna Primeiros Escritos | Depois da tragédia: Ramona Ferreira e a construção de uma voz própria, por Alma Monges

Neste segundo dia da Ocupação Mulheres, publicamos na Coluna Primeiros Escritos texto de Alma Monges, doutoranda em Sociologia na Unicamp, sobre a trajetória de Ramona Ferreira, jornalista e escritora paraguaia que fez da palavra impressa uma forma ativa de intervenção no espaço público. Ao acompanhar sua atuação na imprensa, a fundação do periódico La Voz del Siglo, seu anticlericalismo radical e seu posterior exílio em Buenos Aires, a autora argumenta que ocupar a escrita foi, para Ramona, um gesto intelectual e político de alto risco. Entre educação, livre-pensamento e feminismo em chave transnacional, sua trajetória revela tanto o custo quanto a potência de construir uma voz própria em uma sociedade marcada por profundas assimetrias de gênero.

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Depois da tragédia: Ramona Ferreira e a construção de uma voz própria

Por Alma Monges (PPGS/Unicamp)

Em 1870, o Paraguai emergia da Guerra da Tríplice Aliança como um país devastado. A devastação não foi apenas material, mas também demográfica e simbólica. A drástica redução da população, especialmente masculina, alterou profundamente a estrutura social e condicionou as formas pelas quais a nação começou a narrar a si mesma. Durante décadas, a guerra funcionou como matriz interpretativa da experiência coletiva.

Um século mais tarde, o literato paraguaio Augusto Roa Bastos sintetizou essa condição na célebre imagem de uma “ilha rodeada de terra”, metáfora que aludia ao recolhimento histórico e à persistente sensação de excepcionalidade e isolamento, atravessada pela convivência e pela tensão entre o guarani e o espanhol. Essa representação consolidou a ideia de um país marcado pela perda e por uma memória reduzida a emblemas.

Diante dessa imagem de clausura, este ensaio propõe atravessar a ilha a partir de suas próprias vozes, restituindo densidade a uma história que não se esgota no trauma. Nesse percurso inscreve-se a figura de Ramona Ferreira, nascida entre 1875 e 1877 no departamento de Concepción, integrante da geração que cresceu entre as ruínas da pós-guerra. Jornalista, escritora e livre-pensadora, sua trajetória encarna uma forma ativa de intervir no Paraguai em reconstrução. Por meio de sua palavra e de sua ação pública, não apenas questionou os limites de seu tempo, como também contribuiu para ampliá-los.

A guerra produziu uma catástrofe demográfica que alterou profundamente a estrutura social paraguaia. Como adverte Barbara Potthast (2011) em ¿País de mujeres o paraíso de Mahoma? – obra fundamental para o estudo das mulheres nesse período –, de uma população estimada entre 450.000 e 500.000 habitantes antes do conflito, o país teria ficado reduzido a pouco mais de 230.000, com acentuada desproporção entre os sexos. Em algumas regiões, a proporção chegava a um homem para cada três mulheres e, por vezes, a cinco.

Embora esses dados pudessem sugerir que a desproporção demográfica teria favorecido uma maior ampliação de direitos ou representatividade política para as mulheres, ocorreu o contrário. Como sustenta a historiadora, a combinação entre a profunda escassez masculina no pós-guerra, as concepções tradicionais sobre o papel feminino e a persistente centralidade do militar na vida política reforçou posições masculinas autoritárias e consolidou formas específicas de machismo. Configurou-se, assim, uma tensão duradoura entre uma presença feminina decisiva na vida cotidiana e uma estrutura de poder profundamente masculina.

Esse paradoxo não foi um traço abstrato da ordem social, mas o marco concreto no qual cresceram as meninas do pós-guerra. Nesse entrelaçamento entre centralidade feminina na vida material e exclusão do poder político, moldaram-se experiências, expectativas e limites geracionais. Nesse contexto, o acesso à educação tornou-se um marco fundamental, tanto na experiência como alunas quanto no exercício do magistério: muitas mulheres encontraram ali uma das principais vias de ingresso na vida pública.

O historiador paraguaio David Velázquez (2015) assinala que a transformação do papel feminino no Paraguai do pós-guerra, especialmente a partir de sua incorporação ao magistério, respondeu, em primeiro lugar, às desigualdades demográficas herdadas do conflito. A drástica redução da população masculina obrigou a integrar as mulheres em espaços previamente reservados aos homens, inclusive os educacionais, que antes eram quase exclusivamente masculinos.

Nesse contexto, o acesso à educação converteu-se em via central de ingresso na vida pública. Segundo David Velázquez (2015), a incorporação feminina ao magistério respondeu a essas desigualdades demográficas, ainda que sob uma lógica que não questionava a ordem tradicional, uma vez que ensinar era apresentado como extensão da maternidade. Como assinala Asunción Lavrin (1985: 12) para o caso latino-americano – cuja reflexão se mostra aplicável ao Paraguai –, a educação feminina foi concebida como serviço à pátria, mas também favoreceu, em certos casos, o desenvolvimento de uma consciência que derivaria em militância feminista.

Nessa mesma linha, é pertinente recuperar o que destacam Eleni Varikas e Michèle Riot-Sarcey (1985: 445), que, em diálogo com outros estudos sobre o século XIX, sustentam que o acesso à educação incorporou as mulheres a um novo sistema de ideias e valores. Esse ingresso não apenas ampliou seus conhecimentos, mas tornou possível a comparação com os homens e abriu instâncias de reflexão crítica sobre sua própria posição na sociedade.

A aquisição da escrita, em particular, ultrapassou a mera alfabetização. Significou a possibilidade concreta de intervir no espaço público e reivindicar o direito à palavra. Nessa transição da sala de aula à palavra impressa começou a formar-se uma consciência que logo ultrapassaria os limites inicialmente atribuídos à educação feminina. É nesse processo que se pode situar a emergência de uma figura como Ramona.

De seus primeiros anos sabemos pouco. O primeiro registro de que dispomos data de 1893, quando seu nome aparece pela primeira vez nos livros da Escuela Graduada de Niñas de Asunción, em planilhas de notas correspondentes ao quarto e ao sexto ano. Em ambas, figura como aluna distinguida, o que revela não apenas desempenho destacado, mas também que havia migrado para a capital ainda na adolescência.

Embora a mudança do interior para Assunção não fosse incomum, vista sob uma perspectiva de gênero e de classe adquire maior significado. Em uma época em que as viagens se associavam ao universo masculino e as mulheres ao âmbito doméstico, que uma jovem, dispondo dos recursos materiais e simbólicos necessários, se mudasse para a capital para estudar supunha não apenas ampliar os limites impostos a seu gênero, mas também evidenciar que tais possibilidades não estavam igualmente disponíveis para todas.

Em 1896 seu nome reaparece em uma nota assinada junto a colegas de turma, na qual exigiam a abertura da Escuela Normal de Niñas, cuja verba havia sido prevista, mas depois postergada em favor da instituição masculina. A reivindicação era direta e politicamente lúcida: “la mujer tiene tanto derecho a la consideración de los poderes públicos como los varones” (López Moreira, 2011: 86-87). Ali já se delineia não apenas a estudante aplicada, mas uma jovem inserida em um movimento mais amplo de estudantes capazes de traduzir sua experiência educativa em demanda pública.

O que parecia encaminhar-se para um destino quase predeterminado, que seria o magistério, interrompe-se em pouco tempo. No início do século XX, Ramona orienta sua trajetória para a escrita. Publica em diferentes jornais de Assunção, como La Opinión, El Pueblo e El Cívico (El Porvenir, 21 de dezembro de 1904). Embora o veículo com o qual manteve colaboração mais estreita tenha sido El Porvenir, um dos periódicos ativos da época, dirigido pela família Trujillo, reconhecida na cena cultural da capital por sua crítica à política paraguaia.

O número de mulheres que publicavam regularmente na imprensa paraguaia do início do século XX podia contar-se nos dedos de uma mão. Escrever ainda não era um gesto neutro, e menos ainda fazê-lo com nome próprio, o que, por si só, a destaca. Como colunista, Ramona Ferreira publicou ao menos sete artigos – segundo o que foi possível localizar nos arquivos –, mas sua intervenção foi além dessa participação pontual.

Impulsionou a seção “El Feminil”, que apareceu ao menos em doze ocasiões e constituiu um espaço redigido exclusivamente por mulheres, entre elas colegas normalistas. Tratou-se de uma das primeiras seções dirigidas e escritas por mulheres na imprensa paraguaia. Ali permaneceu até 1902, ano em que fundou seu próprio periódico, La Voz del Siglo, semanário de quatro páginas que se definia como livre-pensador e adotava uma orientação crítica e anticlerical.

Até então, eram pouquíssimas as mulheres que haviam dirigido uma empresa jornalística na região – mesmo considerando experiências no Brasil, na Argentina ou no Chile –, o que torna ainda mais significativa sua iniciativa no contexto paraguaio. Como assinala a historiadora Ana Barreto, especialista em história das mulheres no país, o fato de Ferreira possuir formação tipográfica foi decisivo, pois não apenas escrevia, mas dominava o processo material de produção do jornal.

Nas páginas de La Voz delineava-se um programa ideológico centrado em um anticlericalismo estrutural voltado contra a Igreja como instituição de poder. Questionavam-se a infalibilidade papal, a Inquisição, o episcopado, os jesuítas, a educação religiosa e a ingerência eclesiástica no Estado, ao mesmo tempo em que se denunciava o lugar subordinado das mulheres na ordem clerical e seu papel como reprodutoras da religião no âmbito doméstico (Schvartzman Muñoz et al., 2022).

Essas posições articulavam-se a um laicismo radical que defendia a separação entre Igreja e Estado, a escola laica e a autonomia da razão frente ao dogma. As referências a Giordano Bruno, Émile Zola e Giuseppe Garibaldi, assim como a redes do livre-pensamento, evidenciam sua inscrição em circuitos transnacionais vinculados ao racionalismo e ao anarquismo, bem como sua articulação com a questão social – crítica à burguesia e defesa dos trabalhadores.

Nesse quadro, Ramona Ferreira ocupou lugar central. As cartas a ela dirigidas e os textos que a erigiam em emblema de emancipação feminina demonstram que não foi figura lateral, mas protagonista da controvérsia pública. Com La Voz del Siglo, a imprensa converteu-se em arena de disputa aberta. Ainda que não assinasse todos os artigos, provavelmente escrevia sob pseudônimo. Como diretora, não apenas administrou o periódico, mas o orientou intelectualmente, articulando um discurso coerente e politicamente incisivo.

Essa posição lhe valeu represálias. Em 1902 sua sede foi atacada, episódio ao qual conseguiu resistir; mas no fim de 1904, no contexto da guerra civil, a tipografia foi brutalmente assaltada, presumivelmente por setores vinculados à congregação salesiana, um de seus principais adversários ideológicos. Após esses fatos, Ramona Ferreira exilou-se na Argentina, especificamente em Buenos Aires. Ali se abriu um novo capítulo de sua vida, marcado pela ressignificação de sua trajetória pública como militante.

No autoexílio, Ferreira consolidou-se como uma das principais defensoras do livre-pensamento, tecendo vínculos internacionais e afirmando-se como referência na região do Rio da Prata. Uma prova desse reconhecimento foi sua participação ativa no Congresso Internacional Livre-Pensador realizado na Argentina em 1906 (Schvartzman Muñoz et al., 2022), espaço que reuniu associações e figuras comprometidas com o laicismo e o anticlericalismo.

A relação entre livre-pensamento e feminismo exige, contudo, análise específica que ultrapassa os limites deste texto. Ainda assim, o caráter heterogêneo do movimento, sua abertura à filiação feminina e o reconhecimento intelectual que concedia às mulheres como interlocutoras legítimas geraram um quadro particularmente fértil para sua intervenção pública. Trajetórias como as de Julieta Lanteri, Belén de Sárraga e María Ramona Abella de Ramírez evidenciam cruzamentos semelhantes entre anticlericalismo, laicismo e emancipação feminina em chave transnacional.

Em Buenos Aires, continuou sua atividade jornalística e chegou inclusive a ser nomeada diretora da escola laica de Lanús, embora tenha permanecido no cargo apenas um dia, após manifestar oposição à educação mista e manter discussões com pais e autoridades. Segundo relata a historiadora Mary Monte, participou também de uma manifestação de mulheres que reivindicavam direitos civis e políticos, pela qual foi brevemente detida (cf. TEDIC, 2020).

Pouco se sabe sobre sua trajetória posterior. O último registro documental que encontrei data de 1938. Trata-se de uma carta dirigida ao jornalista argentino Luis Renaudi, na qual saúda seu trabalho jornalístico e solicita ajuda financeira, assinalando que, já em idade avançada, encontrava-se na miséria, apesar de ter sido proprietária de uma tipografia (Ferreira, 1938). Versões posteriores indicam que, após retornar ao Paraguai, mudou-se para sua cidade natal e continuou vendendo jornais; contudo, na década de 1940 teria sido novamente vítima de um incêndio provocado por setores reacionários. Esse episódio não pôde ser corroborado, tampouco as circunstâncias exatas de sua morte, que algumas fontes situam durante ou pouco depois daquele ataque.

Para além das lacunas documentais, a trajetória de Ramona revela o custo que implicou, para muitas mulheres, ocupar a palavra pública e disputar os fundamentos morais e políticos de seu tempo. Nesse sentido, a reformulação de Antonio Gramsci sobre o intelectual como função orgânica permite lê-la como produtora de sentido, cuja escrita conferiu orientação a um coletivo feminino em processo de autoconsciência. Inclusive o desfecho incerto de sua vida reforça essa interpretação, pois seu empobrecimento e o possível ataque à sua tipografia evidenciam que sua intervenção não foi marginal nem inócua, mas suficientemente perturbadora para suscitar reação. Assim, teoria e experiência convergem numa mesma constatação: que ocupar a palavra foi, para mulheres como Ramona, um ato intelectual e político de alto risco, mas também um gesto fundador na disputa por redefinir seu lugar no Estado e na sociedade.


Referências

EL PORVENIR. (1902). Asunción, 21 dic., n. 204.

FERREIRA, Ramona. (1938). Carta manuscrita de Ramona Ferreira a Luis Renaudi. 26 mayo. Archivo CEDINCI, Buenos Aires, AR.

LAVRIN, Asunción. (1985). Las mujeres latinoamericanas. Perspectivas históricas. México: Fondo de Cultura Económica.

LÓPEZ MOREIRA, Mary Monte de. (2011). Adela y Celsa Speratti. Pioneras del magisterio nacional. Asunción: El Lector.

POTTHAST, Bárbara. (2011). ¿Paraíso de Mahoma o “País de las Mujeres”? 2. ed. Asunción: Fausto Ediciones.

RIOT-SARCEY, Michèle & VARIKAS, Eleni. (1985). Feminist Consciousness in the Nineteenth Century. A Pariah Consciousness? PRAXIS International, v. 5, n. 4, p. 443-465.

RODRÍGUEZ, Belén. (2026). Foto de Ramona Ferreira. Restauración fotográfica + video [Instagram], 10 fev. Instagram: @br_belenrodriguez. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CUqrgXugRuO/?img_index=2. Acesso em: 17 fev. 2026.

SCHVARTZMAN MUÑOZ, Gabriela & BAREIRO GAONA, María Clemencia & LEZCANO BOLLA, Silvana. (2022). Pensamiento político de las mujeres en el Paraguay. Un breve recorrido desde la Colonia hasta el período liberal. In: SCKELL, Jazmín Duarte; SOTO VERA, Anahí & TABOADA GÓMEZ, Victoria (Orgs.). Más que gloriosas. Tomo 2. [S.l.]: La Mancha, p. 258–283.

TEDIC. (2020). Las joyas borradas de la historia. Mujeres paraguayas en Wikipedia. CYBORGFEMINISTA, 9 set. Disponível em: https://cyborgfeminista.tedic.org/las-joyas-borradas-de-la-historia-mujeres-paraguayas-en-wikipedia/. Acesso em: 2 jul. 2024.

Sobre a autora

Alma Monges é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (desde 2021), com período sanduíche na Universidade de Barcelona (2024). Suas pesquisas atuais se concentram na área do pensamento feminista paraguaio e latino-americano.

(Rodriguez, 2021).

En este segundo día de la Ocupación Mujeres, publicamos en la Columna Primeros Escritos el texto de Alma Monges, doctoranda en Sociología en la Unicamp, sobre la trayectoria de Ramona Ferreira, periodista y escritora paraguaya que hizo de la palabra impresa una forma activa de intervención en el espacio público. Al seguir su actuación en la prensa, la fundación del periódico La Voz del Siglo, su anticlericalismo radical y su posterior exilio en Buenos Aires, Alma Monges sostiene que ocupar la escritura fue, para Ramona, un gesto intelectual y político de alto riesgo. Entre educación, libre pensamiento y feminismo en clave transnacional, su trayectoria revela tanto el costo como la potencia de construir una voz propia en una sociedad marcada por profundas asimetrías de género.

Para saber más sobre la cuarta edición de la Ocupación Mujeres, haga clic aquí. Otros textos ya publicados pueden consultarse aquí. Aprovechamos también para recordar que la Columna Primeros Escritos sigue abierta a contribuciones de estudiantes de posgrado.

¡Buena lectura y sigan acompañando nuestra intensa programación durante el fin de semana!

Después de la tragedia: Ramona Ferreira y la construcción de una voz propia

Por Alma Monges (PPGS/Unicamp)

En 1870, Paraguay emergía de la Guerra de la Triple Alianza como un país arrasado. La devastación no solo fue material, sino también demográfica y simbólica. La drástica reducción de la población, especialmente masculina, alteró profundamente la estructura social y condicionó las formas en que la nación comenzó a narrarse. Durante décadas, la guerra funcionó como matriz interpretativa de la experiencia colectiva.

Un siglo más tarde, el literato paraguayo Augusto Roa Bastos sintetizó esa condición en la célebre imagen de una “isla rodeada de tierra”, metáfora que aludía al repliegue histórico y a la persistente sensación de excepcionalidad y aislamiento, atravesada por la convivencia y tensión entre el guaraní y el español. Esa representación consolidó la idea de un país marcado por la pérdida y por una memoria reducida a emblemas.

Frente a esa imagen de encierro, este ensayo propone atravesar la isla desde sus propias voces, restituyendo densidad a una historia que no se agota en el trauma. En ese recorrido se inscribe la figura de Ramona Ferreira, nacida entre 1875 y 1877 en el departamento de Concepción, integrante de la generación que creció entre las ruinas de la posguerra. Periodista, escritora y librepensadora, su trayectoria encarna una forma activa de intervenir en el Paraguay en reconstrucción. A través de su palabra y acción pública, no solo cuestionó los límites de su tiempo, sino que contribuyó a ampliarlos.

La guerra produjo una catástrofe demográfica que alteró profundamente la estructura social paraguaya. Como advierte Barbara Potthast (2011) en ¿País de mujeres o paraíso de Mahoma? –obra fundamental para el estudio de las mujeres en este período–, de una población estimada entre 450.000 y 500.000 habitantes antes del conflicto, el país habría quedado reducido a poco más de 230.000, con una marcada desproporción entre los sexos. En algunas regiones la relación llegaba a un hombre por cada tres mujeres y, en ocasiones, a cinco.

Aunque estos datos podrían sugerir que la desproporción demográfica favoreció una mayor ampliación de derechos o representatividad política para las mujeres, ocurrió lo contrario. Como sostiene la historiadora, la combinación entre la profunda escasez masculina en la posguerra, las concepciones tradicionales sobre el rol femenino y la persistente centralidad de lo militar en la vida política reforzó posiciones masculinas autoritarias y consolidó formas específicas de machismo. Se configuró así una tensión duradera entre una presencia femenina decisiva en la vida cotidiana y una estructura de poder profundamente masculina.

Esta paradoja no fue un rasgo abstracto del orden social, sino el marco concreto en el que crecieron las niñas de la posguerra. En ese entramado de centralidad femenina en la vida material y exclusión del poder político se moldearon experiencias, expectativas y límites generacionales. En tal contexto, el acceso a la educación se convirtió en un hito clave, tanto en la experiencia como alumnas como en el ejercicio de la docencia: muchas mujeres encontraron allí una de las principales vías de ingreso a la vida pública.

El historiador paraguayo David Velázquez (2015) señala que la transformación del rol femenino en el Paraguay de posguerra, especialmente a partir de su incorporación a la docencia, respondió, en primer lugar, a las desigualdades demográficas heredadas del conflicto. La drástica reducción de la población masculina obligó a integrar a las mujeres en espacios previamente reservados a los hombres, incluidos los educativos, que antes eran casi exclusivamente masculinos.

En ese contexto, el acceso a la educación se convirtió en una vía clave de ingreso a la vida pública. Según David Velázquez (2015), la incorporación femenina a la docencia respondió a esas desigualdades demográficas, aunque bajo una lógica que no cuestionaba el orden tradicional, ya que enseñar era presentado como extensión de la maternidad. Como señala Asunción Lavrin (1985: 12) para el caso latinoamericano –y cuya reflexión resulta aplicable al Paraguay–, la educación femenina fue concebida como servicio a la patria, pero también favoreció, en algunos casos, el desarrollo de una conciencia que derivaría en militancia feminista.

En esta línea, resulta pertinente recuperar lo señalado por Eleni Varikas y Michèle Riot-Sarcey (1985: 445), quienes, en diálogo con otros estudios sobre el siglo XIX, sostienen que el acceso a la educación incorporó a las mujeres a un nuevo sistema de ideas y valores. Este ingreso no solo amplió sus conocimientos, sino que hizo posible la comparación con los hombres y habilitó instancias de reflexión crítica sobre su propia posición en la sociedad.

La adquisición de la escritura, en particular, trascendió la mera alfabetización. Significó la posibilidad concreta de intervenir en el espacio público y reclamar el derecho a la palabra. En esa transición del aula a la palabra impresa comenzó a formarse una conciencia que pronto desbordaría los límites inicialmente asignados a la educación femenina. Es en ese proceso donde puede situarse la emergencia de una figura como Ramona.

De sus primeros años sabemos poco. El primer registro con el que contamos data de 1893, cuando su nombre aparece por primera vez en los libros de la Escuela Graduada de Niñas de Asunción, en planillas de calificaciones correspondientes al cuarto y al sexto grado. En ambas, figura como alumna distinguida, lo que revela no solo un desempeño destacado, sino también que había migrado a la capital siendo aún adolescente.

Aunque el traslado del interior a Asunción no era inusual, visto desde una perspectiva de género y de clase adquiere mayor significado. En una época en que los viajes se asociaban al mundo masculino y las mujeres al ámbito doméstico, que una joven con los recursos materiales y simbólicos necesarios se mudara a la capital para formarse suponía no solo ampliar los límites impuestos a su género, sino también poner en evidencia que esas posibilidades no estaban igualmente disponibles para todas.

En 1896 su nombre reaparece en una nota firmada junto a compañeras de promoción, en la que exigían la apertura de la Escuela Normal de Niñas, cuya financiación había sido prevista pero luego postergada en favor de la institución masculina. El reclamo era directo y políticamente lúcido: “la mujer tiene tanto derecho a la consideración de los poderes públicos como los varones” (López Moreira, 2011: 86-87). Allí se advierte ya no solo a la estudiante aplicada, sino a una joven inserta en un movimiento más amplio de estudiantes capaces de traducir su experiencia educativa en demanda pública.

Lo que parecía encaminarse hacia un destino casi predeterminado, que sería el magisterio, se interrumpe pronto. A comienzos del siglo XX, Ramona orienta su trayectoria hacia la escritura. Escribe en diferentes periódicos de Asunción, como La Opinión, El Pueblo y El Cívico (El Porvenir, 21 de diciembre de 1904). Aunque el medio de más estrecha colaboración sería El Porvenir, uno de los periódicos activos de la época, dirigido por la familia Trujillo, reconocida en la escena cultural asuncena por su crítica a la política paraguaya.

El número de mujeres que publicaban con regularidad en la prensa paraguaya de comienzos del siglo XX podía contarse con los dedos de una mano. Escribir no era todavía un gesto neutro, y menos aún hacerlo con nombre propio, lo que en sí la destaca. Como columnista, Ramona Ferreira publicó al menos siete artículos –según lo que ha sido posible localizar en los archivos–, pero su intervención fue más allá de esa participación puntual.

Impulsó la sección “El Feminil”, que apareció por lo menos en doce ocasiones y constituyó un espacio redactado exclusivamente por mujeres, entre ellas colegas normalistas. Se trató de una de las primeras secciones dirigidas y escritas por mujeres en la prensa paraguaya. Permaneció allí hasta 1902, año en que fundó su propio medio, La Voz del Siglo, semanario de cuatro páginas que se definía como librepensador y adoptaba una impronta crítica, anticlerical.

Hasta entonces, eran muy pocas las mujeres que habían dirigido una empresa periodística en la región –incluso considerando experiencias en Brasil, Argentina o Chile–, lo que vuelve aún más significativa su iniciativa en el contexto paraguayo. Como ha señalado la historiadora Ana Barreto, especialista en historia de las mujeres en el país, el hecho de que Ferreira contara con capacitación tipográfica resultó clave, pues no solo escribía, sino que dominaba el proceso material de producción del periódico.

En las páginas de La Voz se delineaba un programa ideológico centrado en un anticlericalismo estructural dirigido contra la Iglesia como institución de poder. Se cuestionaban la infalibilidad papal, la Inquisición, el episcopado, los jesuitas, la educación religiosa y la injerencia eclesiástica en el Estado, al tiempo que se denunciaba el lugar subordinado de las mujeres dentro del orden clerical y su papel como reproductoras de la religión en el ámbito doméstico (Schvartzman Muñoz et al., 2022).

Estas posiciones se articulaban con un laicismo radical que defendía la separación entre Iglesia y Estado, la escuela laica y la autonomía de la razón frente al dogma. Las referencias a Giordano Bruno, Émile Zola y Giuseppe Garibaldi, así como a redes del libre pensamiento, muestran su inscripción en circuitos transnacionales vinculados al racionalismo y al anarquismo, y su articulación con la cuestión social –crítica a la burguesía y defensa de los trabajadores.

En ese marco, Ramona Ferreira ocupó un lugar central. Las cartas dirigidas a ella y los textos que la erigían en emblema de emancipación femenina evidencian que no fue una figura lateral, sino protagonista de la controversia pública. Con La Voz del Siglo, la prensa se convirtió en una arena de disputa abierta. Aunque no firmara artículos, probablemente escribiera bajo seudónimo. Como directora, no solo administró el periódico, sino que lo orientó intelectualmente, articulando un discurso coherente y políticamente incisivo.

Esa posición le valió represalias. En 1902 su local fue atacado, episodio que logró resistir; pero a fines de 1904, en el contexto de la guerra civil, la imprenta fue brutalmente asaltada, presumiblemente por sectores vinculados a la congregación salesiana, uno de sus principales adversarios ideológicos. Tras estos hechos, se exilió en Argentina, específicamente en Buenos Aires. Allí se abrió un nuevo capítulo de su vida, marcado por la resignificación de su trayectoria pública como militante librepensadora.

En el autoexilio, Ferreira se consolidó como una de las principales defensoras del librepensamiento, tejiendo vínculos internacionales y afirmándose como referente en el Río de la Plata. Una muestra de ese reconocimiento fue su participación activa en el Congreso Internacional Librepensador celebrado en Argentina en 1906 (Schvartzman Muñoz et al., 2022), espacio que congregó a asociaciones y figuras comprometidas con el laicismo y el anticlericalismo.

La relación entre librepensamiento y feminismo exige, no obstante, un análisis específico que excede los límites de este artículo. Sin embargo, el carácter heterogéneo del movimiento, su apertura a la afiliación femenina y el reconocimiento intelectual que otorgaba a las mujeres como interlocutoras válidas generaron un marco particularmente fértil para su intervención pública. Trayectorias como las de Julieta Lanteri, Belén de Sárraga y María Ramona Abella de Ramírez evidencian cruces semejantes entre anticlericalismo, laicismo y emancipación femenina en clave transnacional.

En Buenos Aires continuó su labor periodística e incluso fue nombrada directora de la escuela laica de Lanús, aunque permaneció en el cargo apenas un día, tras manifestar su oposición a la educación mixta y sostener discusiones con padres y autoridades. Según relata la historiadora Mary Monte (TEDIC, 2020), participó también en una manifestación de mujeres que reclamaban derechos civiles y políticos, por la que fue brevemente detenida.

Se conoce poco sobre su trayectoria posterior. El último registro documental que hallé data de 1938. Se trata de una carta dirigida al periodista argentino Luis Renaudi, en la que saluda la labor periodística y solicita ayuda económica, señalando que, ya en edad avanzada, se encontraba en la miseria pese a haber sido propietaria de una imprenta (Ferreira, 1938). Versiones posteriores indican que, tras regresar a Paraguay, se trasladó a su ciudad natal y continuó vendiendo periódicos; sin embargo, en la década de 1940 habría sido nuevamente víctima de un incendio provocado por sectores reaccionarios. Este episodio no ha podido ser corroborado, ni tampoco las circunstancias exactas de su muerte, que algunas fuentes sitúan durante o poco después de aquel ataque.

Más allá de las lagunas documentales, la trayectoria de Ramona revela el costo que implicó para muchas mujeres ocupar la palabra pública y disputar los fundamentos morales y políticos de su tiempo. En este sentido, la reformulación de Antonio Gramsci sobre el intelectual como función orgánica permite leerla como una productora de sentido, cuya escritura otorgó orientación a un colectivo femenino en proceso de autoconciencia.

Incluso el final incierto de su vida refuerza esta interpretación, pues su empobrecimiento y el posible ataque a su imprenta evidencian que su intervención no fue marginal ni inocua, sino suficientemente perturbadora como para suscitar reacción. Así, teoría y experiencia convergen en una misma constatación: que ocupar la palabra fue, para estas mujeres, un acto intelectual y político de alto riesgo, pero también un gesto fundacional en la disputa por redefinir su lugar en el Estado y en la sociedad.

Referencias

EL PORVENIR. (1902). Asunción, 21 dic., n. 204.

FERREIRA, Ramona. (1938). Carta manuscrita de Ramona Ferreira a Luis Renaudi. 26 mayo. Archivo CEDINCI, Buenos Aires, AR.

LAVRIN, Asunción. (1985). Las mujeres latinoamericanas. Perspectivas históricas. México: Fondo de Cultura Económica.

LÓPEZ MOREIRA, Mary Monte de. (2011). Adela y Celsa Speratti. Pioneras del magisterio nacional. Asunción: El Lector.

POTTHAST, Bárbara. (2011). ¿Paraíso de Mahoma o “País de las Mujeres”? 2. ed. Asunción: Fausto Ediciones.

RIOT-SARCEY, Michèle & VARIKAS, Eleni. (1985). Feminist Consciousness in the Nineteenth Century. A Pariah Consciousness? PRAXIS International, v. 5, n. 4, p. 443-465.

RODRÍGUEZ, Belén. (2026). Foto de Ramona Ferreira. Restauración fotográfica + video [Instagram], 10 fev. Instagram: @br_belenrodriguez. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CUqrgXugRuO/?img_index=2. Acesso em: 17 fev. 2026.

SCHVARTZMAN MUÑOZ, Gabriela & BAREIRO GAONA, María Clemencia & LEZCANO BOLLA, Silvana. (2022). Pensamiento político de las mujeres en el Paraguay. Un breve recorrido desde la Colonia hasta el período liberal. In: SCKELL, Jazmín Duarte; SOTO VERA, Anahí & TABOADA GÓMEZ, Victoria (Orgs.). Más que gloriosas. Tomo 2. [S.l.]: La Mancha, p. 258–283.

TEDIC. (2020). Las joyas borradas de la historia. Mujeres paraguayas en Wikipedia. CYBORGFEMINISTA, 9 set. Disponível em: https://cyborgfeminista.tedic.org/las-joyas-borradas-de-la-historia-mujeres-paraguayas-en-wikipedia/. Acesso em: 2 jul. 2024.

Sobre la autora

Alma Monges es doctoranda en el Programa de Posgrado en Sociología de la Universidad Estadual de Campinas (desde 2021), con período de estancia doctoral en la Universidad de Barcelona (2024). Sus investigaciones actuales se centran en el campo del pensamiento feminista paraguayo y latinoamericano.