
Neste segundo dia da Ocupação Mulheres, Laila Correa e Silva, pós-doutoranda na USP, aborda a atuação de escritoras como Nísia Floresta, Josephina Álvares de Azevedo, Narciza Amália e outras intelectuais brasileiras que, por meio da imprensa feminista oitocentista, formularam demandas por educação, trabalho, sufrágio e participação política, disputando espaço na cultura letrada e na esfera pública. Ao acompanhar a circulação internacional de jornais, ideias e redes de colaboração, Laila mostra que a imprensa feminista foi um espaço decisivo de articulação política transnacional. Mais do que periódicos voltados ao “universo feminino”, esses jornais constituíram arenas de combate intelectual, nas quais a palavra escrita se tornou instrumento central na luta pela emancipação das mulheres e na formação de um movimento feminista em escala atlântica.
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As precursoras de um movimento político transnacional na imprensa feminista, século XIX
Por Laila Thaís Correa e Silva (USP)
O percurso das brasileiras pela conquista de direitos básicos, como o de ser alfabetizada, ter acesso a oportunidades de trabalho igualitárias, frequentar cursos universitários, votar e ser votada, dentre outras demandas, remonta ao século XIX e, nesse longo caminho, as mulheres que exerceram a atividade da escrita em âmbito nacional (e internacional) ocuparam papel de destaque na formulação de questões e nos debates travados na esfera pública.
Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo da norte-rio-grandense Dionísia Gonçalves Pinto (1810-1885), foi uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado, destinado às mulheres, e publicar contos, poesias, novelas e ensaios em jornais de grande circulação, como O Diário do Rio de Janeiro, O Liberal e O Brasil Ilustrado. Sua constante presença na imprensa brasileira pode ser notada desde 1830, com sua participação em O Espelho das Brasileiras (Recife), comentando questões políticas polêmicas de sua época.
Em Opúsculo Humanitário (1853), Nísia Floresta reuniu 62 artigos publicados por ela na imprensa de grande circulação, todos voltados à importância de se educar as mulheres, associando o atraso de uma sociedade ao descaso com que esta tratava o chamado “sexo frágil”, termo à época amplamente empregado para se referir ao sexo feminino, sintetizando toda a carga de preconceito e, consequentemente, exclusão que recaía sobre as mulheres brasileiras. Nísia argumenta que “é verdade incontestável que a educação da mulher muita influência teve sempre sobre a moralidade dos povos e que o lugar que ela ocupa entre eles é o barômetro que indica os progressos de sua civilização”. Dentre outros fatores expostos na obra, a educação igualitária entre mulheres e homens poderia promover um avanço na sociedade brasileira, tornando as mulheres aptas para o exercício de qualquer atividade, inclusive a escrita literária publicada cotidianamente nos jornais.
Acerca desse ponto, as mulheres letradas dos séculos XIX e XX travaram muitas batalhas, seja em periódicos escritos e editados por elas mesmas, seja em romances, poemas e contos, defendendo o direito de participação feminina na cultura letrada nacional e a possibilidade de publicar obras, a despeito da crítica literária masculina, que as classificava como incapazes de criações artísticas de qualidade, se comparadas aos escritos masculinos, hegemônicos na imprensa e na crítica literária nacional.
Desde a atuação de Nísia Floresta na imprensa brasileira, nota-se um movimento de circulação de ideias e troca de influências entre mulheres intelectuais via imprensa e literatura. Ao longo da segunda metade do século XIX, com destaque para a pioneira publicação do Jornal das Senhoras (Rio de Janeiro, 1852), pela argentina exilada política Juana (ou Joana) Paula Manso de Noronha, a imprensa fundada por mulheres passou a ter maior participação na esfera pública de debates e disputas políticas nas últimas décadas do século XIX. Como afirma Perrot (1999: 92), “fazer um jornal tornou-se um modo de expressão em quase toda a Europa”, o que também ocorreu em outros continentes, com diálogos transnacionais muito fortes e necessários para a formação de um movimento político mais robusto e combativo.
Trata-se, portanto, de pensar, a partir dos escritos publicados na imprensa feminista ou de grande circulação, a articulação política das mulheres intelectuais em suas teias mais difusas, bem como suas conexões e amplitudes na sociedade, refletindo sobre como uma ideia comum inicial compartilhada por várias mulheres em diferentes lugares – a saber, a iniquidade entre mulheres e homens – gerou e reverberou movimentos políticos e culturais, alimentando sociedades em plena formação política e identitária. Ao longo da segunda metade do século XIX, aparentemente, a imprensa feminista brasileira desenvolveu-se muito atrelada ao que estava sendo produzido nos Estados Unidos e na Europa, destacando-se de modo transnacional com figuras emblemáticas das letras nacionais, como Narciza Amália (1852-1924), Josephina Álvares de Azevedo (1851-1913) e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), mencionadas e/ou participantes de publicações internacionais que salientavam a importância dessas escritoras para as letras e para o feminismo.
Como exemplo marcante, Narciza Amália foi lembrada e citada pelo jornal La Fronde (1898), dirigido por Marguerite Durand, e pela revista Mercure de France (1901), em artigo sobre a poesia brasileira escrito por Figueiredo Pimentel, que cita, dentre as “femmes de lettres”, Francisca Júlia da Silva, Júlia Cortines, Júlia Lopes de Almeida, Adelina Lopes Vieira, Áurea Pires, Narciza Amália, Julieta Monteiro, Elvira Gama e Zalina Rolim. Na Alemanha, a obra Aus Portugal und Brasilien (1250–1890), publicada em 1892 por Wilhelm Storck, apresenta traduções de textos de autores brasileiros, e Narciza Amália representa a única mulher, com a poesia “Fragmentos”. Nos Estados Unidos, a poeta figura na revista Novo Mundo (1873), de Nova York, e, na América do Sul, na revista chilena Sud-America (1873) e em Estudos Históricos Sud-Americanos. No Peru, El Perú Ilustrado, de 11 de maio de 1889, replica a matéria de Pedro Figueroa publicada nos Estudos Históricos Sud-Americanos.
Chama a atenção, de modo particular, a publicação do jornal feminista francês La Fronde, que, como dissemos, cita Narciza Amália e, ainda, outras escritoras e feministas do Brasil, em artigo intitulado “Feminismo no Brasil” (16 de julho de 1898):
Dentre os países da América Latina, o Brasil é, sem dúvida, aquele onde as doutrinas feministas estão progredindo mais rápido. (…) As mulheres brasileiras conseguiram um lugar de honra nas letras, mais especialmente na poesia e no romance. Entre as poetas, não podemos deixar de citar Zalina Rolim, Revocata de Mello, Narciza Amália, Presciliana d’ Almeida, Ibrantina Cardona, etc; entre as prosadoras, Júlia Lopes d’ Almeida, Maria Emília, Josephina Alvarez (sic) de Azevedo, Flávia do Amaral, etc.
Foram fundados dois periódicos defendendo demandas feministas. Um deles tem tendências moderadas: A Família, o outro é mais combativo: A Mensageira. Este último é dirigido pela Sra. Presciliana d’ Almeida. Em uma edição recente, ela publicou um artigo de Sr. Xavier de Carvalho sobre o feminismo na França. O defensor simpático do feminismo terminou seu artigo com tantos elogios entusiásticos para La Fronda, da Sra. Marguerite Durand e de suas colaboradoras, que nós gostaríamos de agradecê-lo (Costa, 2024: 261).
Mas o que teria sido a imprensa feminista desse período? Qual teria sido seu peso político, cultural e social?
A imprensa feminista pode ser compreendida como composta por jornais e revistas fundados e dirigidos por mulheres preocupadas em defender a emancipação do sexo feminino, por meio da obtenção de direitos iguais aos dos homens. Assim, em seus editoriais de estreia, perceberemos o propósito declarado – e mantido ao longo das edições subsequentes – de defender ideias como a educação feminina voltada ao exercício de profissões geralmente desempenhadas por homens e a participação política da mulher, com a conquista do sufrágio feminino e o direito de ser votada, exercendo cargos políticos, exemplo patente dramatizado pela peça teatral de Josephina Álvares de Azevedo, O voto feminino (1890), publicada originalmente no jornal feminista A Família, com reverberações no jornal feminista parisiense Le droit des femmes. Revue internationale du mouvement féminin (1869-1891), publicação oficial da Fédération Internationale pour la revendication des droits de la femme (Silva, 2024 : 107).
A Família é extremamente emblemático para a caracterização do período e de sua relação com o movimento feminista transnacional. Além da grande atuação de Josephina Álvares de Azevedo e Ignez Sabino, A Família apresenta uma ampla gama de colaboradoras, exclusivamente do sexo feminino, provenientes de várias regiões do Brasil, contando ainda com uma correspondente feminista atuante na causa do voto feminino em Paris e outra na África portuguesa. Isso possibilita observarmos como se dava a dinâmica das redes de comunicação entre escritoras e as estratégias adotadas para o apoio mútuo. Deve-se notar que jornais dedicados exclusivamente à publicação de textos escritos por mulheres não eram algo comum no Brasil do século XIX, dado que constatamos com a pesquisa e leitura de jornais femininos e feministas da segunda metade do XIX, bem como com base no estudo realizado por Constância Lima Duarte (Duarte, 2016).
No editorial de estreia do jornal A Família, escrito pela redatora-chefe Josephina Álvares de Azevedo em 18 de novembro de 1888, encontra-se uma síntese do significado político, cultural e social da atuação literária de escritoras feministas e da reverberação de publicações periódicas feministas no Brasil de fins do século XIX, demonstrando também como se definia o discurso feminista característico da segunda metade do século XIX:
(…) A imprensa que fulmina o erro, também desperta as consciências adormecidas. Porque ela é como o raio que fende a rocha e perfura o chão. E há efetivamente um grande erro a fulminar.
A consciência universal dorme sobre uma grande iniquidade secular- a escravidão da mulher. Até hoje têm os homens mantido o falso e funesto princípio de nossa inferioridade. Mas nós não somos a eles inferiores porque somos suas semelhantes, embora de sexo diverso (…) (A Família, 1888).
Ademais, encontraremos em alguns desses periódicos o apoio à escrita de autoria feminina, com a atuação exclusiva (ou quase exclusiva, no caso de A Mensageira, publicado em São Paulo) de mulheres em seus quadros de colaboradores. Como exemplos de jornais feministas do século XIX, temos, além de A Família e A Mensageira. Revista literária dedicada à mulher brasileira (São Paulo, 1897=1900): O Sexo Feminino (Campanha, MG – Rio de Janeiro, 1873-1889), que se tornou O Quinze de Novembro do Sexo Feminino (Rio de Janeiro, 1889-1890); no Sul do país, O Corymbo (Rio Grande, RS, 1884-1944) e O Escrínio (Bagé, RS – Santa Catarina, RS – Porto Alegre, 1898-1910), dentre muitos outros.
O primeiro jornal brasileiro fundado por uma mulher – a escritora e professora Maria Josefa Barreto Pereira Pinto, natural de Viamão, Rio Grande do Sul, que, após a viuvez, fundou uma escola primária mista – foi o periódico Belona Irada contra os Sectários de Momo, em 1833. Seu jornal tinha propósitos políticos, e sua redatora “não era lady, era uma trabalhadora e uma mulher ‘de faca na bota’”. No entanto, segundo Muzart, o Jornal das Senhoras (1852-1855), de Joana Paula Manso de Noronha (1819-1855), foi considerado, na maioria dos estudos, como o primeiro empreendimento do periodismo feminista, e Joana, uma das primeiras jornalistas “brasileiras”; contudo, o periódico de Joana estreou em 1852, e sua redatora era argentina, exilada no Brasil em virtude da ditadura de Rosas (Muzart, 2013). De todo modo, Maria Josefa e Joana sofreram com o esquecimento político de seus legados pioneiros no mundo das letras, do periodismo e da história do feminismo na América Latina.
A imprensa feminina, por outro lado, voltada ao público feminino e ao que, à época, pensava-se constituir o restrito universo feminino do lar, da família, do casamento e da maternidade, teve seu espaço e poderia ser interpretada como um contraponto ao periodismo feminista. Exatamente por isso, os jornais femininos eram dirigidos, em sua maioria, por homens que pretendiam reiterar a mulher, no singular – conceito estático – como ente passivo e subordinado ao marido e ao âmbito familiar. Assim, revistas como a carioca A Estação. Jornal ilustrado para a família (1879-1904) ofertavam ao público leitor editoriais de moda, dicas para a organização e decoração da casa, etiqueta e boas maneiras, ou seja, um guia para a esposa bela, recatada, submissa e caseira, que buscava agradar ao marido e vestir bem a si e aos filhos. Todavia, ainda assim, alguns desses jornais femininos poderiam apresentar uma contrapartida que se rebelava, discretamente, contra esses ditames rígidos, aproveitando-se das fissuras provocadas pela força da imposição patriarcal de pais e maridos zelosos da moral e dos bons costumes de seus lares e de suas esposas.
A pesquisadora Dulcínia Buitoni alerta que a imprensa feminina deve ser lida com muita atenção, pois, em meio aos editoriais de moda e receitas culinárias, poderemos encontrar muitas coisas implícitas. Por exemplo, no caso da participação da escritora e destacada feminista Ignez Sabino (1853-1911) no suplemento literário da revista feminina A Estação. Nesse periódico, a escritora publicou uma série de textos biográficos sobre mulheres de destaque na história ocidental, que teve início em 15 de abril de 1890, com um texto sobre a conhecidíssima poeta grega Safo, e continuou durante aquele ano, com a exposição de muitas personalidades femininas que se dedicaram a diferentes áreas do conhecimento ou foram governantes, artistas e escritoras. A proposta de Sabino em A Estação era apresentar à leitora uma amostra da importância e do empenho de suas pesquisas sobre a história das mulheres ocidentais, que culminou em um estudo mais sistemático e propositivo sobre a história das mulheres brasileiras, à luz de novas interpretações acerca da própria história nacional, com a publicação da obra Mulheres Ilustres do Brasil (1899).
No Brasil, a partir das últimas décadas do século XIX, houve a profusão de periódicos fundados, dirigidos e compostos exclusivamente, ou em sua maioria, por mulheres. Em alguns deles, como no caso do jornal A Família (São Paulo/Rio de Janeiro, 1888-1894/1897), de Josephina Álvares de Azevedo, e A Mensageira (1897-1900), fundado e dirigido pela poeta Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), houve uma interlocução profícua entre suas redatoras-chefes e organizações internacionais de mulheres que se identificavam com o feminismo que se organizava na Europa, especificamente na França, promovendo a circulação de ideias e textos e revelando que a imprensa e a literatura foram espaços privilegiados para o combate político de mulheres, aqui e alhures. Essa investigação pode nos levar a estabelecer raízes fortes de um movimento político que se diversificou e que atualmente conhecemos como feminismos, diversos e amplamente atuantes.
Referências
A Família. (1888-1897). São Paulo / Rio de Janeiro.
BUITONI, Dulcínia Helena Schroeder. (1981). Mulher de papel. A representação da mulher na imprensa feminina brasileira. São Paulo: Loyola.
COSTA, Bruno. (2024). Narciza Amália. Poeta de liberdade. São João da Barra, RJ: Foz Cultura.
DUARTE, Constância Lima. (2016). Imprensa feminina e feminista no Brasil. Dicionário ilustrado. Belo Horizonte: Autêntica.
FLORESTA, Nísia. (1989). Opúsculo humanitário. Introdução e notas de Peggy Sharpe-Valadares. Posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez.
MUZART, Zahidé Lupinacci. (2013). “Uma espiada na imprensa das mulheres no século XIX”. Revista Estudos Feministas, v. 11, n. 1.
PERROT, Michelle. (2005). As mulheres ou os silêncios da história. Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSC.
SABINO, Ignez. (1996). Mulheres ilustres do Brasil. Edição fac-similar da edição de 1899 (H. Garnier, Livreiro-Editor). Florianópolis: Editora Mulheres.
SILVA, Laila Thaís Correa e. (2024). Josephina, Ignez e Délia. A literatura combativa das mulheres de letras no Brasil de fins do século XIX. Londrina: EDUEL.
Sobre a autora
Laila Thaís Correa e Silva é pós-doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo. Participa do Laboratório de Estudos de História das Américas – LEHA, FFLCH-USP, e é pesquisadora residente do BBM-USP.
En este segundo día de la Ocupación Mujeres, Laila Correa e Silva, investigadora posdoctoral en la USP, analiza la actuación de escritoras como Nísia Floresta, Josephina Álvares de Azevedo, Narciza Amália y otras intelectuales brasileñas que, a través de la prensa feminista del siglo XIX, formularon demandas por educación, trabajo, sufragio y participación política, disputando espacio en la cultura letrada y en la esfera pública. Al acompañar la circulación internacional de periódicos, ideas y redes de colaboración, Laila muestra que la prensa feminista fue un espacio decisivo de articulación política transnacional. Más que periódicos dirigidos al “universo femenino”, estos diarios constituyeron arenas de combate intelectual, en las que la palabra escrita se convirtió en un instrumento central en la lucha por la emancipación de las mujeres y en la formación de un movimiento feminista a escala atlántica.
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Las precursoras de un movimiento político transnacional en la prensa feminista, siglo XIX
Por Laila Thaís Correa e Silva (USP)
El recorrido de las brasileñas en la conquista de derechos básicos, como el de ser alfabetizadas, tener acceso a oportunidades laborales igualitarias, asistir a cursos universitarios, votar y ser elegidas, entre otras demandas, se remonta al siglo XIX y, en ese largo camino, las mujeres que ejercieron la actividad de la escritura en el ámbito nacional (e internacional) ocuparon un papel destacado en la formulación de cuestiones y en los debates librados en la esfera pública.
Nísia Floresta Brasileira Augusta, seudónimo de Dionísia Gonçalves Pinto (1810-1885), fue una de las primeras mujeres en Brasil en romper los límites del espacio privado, destinado a las mujeres, y publicar cuentos, poesías, novelas y ensayos en periódicos de gran circulación, como O Diário do Rio de Janeiro, O Liberal y O Brasil Ilustrado. Su presencia constante en la prensa brasileña puede observarse desde 1830, con su participación en O Espelho das Brasileiras (Recife), comentando cuestiones políticas polémicas de su tiempo.
En Opúsculo Humanitário (1853), Nísia Floresta reunió 62 artículos publicados por ella en la prensa de gran circulación, todos orientados a la importancia de educar a las mujeres, asociando el atraso de una sociedad al descuido con que esta trataba al llamado “sexo frágil”, término entonces ampliamente empleado para referirse al sexo femenino, sintetizando toda la carga de prejuicio y, en consecuencia, de exclusión que recaía sobre las mujeres brasileñas. Nísia argumenta que “es verdad incontestable que la educación de la mujer ha ejercido siempre mucha influencia sobre la moralidad de los pueblos y que el lugar que ella ocupa entre ellos es el barómetro que indica los progresos de su civilización”. Entre otros factores expuestos en la obra, la educación igualitaria entre mujeres y hombres podría promover un avance en la sociedad brasileña, tornando a las mujeres aptas para el ejercicio de cualquier actividad, incluso la escritura literaria publicada cotidianamente en los periódicos.
En relación con este punto, las mujeres letradas de los siglos XIX y XX libraron muchas batallas, ya fuera en periódicos escritos y editados por ellas mismas, ya en novelas, poemas y cuentos, defendiendo el derecho a la participación femenina en la cultura letrada nacional y la posibilidad de publicar obras, a pesar de la crítica literaria masculina, que las clasificaba como incapaces de crear producciones artísticas de calidad, en comparación con los escritos masculinos, hegemónicos en la prensa y en la crítica literaria nacional.
Desde la actuación de Nísia Floresta en la prensa brasileña, se percibe un movimiento de circulación de ideas e intercambio de influencias entre mujeres intelectuales a través de la prensa y de la literatura. A lo largo de la segunda mitad del siglo XIX, con destaque para la pionera publicación del Jornal das Senhoras (Río de Janeiro, 1852), por la argentina exiliada política Juana (o Joana) Paula Manso de Noronha, la prensa fundada por mujeres pasó a tener mayor participación en la esfera pública de debates y disputas políticas en las últimas décadas del siglo XIX. Como afirma Perrot (1999: 92), “hacer un periódico se convirtió en un modo de expresión en casi toda Europa.”, lo que también ocurrió en otros continentes, con diálogos transnacionales muy fuertes y necesarios para la formación de un movimiento político más robusto y combativo.
Se trata, por tanto, de pensar, a partir de los escritos publicados en la prensa feminista o de gran circulación, la articulación política de las mujeres intelectuales en sus redes más difusas, así como sus conexiones y alcances en la sociedad, reflexionando sobre cómo una idea común inicial compartida por varias mujeres en distintos lugares –a saber, la iniquidad entre mujeres y hombres– generó y reverberó movimientos políticos y culturales, alimentando sociedades en plena formación política e identitaria. A lo largo de la segunda mitad del siglo XIX, aparentemente, la prensa feminista brasileña se desarrolló muy vinculada a lo que se producía en Estados Unidos y en Europa, destacándose de manera transnacional con figuras emblemáticas de las letras nacionales, como Narciza Amália (1852-1924), Josephina Álvares de Azevedo (1851-1913) y Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), mencionadas y/o participantes en publicaciones internacionales que resaltaban la importancia de estas escritoras para las letras y para el feminismo.
Como ejemplo significativo, Narciza Amália fue recordada y citada por el periódico La Fronde (1898), dirigido por Marguerite Durand, y por la revista Mercure de France (1901), en un artículo sobre la poesía brasileña escrito por Figueiredo Pimentel, que cita, entre las femmes de lettres, a Francisca Júlia da Silva, Júlia Cortines, Júlia Lopes de Almeida, Adelina Lopes Vieira, Áurea Pires, Narciza Amália, Julieta Monteiro, Elvira Gama y Zalina Rolim. En Alemania, la obra Aus Portugal und Brasilien (1250-1890), publicada en 1892 por Wilhelm Storck, presenta traducciones de textos de autores brasileños, y Narciza Amália representa la única mujer, con el poema “Fragmentos”. En Estados Unidos, la poeta figura en la revista Novo Mundo (1873), de Nueva York, y, en América del Sur, en la revista chilena Sud-America (1873) y en Estudos Históricos Sud-Americanos. En Perú, El Perú Ilustrado, del 11 de mayo de 1889, reproduce el artículo de Pedro Figueroa publicado en Estudos Históricos Sud-Americanos.
Llama particularmente la atención la publicación del periódico feminista francés La Fronde, que, como hemos mencionado, cita a Narciza Amália y a otras escritoras y feministas de Brasil en el artículo titulado “Feminismo no Brasil” (16 de julio de 1898):
Entre los países de América Latina, Brasil es, sin duda, aquel donde las doctrinas feministas están progresando más rápidamente. (…) Las mujeres brasileñas han conquistado un lugar de honor en las letras, especialmente en la poesía y en la novela. Entre las poetas, no podemos dejar de citar a Zalina Rolim, Revocata de Mello, Narciza Amália, Presciliana d’Almeida, Ibrantina Cardona, etc.; entre las prosistas, a Júlia Lopes d’Almeida, Maria Emília, Josephina Alvarez (sic) de Azevedo, Flávia do Amaral, etc.
Se han fundado dos periódicos que defienden demandas feministas. Uno de ellos tiene tendencias moderadas: A Família; el otro es más combativo: A Mensageira. Este último está dirigido por la Sra. Presciliana d’Almeida. En una edición reciente, ella publicó un artículo del Sr. Xavier de Carvalho sobre el feminismo en Francia. El defensor simpatizante del feminismo concluyó su artículo con tantos elogios entusiastas a La Fronde, de la Sra. Marguerite Durand y de sus colaboradoras, que desearíamos agradecerle. (Costa, 2024: 261).
¿Pero qué fue la prensa feminista de ese período? ¿Cuál habría sido su peso político, cultural y social?
La prensa feminista puede comprenderse como compuesta por periódicos y revistas fundados y dirigidos por mujeres preocupadas por defender la emancipación del sexo femenino, mediante la obtención de derechos iguales a los de los hombres. Así, en sus editoriales inaugurales, percibimos el propósito declarado –y mantenido a lo largo de las ediciones posteriores– de defender ideas como la educación femenina orientada al ejercicio de profesiones generalmente desempeñadas por hombres y la participación política de la mujer, con la conquista del sufragio femenino y el derecho a ser elegida para ejercer cargos políticos. Un ejemplo patente fue dramatizado por la obra teatral de Josephina Álvares de Azevedo, O voto feminino (1890), publicada originalmente en el periódico feminista A Família, con repercusiones en el periódico feminista parisino Le droit des femmes. Revue internationale du mouvement féminin (1869-1891), publicación oficial de la Fédération Internationale pour la revendication des droits de la femme (Silva, 2024: 107).
A Família resulta sumamente emblemático para la caracterización del período y de su relación con el movimiento feminista transnacional. Además de la intensa actuación de Josephina Álvares de Azevedo e Ignez Sabino, el periódico presenta una amplia gama de colaboradoras, exclusivamente mujeres, provenientes de varias regiones de Brasil, contando incluso con una corresponsal feminista activa en la causa del sufragio femenino en París y otra en el África portuguesa. Ello permite observar la dinámica de las redes de comunicación entre escritoras y las estrategias adoptadas para el apoyo mutuo. Cabe señalar que periódicos dedicados exclusivamente a la publicación de textos escritos por mujeres no eran algo común en el Brasil del siglo XIX, como se constata a partir de la investigación y lectura de periódicos femeninos y feministas de la segunda mitad del siglo XIX, así como del estudio realizado por Constância Lima Duarte (Duarte, 2016).
En el editorial inaugural de A Família, escrito por la redactora jefa Josephina Álvares de Azevedo el 18 de noviembre de 1888, se encuentra una síntesis del significado político, cultural y social de la actuación literaria de las escritoras feministas y de la repercusión de las publicaciones periódicas feministas en el Brasil de fines del siglo XIX, demostrando también cómo se definía el discurso feminista característico de la segunda mitad del siglo XIX:
(…) La prensa que fulmina el error también despierta las conciencias adormecidas. Porque ella es como el rayo que hiende la roca y perfora el suelo. Y hay efectivamente un gran error que fulminar.
La conciencia universal duerme sobre una gran iniquidad secular –la esclavitud de la mujer–. Hasta hoy los hombres han mantenido el falso y funesto principio de nuestra inferioridad. Pero no somos inferiores a ellos, porque somos sus semejantes, aunque de sexo diverso (…) (A Família, 1888).
Además, en algunos de estos periódicos encontraremos el apoyo a la escritura de autoría femenina, con la actuación exclusiva (o casi exclusiva, en el caso de A Mensageira, publicada en São Paulo) de mujeres en sus cuadros de colaboradoras. Como ejemplos de periódicos feministas del siglo XIX, tenemos, además de A Família y A Mensageira. Revista literária dedicada à mulher brasileira (São Paulo, 1897-1900): O Sexo Feminino (Campanha, MG – Rio de Janeiro, 1873-1889), que pasó a llamarse O Quinze de Novembro do Sexo Feminino (Rio de Janeiro, 1889-1890); en el sur del país, O Corymbo (Rio Grande, RS, 1884-1944) y O Escrínio (Bagé, RS – Santa Catarina, RS – Porto Alegre, 1898-1910), entre muchos otros.
El primer periódico brasileño fundado por una mujer –la escritora y profesora Maria Josefa Barreto Pereira Pinto, natural de Viamão, Rio Grande do Sul, quien, tras enviudar, fundó una escuela primaria mixta– fue Belona Irada contra os Sectários de Momo, en 1833. Su periódico tenía propósitos políticos, y su redactora “no era lady, era una trabajadora y una mujer ‘de faca na bota’”. No obstante, según Muzart, el Jornal das Senhoras (1852-1855), de Joana Paula Manso de Noronha (1819-1855), fue considerado en la mayoría de los estudios como el primer emprendimiento del periodismo feminista, y Joana, una de las primeras periodistas “brasileñas”; sin embargo, el periódico de Joana se estrenó en 1852 y su redactora era argentina, exiliada en Brasil debido a la dictadura de Rosas (Muzart, 2013). De todos modos, Maria Josefa y Joana sufrieron el olvido político de sus legados pioneros en el mundo de las letras, del periodismo y de la historia del feminismo en América Latina.
La prensa femenina, por otro lado, orientada al público femenino y a lo que en la época se consideraba el restringido universo femenino del hogar, la familia, el matrimonio y la maternidad, tuvo su propio espacio y podría interpretarse como contrapunto al periodismo feminista. Precisamente por ello, los periódicos femeninos eran dirigidos, en su mayoría, por hombres que pretendían reiterar la mujer, en singular –concepto estático–, como ente pasivo y subordinado al marido y al ámbito familiar. Así, revistas como la carioca A Estação. Jornal ilustrado para a família (1879-1904) ofrecían al público lector editoriales de moda, consejos para la organización y decoración del hogar, etiqueta y buenas maneras, es decir, una guía para la esposa bella, recatada, sumisa y hogareña, que buscaba agradar al marido y vestir bien a sí misma y a sus hijos. No obstante, incluso en esos periódicos podían aparecer contrapartes que se rebelaban discretamente contra tales dictámenes rígidos, aprovechando las fisuras provocadas por la fuerza de la imposición patriarcal de padres y maridos celosos de la moral y las buenas costumbres de sus hogares y de sus esposas.
La investigadora Dulcínia Buitoni advierte que la prensa femenina debe leerse con mucha atención, pues, en medio de editoriales de moda y recetas culinarias, pueden encontrarse numerosos significados implícitos. Por ejemplo, en el caso de la participación de la escritora y destacada feminista Ignez Sabino (1853-1911) en el suplemento literario de la revista femenina A Estação. En ese periódico, la escritora publicó una serie de textos biográficos sobre mujeres destacadas en la historia occidental, iniciada el 15 de abril de 1890 con un texto sobre la conocida poeta griega Safo, y continuada durante ese año con la exposición de numerosas personalidades femeninas dedicadas a diferentes áreas del conocimiento o que fueron gobernantes, artistas y escritoras. La propuesta de Sabino en A Estação era presentar a la lectora una muestra de la importancia y del empeño de sus investigaciones sobre la historia de las mujeres occidentales, que culminó en un estudio más sistemático y propositivo sobre la historia de las mujeres brasileñas, a la luz de nuevas interpretaciones de la propia historia nacional, con la publicación de la obra Mulheres Ilustres do Brasil (1899).
En Brasil, a partir de las últimas décadas del siglo XIX, hubo una profusión de periódicos fundados, dirigidos y compuestos exclusivamente, o en su mayoría, por mujeres. En algunos de ellos, como en el caso de A Família (São Paulo/Rio de Janeiro, 1888-1894/1897), de Josephina Álvares de Azevedo, y A Mensageira (1897-1900), fundado y dirigido por la poeta Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), existió una interlocución fructífera entre sus redactoras jefas y organizaciones internacionales de mujeres que se identificaban con el feminismo que se organizaba en Europa, específicamente en Francia, promoviendo la circulación de ideas y textos y revelando que la prensa y la literatura fueron espacios privilegiados para el combate político de las mujeres, aquí y en otros lugares. Esta investigación puede llevarnos a establecer raíces sólidas de un movimiento político que se diversificó y que actualmente conocemos como feminismos, diversos y ampliamente activos.
Referencias
A Família. (1888-1897). São Paulo / Rio de Janeiro.
BUITONI, Dulcínia Helena Schroeder. (1981). Mulher de papel. A representação da mulher na imprensa feminina brasileira. São Paulo: Loyola.
COSTA, Bruno. (2024). Narciza Amália. Poeta de liberdade. São João da Barra, RJ: Foz Cultura.
DUARTE, Constância Lima. (2016). Imprensa feminina e feminista no Brasil. Dicionário ilustrado. Belo Horizonte: Autêntica.
FLORESTA, Nísia. (1989). Opúsculo humanitário. Introdução e notas de Peggy Sharpe-Valadares. Posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez.
MUZART, Zahidé Lupinacci. (2013). “Uma espiada na imprensa das mulheres no século XIX”. Revista Estudos Feministas, v. 11, n. 1.
PERROT, Michelle. (2005). As mulheres ou os silêncios da história. Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru, SP: EDUSC.
SABINO, Ignez. (1996). Mulheres ilustres do Brasil. Edição fac-similar da edição de 1899 (H. Garnier, Livreiro-Editor). Florianópolis: Editora Mulheres.
SILVA, Laila Thaís Correa e. (2024). Josephina, Ignez e Délia. A literatura combativa das mulheres de letras no Brasil de fins do século XIX. Londrina: EDUEL.
Sobre la autora
Laila Thaís Correa e Silva es posdoctoranda en Historia Social por la Universidad de São Paulo. Integra el Laboratorio de Estudios de Historia de las Américas — LEHA, FFLCH-USP, y es investigadora residente del BBM-USP.
