
Neste segundo dia da Ocupação Mulheres, Paula Lucía Aguilar (UBA) reconstrói a emergência de uma crítica feminista latino-americana que, entre as décadas de 1960 e 1980, passou a problematizar a domesticidade e o trabalho não remunerado como dimensões centrais do desenvolvimento. Ao revisitar seminários, relatórios e redes acadêmicas da região, a autora mostra como pesquisadoras questionaram o androcentrismo das ciências sociais e a invisibilidade das mulheres nos diagnósticos sobre modernização e crescimento econômico. Segundo Aguilar, essa genealogia antecipa debates hoje formulados em termos de “cuidado” e revela que a politização da reprodução social tem raízes profundas na América Latina, fundamentais para repensar a persistente tensão entre capital e vida.
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Ciências sociais, domesticidade e desenvolvimento: itinerários de uma crítica feminista desde a América Latina
Por Paula Lucía Aguilar (UBA)
Nos últimos anos, o debate sobre o “cuidado” tornou-se central para os feminismos, condensando reflexões e ações incontornáveis. Sua centralidade percorre um arco amplíssimo: das demandas de organizações sociais territoriais e das discussões acadêmicas às agendas de organismos internacionais, como a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) ou a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Chegou, inclusive, a constituir o eixo de uma declaração da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que recentemente se pronunciou em favor de seu reconhecimento como direito humano.[1] A problematização do cuidado coloca um interrogante acerca da “sustentabilidade da vida” em sentido amplo, transbordando os limites do doméstico para abarcar desde as tarefas reprodutivas cotidianas até o cuidado do planeta, entrelaçando, assim, debates que envolvem diversas materialidades, afetos e estratégias políticas.
Essa vitalidade é indissociável do processo de intensificação da luta feminista que atravessou a América Latina na última década. As massivas manifestações e, especialmente, as greves internacionais de mulheres, a cada 8M, situaram no centro do debate a necessidade de reconhecer todos os trabalhos. A ferramenta da greve, ressignificada de modo a incluir o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, conseguiu, ao longo do tempo, traduzir a desigualdade de sua distribuição em um conjunto de demandas políticas e econômicas concretas. Do mesmo modo, intensificou-se a produção de conhecimento sobre a reprodução social e politizou-se o doméstico como nunca antes, tornando evidente a contradição “capital-vida” no centro do debate.
Coloca-se, então, a seguinte questão: quando e como a investigação social na América Latina começou a interpelar a domesticidade como problema político e econômico? A pergunta não é menor: implica rastrear o momento em que o trabalho das mulheres, a reprodução e suas desigualdades deixaram de ser externalidades do desenvolvimento para se converterem em objetos legítimos de indagação crítica. Um caminho para responder a essa indagação conduz a um arquivo ainda em construção: o da emergência de um campo de expertise feminista nas ciências sociais da região, entre as décadas de 1960 e 1980. Reconstruir seus itinerários é fundamental para compreender plenamente as dinâmicas da investigação social naquela conjuntura – marcada por regimes autoritários – e para interpelar as narrativas hegemônicas do desenvolvimento. Trata-se, em última instância, de uma recuperação coletiva de uma memória intelectual que ilumina os cruzamentos entre os enfoques sobre o desenvolvimento econômico e social de meados dos anos 1960 e as primeiras perguntas em torno da “questão da mulher” naquele contexto.
Um diagnóstico preciso desse ponto de partida é oferecido pela antropóloga norte-americana June Nash. Em 1974, no âmbito do seminário “Perspectivas Femininas na Investigação Social na América Latina”, realizado no Instituto Torcuato Di Tella, em Buenos Aires, Nash apresentou um veemente balanço do estado da produção acadêmica: a pesquisa sobre aquilo que então se denominava, no singular, a “condição da mulher” enfrentava enormes obstáculos. No contexto dos candentes debates sobre o desenvolvimento – fossem os paradigmas modernizadores ou as críticas estruturalistas, como a teoria da dependência e o marxismo –, as mulheres eram praticamente invisíveis. Nash (1975) apontava a ausência de dados desagregados por gênero e, sobretudo, o androcentrismo persistente inclusive nas perspectivas críticas, que analisavam classes e nações, mas não as relações de gênero no interior dessas categorias.
O diagnóstico de Nash descrevia uma ausência constitutiva. Os estudos examinados abordavam temas considerados relevantes para o caminho ao desenvolvimento, ainda que desde uma posição periférica: urbanização, industrialização, migrações ou planejamento econômico. Quando a variável “mulher” aparecia, em geral o fazia sob uma lógica instrumental e demográfica, associada à fecundidade, ao planejamento familiar ou, no melhor dos casos, ao seu potencial de participação na força de trabalho assalariada como mais um recurso para o crescimento econômico. A esfera doméstica e o trabalho não remunerado (urbano e rural) não constituíam um problema teórico nem político para as preocupações das ciências sociais tal como eram formuladas naquelas discussões (Nash, 1975; Jelin, 1984).
Apenas uma década depois, em 1985, a própria Nash constatava uma mudança substancial. Com prudente entusiasmo, observava um crescimento e dinamismo notáveis no campo dos estudos sobre as mulheres. A produção, segundo sua avaliação, havia passado de textos descritivos a análises complexas que não apenas documentavam uma situação, mas também refletiam sobre suas causas estruturais e suas possibilidades de transformação. Naquele contexto, destacava o surgimento de uma nova geração de pesquisadoras latino-americanas que se afirmavam no ofício acadêmico (Nash, 1985). O que havia ocorrido nesse intervalo? A resposta reside na lenta e complexa conformação de uma trama de pesquisadoras que começava a delinear seus objetos, suas perguntas e suas redes de colaboração.
Em um texto recente, Martín Arboleda (2023) convida, provocativamente, a “reabrir o arquivo do desenvolvimento” de modos que permitam reativar formas de imaginação política.[2] Isso supõe recuperar as experiências de problematização do desenvolvimento na América Latina nas quais converge a busca por alternativas com um momento-chave para a produção das ciências sociais na região. Algo desse convite ressoa nas presentes linhas. A proposta implica fazê-lo a partir de um olhar específico: sensível às desigualdades de gênero, que leia “a contrapelo” os diagnósticos e as respostas produzidos naquele período. Essa tarefa exige aprofundar não apenas as posições mais visíveis dos ativismos feministas da “segunda onda” em relação à “condição da mulher”, mas também incorporar os interstícios da produção de conhecimento especializado que problematizavam os limites do trabalho e da reprodução social: relatórios técnicos de organismos como a CEPAL, a OIT ou o Centro Latino-Americano de Demografia (CELADE); atas de seminários acadêmicos específicos (menos estudados); e as trajetórias das primeiras egressas dos cursos de ciências sociais que começavam a introduzir essas questões em suas pesquisas (Aguilar, 2020; Aguilar & Lijterman, 2024).
Abre-se, assim, a partir de novos interrogantes, um arquivo menos frequentado nas discussões contemporâneas: a leitura de relatórios sobre fecundidade, família, trabalho, demografia e as áridas discussões sociodemográficas acerca da População Economicamente Ativa (PEA) e da integração ao processo de desenvolvimento. O período 1965-1985 delimita, portanto, uma fase de intensificação da discussão teórica e política em torno da chamada “condição da mulher”, em relação ao trabalho remunerado e não remunerado, mas também à planificação da população como força de trabalho para o desenvolvimento, às migrações a partir da unidade doméstica rural ou aos efeitos da urbanização sobre as vidas cotidianas. Tais reflexões encontravam-se imbricadas em diagnósticos especializados acerca da acelerada urbanização, da modernização cultural e do desenvolvimento econômico.
Foi durante os anos 1970 que se articulou, em torno da discussão sobre “mulher e desenvolvimento”, uma arena transnacional de intercâmbios e produção de conhecimento fundamental. Se considerarmos as reuniões de caráter científico[3], é possível mencionar o pioneiro seminário de Buenos Aires (1974), seguido por encontros internacionais como Women and Development (Wellesley College, 1976) e The Continuing Subordination of Women in the Development Process (Universidade de Sussex, 1978), que reuniram pesquisadoras latino-americanas com pares dos Estados Unidos, Europa, Ásia e África. A esses somam-se o Primer Simposio México-Centroamericano de Investigación sobre la Mujer (México, 1977) e o seminário A Mulher na Força de Trabalho na América Latina, realizado em novembro de 1978 no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). As reuniões do subgrupo “participação feminina no mercado de trabalho”, do Grupo de Trabalho do CLACSO “Ocupação-desocupação”, em Montevidéu (1979), constituíram outra oportunidade de encontro e discussão dos trabalhos em curso.
Esses eventos, pouco explorados pela historiografia das ciências sociais, foram laboratórios cruciais nos quais convergiram algumas das primeiras egressas de sociologia, antropologia e economia da região, muitas com formação de pós-graduação no exterior, que posteriormente se tornariam figuras-chave do pensamento feminista latino-americano. Estiveram ali – apenas para mencionar algumas – Heleieth Saffioti, Elizabeth Jelin, Gloria González Salazar, Neuma Aguiar, Magdalena León, Ruth Sautu, Carmen Diana Deere ou Lourdes Arizpe, entre tantas outras. Suas intervenções problematizavam os modos pelos quais a domesticidade é incontornável para pensar tanto o trabalho das mulheres em geral quanto os efeitos dos programas de desenvolvimento em curso.
A agenda da ONU, que havia declarado o período 1975-1985 como o “Decênio da Mulher”, oscilava entre a “participação da mulher na vida econômica” e a “integração da mulher ao desenvolvimento”. Contudo, nesses espaços acadêmicos, começava a gestar-se uma crítica mais profunda. A questão já não era apenas como “integrar a mulher” a um processo dado, mas de que modo esse próprio processo produzia e reproduzia a subordinação. Uma contribuição fundamental das pesquisadoras latino-americanas ao debate foi a ênfase no trabalho das mulheres e a problematização da tensão entre produção e reprodução. A presença feminina nas cidades, fruto dos processos migratórios e das dificuldades enfrentadas na incorporação ao trabalho formal (moderno) industrial, começava a revelar os primeiros indícios de um diagnóstico hoje amplamente difundido: a feminização do trabalho informal urbano (Aguilar & Lijterman, 2024).
Assim, o trabalho de pesquisa em curso exigiu ler nas entrelinhas relatórios de circulação marginal à época, elaborados no marco de projetos mais amplos nos quais as pesquisadoras participavam, ou vinculados às agendas de organismos internacionais. A partir deles, tornou-se possível sistematizar os tópicos e perspectivas por meio dos quais a relação entre produção econômica e reprodução social era problematizada. Isso permitiu identificar que a díade produção/reprodução, embora não formulada especificamente em termos de “cuidado”, constituía parte fundamental da incipiente produção acadêmica desenvolvida por pesquisadoras pioneiras na América Latina. Uma leitura atenta desse arquivo heterogêneo – relatórios, comunicações, documentos de trabalho – permite iluminar algumas linhas-chave para os debates atuais:
— A crítica ao desenvolvimento a partir do gênero. Suas leituras questionaram perspectivas puramente economicistas ou demográficas. Ao indagarem pelos efeitos diferenciais das políticas de desenvolvimento sobre homens e mulheres, terminavam por questionar os próprios fundamentos e métricas do desenvolvimento. Não se tratava apenas de acrescentar mulheres, mas de demonstrar como o estilo de desenvolvimento vigente se estruturava sobre a exploração do trabalho feminino não remunerado.
— Um esforço histórico-estrutural. Em face de explicações culturalistas ou naturalizantes, buscaram razões históricas e estruturais para a subordinação. Analisaram as formas concretas de participação das mulheres no mercado de trabalho – na indústria, nos serviços, no trabalho informal – sempre em articulação com sua posição na esfera doméstica. Começaram a desmontar o lugar-comum, posteriormente universalizado, da “massiva saída das mulheres para o mercado de trabalho no pós-guerra”, evidenciando seu caráter eurocêntrico e as especificidades dos processos latino-americanos de urbanização e modernização.
— A tematização precoce do trabalho não remunerado. Embora o termo “cuidado” ainda não estivesse no centro, a problemática da relação entre produção econômica e reprodução social já estruturava suas análises. Como se sustentava a força de trabalho? Que papel desempenhavam a unidade doméstica e o trabalho invisível das mulheres na acumulação capitalista periférica? Essas perguntas, formuladas na linguagem da época, constituem o núcleo do que hoje discutimos como crise dos cuidados.
— A centralidade do sociológico e do antropológico. Diferentemente da primazia atual da “economia feminista”, esses primeiros aportes emergiram, na América Latina, predominantemente da sociologia e da antropologia. Tratava-se de análises qualitativas, etnográficas e de construção de séries de dados que privilegiavam a compreensão das estruturas sociais, dos papéis e das instituições – família, Estado, mercado – em sua articulação concreta.
A tarefa de reconstruir esse arquivo é, por definição, coletiva. Implica seguir itinerários biográficos, reconstituir as redes que articulavam pesquisadoras e projetos entre si. Requer recuperar a produção dessa primeira geração de cientistas sociais mulheres cujas contribuições foram frequentemente negligenciadas, além de complexificar a fronteira entre ativismos e academia. Essa recuperação constitui um gesto político e intelectual vital para o presente. Ao traçar essa genealogia, os feminismos latino-americanos podem afirmar a especificidade de seu pensamento: um pensamento formulado não à margem, mas em tensão produtiva com as discussões sobre desenvolvimento e dependência. Mostra-nos que a politização do doméstico e a visibilização do trabalho não remunerado possuem uma história profunda na região – uma história que fornece ferramentas teóricas singulares para compreender a persistente contradição entre capital e vida.
Em suma, recuperar esses itinerários permite transformar as narrativas sobre o desenvolvimento e incorporar novos elementos. Já não como um caminho linear e abstrato, mas como um processo conflitivo que se construiu, inelutavelmente, sobre a organização social da reprodução e a desigual distribuição de suas responsabilidades. Muitas das discussões hoje formuladas em termos de cuidado constituem a condensação de uma pergunta que as cientistas sociais feministas latino-americanas vêm formulando, com persistência e rigor, há mais de meio século. Recuperar sua voz não é um exercício arqueológico, mas uma condição essencial para imaginar futuros alternativos mais justos.
Notas
[1] Em 12 de junho de 2025, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu, por unanimidade, a Opinião Consultiva OC-31/25, interpretando que o cuidado constitui um direito autônomo. Em resposta a uma consulta apresentada pela Argentina (2023), a CIDH estabeleceu que esse direito abrange três dimensões: o direito de cuidar, de ser cuidado e ao autocuidado.
[2] Nesse sentido, o chamado “Projeto Modernismo Latino-americano”, de colaboração interdisciplinar, é uma mostra da potência desse convite. Disponível aqui.
[3] A esses seminários somam-se as reuniões específicas sobre a questão da mulher e o desenvolvimento convocadas pelo sistema das Nações Unidas e pela CEPAL, que alimentavam e completavam o circuito de produção de conhecimento especializado e de diagnósticos sobre a “mulher latino-americana” (Aguilar, 2020).
Referências
ARBOLEDA, Martin. (2023). La necesidad de una vía popular al desarrollo. Jacobin Latinoamérica, 17 set. Disponível em: https://jacobinlat.com/2023/09/la-necesidad-de-una-via-popular-al-desarrollo/. Acesso em: 2 fev. 2026.
NASH, June & SAFA, Helen (eds.). (1986). Women and change in Latin America. New York: Bergin & Garvey.
NASH, June. (1975). Perspectiva de la mujer latinoamericana y en las ciencias sociales. In: La mujer en América Latina. Tomo II. México: SepSetentas.
JELIN, Elizabeth. (1984). Familia y unidad doméstica: mundo público y vida privada. Buenos Aires: CEDES.
AGUILAR, Paula L. & LIJTERMAN, Eliana. (2024). Diagnósticos de frontera: saberes expertos sobre informalidad laboral y trabajo de las mujeres en América Latina (1965–1980). Perspectivas Revista de Ciencias Sociales, n. 18.
PÉREZ OROZCO, Amaia. (2017). Subversión feminista de la economía: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños.
Sobre a autora
Paula Lucía Aguilar é Doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA). É pesquisadora independente do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), com sede no Instituto de Investigações Gino Germani, da Faculdade de Ciências Sociais da UBA. Integra o Grupo de Estudos sobre Política Social e Condições de Trabalho. É professora do curso de Sociologia (UBA) e docente de pós-graduação. Faz parte da Associação Argentina para a Investigação em História das Mulheres e Estudos de Gênero (AAIHMEG). Desenvolve uma linha de pesquisa sobre a relação entre saberes especializados, questão social e domesticidade em perspectiva histórica.
En este segundo día de la Ocupación Mujeres, Paula Lucía Aguilar (UBA) reconstruye la emergencia de una crítica feminista latinoamericana que, entre las décadas de 1960 y 1980, comenzó a problematizar la domesticidad y el trabajo no remunerado como dimensiones centrales del desarrollo. Al revisitar seminarios, informes y redes académicas de la región, la autora muestra cómo investigadoras cuestionaron el androcentrismo de las ciencias sociales y la invisibilidad de las mujeres en los diagnósticos sobre modernización y crecimiento económico. Según Aguilar, esta genealogía anticipa debates hoy formulados en términos de “cuidado” y revela que la politización de la reproducción social tiene raíces profundas en América Latina, fundamentales para repensar la persistente tensión entre capital y vida.
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Ciencias sociales, domesticidad y desarrollo: Itinerarios de una crítica feminista desde América Latina
Por Paula Lucía Aguilar (UBA)
En los últimos años, el debate sobre el “cuidado” se ha vuelto nodal para los feminismos, condensando reflexiones y acciones ineludibles. Su centralidad recorre un arco amplísimo: desde las demandas de organizaciones sociales territoriales y las discusiones académicas hasta las agendas de organismos internacionales como la Comisión Económica para América Latina (CEPAL) o la Organización Internacional del Trabajo (OIT). Incluso ha llegado a ser el eje de una declaración de la Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH), que recientemente se expidió a favor de su reconocimiento como derecho humano[4]. La problematización del cuidado plantea un interrogante por la “sostenibilidad de la vida” en un sentido amplio, desbordando los límites de lo doméstico para abarcar desde las tareas reproductivas cotidianas hasta el cuidado del planeta, entrelazando así discusiones que involucran diversas materialidades, afectos y estrategias políticas.
Esta vitalidad es indisociable del proceso de intensificación de la lucha feminista que atravesó América Latina en la última década. Las masivas manifestaciones y, especialmente, los paros internacionales de mujeres, cada 8M, han ubicado en el centro del debate la necesidad de reconocer todos los trabajos. La herramienta de la huelga, resignificada para incluir el trabajo doméstico y de cuidados no remunerado, ha logrado, con el tiempo, traducir la desigualdad en su distribución en un conjunto de demandas políticas y económicas concretas. Asimismo, se ha intensificado la producción de conocimiento sobre la reproducción social y se ha politizado lo doméstico como nunca antes, haciendo evidente la contradicción “capital-vida” en el centro del debate.
Ahora bien, ¿Cuándo y cómo comenzó la investigación social en América Latina a interpelar la domesticidad como problema político y económico? La pregunta no es menor: implica rastrear el momento en que el trabajo de las mujeres, la reproducción y sus desigualdades dejaron de ser externalidades del desarrollo para convertirse en objetos legítimos de indagación crítica. Una vía para responder este interrogante conduce a un archivo aún en construcción: el de la emergencia de un campo de expertise feminista en las ciencias sociales de la región, entre las décadas de 1960 y 1980. Reconstruir sus itinerarios es fundamental para comprender cabalmente las dinámicas de la investigación social en aquella coyuntura –marcada por regímenes autoritarios– e interpelar las narrativas hegemónicas del desarrollo. Se trata, en definitiva, de una recuperación colectiva de una memoria intelectual que ilumina los cruces entre los enfoques sobre el desarrollo económico y social de mediados de los sesenta y las primeras preguntas en torno a la “cuestión de la mujer” en aquel contexto.
Un diagnóstico preciso de aquel punto de partida lo ofrece la antropóloga estadounidense June Nash. En 1974, en el marco del seminario “Perspectivas Femeninas en Investigación Social en América Latina” realizado en el Instituto Torcuato Di Tella en Buenos Aires, Nash ofreció un vehemente balance del estado de la producción académica: la investigación sobre lo que entonces se llamaba, en singular, la “condición de la mujer”, enfrentaba enormes obstáculos. En el contexto de los candentes debates sobre el desarrollo –ya fueran los paradigmas modernizadores o las críticas estructuralistas como la teoría de la dependencia y el marxismo–, las mujeres eran prácticamente invisibles. Nash (1975) señalaba la falta de datos desagregados por género y, sobre todo, el androcentrismo persistente incluso en las perspectivas críticas, que analizaban clases y naciones, pero no las relaciones de género al interior de estas categorías.
El diagnóstico de Nash describía una ausencia constitutiva. Los estudios examinados abordaban temas considerados relevantes para el camino al desarrollo, aún desde una posición periférica: urbanización, industrialización, migraciones o planificación económica. Cuando aparecía la variable “mujer”, solía ser bajo una lógica instrumental y demográfica, asociada a la fecundidad, la planificación familiar o, en el mejor de los casos, a su potencial participación en la fuerza de trabajo asalariada como un recurso más para el crecimiento económico. La esfera doméstica y el trabajo no remunerado (urbano y rural) no constituían un problema teórico ni político para las preocupaciones de las ciencias sociales tal como se formulaban en aquellas discusiones (Nash, 1975; Jelin, 1984).
Apenas una década después, en 1985, la propia Nash constataba un cambio sustancial. Con prudente entusiasmo, observaba un notable crecimiento y dinamismo en el campo de estudios sobre las mujeres. La producción, según su mirada, había pasado de textos descriptivos a análisis complejos que no solo documentaban una situación, sino que reflexionaban sobre sus causas estructurales y sus posibilidades de transformación. En aquel contexto, destacaba el surgimiento de una nueva generación de investigadoras latinoamericanas que se abrían paso en el oficio académico (Nash, 1985). ¿Qué había sucedido en ese lapso? La respuesta reside en la lenta y compleja conformación de una trama de investigadoras que comenzaba a delinear sus objetos, sus preguntas y sus redes de colaboración.
En un texto reciente, Martín Arboleda (2023) invita, provocadoramente, a “reabrir el archivo del desarrollo” de modos que permitan reactivar formas de la imaginación política[5]. Esto supone recuperar las experiencias de problematización del desarrollo en América Latina en las que converge la búsqueda de alternativas con un momento clave para la producción de las Ciencias Sociales en la región. Algo de esa invitación resuena en estas líneas, La propuesta implica hacerlo con una mirada específica: sensible a las desigualdades de género que lea “a contrapelo” los diagnósticos y respuestas producidos en aquel período. Esta tarea requiere profundizar no solo en las posiciones más visibles de los activismos feministas de la “segunda ola” respecto de la “condición de la mujer”, sino también incorporar los intersticios de la producción de conocimiento experto que problematizaban los límites del trabajo y la reproducción social: informes técnicos de organismos como la CEPAL, la OIT, o el Centro Latinoamericano de Demografía (CELADE), en actas de seminarios académicos específicos (menos estudiados) y en las trayectorias de las primeras egresadas de las carreras de ciencias sociales que comenzaban a introducir estas preguntas en sus investigaciones (Aguilar, 2020; Aguilar y Lijterman, 2024).
Se abre así, a partir de nuevos interrogantes, un archivo menos transitado en las discusiones contemporáneas: la lectura de informes sobre fecundidad, familia, trabajo, demografía y las áridas discusiones sociodemográficas sobre la Población Económicamente Activa (PEA) y la integración al proceso de desarrollo. El período 1965-1985, delimita así un período de intensificación de la discusión teórica y política acerca de la llamada “condición de la mujer” en relación al trabajo y no remunerado, pero también a la planificación de la población como fuerza de trabajo para el desarrollo, las migraciones desde la unidad doméstica rural o los efectos de la urbanización sobre las vidas cotidianas. Estas reflexiones estaban imbuidas en diagnósticos expertos sobre la acelerada urbanización, modernización cultural y desarrollo económico.
Fue durante los años setenta cuando se articuló, en torno a la discusión sobre “mujer y desarrollo”, una arena transnacional de intercambios y producción de conocimiento fundamental. Si nos atenemos a las reuniones de carácter científico[6], es posible citar el pionero seminario de Buenos Aires (1974), al que le siguieron encuentros internacionales como Women and Development (Wellesley College, 1976) y The Continuing Subordination of Women in the Development Process (Universidad de Sussex, 1978), que reunieron a investigadoras latinoamericanas con pares de Estados Unidos, Europa, Asia y África. A ellos se suman el Primer Simposio México-Centroamericano de Investigación sobre la Mujer (México, 1977) o el seminario A Mulher na Força de Trabalho na América Latina realizado en noviembre de 1978 en el Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Las reuniones del subgrupo “participación femenina en el mercado de trabajo” del Grupo de trabajo de CLACSO “Ocupación-desocupación” en Montevideo (1979) fueron otra oportunidad de encuentro y discusión de los trabajos en curso.
Estos eventos, poco frecuentados por la historiografía de las ciencias sociales, fueron laboratorios cruciales donde confluyeron algunas de las primeras egresadas de sociología, antropología y economía de la región, muchas con posgrados en el exterior, que luego se convertirían en figuras clave del pensamiento feminista latinoamericano. Allí estuvieron, – sólo por mencionar algunas – Heleieth Saffioti, Elizabeth Jelin, Gloria Gonzalez Salazar, Neuma Aguiar, Magdalena León, Ruth Sautú, Carmen Diana Deere o Lourdes Arizpe entre tantas otras. Sus intervenciones problematizan los modos en que la domesticidad es ineludible para pensar tanto el trabajo de las mujeres en general como los efectos de los programas de desarrollo en curso.
La agenda de la ONU, que había declarado 1975-1985 como el “Decenio de la Mujer”, oscilaba entre la “participación de la mujer en la vida económica” y la “integración de la mujer en el desarrollo”. Sin embargo, en estos espacios académicos, comenzaba a gestarse una crítica más profunda. La pregunta ya no era sólo cómo “integrar a la mujer” en un proceso dado, sino cómo ese proceso mismo producía y reproducía la subordinación. Un aporte fundamental de las investigadoras latinoamericanas al debate fue el énfasis puesto sobre el trabajo de las mujeres y la problematización de la tensión entre producción y reproducción. La presencia de mujeres en las ciudades, fruto de los procesos de migración y las dificultades que enfrentaban en la incorporación al trabajo formal (moderno) industrial, comenzaba a mostrar los primeros indicios de un diagnóstico hoy generalizado: la feminización del trabajo informal urbano (Aguilar y Lijterman, 2024).
Así, el trabajo de investigación en curso demandó leer entre líneas informes de circulación marginal en su momento, realizados en el marco de proyectos mayores en los que las investigadoras participaban, o de iniciativas asociadas a las agendas de organismos internacionales. A partir de ellos fue posible sistematizar los tópicos y perspectivas a través de los cuales la relación entre producción económica y reproducción social era problematizada. Esto permitió identificar que la díada producción/reproducción, aunque no formulada específicamente en términos de “cuidado”, formaba parte fundamental de la incipiente producción académica desarrollada por investigadoras pioneras en América Latina. Una lectura atenta de este archivo heterogéneo –informes, ponencias, documentos de trabajo– permite iluminar algunas líneas clave para los debates actuales:
— La crítica al desarrollo desde el género. Sus lecturas cuestionaron las perspectivas puramente economicistas o demográficas. Al preguntarse por los efectos diferenciales de las políticas de desarrollo sobre varones y mujeres, terminaban cuestionando los propios fundamentos y métricas del desarrollo. No se trataba solo de añadir mujeres, sino de mostrar cómo el estilo de desarrollo vigente se estructuraba sobre la explotación del trabajo femenino no pagado.
— Un esfuerzo histórico-estructural. Frente a las explicaciones culturalistas o naturalizantes, buscaron razones históricas y estructurales para la subordinación. Analizaron las formas concretas de participación de las mujeres en el mercado de trabajo (en la industria, los servicios, el trabajo informal) siempre en vínculo con su posición en la esfera doméstica. Comenzaron a desarmar el lugar común, luego universalizado, de la “masiva salida de las mujeres al mercado de trabajo en la posguerra”, mostrando su carácter eurocéntrico y las particularidades de los procesos latinoamericanos de urbanización y modernización.
— La tematización temprana del trabajo no remunerado. Aunque el término “cuidado” no estaba aún en el centro, la problemática de la relación entre producción económica y reproducción social ya estructuraba sus análisis. ¿Cómo se sostenía la fuerza de trabajo? ¿Qué rol jugaba la unidad doméstica y el trabajo invisible de las mujeres en la acumulación capitalista periférica? Estas preguntas, formuladas en el lenguaje de la época, son el núcleo de lo que hoy discutimos como crisis de los cuidados.
— La centralidad de lo sociológico y antropológico. A diferencia de la actual primacía de la “economía feminista”, estos primeros aportes surgieron, en América Latina, predominantemente de la sociología y la antropología. Eran análisis cualitativos, etnográficos y de construcción de series de datos que privilegiaban la comprensión de las estructuras sociales, los roles y las instituciones (familia, Estado, mercado) en su articulación concreta.
La tarea de reconstruir este archivo es, por definición, colectiva. Implica seguir itinerarios biográficos, reconstruir las redes que vinculaban investigadoras y proyectos entre sí. Requiere recuperar la producción de esa primera generación de cientistas sociales mujeres cuyos aportes fueron soslayados y complejizar la frontera entre activismos y academia. Esta recuperación es un gesto político e intelectual vital para el presente. Al trazar esta genealogía, los feminismos latinoamericanos pueden afirmar la especificidad de su pensamiento: un pensamiento que se formula no al margen, sino en tensión productiva con las discusiones sobre el desarrollo y la dependencia. Nos muestra que la politización de lo doméstico y la visibilización del trabajo no remunerado tienen una historia profunda en la región, una historia que provee herramientas teóricas singulares para comprender la persistente contradicción entre capital y vida.
En suma, recuperar estos itinerarios nos permite transformar las narrativas sobre el desarrollo e incorporar nuevos elementos. Ya no como un camino lineal y abstracto, sino como un proceso conflictivo que se ha construido, ineludiblemente, sobre la organización social de la reproducción y la desigual distribución de sus responsabilidades. Muchas de las discusiones hoy formuladas en términos de cuidado son la condensación de una pregunta que las cientistas sociales feministas latinoamericanas vienen formulando, con persistencia y rigor, desde hace más de medio siglo. Recuperar su voz no es un ejercicio arqueológico, sino una condición esencial para imaginar futuros alternativos más justos.
Notas
[4] El 12 de junio de 2025, la Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH) emitió por unanimidad la Opinión Consultiva OC-31/25, interpretando que el cuidado es un derecho autónomo. En respuesta a una consulta de Argentina (2023), la CIDH estableció que este derecho abarca tres dimensiones: derecho a cuidar, a ser cuidado y al autocuidado.
[5] En ese sentido, el llamado “Proyecto Modernismo Latinoamericano” de colaboración interdisciplinaria es una muestra de la potencialidad de la invitación. Disponible aquí.
[6] A estos seminarios deben sumarse las reuniones específicas sobre la cuestión de la mujer y el desarrollo convocadas por el sistema de Naciones Unidas y la CEPAL, que nutrían y completaban el circuito de producción de conocimiento experto y diagnósticos sobre la “mujer latinoamericana” (Aguilar, 2020).
Referencias
ARBOLEDA, Martin. (2023). La necesidad de una vía popular al desarrollo. Jacobin Latinoamérica, 17 set. Disponível em: https://jacobinlat.com/2023/09/la-necesidad-de-una-via-popular-al-desarrollo/. Acesso em: 2 fev. 2026.
NASH, June & SAFA, Helen (eds.). (1986). Women and change in Latin America. New York: Bergin & Garvey.
NASH, June. (1975). Perspectiva de la mujer latinoamericana y en las ciencias sociales. In: La mujer en América Latina. Tomo II. México: SepSetentas.
JELIN, E. (1984). Familia y unidad doméstica: mundo público y vida privada. Buenos Aires: CEDES.
AGUILAR, Paula L. & LIJTERMAN, Eliana. (2024). Diagnósticos de frontera: saberes expertos sobre informalidad laboral y trabajo de las mujeres en América Latina (1965–1980). Perspectivas Revista de Ciencias Sociales, n. 18.
PÉREZ OROZCO, Amaia. (2017). Subversión feminista de la economía: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños.
Sobre la autora
Paula Lucía Aguilar es Doctora en Ciencias Sociales por la Universidad de Buenos Aires (UBA). Es investigadora independiente del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) con sede en el Instituto de Investigaciones Gino Germani, Facultad de Ciencias Sociales, UBA. Integra el Grupo de Estudio sobre Política Social y Condiciones de Trabajo. Es profesora de la carrera de Sociología (UBA) y docente de posgrado. Forma parte de la Asociación Argentina para la Investigación en Historia de las Mujeres y Estudios de Género (AAIHMEG). Desarrolla una línea de trabajo sobre la relación entre saberes expertos, cuestión social y domesticidad en perspectiva histórica.
