Ocupação Mulheres 2026 | Coluna Primeiros Escritos | O estilo tardio de Rachel de Queiroz, por Milene Mossmann e Mariana Cordeiro

Na nova rodada da Ocupação Mulheres, publicamos na Coluna Primeiros Escritos texto de Milene Mossmann e Mariana Cordeiro, estudantes de Ciências Sociais da UFRJ, sobre a obra tardia de Rachel de Queiroz, uma das principais escritoras da literatura brasileira. Ao examinar obras como Memorial de Maria Moura, Tantos Anos e O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha, as autoras mostram como temas centrais da escritora em sua juventude – como o sertão e a agência feminina – reaparecem sob novas inflexões. Segundo elas, entre continuidade e deslocamento, a obra tardia de Rachel reconfigura o projeto literário iniciado com O Quinze, transformando o sertão em espaço de poder, pertencimento e memória.

Para saber mais sobre a quarta edição da Ocupação Mulheres, clique aqui. Outros textos já publicados podem ser conferidos aqui.

Boa leitura e continue acompanhando nossa programação do 8M amanhã!


O estilo tardio de Rachel de Queiroz[1]

Por Milene Mossmann e Mariana Cordeiro (IFCS-UFRJ).

“Considero envelhecer uma ideia péssima.” É essa a declaração que faz Rachel de Queiroz logo nas primeiras páginas de Tantos Anos (1998), livro em que assume, de modo mais direto, a escrita memorialista. A partir desse trecho – e de outros que aparecem em suas últimas obras – observamos que a autora toma consciência do fim da vida e tematiza a velhice. E realiza esse esforço por meio da escrita de suas próprias memórias, apesar de ter se posicionado, durante muito tempo, de maneira crítica em relação ao gênero autobiográfico e suas variantes.

A escritora cearense, nascida em 1910, viveu até os 92 anos e construiu uma sólida carreira como romancista, cronista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Escritora polêmica, que se declarava jornalista acima de tudo e antifeminista convicta, apesar de ter criado algumas das personagens femininas mais fortes e autônomas da literatura brasileira de seu tempo, Rachel ocupa um lugar peculiar na literatura brasileira (Hollanda, 2016). Hoje pouco lida e estudada – talvez em razão de suas posições políticas controversas ao longo dos anos –, alcançou reconhecimento literário ainda muito jovem e foi a primeira mulher a ingressar na ABL, 80 anos após sua criação.

Em meio à sua vasta produção – iniciada na juventude e mantida até os últimos anos de vida –, recortamos neste pequeno ensaio algumas de suas últimas obras, como o romance Memorial de Maria Moura (1992) e os livros memorialistas Tantos Anos (1998) e O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha (2000), procurando pensá-las a partir da noção de “estilo tardio”.[2] A questão que se coloca não é apenas cronológica, mas estética e política: o que acontece quando a escritora escreve sob a consciência da maturidade e da finitude? Em que medida seus últimos livros configuram continuidade, deslocamento ou tensão em relação ao projeto literário iniciado com O Quinze (1930), publicado quando Rachel tinha apenas 20 anos?

O conceito de estilo tardio, desenvolvido por Theodor W. Adorno e retomado por Edward Said, afasta-se de qualquer compreensão linear do envelhecimento do artista. Segundo Said (2009), há múltiplas formas pelas quais a consciência da proximidade do fim da vida se inscreve na obra de autores e autoras. A estética tardia pode tanto conferir plenitude à trajetória de um artista quanto tensionar – ou mesmo desconcertar – aquilo que foi anteriormente produzido. Contudo, essa consciência não se impõe como regra: “São poucos os artistas e pensadores capazes de levar seu ofício tão a sério a ponto de perceber que também ele envelhece e deve enfrentar a morte, sem poder recorrer senão à memória e aos sentidos em decadência”, diz Said (2009: 44). Ao dialogar com essa tradição, Silviano Santiago contribui para ampliar o debate ao pensar a velhice não apenas como tensão ou ruptura, mas como espaço de reinscrição crítica da própria trajetória intelectual, em que memória, reflexão e escrita se entrelaçam sem necessariamente converter a iminência do fim em tema explícito (Cámara, 2024).

Sugerimos que a ênfase na memória como último recurso é particularmente relevante para pensar o caso de Rachel, escritora que reiterou ao longo da vida que jamais escreveria sua autobiografia (Hollanda, 2016). Se, para Said, o estilo tardio não implica serenidade, mas tensão, as últimas obras de Rachel podem ser lidas como reconfiguração de seu projeto estético sob a consciência do tempo. Nesse movimento, terra/sertão, morte, memória e agência feminina – elementos estruturantes desde o início – reaparecem nas obras finais sob novas inflexões, revelando simultaneamente permanências e deslocamentos.

Para desenvolver essa chave de leitura, recuperamos brevemente aspectos de O Quinze, seu primeiro – e possivelmente mais decisivo – romance. Inserido entre os títulos do chamado “Romance de 30”, O Quinze articula as trajetórias de Conceição, Vicente e Chico Bento, tendo como pano de fundo a seca que assolou o sertão cearense em 1915. Trata-se de uma narrativa dramática, que retrata as mazelas vividas pela população sertaneja, especialmente no que diz respeito aos retirantes, que encontram na migração a única forma de sobrevivência em meio à seca e à fome. Ao refletir sobre o estilo de Rachel, interessa-nos particularmente a construção das figuras femininas, razão pela qual concentramos nossa análise na personagem Conceição: a única mulher da trama que encarna um projeto próprio e tensiona as formas tradicionais de poder no sertão.

A jovem Conceição divide seus dias entre o ofício de professora, o trabalho voluntário no campo de concentração de flagelados pela seca e os cuidados com sua avó, Mãe Nácia. Aos 22 anos, não manifesta desejo de casamento, embora seja apaixonada pelo primo Vicente, e vive imersa em leituras – o que leva a avó a comentar: “Esta menina tem umas ideias!” (Queiroz, 2012: 20). A frase, breve e expressiva, revela não apenas o que pode ser lido como um estranhamento geracional, mas também um traço estilístico da autora: a concisão, que parece espelhar a própria aridez da terra. A linguagem de Rachel, marcada por frases diretas e diálogos econômicos, frequentemente sugere mais do que explicita, estimulando a imaginação do leitor. Se essa concisão pode indicar certa incompletude, ela é compensada, no romance, pela alternância entre três núcleos narrativos – o de Conceição, o de Vicente e o de Chico Bento.

Rachel produz, em O Quinze, uma imagem marcante do sertão e da terra como lugar trágico, tomado pelos horrores da seca e da fome. É um cenário que se reproduz: “a eterna paisagem sertaneja de verão: cinza e fogo…” (Queiroz, 2012: 65). Os personagens vivem sob a pressão do presente – imposto pela urgência da sobrevivência –, assombrados pelas secas passadas e sustentados por uma esperança modesta de chuva futura. A terra não é promessa de posse estratégica, mas força que impõe derrota e deslocamento. Ela age; os retirantes reagem. Não há heroísmo, mas exposição crua da vulnerabilidade. Nesse primeiro momento da obra de Rachel, a agência feminina aparece sobretudo como autonomia intelectual (e financeira) e recusa ao destino matrimonial. A terra é adversidade; a ação feminina, resistência ética.

O sertão nordestino reaparece como cenário em outros romances publicados por Rachel na década de 1930. Quase cinco décadas depois, já octogenária, e depois de ter se dedicado muito especialmente ao trabalho como cronista, ela escreve seu último romance, Memorial de Maria Moura, também ambientado no sertão, levando o expressivo título de “memorial”. Neste romance, acompanhamos especialmente a trajetória de Maria Moura, marcada por perdas precoces, violência e aprendizado forçado em um sertão onde sobreviver exige estratégia e dureza.

Ainda jovem, após a morte dos pais e uma convivência marcada pela hostilidade dos próprios parentes, vê-se cercada por disputas de herança e tentativas de controle sobre seu corpo e seus bens. Aqui, contudo, a mudança é significativa em relação ao primeiro romance de Rachel. Maria Moura transforma a violência sofrida em poder estratégico, liderando homens armados, construindo alianças políticas e procurando estratégias para dominar o território. Se Conceição recusava a ordem tradicional por meio da independência e da recusa ao casamento, Maria Moura a confronta pela ação e pela conquista do território, projetando uma figura de mando em meio a uma paisagem política marcada pelo patriarcalismo e pela violência. A terra agora não expulsa; é apropriada e administrada como fundamento de poder. O domínio da Serra dos Padres, núcleo espacial decisivo do romance, converte-se em projeto existencial. O deslocamento é claro: do sertão como fatalidade ao sertão como território político, espaço de disputa e exercício de poder.

Também no plano formal notamos uma inflexão. Sai de cena a narrativa em terceira pessoa, presente no primeiro romance, para dar lugar a uma narrativa em primeira pessoa, que alterna vozes e memórias (Maria Moura, Marinalva, Beato Romano), intensificando a dimensão subjetiva. Os personagens narram suas próprias histórias, reivindicando sua versão dos fatos. Permanece, contudo, a concisão nas cenas de ação. Subjetividade e objetividade convivem, assim, em tensão produtiva. Essa oscilação aproxima, em certa medida, o romance do memorialismo como prática de construção de si e tentativa de expressar a subjetividade e a individualização em meio à cultura objetiva – dicotomia que remete a Georg Simmel – e que alimenta, igualmente, o conflito entre indivíduo e sociedade (Botelho & Van Hombeeck, 2022). Se não há ruptura completa em relação ao estilo anterior, vemos uma clara reconfiguração.

Com Tantos Anos, escrito em parceria com sua irmã Maria Luiza de Queiroz, Rachel assume explicitamente a escrita memorialista. A narrativa percorre a infância, a formação intelectual, a atuação política e a consagração literária da autora, por meio de capítulos curtos que contemplam os lugares onde morou ao longo da vida, as fazendas da família, as amizades construídas – especialmente no círculo literário –, a militância, o rompimento com o Partido Comunista e até mesmo seu polêmico apoio ao Golpe de 1964. A escrita a “duas vozes” confere singularidade ao livro e reforça o caráter construído da memória, bem como sua “natureza problemática, parcial e indeterminada das representações individuais e coletivas sobre o passado” (Botelho, 2020: 711). Maria Luiza intervém: complementa lembranças, introduz acontecimentos omitidos ou esquecidos. Nas palavras dela, o livro “é um trabalho composto por ela [Rachel] […] e de várias intervenções minhas: recordações de ocasiões, fatos e sentimentos a que ela não aludiu, passados no tempo em que estava ausente, ou até de coisas meio secretas (ou esquecidas?) de que ela não falaria…” (Queiroz & Queiroz, 1998: 10).

A negociação entre as irmãs – incluindo a resistência inicial de Rachel ao gênero autobiográfico, quando afirma, por exemplo, que “o autor se coloca abertamente como personagem principal […] dando largas às pretensões do seu ego”, ou ainda que “há coisas na vida de cada um que não se contam” (Queiroz, R.; Queiroz, M., 1998: 11) – explicita o caráter construído da memória. O fluxo narrativo, aqui, não é linear: passado e presente se entrelaçam, assim como os acontecimentos da vida de Rachel e de Maria Luiza se misturam, apresentados de modo condizente com suas respectivas subjetividades, em contraste com a objetividade cronológica. Além de constituir “um memorialismo marcado pelo livre trânsito entre temporalidades históricas profundamente diversas” (Teixeira, 2026), a estrutura remete às observações de Said, segundo as quais o estilo tardio não consegue se desvencilhar completamente do encalço do tempo.

Se, em Tantos Anos, as lembranças da autora cearense se voltam para múltiplos aspectos de sua trajetória como figura pública de projeção nacional – de modo que a agência feminina se manifesta na construção de sua própria trajetória e na inserção em espaços marcadamente masculinos –, em O Não Me Deixes emergem memórias mais íntimas, vinculadas diretamente ao seu lugar de origem: o sertão cearense.

É por meio dos pratos regionais, sobretudo aqueles associados à tradição familiar, que Rachel encontra uma forma de expressar a afetividade profunda que nutre pela terra onde nasceu. São preparações que utilizam recursos tipicamente encontrados no sertão e nas quais a artesanalidade está impressa: cozinha-se em casa, e várias mãos participam da obtenção do produto final. Nesse sentido, terra e família atravessam tanto a culinária quanto as lembranças da autora: no primeiro caso, condicionando a disponibilidade de alimentos; no segundo, contribuindo para a preparação dos pratos e para a realização das reuniões comemorativas. As receitas, contudo, não seguem o modelo convencional dos livros de culinária. Mais do que instruções técnicas, constituem uma tradução sensível de experiências vividas e de memórias afetivas da região – uma escrita em que cozinhar e recordar tornam-se gestos inseparáveis.

Além das receitas, destaca-se no livro a centralidade da terra – ou, mais precisamente, do sertão – para Rachel. O próprio título remete à fazenda herdada do pai. Se, em O Quinze, a terra significava tragédia e desejo de fuga, e em Memorial de Maria Moura simbolizava conquista estratégica, aqui – como também em Tantos Anos – ela surge como herança e pertencimento.

Ao observarmos a tematização da terra na literatura tardia de Rachel, percebemos que a posse adquire novo peso simbólico e narrativo. Maria Moura constrói sua trajetória em torno do domínio da Serra dos Padres, fazendo da conquista territorial um verdadeiro projeto de vida. Já nos livros memorialistas, a autora explicita sua própria relação com a terra, evidenciando não apenas o vínculo afetivo com o sertão, mas também a importância concreta da propriedade. Se, por um lado, a terra se constitui como lugar de pertencimento e possibilidade de retorno, por outro, mantém sua dimensão material e patrimonial como elemento estruturante da experiência.

Entre continuidade e desconcerto, a obra tardia de Rachel não dissolve o projeto inicial de todo, mas o reconfigura. O sertão, por exemplo, aparece como eixo estruturante das narrativas e da escrita de si, mas seus significados se transformam: de fatalidade a conquista; de conquista a herança – palavra que assume múltiplas camadas de sentido. A agência feminina também se modifica: da autonomia intelectual/financeira ao poder de mando e à autoinscrição autobiográfica num mundo predominantemente masculino. O estilo tardio, nesse caso, não se apresenta como síntese reconciliadora, mas, para retomar Said, como reelaboração sob a consciência do tempo.

Notas

[1]  O texto apresenta resultados parciais de uma pesquisa em andamento, realizada pelas autoras em parceria com Caroline Tresoldi. A pesquisa está vinculada ao projeto “Interpretações do Nordeste e aprendizado social da democracia”, orientada pelo Prof. André Botelho.

[2] Vale esclarecer que entendemos essas duas obras como memorialistas porque se voltam para a escrita de si, para a individualidade da autora e para suas formas de representação e reflexividade (Botelho & Van Hombeeck, 2022). Heloisa Teixeira lembra que Tantos Anos foge ao perfil clássico da autobiografia: “nem a reconstituição do tempo flui pacificamente, nem a informação se oferece como veraz e completa” (Teixeira, 2026: 197). O mesmo pode ser dito de O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha, livro em que a autora reconstrói as memórias do sertão por meio da culinária. Trata-se, em ambos os casos, de obras significativamente distintas daquelas que Rachel havia publicado anteriormente.

Referências

BOTELHO, André. (2020). Minas Mundo: hermenêutica de uma subjetividade individual. Sociologia & Antropologia, v. 10, n. 2, p. 707-727.

BOTELHO, André. & VAN HOMBEECK, Lucas. (2022). O balão, o serrote e o indivíduo: cosmopolítica do memorialismo modernista. Revista Brasileira de Sociologia – RBS, v. 10, n. 25.

CÂMARA, Mario. (2024). Resenha | “Grafias de vida – a morte”. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social – BVPS. Disponível em: https://blogbvps.com/2024/02/21/resenha-grafias-de-vida-a-morte-por-mario-camara/. Acesso em: 22 fev. 2026.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (2016). Rachel, Rachel. Rio de Janeiro: HB.

QUEIROZ, Rachel de. (1992). Memorial de Maria Moura. Rio de Janeiro: José Olympio.

QUEIROZ, Rachel de. (2000). O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha. São Paulo: Siciliano.

QUEIROZ, Rachel de. (2012). O Quinze. 93. ed. Rio de Janeiro: José Olympio.

QUEIROZ, Rachel de. & QUEIROZ, Maria Luiza de. (1998). Tantos anos. Rio de Janeiro: Siciliano.

SAID, Edward W. (2009). Estilo tardio. São Paulo: Companhia das Letras.

TEIXEIRA, Heloisa. (2026). Tantos anos. In: BOTELHO, André. & TRESOLDI, Caroline. (Org.). Crítica e rebeldia. Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (1985-2005). Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 195-198, no prelo.

Sobre as autoras

Milene Mossmann e Mariana Cordeiro são estudantes de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Suas pesquisas de iniciação científica cobrem diferentes aspectos da obra de Rachel de Queiroz.


En la nueva ronda de la Ocupación Mujeres, publicamos en la Columna Primeros Escritos un texto de Milene Mossmann y Mariana Cordeiro, estudiantes de Ciencias Sociales de la UFRJ, sobre la obra tardía de Rachel de Queiroz, una de las principales escritoras de la literatura brasileña. Al examinar obras como Memorial de Maria Moura, Tantos Anos y O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha, las autoras muestran cómo temas centrales de la escritora —como el sertão, la memoria y la agencia femenina— reaparecen bajo nuevas inflexiones. Según ellas, entre continuidad y desplazamiento, la obra tardía de Rachel reconfigura el proyecto literario iniciado con O Quinze, transformando el sertão en un espacio de poder, pertenencia y memoria.

Para saber más sobre la cuarta edición de la Ocupación Mujeres, haga clic aquí. Otros textos ya publicados pueden consultarse aquí.

¡Buena lectura y sigan acompañando nuestra programación del 8M mañana!

El estilo tardío de Rachel de Queiroz[3]

Por Milene Mossmann e Mariana Cordeiro (IFCS-UFRJ).

“Considero envejecer una idea pésima.” Es esta la declaración que hace Rachel de Queiroz en las primeras páginas de Tantos Anos (1998), libro en el que asume de manera más directa la escritura memorialística. A partir de este fragmento –y de otros que aparecen en sus últimas obras– observamos que la autora toma conciencia del fin de la vida y tematiza la vejez. Y realiza este esfuerzo a través de la escritura de sus propias memorias, a pesar de haberse posicionado durante mucho tiempo de manera crítica frente al género autobiográfico y sus variantes.

La escritora cearense, nacida en 1910, vivió hasta los 92 años y construyó una sólida carrera como novelista, cronista y miembro de la Academia Brasileira de Letras (ABL). Escritora polémica, que se declaraba periodista y antifeminista convencida –a pesar de haber creado algunos de los personajes femeninos más fuertes y autónomos de la literatura brasileña de su tiempo–, Rachel ocupa un lugar peculiar en la literatura brasileña (Hollanda, 2016). Hoy es poco leída y estudiada –quizás debido a sus posiciones políticas controvertidas a lo largo de los años–, aunque alcanzó reconocimiento literario siendo aún muy joven y fue la primera mujer en ingresar a la ABL, ochenta años después de su creación.

En medio de su vasta producción –iniciada en la juventud y mantenida hasta los últimos años de vida– recortamos en este breve ensayo algunas de sus últimas obras, como la novela Memorial de Maria Moura (1992) y los libros memorialísticos Tantos Anos (1998) y O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha (2000), con el objetivo de pensarlas a partir de la noción de “estilo tardío”.[4] La cuestión que se plantea no es solo cronológica, sino también estética y política: ¿qué ocurre cuando la escritora escribe bajo la conciencia de la madurez y de la finitud? ¿En qué medida sus últimos libros configuran continuidad, desplazamiento o tensión respecto del proyecto literario iniciado con O Quinze (1930), publicado cuando Rachel tenía apenas veinte años?

El concepto de estilo tardío, desarrollado por Theodor W. Adorno y retomado por Edward Said, se aparta de cualquier comprensión lineal del envejecimiento del artista. Según Said (2009), existen múltiples formas en las que la conciencia de la proximidad del fin de la vida se inscribe en la obra de autores y autoras. La estética tardía puede tanto conferir plenitud a la trayectoria de un artista como tensionar –o incluso desconcertar– aquello que fue producido anteriormente. Sin embargo, esta conciencia no se impone como regla: “Son pocos los artistas y pensadores capaces de llevar su oficio tan en serio como para percibir que también él envejece y debe enfrentarse a la muerte, sin poder recurrir sino a la memoria y a los sentidos en decadencia”, afirma Said (2009: 44). Al dialogar con esta tradición, Silviano Santiago contribuye a ampliar el debate al pensar la vejez no solo como tensión o ruptura, sino como un espacio de reinscripción crítica de la propia trayectoria intelectual, en el que memoria, reflexión y escritura se entrelazan sin necesariamente convertir la inminencia del fin en un tema explícito (Cámara, 2024).

Sugerimos que el énfasis en la memoria como último recurso es particularmente relevante para pensar el caso de Rachel, escritora que reiteró a lo largo de su vida que jamás escribiría su autobiografía (Teixeira, 2026). Si, para Said, el estilo tardío no implica serenidad sino tensión, las últimas obras de Rachel pueden leerse como una reconfiguración de su proyecto estético bajo la conciencia del tiempo. En este movimiento, tierra/sertón, muerte, memoria y agencia femenina –elementos estructurantes desde el inicio– reaparecen en las obras finales bajo nuevas inflexiones, revelando simultáneamente permanencias y desplazamientos.

Para desarrollar esta clave de lectura, recuperamos brevemente algunos aspectos de O Quinze, su primera –y posiblemente más decisiva– novela. Inserta entre los títulos del llamado “Romance de 30”, la obra articula las trayectorias de Conceição, Vicente y Chico Bento, con la sequía que asoló el sertón cearense en 1915 como telón de fondo. Se trata de una narrativa dramática que retrata las penurias vividas por la población del sertón, especialmente en lo que respecta a los “retirantes”, quienes encuentran en la migración la única forma de supervivencia en medio de la sequía y el hambre. Al reflexionar sobre el estilo de Rachel, nos interesa particularmente la construcción de las figuras femeninas, razón por la cual concentramos nuestro análisis en el personaje de Conceição: la única mujer de la trama que encarna un proyecto propio y tensiona las formas tradicionales de poder en el sertón.

La joven Conceição divide sus días entre su trabajo como maestra, el voluntariado en el campo de concentración de los damnificados por la sequía y el cuidado de su abuela, Mãe Nácia. A los 22 años, no manifiesta deseo de casarse, aunque está enamorada de su primo Vicente, y vive inmersa en lecturas –lo que lleva a su abuela a comentar: “¡Esta niña tiene unas ideas!” (Queiroz, 2012: 20). La frase, breve y expresiva, revela no solo lo que puede leerse como un extrañamiento generacional, sino también un rasgo estilístico de la autora: la concisión, que parece reflejar la propia aridez de la tierra. El lenguaje de Rachel, marcado por frases directas y diálogos económicos, a menudo sugiere más de lo que explicita, estimulando la imaginación del lector. Si esta concisión puede indicar cierta incompletud, en la novela se ve compensada por la alternancia entre tres núcleos narrativos –el de Conceição, el de Vicente y el de Chico Bento.

Rachel produce, en O Quinze, una imagen contundente del sertón y de la tierra como un lugar trágico, dominado por los horrores de la sequía y del hambre. Es un escenario que se reproduce: “el eterno paisaje sertanejo de verano: gris y fuego…” (Queiroz, 2012: 65). Los personajes viven bajo la presión del presente –impuesta por la urgencia de la supervivencia–, acosados por las sequías pasadas y sostenidos por una modesta esperanza de lluvia futura. La tierra no es promesa de posesión estratégica, sino una fuerza que impone derrota y desplazamiento. Ella actúa; los retirantes reaccionan. No hay heroísmo, sino una exposición cruda de la vulnerabilidad. En este primer momento de la obra de Rachel, la agencia femenina aparece sobre todo como autonomía intelectual y rechazo del destino matrimonial. La tierra es adversidad; la acción femenina, resistencia ética.

El sertón nordestino reaparece como escenario en otras novelas publicadas por Rachel en la década de 1930. Casi cinco décadas después, ya octogenaria, y tras haberse dedicado muy especialmente al trabajo como cronista, escribe su última novela, Memorial de Maria Moura, también ambientada en el sertón y con el expresivo título de “memorial”. En esta novela seguimos especialmente la trayectoria de Maria Moura, marcada por pérdidas precoces, violencia y un aprendizaje forzado en un sertón donde sobrevivir exige estrategia y dureza.

Aún joven, tras la muerte de sus padres y una convivencia marcada por la hostilidad de sus propios parientes, se ve rodeada por disputas de herencia e intentos de control sobre su cuerpo y sus bienes. Aquí, sin embargo, el cambio es significativo respecto de la primera novela de Rachel. Maria Moura transforma la violencia sufrida en poder estratégico, liderando hombres armados, construyendo alianzas políticas y dominando el territorio. Si Conceição rechazaba el orden tradicional por medio de la independencia intelectual y de la negativa al matrimonio, Maria Moura lo confronta mediante la acción y la conquista del territorio, proyectando una figura de mando en medio de un paisaje político marcado por el patriarcalismo y la violencia. La tierra ya no expulsa; es apropiada y administrada como fundamento de poder. El dominio de la Serra dos Padres, núcleo espacial decisivo de la novela, se convierte en un proyecto existencial. El desplazamiento es claro: del sertón como fatalidad al sertón como territorio político, espacio de disputa y ejercicio del poder.

También en el plano formal observamos una inflexión. La narración en tercera persona, presente en la primera novela, cede su lugar a una narración en primera persona que alterna voces y memorias (Maria Moura, Marinalva, Beato Romano), intensificando la dimensión subjetiva. Los personajes narran sus propias historias, reivindicando su versión de los hechos. Permanece, sin embargo, la concisión en las escenas de acción. Subjetividad y objetividad conviven así en una tensión productiva. Esta oscilación aproxima la novela al memorialismo como práctica de construcción de sí y como intento de expresar la subjetividad y la individualización en medio de la cultura objetiva –dicotomía que remite a Georg Simmel– y que alimenta igualmente el conflicto entre individuo y sociedad (Botelho & Van Hombeeck, 2022). Si no hay una ruptura completa con el estilo anterior, vemos una clara reconfiguración.

Con Tantos Anos, escrito en colaboración con su hermana Maria Luiza de Queiroz, Rachel asume explícitamente la escritura memorialística. La narración recorre la infancia, la formación intelectual, la actuación política y la consagración literaria de la autora, mediante capítulos breves que abordan los lugares donde vivió a lo largo de su vida, las haciendas de la familia, las amistades construidas –especialmente en el círculo literario–, la militancia, la ruptura con el Partido Comunista e incluso su polémico apoyo al golpe de 1964. La escritura “a dos voces” confiere singularidad al libro y refuerza el carácter construido de la memoria, así como su “naturaleza problemática, parcial e indeterminada de las representaciones individuales y colectivas sobre el pasado” (Botelho, 2020: 711). Maria Luiza interviene: complementa recuerdos, introduce acontecimientos omitidos u olvidados. En sus palabras, el libro “es un trabajo compuesto por ella [Rachel] […] y por varias intervenciones mías: recuerdos de ocasiones, hechos y sentimientos a los que ella no aludió, ocurridos en el tiempo en que estaba ausente, o incluso cosas algo secretas (¿u olvidadas?) de las que ella no hablaría…” (Queiroz & Queiroz, 1998: 10).

La negociación entre las hermanas –incluida la resistencia inicial de Rachel al género autobiográfico, cuando afirma, por ejemplo, que “el autor se coloca abiertamente como personaje principal […] dando rienda suelta a las pretensiones de su ego”, o incluso que “hay cosas en la vida de cada uno que no se cuentan” (Queiroz, R.; Queiroz, M., 1998: 11)– explicita el carácter construido de la memoria. El flujo narrativo aquí no es lineal: pasado y presente se entrelazan, así como los acontecimientos de la vida de Rachel –y de Maria Luiza– se mezclan, presentados de manera acorde con sus respectivas subjetividades, en contraste con la objetividad cronológica. Además de constituir “un memorialismo marcado por el libre tránsito entre temporalidades históricas profundamente diversas” (Teixeira, 2026), la estructura remite a las observaciones de Edward Said, según las cuales el estilo tardío no logra desprenderse completamente de la persecución del tiempo.

Si en Tantos Anos los recuerdos de la autora cearense se orientan hacia múltiples aspectos de su trayectoria como figura pública de proyección nacional –de modo que la agencia femenina se manifiesta en la construcción de su propia trayectoria y en la inserción en espacios marcadamente masculinos–, en O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha emergen memorias más íntimas, vinculadas directamente con su lugar de origen: el sertón cearense.

Es a través de los platos regionales, sobre todo aquellos asociados a la tradición familiar, que Rachel encuentra una forma de expresar la profunda afectividad que siente por la tierra donde nació. Son preparaciones que utilizan recursos típicamente encontrados en el sertón y en las que la artesanía está presente: se cocina en casa y muchas manos participan en la obtención del producto final. En este sentido, tierra y familia atraviesan tanto la culinaria como los recuerdos de la autora: en el primer caso, condicionando la disponibilidad de alimentos; en el segundo, contribuyendo a la preparación de los platos y a la realización de reuniones conmemorativas. Las recetas, sin embargo, no siguen el modelo convencional de los libros de cocina. Más que instrucciones técnicas, constituyen una traducción sensible de experiencias vividas y de memorias afectivas de la región: una escritura en la que cocinar y recordar se convierten en gestos inseparables.

Además de las recetas, destaca en el libro la centralidad de la tierra —o, más precisamente, del sertón– para Rachel. El propio título remite a la hacienda heredada de su padre. Si en O Quinze la tierra significaba tragedia y deseo de fuga, y en Memorial de Maria Moura simbolizaba conquista estratégica, aquí –como también en Tantos Anos– aparece como herencia y pertenencia.

Al observar la tematización de la tierra en la literatura tardía de Rachel, percibimos que la posesión adquiere un nuevo peso simbólico y narrativo. Maria Moura construye su trayectoria en torno al dominio de la Serra dos Padres, haciendo de la conquista territorial un verdadero proyecto de vida. En los libros memorialísticos, en cambio, la autora explicita su propia relación con la tierra, evidenciando no solo el vínculo afectivo con el sertón, sino también la importancia concreta de la propiedad. Si, por un lado, la tierra se constituye como lugar de pertenencia y posibilidad de retorno, por otro mantiene su dimensión material y patrimonial como elemento estructurante de la experiencia.

Entre continuidad y desconcierto, la obra tardía de Rachel no disuelve por completo el proyecto inicial, sino que lo reconfigura. El sertón, por ejemplo, aparece como eje estructurante de las narrativas y de la escritura de sí, pero sus significados se transforman: de fatalidad a conquista; de conquista a herencia –palabra que asume múltiples capas de sentido–. La agencia femenina también se modifica: de la autonomía intelectual al poder de mando y a la autoinscripción autobiográfica en un mundo predominantemente masculino. El estilo tardío, en este caso, no se presenta como una síntesis reconciliadora, sino, para retomar a Said, como una reelaboración bajo la conciencia del tiempo.

Notas

[3] El texto presenta resultados parciales de una investigación en curso, realizada por las autoras en colaboración con Caroline Tresoldi. La investigación está vinculada al proyecto “Interpretações do Nordeste e aprendizado social da democracia”, orientado por el Prof. André Botelho.

[4] Vale aclarar que entendemos estas dos obras como memorialísticas porque se orientan hacia la escritura de sí, hacia la individualidad de la autora y hacia sus formas de representación y reflexividad (Botelho & Van Hombeeck, 2022). Heloisa Teixeira recuerda que Tantos Anos se aparta del perfil clásico de la autobiografía: “ni la reconstrucción del tiempo fluye pacíficamente, ni la información se ofrece como veraz y completa” (Teixeira, 2026: 197). Lo mismo puede decirse de O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha, libro en el que la autora reconstruye las memorias del sertón a través de la cocina. Se trata, en ambos casos, de obras significativamente distintas de aquellas que Rachel había publicado anteriormente.

Referencias

BOTELHO, André. (2020). Minas Mundo: hermenêutica de uma subjetividade individual. Sociologia & Antropologia, v. 10, n. 2, p. 707-727.

BOTELHO, André. & VAN HOMBEECK, Lucas. (2022). O balão, o serrote e o indivíduo: cosmopolítica do memorialismo modernista. Revista Brasileira de Sociologia – RBS, v. 10, n. 25.

CÂMARA, Mario. (2024). Resenha | “Grafias de vida – a morte”. Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social – BVPS. Disponível em: https://blogbvps.com/2024/02/21/resenha-grafias-de-vida-a-morte-por-mario-camara/. Acesso em: 22 fev. 2026.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (2016). Rachel, Rachel. Rio de Janeiro: HB.

QUEIROZ, Rachel de. (1992). Memorial de Maria Moura. Rio de Janeiro: José Olympio.

QUEIROZ, Rachel de. (2000). O Não Me Deixes: suas histórias e sua cozinha. São Paulo: Siciliano.

QUEIROZ, Rachel de. (2012). O Quinze. 93. ed. Rio de Janeiro: José Olympio.

QUEIROZ, Rachel de. & QUEIROZ, Maria Luiza de. (1998). Tantos anos. 2. ed. Rio de Janeiro: Siciliano.

SAID, Edward W. (2009). Estilo tardio. São Paulo: Companhia das Letras.

TEIXEIRA, Heloisa. (2026). Tantos anos. In: BOTELHO, André. & TRESOLDI, Caroline. (Org.). Crítica e rebeldia. Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (1985-2005). Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 195-198.

Sobre las autoras

Milene Mossmann y Mariana Cordeiro son estudiantes de Ciencias Sociales de la Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sus investigaciones de iniciación científica abordan distintos aspectos de la obra de Rachel de Queiroz.