
Na última rodada de postagem do 8M na BVPS, Rosario Fernández Ossandón (Universidade do Chile) discute a centralidade dos cuidados nas agendas feministas e nas políticas públicas da América Latina. A autora revisita o papel dos movimentos de mulheres na politização do cuidado e discute avanços recentes, como a criação do sistema Chile Cuida, destacando o reconhecimento do cuidado como trabalho e como direito. Ao mesmo tempo, o texto propõe pensar os cuidados para além das políticas estatais, enfatizando sua dimensão afetiva, ética e relacional. Em um contexto de ofensiva conservadora e de múltiplas violências, a autora argumenta que os cuidados podem constituir práticas de resistência e formas de sustentar o mundo comum.
Aproveitamos para agradecer a participação das autoras nesta quarta edição da Ocupação Mulheres da BVPS. Para saber mais sobre essa edição, com curadoria de Claudia Bacci (IEALC-UBA) e Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), clique aqui. Outros textos publicados podem ser conferidos aqui.
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A potência afetiva, ética e política dos cuidados em tempos sombrios
Por Rosario Fernández Ossandón (Universidade do Chile)
I. Os cuidados na agenda latino-americana: da comunidade ao Estado
Os cuidados são hoje um foco central das políticas públicas na América Latina, efeito de décadas de ativismo e trabalho político de mulheres, feministas e cuidadoras que denunciaram as múltiplas violências que persistem nos âmbitos públicos e privados – mesmo apesar dos avanços no reconhecimento delas como sujeitos de direitos – e que trabalharam para fazer dos cuidados um assunto político, isto é, não exclusivamente privado e restrito ao lar. A base estabelecida pelas sufragistas e organizações comunitárias na primeira metade do século XX é aprofundada na segunda metade com a insistência dos movimentos sociais em revelar os aspectos estruturais de um sistema patriarcal que ainda opera na economia, na cultura, na política, no lar e na sexualidade. A consigna “o pessoal é político” dá conta desses âmbitos inter-relacionados e revela o poder da estrutura patriarcal que se sustenta, como assinala Julieta Kirkwood (1986), em um sistema autoritário subjacente nas sociedades latino-americanas.
No âmbito supranacional, a partir de 1977 a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), junto com seus Estados membros, tem trabalhado em favor dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero, esforços que se aprofundam em 1995 no Encontro de Beijing, a Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher. Esses são os antecedentes que permitiram visibilizar os cuidados como um direito humano em nível internacional. Mas essa trajetória não teria sido possível sem o movimento de mulheres e feministas durante as ditaduras e no retorno às democracias. A partir de distintas perspectivas – marxistas, comunitárias, territoriais e antirracistas – os feminismos geraram diversas expressões políticas – entre elas manifestações, declarações, publicações e a organização de coletivos – que tiveram como objetivo a luta pelos direitos de todas as pessoas, independentemente de sua condição de classe, racial, étnica e de gênero.
Em seus inícios, os focos foram o trabalho doméstico e a divisão sexual do trabalho, e dedicaram-se a demonstrar que o trabalho reprodutivo e de cuidados é um trabalho e uma prática cotidiana que permite a produção do capitalismo. Nas palavras de Silvia Federici (2012: 2): “a reprodução de seres humanos é a base de todo sistema econômico e político, e a imensa quantidade de trabalho doméstico pago e não pago realizado por mulheres no lar é o que permite que o mundo se mova”. Ao mesmo tempo, nesse momento argumenta-se que o trabalho doméstico é também um trabalho emocional, afetivo e material, elementos que nos permitem pensar os cuidados não apenas como um direito, mas também como uma prática corporal e sensorial.
É nos anos 1990 que as lutas das mulheres começam a infiltrar-se no aparato estatal por meio do que se denominou a “transversalização da perspectiva de gênero”, que se traduziu em políticas e programas institucionais cujo objetivo era alcançar a eliminação das violências contra as mulheres, sua autonomia econômica e sua integração a distintos âmbitos da vida política, social, cultural e econômica. Especificamente, os cuidados têm concentrado as lutas feministas e os projetos governamentais da última década. De acordo com Karina Batthyány (2020: 11): “Os percursos na América Latina deram forte ênfase ao cuidado como um dos elementos centrais de uma economia alternativa e feminista, mas também como um componente-chave do bem-estar social”.
Organismos internacionais, movimentos feministas e o mundo acadêmico têm avançado na proposta de uma sociedade do cuidado. Na América Latina, em 2022 realizou-se a XV Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, organizada pela CEPAL em coordenação com a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), na qual se produziu o Compromisso de Buenos Aires, que reconhece os cuidados como trabalho e como direito. Esse acordo é fortalecido pelo Compromisso de Tlatelolco, da XVI Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, que insiste na importância dos cuidados e estabelece novos acordos para erradicar a violência de gênero na região durante o período 2025-2035.
Nesse contexto, os Estados, as organizações comunitárias e as pesquisas sociais dedicam-se a colocar os cuidados no centro de suas ações. No âmbito da pesquisa, os estudos provenientes da economia feminista, da sociologia do cuidado, do direito e da ética do cuidado buscam compreender as formas pelas quais os cuidados se organizam e são realizados principalmente pelas mulheres e, especialmente, por mulheres de setores populares. Esses estudos empíricos, que recolhem a realidade latino-americana, contribuem para a criação de propostas teóricas e práticas que impactam as políticas públicas e entrelaçam a relação entre cuidados e democracia.
No caso do Chile, anos de lutas sociais de organizações de mulheres, feministas e de cuidadores permitiram que, no presente ano, fosse aprovada a Lei “Chile Cuida”, que cria o Sistema Nacional de Apoios e Cuidados. Ela emerge de um processo participativo por meio de diálogos sociais realizados durante 2023, intitulado “Hablemos de Cuidados”, que incluiu organizações e coletivos, diversos ministérios e subsecretarias do governo e a ONU Mulheres. O interessante desses diálogos é que buscaram recolher a diversidade de experiências nas quais os cuidados tomam forma. Nas palavras da Ministra da Mulher e da Equidade de Gênero, Antonia Orellana:
Falar de cuidados, a partir da experiência cotidiana de cuidar ou de receber cuidados, tem um valor singular no desenho de políticas públicas eficazes que respondam de maneira efetiva às necessidades que hoje têm as famílias. Hablemos de Cuidados quis resgatar essa experiência concreta e cotidiana de quem oferece e de quem recebe cuidados ao longo de todo o Chile, recolher suas visões, opiniões e reflexões a respeito do trabalho diário de cuidar nos lares, para identificar as principais necessidades e desafios e desenhar, a partir desse diagnóstico, a melhor política pública possível” (Ministerio de Desarrollo Social y Familia & ONU Mujeres Chile, 2023).
“Hablemos de Cuidados” incluiu atividades presenciais e autoconvocadas que mobilizaram 12.614 pessoas em todo o Chile, 80,4% delas mulheres, e também foram realizadas mesas setoriais com pessoas da academia, da sociedade civil organizada (dedicadas ao trabalho com crianças, pessoas em situação de dependência, idosos e neurodivergências), sindicatos, serviços de cuidados, setores da educação infantil, da saúde e do trabalho, além do Conselho da Sociedade Civil (COSOC) do Ministério de Desenvolvimento Social e Família. Foi a partir desse processo participativo entre diversos atores da sociedade chilena, especialmente daqueles e daquelas que se dedicam às tarefas de cuidado, que foi elaborada a Lei “Chile Cuida”.
Ela consagra o direito de todas as pessoas a cuidar, a ser cuidadas e a exercer o autocuidado. Propõe resguardar os direitos trabalhistas das cuidadoras remuneradas e promover o desenvolvimento da autonomia de pessoas em situação de dependência. Nas palavras da ministra Camila Vallejos: “Com esta promulgação, avançamos de maneira muito decidida em direção a um Estado que cuida, que protege, que se preocupa com os habitantes de nossa pátria e particularmente com as pessoas que estiveram mais postergadas durante muito tempo, mulheres, bem como crianças e pessoas doentes”.
II. Por uma perspectiva corporal e afetiva dos cuidados
Tomando o caso chileno, os esforços para materializar a lei serão o desafio das próximas décadas. Agora, podemos nos perguntar: uma lei que se baseia em um processo participativo cujo objetivo é recolher a multiplicidade de formas de cuidar, que perigos e desafios os cuidados enfrentam ao se integrarem ao Estado, que muitas vezes termina por gerir recursos e provisões e onde o singular é subordinado ou mesmo reduzido a uma política geral?; podem as leis subverter os papéis de gênero e os afetos femininos historicamente associados aos cuidados?; e como fazer dos cuidados uma necessidade para as democracias sem cair em idealizações que se abstraem da realidade? Retomando as palavras de Karina Batthyány (2020: 48): “O maior desafio é como avançar para um mundo no qual indivíduos e a sociedade como um todo reconheçam e valorizem a importância das diferentes formas de cuidado, mas sem reforçar o trabalho de cuidado como algo que apenas as mulheres e as meninas podem e devem fazer”.
Celebrando a importância dos avanços em nível legislativo e o gesto de situar os cuidados na agenda social, os feminismos, as mulheres e os cuidadores têm um papel central em fazer das experiências cotidianas as protagonistas dos processos de implementação e materialização das leis e das políticas públicas. Isso implica, por sua vez, uma vigilância sobre os modos pelos quais a sociedade e suas instituições seguem naturalizando a associação entre cuidados, amor e mulheres, especialmente em relação ao novo governo de direita que assume em março. Isso é particularmente relevante no contexto atual dos “horrorismos” (Cavarero, 2009), no qual proliferam guerras, violências e neofascismos que voltam a introduzir discursos e ideologias tradicionais sobre o lugar das mulheres nas famílias, atentando contra os avanços nos direitos das mulheres e das dissidências sexuais nesta e em outras matérias.
É nesse cenário que somos chamadas a canalizar formas de resistência que, por um lado, reconheçam nossa condição ontológica de vulnerabilidade (Butler & Athanasiou) e que, por outro, façam dos cuidados contraestratégias políticas que recolham tanto as experiências plurais quanto o contexto no qual nos encontramos. Precisamos insistir nos cuidados como ética e como prática cotidiana com o fim de produzir espaços políticos de pluralidade, onde o entre e o quem, em termos arendtianos (Arendt, 2023), permitam que os cuidados não sejam reduzidos a um recurso, mas compreendidos como uma forma relacional que assume nossas responsabilidades com os outros e com o mundo comum que permite a existência de todes.
Em outras palavras, precisamos que os cuidados não acabem se tornando uma palavra abstrata com letra maiúscula. A filósofa Simone Weil (2022), refletindo sobre as guerras de seu tempo – os fascismos da Europa –, assinala que, em nome de palavras com letra maiúscula, justificam-se as grandes matanças: Nação, Raça, Estado, Religião e até mesmo Mulheres são palavras que se tornam vazias e irreais. Com palavras “maiúsculas (…) vazias de significado: (…) os homens derramarão rios de sangue; amontoarão ruína sobre ruína, repetindo essas palavras, sem obter jamais nada que lhes corresponda de modo efetivo”. Em contrapartida, palavras que resistem a tornar-se absolutos são aquelas “com conteúdo e com sentido [e, portanto] não são mortíferas”. Weil nos convida a esclarecer as noções com o objetivo de “desacreditar palavras vazias em si mesmas; definir o uso de outras mediante análises precisas são, por estranho que possa parecer, tarefas que poderiam preservar existências humanas” (Weil, 2022: 12–13).
O desafio, creio, diz respeito a resistir a que os cuidados se convertam em uma palavra com letra maiúscula e se desvinculem de toda situação, relação, materialidade e afetividade que os tornam necessários para todos. Esclarecer os cuidados não é, sugiro, um trabalho de abstração, de propor um a priori ou um absoluto, mas de enriquecer seu conteúdo com experiências que são comuns e singulares, para que interrompam a associação mulheres = amor = cuidados e permitam a existência das vidas de todes. São experiências comuns porque todos cuidamos e somos cuidados, mas singulares porque nenhuma forma de cuidado é igual a outra: depende da história, do vínculo, das condições e dos afetos associados a cada expressão de cuidado com crianças, enfermos, familiares, com qualquer Rosto, em termos levinasianos, que nos responsabiliza para e com ele/ela (Levinas, 2002).
Nesse sentido, atender à potência política dos cuidados nos permite não apenas dar conta do caráter sensorial e afetivo das múltiplas e diferentes experiências, mas também nos compromete ética e politicamente com o mundo comum que hoje se vê fortemente ameaçado (Arendt, 2023).
Dar conta dos afetos dos cuidados nos corpos – como podem ser o carinho, o esgotamento, a alegria, o cansaço, a ternura, o desgaste, a preocupação, a humildade, o amor, a raiva, entre muitos outros afetos que circulam nas relações de cuidado – permite prestar atenção às configurações afetivas que ocorrem nas práticas, com o objetivo de desromantizá-los e compreender sua relação com estruturas patriarcais, classistas e racistas que fazem da tarefa do cuidado algo atribuído às mulheres e que tornam certos corpos cuidáveis e outros descartáveis. Se, como assinala Joan Tronto (2013), os cuidados são uma questão política central para a democracia – na medida em que revelam nossas interdependências, relacionalidade e responsabilidade com os outros e com o mundo –, proponho que encarnar os cuidados e prestar atenção ao seu caráter afetivo nos convida a fazer com que os cuidados não sejam apenas um o quê que invisibilize quem são ou estão na relação de cuidado, e a transformá-los em formas de resistência às violências contemporâneas.
Referências
ARENDT, Hannah. (2023 [1958]). La condición humana. Montevideo: Paidós.
BATTHYÁNY, Karina (ed.). (2020). Miradas latinoamericanas a los cuidados. Ciudad de México: Siglo XXI Editores & CLACSO.
BUTLER, Judith & ATHANASIOU, Athena. (2017). Desposesión: lo performativo en lo político. Buenos Aires: Eterna Cadencia.
CAVARERO, Adriana. (2009). Horrorismo. Barcelona: Anthropos Editorial & México: Universidad Autónoma Metropolitana-Iztapalapa.
FEDERICI, Silvia. (2012). Revolution at Point Zero: Housework, Reproduction, and Feminist Struggle. Oakland: PM Press.
KIRKWOOD, Julieta. (1986). Ser política en Chile: las feministas y los partidos. Santiago: FLACSO.
LEVINAS, Emmanuel. (2002). Totalidad e infinito. Ensayo sobre la exterioridad. Salamanca: Ediciones Sígueme.
MINISTERIO DE DESARROLLO SOCIAL Y FAMILIA & ONU MUJERES CHILE. (2023). Hablemos de cuidados: principales resultados de los diálogos ciudadanos hacia la construcción del Sistema Nacional e Integral de Cuidados. Santiago de Chile.
TRONTO, Joan. (2013). Caring Democracy: Markets, Equality and Justice. New York: NYU Press.
WEIL, Simone. (2022). El poder de las palabras. Buenos Aires: Ediciones Godot.
Sobre a autora
Rosario Fernández Ossandón é doutora em Sociologia pela Goldsmiths, Universidade de Londres. É professora do Departamento de Filosofia da Universidade do Chile, secretária de redação da Revista en Filosofía, coordenadora acadêmica da Licenciatura em Filosofia e diretora do Grupo de Estudo Interdisciplinar em Filosofia e Dança na mesma instituição. É co-coordenadora do GT-CLACSO Rede de Gênero, Feminismos e Memórias. Pesquisadora dos projetos “La materialidad del movimiento, el movimiento de la materialidad” e “Movimiento, memoria y creación”, financiados pela Universidade do Chile. Seus temas de pesquisa incluem cuidados, afetos, vulnerabilidade e dança.
En la última ronda de publicaciones del 8M en la BVPS, Rosario Fernández Ossandón (Universidad de Chile) discute la centralidad de los cuidados en las agendas feministas y en las políticas públicas de América Latina. La autora revisita el papel de los movimientos de mujeres en la politización del cuidado y analiza avances recientes, como la creación del sistema Chile Cuida, destacando el reconocimiento del cuidado como trabajo y como derecho. Al mismo tiempo, el texto propone pensar los cuidados más allá de las políticas estatales, enfatizando su dimensión afectiva, ética y relacional. En un contexto de ofensiva conservadora y de múltiples violencias, la autora argumenta que los cuidados pueden constituir prácticas de resistencia y formas de sostener el mundo común.
Aprovechamos para agradecer la participación de las autoras en esta cuarta edición de la Ocupación Mujeres de la BVPS. Para saber más sobre esta edición, con curaduría de Claudia Bacci (IEALC-UBA) y Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), haga clic aqu. Otros textos publicados pueden consultarse aquí.
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La potencia afectiva, ética y política de los cuidados en tiempos oscuros
Por Rosario Fernández Ossandón (Universidad de Chile)
I. Los cuidados en la agenda latinoamericana: de la comunidad al Estado
Los cuidados son hoy foco central de las políticas públicas en América Latina, efecto de décadas de activismo y trabajo político de mujeres, feministas y cuidadoras que denunciaron las múltiples violencias que persisten en los ámbitos públicos y privados –incluso a pesar de los avances en el reconocimiento de ellas como sujetos de derechos– y que trabajaron por hacer de los cuidados un asunto político, es decir, no exclusivamente privado y del hogar. La base sentada por las sufragistas y organizaciones comunitarias en la primera mitad del siglo veinte, es profundizada en la segunda mitad con la insistencia de los movimientos sociales en revelar los aspectos estructurales de un sistema patriarcal que aún opera en la economía, la cultural, la política, el hogar y la sexualidad. La consigna “lo personal es político” da cuenta de estos ámbitos interrelacionados y devela el poder de la estructura patriarcal que se sustenta, como señala Julieta Kirkwood (1986), en un sistema autoritario subyacente en las sociedades latinoamericanas.
En el ámbito supranacional, a partir de 1977 la Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL) junto con sus Estados miembros han trabajado a favor de los derechos de las mujeres y la igualdad de género, esfuerzos que se profundizan en 1995 en el Encuentro de Beijing, la Cuarta Conferencia Mundial sobre la Mujer. Son estos los antecedentes que permitieron visibilizar los cuidados como un derecho humano a nivel internacional. Pero esta trayectoria no hubiese sido posible sin el movimiento de mujeres y feministas durante las dictaduras y el retorno a las democracias. Desde distintas perspectivas –marxistas, comunitarios, territoriales y anti-racistas– los feminismos generaron diversas expresiones políticas –entre ellas manifestaciones, declaraciones, publicaciones, y la organización de colectivos– que tuvieron como objetivo la lucha por los derechos de todas las personas, independiente de su condición de clase, racial, étnica, y de género. En sus inicios, los focos fueron el trabajo doméstico y la división sexual del trabajo, y se abocaron a dar cuenta de que la labor reproductiva y de cuidados es un trabajo y una práctica cotidiana que permite la producción del capitalismo. En palabras de Silvia Federici (2012: 2): “la reproducción de seres humanos es la base de todo sistema económico y político, y que la inmensa cantidad de trabajo doméstico pagado y no pagado realizado por mujeres en el hogar es lo que permite que el mundo se mueva”. A su vez, en este momento se argumenta que el trabajo doméstico es un trabajo también emocional, afectivo y material, elementos que nos permiten pensar los cuidados no solo como derecho sino también como una práctica corporal y sensorial.
Es en los noventas que las luchas de las mujeres empiezan a infiltrarse en el aparato estatal a partir de lo que se denominó la “transversalización del enfoque de género”, que se tradujo en políticas y programas institucionales cuyo objetivo era lograr la eliminación de las violencias hacia las mujeres, su autonomía económica y su integración a distintos ámbitos de la vida política, social, cultural y económica. Específicamente los cuidados han concentrado las luchas feministas y proyectos gubernamentales de la última década. De acuerdo a Karina Batthyány (2020: 11): “Los recorridos en América Latina han hecho un fuerte hincapié en el cuidado como uno de los elementos centrales de una economía alternativa y feminista pero también como un componente clave del bienestar social”.
Organismos internacionales, movimientos feministas y el mundo académico han avanzado hacia la propuesta de una sociedad de los cuidados. En América Latina, se realiza el 2022 la XV Conferencia Regional sobre la Mujer de América Latina y el Caribe organizada por la CEPAL en coordinación con la Entidad de las Naciones Unidas para la Igualdad de Género y el Empoderamiento de las Mujeres (ONU-Mujeres) donde se genera el Compromiso de Buenos Aires que reconoce a los cuidados como trabajo y derecho. Este acuerdo es fortalecido por el Compromiso de Tlatelolco de la XVI Conferencia Regional sobre la Mujer de América Latina y el Caribe, que insiste en la importancia de los cuidados y establece nuevos acuerdos para erradicar la violencia de género en la región durante el período 2025–2035.
En este contexto, los Estados, las organizaciones comunitarias y las investigaciones sociales se dedican a poner en el centro de sus acciones a los cuidados. En el ámbito de la investigación, los estudios desde la economía feminista, la sociología del cuidado, el derecho y la ética de los cuidados intentan comprender las formas en que estos se organizan y realizan principalmente en manos de mujeres y, especialmente, en mujeres de sectores populares. Estos estudios empíricos que recogen la realidad latinoamericana contribuyen a la creación de propuestas teóricas y prácticas que impactan las políticas públicas y trenzan la relación entre cuidados y democracia.
En el caso de Chile, años de luchas sociales de organizaciones de mujeres, feministas y de cuidadores permitieron que en el presente año se haya aprobado la Ley “Chile Cuida” que crea el Sistema Nacional de Apoyos y Cuidados. Ella emerge de un proceso participativo a través de diálogos sociales realizados durante el 2023 titulado “Hablemos de Cuidados” que incluyeron a organizaciones y colectivos, a diversos Ministerios y Subsecretarías del Gobierno y a ONU Mujeres. Lo interesante de estos diálogos es que intentó recoger la diversidad de experiencias en que los cuidados toman forma. En palabras de la Ministra de la Mujer y la Equidad de Género, Antonia Orellana:
Hablar de cuidados, desde la experiencia cotidiana de cuidar o de recibir cuidados, tiene un valor singular en el diseño de políticas públicas eficaces que respondan de manera efectiva a las necesidades que tienen hoy las familias. Hablemos de Cuidados quiso rescatar esa experiencia concreta y cotidiana de quienes brindan y reciben cuidados a lo largo de todo Chile, recoger sus visiones, opiniones y reflexiones respecto al trabajo diario de cuidar en los hogares, para identificar las principales necesidades y desafíos y diseñar, a partir de este diagnóstico, la mejor política pública posible (Ministerio de Desarrollo Social y Familia y ONU Mujeres Chile, 2023).
“Hablemos de Cuidados” incluyó actividades presenciales y autoconvocadas que movilizaron a 12.614 personas a lo largo de todo Chile, 80.4% de ellas mujeres, y también se desarrollaron mesas sectoriales con personas de la academia, la sociedad civil organizada (dedicadas al trabajo con niños, personas en dependencia, tercera edad, neurodivergencias), sindicatos, servicios de cuidados, sectores de la educación parvularia, de la salud y del trabajo, y el Consejo de la Sociedad Civil (COSOC) del Ministerio de Desarrollo Social y Familia. Es a partir de este proceso participativo entre diversos actores de la sociedad chilena, especialmente de aquellas y aquellos que se dedican a labores de cuidados, que es elaborada la Ley “Chile Cuida”.
Ella consagra el derecho de todas las personas a cuidar, a ser cuidadas y a ejercer el autocuidado. Se propone resguardar los derechos laborales de las cuidadoras remuneradas y el desarrollo de la autonomía de personas con dependencia. En palabras de la ministra Camila Vallejos: “Con esta promulgación, avanzamos de manera muy decidida hacia un Estado que cuida, que protege, que se preocupa de los habitantes de nuestra patria y particularmente de las personas que han estado más postergadas durante mucho tiempo, mujeres como también niños y las personas enfermas”.
II. Por una perspectiva corporal y afectiva de los cuidados
Tomando el caso chileno, los esfuerzos por materializar la Ley será el desafío de las próximas décadas. Ahora, nos podemos preguntar: una ley que se basa en un proceso participativo que tiene como objetivo recoger la multiplicidad de formas de cuidar, ¿qué peligros y desafíos corren los cuidados al integrarse al Estado que muchas veces termina por gestionar recursos y provisiones y donde lo singular es sujetado o, incluso, reducido a una política general?; ¿pueden las leyes subvertir los roles de género y los afectos femeninos asociados históricamente a los cuidados?; y ¿cómo hacer de los cuidados una necesidad para la democracias sin caer en idealizaciones que se abstraen de la realidad? Retomando las palabras de Karina Batthyány (2020: 48): “El reto más grande es cómo avanzar hacia un mundo en el cual individuos y la sociedad en su conjunto reconozcan y valoren la importancia de las diferentes formas de cuidado, pero sin reforzar el trabajo de cuidados como algo que sólo las mujeres y las niñas pueden y deben hacer”.
Celebrando la importancia de los avances a nivel legislativo y el gesto de situar a los cuidados en la agenda social, los feminismos, las mujeres y los cuidadores tienen un rol central en hacer de las experiencias cotidianas las protagonistas de los procesos de implementación y materialización de leyes y políticas públicas. Esto implica, a su vez, una vigilancia sobre los modos en que la sociedad y sus instituciones siguen naturalizando la asociación entre cuidados, amor y mujeres, especialmente en relación al nuevo gobierno de derecha que asume en marzo. Esto es particularmente relevante en el contexto actual de los horrorismos (Cavarero, 2009) donde proliferan las guerras, las violencias y los neofascismos los cuales vuelven a introducir discursos e ideologías tradicionales sobre el lugar de las mujeres en las familias, atentando contra los avances en los derechos de las mujeres y las disidencias sexuales en esta y otras materias. Es en este escenario que somos llamadas a encauzar formas de resistencias que, por un lado, reconozcan nuestra condición ontológica de vulnerabilidad (Butler & Athanasiou) y que, por otro, hagan de los cuidados contra-estrategias políticas que recogen tanto las experiencias plurales como el contexto en el cual nos encontramos. Necesitamos insistir en los cuidados como ética y como práctica cotidiana con el fin de producir espacios políticos de pluralidad, donde el entre y el quién, en términos arendtianos (Arendt, 2023), permitan que no se reduzcan los cuidados a un recurso sino a una forma relacional que asume nuestras responsabilidades con los otros y con el mundo común que permite la existencia de todes.
En otras palabras, necesitamos que los cuidados no terminen siendo una palabra abstracta con mayúscula. La filósofa Simone Weil (2022), reflexionando sobre las guerras de su tiempo –los fascismos de Europa– señala que a nombre de palabras con mayúscula se justifican las grandes matanzas: Nación, Raza, Estado, Religión, e incluso Mujeres, son palabras que se vuelven vacías e irreales. Con palabras “mayúsculas (…) vacías de significado: (…) los hombres derramarán ríos de sangre; amontonarán ruina sobre la ruina, repitiendo esas palabras, sin obtener nunca nada que les corresponda de modo efectivo”. En cambio, palabras que resisten devenir absolutos son aquellas “con contenido y con sentido [y, por tanto] no son mortíferas”. Weil nos invita a aclarar las nociones con el fin de “desacreditar palabras vacías en sí mismas, definir el uso de otras mediante análisis precisos, son, por extraño que pueda parecer tareas que podrían preservar existencias humanas” (Weil, 2022: 12-13).
El desafío, creo, dice relación con resistir a que los cuidados devengan una palabra con mayúscula y que se desentienda de toda situación, relación, materialidad y afectividad que hacen de ellos necesarios para todos. Aclarar los cuidados no es, sugiero, un trabajo de la abstracción, de proponer un a priori o de un absoluto, sino uno de enriquecer su contenido con experiencias que son comunes y singulares, para que interrumpan la asociación mujeres=amor=cuidados y que permitan la existencia de las vidas de todes. Son experiencias comunes porque todos cuidados y somos cuidados, pero singulares porque ninguna forma del cuidado es igual a otra, depende de la historia, el vínculo, las condiciones y los afectos asociados a cada expresión de cuidados a niños, enfermos, familiares, de cualquier Rostro, en términos levinasianos, que nos responsabiliza para y con él/ella (Levinas, 2002). En este sentido, atender a la potencia política de los cuidados nos permite no sólo dar cuenta del carácter sensorial y afectivo de las múltiples y diferentes experiencias, sino que también nos compromete ética y políticamente con el mundo común que hoy se ve fuertemente amenazado (Arendt, 2023).
Dar cuenta de los afectos de los cuidados en los cuerpos –como pueden ser el cariño, el agobio, la alegría, el cansancio, la ternura, el desgaste, la preocupación, la humildad, el amor, la rabia, entre muchos otros afectos que circulan en las relaciones de los cuidados– nos permite poner atención a las configuraciones afectivas que suceden en las prácticas, con el fin de des-romantizarlos y entender su relación con estructuras patriarcales, clasistas y racistas que sumen la tarea de los cuidados como de mujeres y que hacen de ciertos cuerpos cuidables y otros desechables. Si como señala Joan Tronto (2013), los cuidados son un asunto político central para la democracia –en tanto develan nuestras interdependencias, relacionalidad y responsabilidad con otros y con el mundo– propongo que encarnar los cuidados y poner atención a su carácter afectivo nos invita a que los cuidados no sean un qué que invisibilise quiénes son/están en la relación de cuidados, y hacer de ellos formas de resistencias a las violencias contemporáneas.
Referencias
ARENDT, Hannah. (2023 [1958]). La condición humana. Montevideo: Paidós.
BATTHYÁNY, Karina (ed.). (2020). Miradas latinoamericanas a los cuidados. Ciudad de México: Siglo XXI Editores & CLACSO.
BUTLER, Judith & ATHANASIOU, Athena. (2017). Desposesión: lo performativo en lo político. Buenos Aires: Eterna Cadencia.
CAVARERO, Adriana. (2009). Horrorismo. Barcelona: Anthropos Editorial & México: Universidad Autónoma Metropolitana-Iztapalapa.
FEDERICI, Silvia. (2012). Revolution at Point Zero: Housework, Reproduction, and Feminist Struggle. Oakland: PM Press.
KIRKWOOD, Julieta. (1986). Ser política en Chile: las feministas y los partidos. Santiago: FLACSO.
LEVINAS, Emmanuel. (2002). Totalidad e infinito. Ensayo sobre la exterioridad. Salamanca: Ediciones Sígueme.
MINISTERIO DE DESARROLLO SOCIAL Y FAMILIA & ONU MUJERES CHILE. (2023). Hablemos de cuidados: principales resultados de los diálogos ciudadanos hacia la construcción del Sistema Nacional e Integral de Cuidados. Santiago de Chile.
TRONTO, Joan. (2013). Caring Democracy: Markets, Equality and Justice. New York: NYU Press.
WEIL, Simone. (2022). El poder de las palabras. Buenos Aires: Ediciones Godot.
Sobre la autora
Rosario Fernández Ossandón es Doctora en sociología por Goldsmiths, Universidad de Londres. Profesora del Departamento de Filosofía de la Universidad de Chile. Secretaria de Redacción de la Revista en Filosofía, Coordinadora Académica de la Licenciatura en Filosofía y Directora del Grupo de Estudio Interdisciplinar en Filosofía y Danza del en la misma casa de estudios. Co-coordinadora del GT-CLACSO Red de género, feminismos y memorias. Investigadora de los proyectos “La materialidad del movimiento, el movimiento de la materialidad” y “Movimiento, memoria y creación” financiados por la Universidad de Chile. Sus temas de investigación son cuidados, afectos, vulnerabilidad y danza.
