
Na última rodada da Ocupação Mulheres, Cristina Scheibe Wolff (UFSC) analisa como a misoginia se intensifica no ambiente digital. Ao discutir vieses algorítmicos, monetização de conteúdos misóginos e a articulação entre antifeminismo e extrema direita, o texto mapeia a chamada machosfera (red pills, incels e afins) e suas conexões com discursos de ódio. Com base em pesquisas recentes e no debate público brasileiro, a autora mostra como a internet se tornou um espaço de violência digital de gênero. Também apresenta caminhos de enfrentamento desenvolvidos pelo Projeto Internet LEGH/UFSC, que aposta na educação crítica como “escudo” contra o bombardeio cotidiano de misoginia.
Aproveitamos para agradecer a participação das autoras nesta quarta edição da Ocupação Mulheres da BVPS. Para saber mais sobre essa edição, com curadoria de Claudia Bacci (IEALC-UBA) e Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), clique aqui. Outros textos publicados podem ser conferidos aqui.
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Misoginia e violência digital de gênero
Por Cristina Scheibe Wolff (UFSC)
Misoginia é uma palavra que vem do grego miso (ódio, aversão) e gynos (mulheres). Como a palavra, a própria misoginia é muito antiga, remontando a um passado ainda mais remoto e estando presente em praticamente todas as sociedades humanas conhecidas, em maior ou menor grau (Holland, 2012; Segato, 2016). Ela se manifesta de diversas formas, algumas mais explícitas e violentas, como os feminicídios, a violência sexual, a pornografia, os assédios sexuais e morais nos ambientes de trabalho, a violência doméstica etc. Outras formas da misoginia são mais sutis e estão embutidas em nossos hábitos, costumes, linguagem e cultura. Tão imbricadas no cotidiano que, muitas vezes, nem nos damos conta de que a estamos reproduzindo.
E mais, a misoginia não atinge somente as mulheres, é direcionada a tudo e todos que são considerados femininos ou que são feminilizados como forma de “rebaixamento” social. Isso se transfere para pessoas trans, lésbicas, homens que sejam considerados menos “masculinos”, bem como para profissões e tarefas geralmente delegadas às mulheres. Ou seja, é uma questão de poder.
É assim nas músicas que ouvimos e cantamos todos os dias, ou quando chamamos uma mulher de “megera” ou “víbora”, ou dizemos que está histérica, quando os mesmos comportamentos, em homens, são vistos como assertivos, enérgicos, espertos. Uma mulher é “teimosa”, um homem, determinado. Um homem é trabalhador, uma mulher é, no máximo, trabalhadeira, e, caso se dedique à carreira, está “negligenciando a família”. Um homem é um “garanhão” se ele tem relações com muitas parceiras ou parceiros; uma mulher que tenha o mesmo comportamento é uma “galinha” ou uma prostituta.
Kate Manne (2017) afirma que a misoginia se volta especificamente contra aquelas mulheres que desafiam as regras não escritas do que seria um comportamento considerado feminino. São as “más” mulheres, que não se conformam, que se colocam em lugares pensados como masculinos, em posições de poder ou liderança – como é o caso das mulheres políticas, por exemplo – ou aquelas que têm comportamentos sociais ou sexuais diferentes dos estabelecidos pelas regras de gênero. Falar em voz alta, ser fisicamente forte, ser chefe de qualquer coisa, especialmente se os subordinados forem homens, fazer trabalhos considerados masculinos etc. Essas mulheres sofrem “punições” – violências, assédios, insultos, piadas. Assim, a misoginia é um sistema que “controla”, punindo as “más” mulheres. O problema é que o sistema finge que premia as “boas mulheres”. Elas ganham o direito de ter a coroa de rainha do lar, de fazer todo o trabalho doméstico, de ganhar um presente no dia das mães, de cuidar de um marido por toda a vida (até que ele a troque por uma mulher mais jovem ou mais bonita), de cuidar dos filhos, de sustentar a casa.
Embora seja um fenômeno muito antigo e um sistema que sustenta o patriarcado, o colonialismo e o capitalismo (Federici, 2023), a misoginia tem recrudescido nos últimos anos. Mesmo depois de quase cento e cinquenta anos de lutas feministas, buscando direitos para as mulheres e lutando pelo reconhecimento do trabalho das mulheres e de seus lugares na sociedade, na política, na ciência, na cultura, a cada momento de crise, a misoginia volta com força. E agora tem um novo instrumento avassalador: a internet (Valente, 2023).
A web 2.0, marcada pelas redes e mídias sociais, tem um sistema de algoritmos que dá a impressão de ser “natural”. As pessoas acham que, quando gostam de determinados temas, clicam e seguem esses temas, posturas políticas, estéticas, e que automaticamente o algoritmo entende isso e passa a sugerir conteúdos semelhantes. Mas os estudos têm mostrado que não é simplesmente assim que isso funciona (Cesarino, 2022). Os algoritmos têm vieses – racistas, sexistas e misóginos (Ging, 2023). Privilegiam conteúdos pagos – as pessoas ou empresas podem pagar às redes sociais ou mesmo aos buscadores, como Google ou Yahoo, para “impulsionar” seus conteúdos, ou seja, atingir um público mais amplo –, mas não só isso: podem direcionar esses conteúdos para determinados públicos. E isso não tem nada de “natural” ou orgânico, faz parte de uma lógica capitalista, que também tem sido utilizada de forma política de maneira muito pronunciada (veja-se o caso de Steve Bannon na eleição de Trump e do chamado Gabinete do Ódio no governo Bolsonaro).
Quando falo que é usada de forma política, não estou falando apenas de política partidária ou de contextos de eleições (Bacci et al., 2025). Estou falando de política de uma forma muito ampla e pensando na conexão entre o recrudescimento da misoginia e do antifeminismo, especialmente na internet, e o crescimento da extrema direita, em nível global. Não é que não exista misoginia nos partidos e movimentos de esquerda – pois há, e muita –, mas é uma misoginia muitas vezes não declarada, não reivindicada. Já a extrema direita reivindica, com todas as letras, que as mulheres devem ser submissas aos homens, que seu principal papel social é serem mães e cuidadoras, que não têm direito de decidir sobre seus corpos – são contra o direito ao aborto. Mesmo mulheres representantes da extrema direita no Brasil anunciam explicitamente esses discursos (Camargo & Wolff, 2024).
Esse fenômeno de recrudescimento da misoginia e de antifeminismo pronunciado tem sido também chamado de backlash. Gosto de explicar essa palavra com uma imagem: imagine um galho de árvore pelo qual você passa e que vai levando consigo, para a frente. De repente, você passa e aquele galho volta com toda a força e atinge a pessoa que estava atrás de você no caminho. Desde o final do século XIX, o feminismo vem empurrando esse “galho”, conquistando direitos para as mulheres e brigando por mais direitos, mais espaços, mais reconhecimento, mais poder. A partir dos anos 1980, porém, em alguns lugares, esse galho começou a voltar violentamente, por meio de movimentos antifeministas e masculinistas, adquirindo novo impulso na última década.
Esses movimentos masculinistas – movimentos de grupos de pessoas, mas também movimentos culturais, discursos, narrativas – têm constituído, na internet, o que vem sendo chamado de machosfera ou manosfera. São, na verdade, contramovimentos, pois se contrapõem ao feminismo. Como sugere Marcia Tiburi, em recente artigo a propósito do caso dos arquivos Epstein:
A masculinidade é um valor partilhado que, necessariamente, implica a misoginia. Ou seja, homens provam que são homens, se tornam “masculinos” e “viris” quando odeiam mulheres. A misoginia é mais importante do que qualquer outra demonstração apresentada como prova de macheza. Eles se unem em torno do ódio, se afirmando como homens perante os outros, garantindo seu lugar na comunidade. É através do ódio verbal ou físico expresso sempre como violência que um homem garante seu lugar ao sol no patriarcado. Dissidentes desse jogo serão odiados como mulheres (Tiburi, 2026).
Red Pills, Incels e outros masculinistas atuam nas redes e mídias sociais, em fóruns online, em sites de streaming de jogos digitais, nas mais diversas plataformas, até o momento com quase nenhum controle, disseminando esses discursos e recrutando adolescentes, principalmente meninos (Santos & Santos, 2022). Esses grupos não somente incitam a violência e o desprezo contra as mulheres, mas também são uma espécie de ponte para grupos de extrema direita, inclusive neonazistas. Recentemente, uma pesquisa realizada no Brasil pelo Netlab detectou pelo menos 137 canais do YouTube, somando mais de 3,9 milhões de visualizações, com conteúdos claramente misóginos (Santini et al., 2024). E pior, esses canais são, em sua grande maioria, monetizados – ou seja, a misoginia rende, é recompensada monetariamente pelas plataformas de mídia digital. Numa pesquisa feita em três desses canais, encontramos certos padrões nesses discursos e muitas conexões entre discursos misóginos, negacionismos e discursos políticos de direita (Wolff & Betti, 2025).
O que podemos fazer? Há várias iniciativas no sentido de tentar controlar o que está acontecendo na internet – novas legislações, campanhas de conscientização, ONGs. Recentemente, no Brasil, um vídeo de um jovem influencer, Felca, viralizou ao denunciar a adultização de crianças, especialmente meninas, em conteúdos da internet, algo que poderíamos até aproximar daquilo que está agora aparecendo nos arquivos do caso Epstein. Esse vídeo gerou respostas políticas, incluindo o que tem sido chamado de Lei Felca, que é a Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Da mesma forma, há algumas leis que tentam proteger as mulheres em questões semelhantes, como o vazamento de imagens íntimas – Lei Carolina Dieckmann – e a violência digital – Lei Maria da Penha –, bem como instituindo caminhos para a denúncia – Lei Lola – (Schmitt & Wolff, 2024).
Mas uma coisa é termos leis, outra, bem diferente, como bem sabemos no Brasil, é que essas leis efetivamente funcionem. Temos leis contra o feminicídio, mas ele continua acontecendo, em número alarmante. No projeto que temos empreendido no Laboratório de Estudos de Gênero e História da Universidade Federal de Santa Catarina, que chamamos carinhosamente de Projeto Internet LEGH, optamos por ir além da produção acadêmica, pois acreditamos que o único escudo possível contra o bombardeio diário de misoginia – na internet, em todas as mídias, nas conversas do dia a dia – é o senso crítico. A escola é um dos lugares onde se pode construir essa habilidade de questionar o que se recebe, de pensar outras possibilidades, de compreender as motivações de quem nega a ciência, de quem questiona direitos conquistados com tantas lutas. Assim, temos construído materiais – vídeos, cartilhas, podcasts e, recentemente, um jogo digital.
Temos procurado parcerias, como as influencers Carolline Sardá e Letícia Borges de Assis, o Portal Catarinas de mídia feminista e independente, e o projeto Prototipando a Quebrada (PAQ), para produzir materiais que cheguem realmente até as pessoas. Assim, deixamos um convite para acompanharem nossos vídeos no canal @GêneroeHistória, ouvir nossos podcasts, ler e compartilhar nossas cartilhas sobre Violência Digital de Gênero e Violência e Política de Gênero. Se você gosta de jogar, ou conhece adolescentes e jovens, ou professores, não deixe de ver/jogar/recomendar o jogo Lelê e as ameaças do Metaverso. Fique em contato! @legh.ufsc
Referências
BACCI, Cláudia & OBERTI, Alejandra & PELLER, Mariela & WOLFF, Cristina Scheibe & WAULCZINSKI, Luiza R. & GUZZO, Morgani. (2025). Violencia política digital de género, antifeminismo y misoginia. Expresiones locales de un fenómeno global (Argentina y Brasil). In: AGUDELO GALEANO, Juan Jacobo (org.). Múltiples dimensiones de las violencias basadas en género. Buenos Aires: CLACSO, v. 1, p. 23-104. https://www.clacso.org/libro-multiples-dimensiones-de-las-violencias-basadas-en-genero/
CAMARGO, Ana Carolina Andrade de & WOLFF, Cristina Scheibe. (2024). Discursos antifeministas no Instagram de pessoas eleitas em Santa Catarina. In: WOLFF, Cristina Scheibe & SCHMITT, Elaine (orgs.). A internet como campo de disputas de gênero. Florianópolis: Cultura e Barbárie.
CESARINO, Letícia. (2022). O mundo do avesso. São Paulo: Ubu.
FEDERICI, Silvia. (2023). Calibã e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante.
GING, Debbie. (2023). Digital Culture, Online Misogyny, and Gender‐based Violence. The Handbook of Gender, Communication, and Women’s Human Rights, p. 213-227.
HOLLAND, Jack. (2012). A brief history of misogyny. The world’s oldest prejudice. Londres: Hachette.
MANNE, Kate. (2017). Down girl. The logic of misogyny. Oxford: Oxford University Press.
SANTINI, R. Marie & SALLES, Débora & BELIN, Luciane L. & BELISÁRIO, Adriano & MATTOS, Bruno & MEDEIROS, Stéphanie G. & MELLO, Danielle & GRAEL, Felipe & SEADE, Renata & BORGES, Amanda & MURAKAMI, Lucas & CARDOSO, Rafael & DAU, Erick & LOUREIRO, Felipe & YONESHIGUE, Bernardo & CARMO, Vitor do & MAIA, Felipe. (2024). “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher”: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube. Rio de Janeiro: NetLab – Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dez. Disponível em: https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout. Acesso em: 14 fev. 2026.
SANTOS, A. V. de S. L. & SANTOS, M. A. dos. (2022). Incels e misoginia on-line em tempos de cultura digital. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 22, n. 3, p. 1081-1102.
SCHMITT, Elaine & WOLFF, Cristina Scheibe. (2024). Violência de gênero na internet e direitos digitais. Propostas de enfrentamento a partir do Projeto Internet. Trilhas da História, v. 13, p. 83-107.
SEGATO, Rita L. (2016). La guerra contra las mujeres. Madrid/Argentina: Traficantes de Sueños.
TIBURI, Marcia. (2026). Um terrorista sexual construindo o arquivo do abuso. Revista Liberta (ICL), 14 fev.
VALENTE, Mariana. (2023). Misoginia na internet. São Paulo: Fósforo.
WOLFF, Cristina Scheibe & SCHMITT, Elaine (orgs.). (2024). A internet como campo de disputas de gênero. Florianópolis: Cultura e Barbárie.
WOLFF, Cristina Scheibe & BETTI, Gabriel Gobbi. (2025). Alfas, redpills e outras polêmicas tragicômicas no YouTube. Interthesis, v. 22.
Sobre a autora
Cristina Scheibe Wolff é professora do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e editora da Revista Estudos Feministas. Integra o Laboratório de Estudos de Gênero e História e o Instituto de Estudos de Gênero, ambos da UFSC.
En la última ronda de la Ocupación Mujeres, Cristina Scheibe Wolff (UFSC) analiza cómo la misoginia se intensifica en el entorno digital. Al discutir los sesgos algorítmicos, la monetización de contenidos misóginos y la articulación entre antifeminismo y extrema derecha, el texto mapea la llamada machosfera (red pills, incels y afines) y sus conexiones con discursos de odio. Con base en investigaciones recientes y en el debate público brasileño, la autora muestra cómo internet se ha convertido en un espacio de violencia digital de género. También presenta caminos de enfrentamiento desarrollados por el Proyecto Internet LEGH/UFSC, que apuesta por la educación crítica como “escudo” frente al bombardeo cotidiano de misoginia.
Aprovechamos para agradecer la participación de las autoras en esta cuarta edición de la Ocupación Mujeres de la BVPS. Para saber más sobre esta edición, con curaduría de Claudia Bacci (IEALC-UBA) y Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), haga clic aqu. Otros textos publicados pueden consultarse aquí.
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Misoginia y violencia digital de género
Por Cristina Scheibe Wolff (UFSC)
La misoginia es una palabra que proviene del griego miso (odio, aversión) y gynos (mujeres). Al igual que el término, la propia misoginia es muy antigua, remontándose a un pasado aún más remoto y estando presente en prácticamente todas las sociedades humanas conocidas, en mayor o menor grado (Holland, 2012; Segato, 2016). Se manifiesta de diversas formas, algunas más explícitas y violentas como los feminicidios, la violencia sexual, la pornografía, los acosos sexuales y morales en los ambientes de trabajo, la violencia doméstica, entre otras. Otras formas de misoginia son más sutiles y están imbricadas en nuestros hábitos, costumbres, lenguaje y cultura. Tan entrelazadas con la vida cotidiana que, muchas veces, ni siquiera advertimos que las estamos reproduciendo.
Además, la misoginia no afecta únicamente a las mujeres: se dirige contra todo aquello y todas aquellas personas consideradas femeninas o feminizadas como forma de “rebajamiento” social. Se proyecta sobre personas trans, lesbianas, hombres considerados menos “masculinos”, así como sobre profesiones y tareas generalmente delegadas a las mujeres. Se trata, en definitiva, de una cuestión de poder.
Así ocurre en las músicas que escuchamos y cantamos todos los días, cuando llamamos a una mujer “arpía” o “víbora”, o decimos que está histérica, mientras que los mismos comportamientos, en hombres, son vistos como asertivos, enérgicos o inteligentes. Una mujer es “terca”; un hombre, decidido. Un hombre es trabajador; una mujer es, como mucho, “mujer laboriosa”, y si se dedica a su carrera está “descuidando a la familia”. Un hombre es un “donjuán” si tiene relaciones con muchas parejas; una mujer con el mismo comportamiento es “ligera” o una prostituta.
Kate Manne (2017) sostiene que la misoginia se dirige específicamente contra aquellas mujeres que desafían las reglas no escritas de lo que se considera un comportamiento femenino. Son las “malas” mujeres: las que no se conforman, las que ocupan espacios pensados como masculinos, posiciones de poder o liderazgo –como las mujeres en la política, por ejemplo–, o aquellas que adoptan comportamientos sociales o sexuales que divergen de las normas de género establecidas. Hablar en voz alta, ser físicamente fuerte, dirigir cualquier ámbito –especialmente si los subordinados son hombres–, desempeñar trabajos considerados masculinos, entre otros. Estas mujeres sufren “castigos” –violencias, acosos, insultos, burlas. La misoginia funciona así como un sistema que “controla”, castigando a las “malas” mujeres. El problema es que el sistema finge recompensar a las “buenas” mujeres. Ellas obtienen el derecho a ostentar la corona de “reina del hogar”, a realizar todo el trabajo doméstico, a recibir un regalo el Día de la Madre, a cuidar a un marido durante toda la vida (hasta que él la cambie por una mujer más joven o más bella), a cuidar a los hijos y sostener la casa.
Aunque se trata de un fenómeno muy antiguo y de un sistema que sostiene el patriarcado, el colonialismo y el capitalismo (Federici, 2023), la misoginia se ha recrudecido en los últimos años. Incluso después de casi ciento cincuenta años de luchas feministas –que buscaron derechos para las mujeres y el reconocimiento de su trabajo y de sus lugares en la sociedad, en la política, en la ciencia y en la cultura–, en cada momento de crisis la misoginia retorna con fuerza. Y ahora cuenta con un nuevo instrumento avasallador: internet (Valente, 2023).
La llamada web 2.0, marcada por las redes y los medios sociales, opera a través de un sistema algorítmico que se presenta como “natural”. Se piensa que, al mostrar preferencia por ciertos temas, al hacer clic o seguir determinados contenidos, posturas políticas o estéticas, el algoritmo simplemente “aprende” esas preferencias y comienza a sugerir contenidos semejantes. Sin embargo, los estudios han demostrado que el funcionamiento no es tan simple (Cesarino, 2022). Los algoritmos presentan sesgos –racistas, sexistas y misóginos (Ging, 2023). Privilegian contenidos pagados: personas o empresas pueden pagar a las plataformas o a buscadores como Google o Yahoo para “impulsar” sus publicaciones, es decir, para alcanzar un público más amplio. Pero no solo eso: también pueden direccionar esos contenidos a públicos específicos. Nada de esto es “natural” u orgánico; forma parte de una lógica capitalista que ha sido utilizada de manera marcadamente política, como lo evidencian el papel de Steve Bannon en la elección de Trump o el llamado “Gabinete del Odio” durante el gobierno de Bolsonaro.
Cuando afirmo que se utiliza de manera política, no me refiero únicamente a la política partidaria o a contextos electorales (Bacci et al., 2025). Hablo de política en un sentido amplio, pensando en la conexión entre el recrudecimiento de la misoginia y del antifeminismo –especialmente en internet– y el crecimiento de la extrema derecha a escala global. No es que no exista misoginia en partidos y movimientos de izquierda –la hay, y en gran medida–, pero suele ser una misoginia no declarada, no reivindicada. La extrema derecha, en cambio, proclama abiertamente que las mujeres deben ser sumisas a los hombres, que su principal función social es ser madres y cuidadoras, que no tienen derecho a decidir sobre sus propios cuerpos —se oponen al derecho al aborto. Incluso mujeres representantes de la extrema derecha en Brasil sostienen explícitamente estos discursos (Camargo & Wolff, 2024).
Este fenómeno de recrudecimiento de la misoginia y del antifeminismo ha sido denominado también backlash. Me gusta explicar esta palabra con una imagen: imagine una rama de árbol que usted empuja al pasar y que se desplaza hacia adelante; de repente, cuando usted la suelta, la rama regresa con fuerza y golpea a quien viene detrás. Desde finales del siglo XIX, el feminismo ha estado empujando esa “rama”, conquistando derechos para las mujeres y disputando más derechos, más espacios, más reconocimiento y más poder. A partir de los años 1980, sin embargo, en algunos contextos esa rama comenzó a volver violentamente, a través de movimientos antifeministas y masculinistas, adquiriendo un nuevo impulso en la última década.
Estos movimientos masculinistas –movimientos de grupos de personas, pero también movimientos culturales, discursos y narrativas– han configurado en internet lo que se ha denominado la machosfera o manosfera. Se trata, en realidad, de contramovimientos, pues se oponen al feminismo. Como sugiere Marcia Tiburi, en un artículo reciente a propósito del caso de los archivos Epstein:
La masculinidad es un valor compartido que, necesariamente, implica la misoginia. Es decir, los hombres prueban que son hombres, se vuelven “masculinos” y “viriles” cuando odian a las mujeres. La misoginia es más importante que cualquier otra demostración presentada como prueba de hombría. Se unen en torno al odio, afirmándose como hombres ante los demás, asegurando su lugar en la comunidad. Es a través del odio verbal o físico, expresado siempre como violencia, que un hombre garantiza su lugar bajo el sol en el patriarcado. Los disidentes de este juego serán odiados como mujeres (Tiburi, 2026).
Red Pills, Incels y otros grupos masculinistas actúan en redes sociales, foros en línea, plataformas de transmisión de videojuegos y múltiples espacios digitales, hasta el momento con escaso control, difundiendo estos discursos y reclutando adolescentes, principalmente varones (Santos & Santos, 2022). Estos grupos no solo incitan a la violencia y al desprecio hacia las mujeres, sino que funcionan también como una puerta de entrada a organizaciones de extrema derecha, incluso neonazis.
Recientemente, una investigación realizada en Brasil por Netlab identificó al menos 137 canales de YouTube, con más de 3,9 millones de visualizaciones, que difundían contenidos claramente misóginos (Santini et al., 2024). Peor aún, la mayoría de estos canales están monetizados –es decir, la misoginia genera ingresos y es recompensada financieramente por las plataformas digitales. En una investigación realizada en tres de estos canales, identificamos ciertos patrones discursivos y múltiples conexiones entre discursos misóginos, negacionismos y narrativas políticas de derecha (Wolff & Betti, 2025).
¿Qué podemos hacer? Existen diversas iniciativas orientadas a regular lo que ocurre en internet –nuevas legislaciones, campañas de concientización, organizaciones no gubernamentales. Recientemente, en Brasil, un video del joven influencer Felca se volvió viral al denunciar la adultización de niñas –y niños– en contenidos digitales, algo que incluso podría vincularse con lo que aparece en los archivos del caso Epstein. El video generó respuestas políticas, incluida la llamada “Ley Felca” (Ley nº 15.211, de 17 de septiembre de 2025), que establece la protección de niños, niñas y adolescentes en entornos digitales (Estatuto Digital de la Niñez y la Adolescencia). Del mismo modo, existen leyes destinadas a proteger a las mujeres en situaciones como la difusión no consentida de imágenes íntimas –Ley Carolina Dieckmann– y la violencia digital –en el marco de la Ley Maria da Penha–, así como mecanismos para la denuncia –Ley Lola– (Schmitt & Wolff, 2024).
Sin embargo, una cosa es contar con leyes y otra muy distinta, como bien sabemos en Brasil, es que efectivamente se cumplan. Existen leyes contra el feminicidio, pero este continúa ocurriendo en cifras alarmantes. En el proyecto que desarrollamos en el Laboratório de Estudos de Gênero e História de la Universidade Federal de Santa Catarina, al que llamamos Proyecto Internet LEGH, hemos optado por ir más allá de la producción académica. Creemos que el único escudo posible frente al bombardeo cotidiano de misoginia –en internet, en los medios y en las conversaciones diarias– es el sentido crítico. La escuela es uno de los espacios donde puede construirse esta capacidad de cuestionar lo que se recibe, de imaginar otras posibilidades, de comprender las motivaciones de quienes niegan la ciencia o cuestionan derechos conquistados tras largas luchas.
Por ello, hemos producido materiales –videos, cuadernillos, podcasts y, recientemente, un juego digital. Hemos buscado alianzas, como con las influencers Carolline Sardá y Letícia Borges de Assis, el Portal Catarinas de periodismo feminista e independiente y el proyecto Prototipando a Quebrada (PAQ), con el fin de generar contenidos que realmente lleguen a las personas. Dejamos así una invitación para que acompañen nuestros videos en el canal @GêneroeHistória, escuchen nuestros podcasts, y lean y compartan nuestras cartilhas sobre Violencia Digital de Género y Violencia y Política de Género. Si le gusta jugar, o conoce adolescentes, jóvenes o docentes, no deje de ver/jugar/recomendar el juego Lelê e as ameaças do Metaverso. ¡Manténgase en contacto! @legh.ufsc
Referencias
BACCI, Cláudia & OBERTI, Alejandra & PELLER, Mariela & WOLFF, Cristina Scheibe & WAULCZINSKI, Luiza R. & GUZZO, Morgani. (2025). Violencia política digital de género, antifeminismo y misoginia. Expresiones locales de un fenómeno global (Argentina y Brasil). In: AGUDELO GALEANO, Juan Jacobo (org.). Múltiples dimensiones de las violencias basadas en género. Buenos Aires: CLACSO, v. 1, p. 23-104. Disponivel em: https://www.clacso.org/libro-multiples-dimensiones-de-las-violencias-basadas-en-genero/.
CAMARGO, Ana Carolina Andrade de & WOLFF, Cristina Scheibe. (2024). Discursos antifeministas no Instagram de pessoas eleitas em Santa Catarina. In: WOLFF, Cristina Scheibe & SCHMITT, Elaine (orgs.). A internet como campo de disputas de gênero. Florianópolis: Cultura e Barbárie.
CESARINO, Letícia. (2022). O mundo do avesso. São Paulo: Ubu.
FEDERICI, Silvia. (2023). Calibã e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante.
GING, Debbie. (2023). Digital Culture, Online Misogyny, and Gender‐based Violence. The Handbook of Gender, Communication, and Women’s Human Rights, p. 213-227.
HOLLAND, Jack. (2012). A brief history of misogyny. The world’s oldest prejudice. Londres: Hachette.
MANNE, Kate. (2017). Down girl. The logic of misogyny. Oxford: Oxford University Press.
SANTINI, R. Marie & SALLES, Débora & BELIN, Luciane L. & BELISÁRIO, Adriano & MATTOS, Bruno & MEDEIROS, Stéphanie G. & MELLO, Danielle & GRAEL, Felipe & SEADE, Renata & BORGES, Amanda & MURAKAMI, Lucas & CARDOSO, Rafael & DAU, Erick & LOUREIRO, Felipe & YONESHIGUE, Bernardo & CARMO, Vitor do & MAIA, Felipe. (2024). “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher”: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube. Rio de Janeiro: NetLab – Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dez. Disponível em: https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout. Acesso em: 14 fev. 2026.
SANTOS, A. V. de S. L. & SANTOS, M. A. dos. (2022). Incels e misoginia on-line em tempos de cultura digital. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 22, n. 3, p. 1081-1102.
SCHMITT, Elaine & WOLFF, Cristina Scheibe. (2024). Violência de gênero na internet e direitos digitais. Propostas de enfrentamento a partir do Projeto Internet. Trilhas da História, v. 13, p. 83-107.
SEGATO, Rita L. (2016). La guerra contra las mujeres. Madrid/Argentina: Traficantes de Sueños.
TIBURI, Marcia. (2026). Um terrorista sexual construindo o arquivo do abuso. Revista Liberta (ICL), 14 fev.
VALENTE, Mariana. (2023). Misoginia na internet. São Paulo: Fósforo.
WOLFF, Cristina Scheibe & SCHMITT, Elaine (orgs.). (2024). A internet como campo de disputas de gênero. Florianópolis: Cultura e Barbárie.
WOLFF, Cristina Scheibe & BETTI, Gabriel Gobbi. (2025). Alfas, redpills e outras polêmicas tragicômicas no YouTube. Interthesis, v. 22.
Sobre la autora
Cristina Scheibe Wolff es profesora del Departamento de Historia de la Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) y editora de la Revista Estudos Feministas. Integra el Laboratório de Estudos de Gênero e História y el Instituto de Estudos de Gênero, ambos de la UFSC.
