
Encerramos a Ocupação Mulheres de 2026, que buscou promover trocas e diálogos entre mulheres e feministas latino-americanas, com um texto de Heloisa Teixeira sobre o livro La máquina cultural: maestras, traductores y vanguardistas, de Beatriz Sarlo, publicado originalmente no Jornal do Brasil em fevereiro de 2000, quando a autora ainda assinava como Heloisa Buarque de Hollanda. Nele, Helô destaca a posição crítica de Beatriz Sarlo no debate dos estudos culturais e explora o tema da tradução como chave para pensar os deslocamentos intelectuais e culturais entre diferentes contextos.
O texto integra o livro Crítica e rebeldia: Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (1980-2005), organizado por André Botelho e Caroline Tresoldi, que será lançado em 28 de março, quando se completa um ano do falecimento de Helô. Confira mais informações sobre o lançamento aqui.
Para saber mais sobre a quarta edição da Ocupação Mulheres, clique aqui. Outros textos publicados podem ser conferidos aqui. Boa leitura!
O último livro de Beatriz
5 de fevereiro de 2000
Beatriz Sarlo, que acaba de receber o prêmio especial de Ensaio Casa de las Américas, não é o que se poderia definir como uma profissional politicamente correta segundo o figurino da vanguarda intelectual de raízes norte-americanas. Hoje, ela talvez seja uma das poucas figuras ligadas aos novos Estudos Culturais, ou seja, fiel aos desdobramentos das lutas e utopias dos anos 60, a desconfiar do desmonte do cânone em defesa de um multiculturalismo muitas vezes pouco problematizado, da certeza do alcance democratizador dos media, da possibilidade de grandes ganhos para as sociedades periféricas como as benesses tecnológicas do capitalismo tardio. É raivosa e defende posições consideradas de esquerda como um empenho raro entre nós. Por isso, volta e meia, é tachada de conservadora, mostrando a forte discriminação da nova crítica em relação a qualquer discurso que não se adequar aos preceitos neocanônicos sobre a diversidade e o dissenso, cartilha do tom dos avanços políticos e estéticos da pós-modernidade.
É verdade que os Estudos Culturais nos Estados Unidos, ao contrário da América Latina, redescobriram o marxismo num passado relativamente recente e procuram adaptá-lo ao quadro complexo da globalização e dos novos enfrentamentos sociais e étnicos, fatores que, no caso norte-americano, têm um peso bastante específico e contextual. O esforço de Fredric Jameson nesse sentido é seminal e tem rendido valiosos estudos e debates.
O projeto e o tom dessa nova academia progressista são a concentração de forças no ataque ao neoliberalismo e na defesa irrestrita dos pluralismos políticos e culturais. Entretanto, para nós, os “em desenvolvimento”, muitas vezes isso pode soar como uma retórica irritantemente superficial. O sentimento que sugere é o de que o nível de tolerância exigido pelas novas políticas da diversidade é tão alto que termina promovendo um multiculturalismo pouco substantivo, um pouco em cima do muro, especialmente no que diz respeito à sua fobia ao que seria o conservadorismo de esquerda.
Portanto, é estimulante e mesmo louvável a existência de Beatriz e sua posição desafinada nesse universo. Lembra um pouco, com o sinal trocado, a perturbação que causavam as tão brilhantes quanto irascíveis intervenções de José Guilherme Merquior quando era rejeitado pelos intelectuais de esquerda dos anos 70 como um perigoso teórico de extrema direita. É de quiprocós como esses que vai tratar La máquina cultural: maestras, traductores y vanguardistas, o último livro de Beatriz. Na realidade, o livro é sobre a tradução e seus conflitos, assunto ao qual voltarei mais especificamente em outro artigo e que me parece ser o nervo crítico da criação atual.
Há um tempo, Jameson chamou a atenção para a onda crescente de contos e romances cuja chave era a busca detetivesca e/ou erudita em bibliotecas medievais, corredores sombrios, estradas vazias ou megalópoles labirínticas. Em qualquer desses casos, a arte pós-moderna mostrava sua atração pela procura de referência e localização e se redefinia como um obsessivo mapeamento cognitivo diante da quase ilegibilidade das fronteiras e da explosão das diferenças no mundo atual. Hoje, já podemos perceber pequenas mudanças neste quadro. Para além do reconhecimento do outro, o que parece se colocar agora é o problema da tradução do outro.
A máquina cultural é construída em torno de três histórias exemplares de desastres na tradução de intenções ao longo do século XX. O estudo, além do tema atualíssimo, se desenvolve tirando um adorniano proveito da liberdade que o ensaio enquanto forma permite. Diria que o maior interesse deste estudo não está no conceito “máquina cultural”, nem na estrutura de seu funcionamento, mas, seguramente, na forma que elege para pensar seu objeto, a tradução. Nos três relatos há a presença de um narrador, um personagem central, uma primeira pessoa e um tecido de citações que, grafadas em itálico, somam-se às falas do personagem central. Em todos, uma grande preocupação com a qualidade literária da escrita do ensaio.
O primeiro caso se passa no começo do século. É a história de uma professora que transmite o que aprendeu na Escola Normal a seus alunos. Não foi uma professora excepcional (o que a torna mais interessante), apenas bem-intencionada e apaixonada por seu ofício, ou melhor, missão, já que sua formação reflete com grande coerência o racionalismo doutrinário e o nacionalismo normalista argentino do final do século XIX. Entretanto, numa manhã de 1921, a mestra exagerou nos seus deveres e, num rasgo prático de higienismo, mandou raspar as cabeças de todos os alunos da escola em nome da prevenção à praga dos piolhos. A cena da tosa matinal descrita, em detalhes, em sua violência material e simbólica é, em si, antológica.
O segundo caso é o de uma mulher voluntariosa, nascida em berço de ouro, que abre um espaço de irradiação cultural decisivo na Argentina entre 1930 e 1950. Trata-se de Victoria Ocampo, tradutora, editora da revista Sur, representante por excelência do cosmopolitismo modernista argentino. Esta segunda história, centrada em desvios e digressões, acompanha a série de mal-entendidos que marcaram a tentativa de Victoria de traduzir e traduzir-se no ambiente vanguardista europeu dos anos 1920. “Ocampo viveu sob signo da tradução que não é um signo pacífico”, diz Beatriz ao acompanhar minuciosamente seus desencontros com Rabindranath Tagore, Hermann von Keyserling, Virginia Woolf e Ortega y Gasset. Das três histórias, é a mais triste.
O terceiro caso é sobre uma aventura militante. Um grupo de jovens cineastas de esquerda, numa produção malabarística, juntou suas parcas economias e conseguiu realizar, em uma só noite de novembro de 1970, nada mais nada menos do que oito documentários em 16 mm. No dia seguinte, com as latas debaixo do braço, chegaram ao Primeiro Encontro Nacional do Cinema, em Santa Fé, e improvisaram a projeção dos filmes na forma de um happening político e repudiados pelos militantes como experimentalistas reacionários e esteticistas burgueses.
Beatriz fez questão de frisar no livro, mais de uma vez, que as três histórias são verdadeiras.
Sobre a autora
Heloisa Teixeira foi professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro por mais de cinco décadas. Em 2023, ao ingressar na Academia Brasileira de Letras, trocou o sobrenome Buarque de Hollanda, que utilizou por toda sua carreira, pelo materno, passando a se apresentar publicamente como Heloisa Teixeira. Ensaísta e crítica cultural, é um dos maiores nomes do feminismo brasileiro.
Cerramos la Ocupación Mujeres 2026, que buscó promover intercambios y diálogos entre mujeres y feministas latinoamericanas, con un texto de Heloisa Teixeira sobre el libro La máquina cultural: maestras, traductores y vanguardistas, de Beatriz Sarlo, publicado originalmente en el Jornal do Brasil en febrero de 2000, cuando la autora aún firmaba como Heloisa Buarque de Hollanda. En él, Helô destaca la posición crítica de Beatriz Sarlo en el debate de los estudios culturales y explora el tema de la traducción como clave para pensar los desplazamientos intelectuales y culturales entre distintos contextos.
El texto forma parte del libro Crítica e rebeldia: Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (1980–2005), organizado por André Botelho y Caroline Tresoldi, que será presentado el 28 de marzo, cuando se cumple un año del fallecimiento de Helô. Para saber más sobre el lanzamiento, haga clic aquí.
Para saber más sobre la cuarta edición de la Ocupación Mujeres, haga clic aquí. Otros textos ya publicados pueden consultarse aquí.
El último libro de Beatriz
5 de febrero de 2000
Beatriz Sarlo, que acaba de recibir el premio especial de Ensayo Casa de las Américas, no es lo que podría definirse como una profesional políticamente correcta según el figurín de la vanguardia intelectual de raíces norteamericanas. Hoy tal vez sea una de las pocas figuras vinculadas a los nuevos Estudios Culturales, es decir, fiel a los desdoblamientos de las luchas y utopías de los años sesenta, que desconfía del desmantelamiento del canon en defensa de un multiculturalismo muchas veces poco problematizado, de la certeza sobre el alcance democratizador de los medios y de la posibilidad de grandes beneficios para las sociedades periféricas derivados de las ventajas tecnológicas del capitalismo tardío. Es combativa y defiende posiciones consideradas de izquierda con un empeño raro entre nosotros. Por eso, de vez en cuando, es tildada de conservadora, lo que revela la fuerte discriminación de la nueva crítica frente a cualquier discurso que no se adecue a los preceptos neocanónicos sobre la diversidad y el disenso, cartilla que marca el tono de los avances políticos y estéticos de la posmodernidad.
Es cierto que los Estudios Culturales en Estados Unidos, a diferencia de América Latina, redescubrieron el marxismo en un pasado relativamente reciente y procuran adaptarlo al complejo marco de la globalización y de los nuevos enfrentamientos sociales y étnicos, factores que, en el caso norteamericano, tienen un peso bastante específico y contextual. El esfuerzo de Fredric Jameson en este sentido es seminal y ha dado lugar a valiosos estudios y debates.
El proyecto y el tono de esta nueva academia progresista consisten en concentrar fuerzas en el ataque al neoliberalismo y en la defensa irrestricta de los pluralismos políticos y culturales. Sin embargo, para nosotros, los “en desarrollo”, muchas veces esto puede sonar como una retórica irritantemente superficial. La sensación que sugiere es que el nivel de tolerancia exigido por las nuevas políticas de la diversidad es tan alto que termina promoviendo un multiculturalismo poco sustantivo, algo acomodaticio, especialmente en lo que respecta a su fobia a lo que sería el conservadurismo de izquierda.
Por lo tanto, resulta estimulante y hasta loable la existencia de Beatriz y su posición desafinada en ese universo. Recuerda un poco, con el signo invertido, la perturbación que causaban las tan brillantes como irascibles intervenciones de José Guilherme Merquior cuando era rechazado por los intelectuales de izquierda de los años setenta como un peligroso teórico de extrema derecha. De enredos como estos trata La máquina cultural: maestras, traductores y vanguardistas, el último libro de Beatriz. En realidad, el libro trata sobre la traducción y sus conflictos, asunto al que volveré más específicamente en otro artículo y que me parece ser el nervio crítico de la creación actual.
Hace algún tiempo, Jameson llamó la atención sobre la creciente ola de cuentos y novelas cuya clave era la búsqueda detectivesca y/o erudita en bibliotecas medievales, corredores sombríos, carreteras vacías o megalópolis laberínticas. En cualquiera de estos casos, el arte posmoderno mostraba su atracción por la búsqueda de referencia y localización y se redefinía como un obsesivo mapeo cognitivo frente a la casi ilegibilidad de las fronteras y a la explosión de las diferencias en el mundo actual. Hoy ya podemos percibir pequeños cambios en este panorama. Más allá del reconocimiento del otro, lo que parece plantearse ahora es el problema de la traducción del otro.
La máquina cultural está construida en torno a tres historias ejemplares de desastres en la traducción de intenciones a lo largo del siglo XX. El estudio, además de abordar un tema actualísimo, se desarrolla sacando un provecho adorniano de la libertad que el ensayo, como forma, permite. Diría que el mayor interés de este estudio no reside en el concepto de “máquina cultural”, ni en la estructura de su funcionamiento, sino, con seguridad, en la forma que elige para pensar su objeto: la traducción. En los tres relatos aparece la presencia de un narrador, un personaje central, una primera persona y un tejido de citas que, grafiadas en cursiva, se suman a las intervenciones del personaje central. En todos ellos hay una gran preocupación por la calidad literaria de la escritura ensayística.
El primer caso transcurre a comienzos del siglo. Es la historia de una profesora que transmite a sus alumnos lo que aprendió en la Escuela Normal. No fue una profesora excepcional (lo que la vuelve más interesante), apenas bienintencionada y apasionada por su oficio, o mejor, por su misión, ya que su formación refleja con gran coherencia el racionalismo doctrinario y el nacionalismo normalista argentino de finales del siglo XIX. Sin embargo, una mañana de 1921, la maestra exageró en sus deberes y, en un gesto práctico de higienismo, ordenó rapar las cabezas de todos los alumnos de la escuela en nombre de la prevención contra la plaga de los piojos. La escena del rapado matinal descrita, con detalle, en su violencia material y simbólica es, en sí misma, antológica.
El segundo caso es el de una mujer voluntariosa, nacida en cuna de oro, que abre un espacio de irradiación cultural decisivo en Argentina entre 1930 y 1950. Se trata de Victoria Ocampo, traductora, editora de la revista Sur, representante por excelencia del cosmopolitismo modernista argentino. Esta segunda historia, centrada en desvíos y digresiones, acompaña la serie de malentendidos que marcaron el intento de Victoria de traducir y traducirse en el ambiente vanguardista europeo de los años veinte. “Ocampo vivió bajo el signo de la traducción, que no es un signo pacífico”, dice Beatriz al seguir minuciosamente sus desencuentros con Rabindranath Tagore, Hermann von Keyserling, Virginia Woolf y Ortega y Gasset. De las tres historias, es la más triste.
El tercer caso trata sobre una aventura militante. Un grupo de jóvenes cineastas de izquierda, en una producción malabarística, reunió sus escasos ahorros y logró realizar, en una sola noche de noviembre de 1970, nada menos que ocho documentales en 16 mm. Al día siguiente, con las latas bajo el brazo, llegaron al Primer Encuentro Nacional de Cine, en Santa Fe, e improvisaron la proyección de las películas en forma de un happening político, siendo repudiados por los militantes como experimentalistas reaccionarios y esteticistas burgueses.
Beatriz se encargó de subrayar en el libro, más de una vez, que las tres historias son verdaderas.
Sobre la autora
Heloisa Teixeira fue profesora de la Universidade Federal do Rio de Janeiro durante más de cinco décadas. En 2023, al ingresar a la Academia Brasileira de Letras, sustituyó el apellido Buarque de Hollanda, con el que había firmado su carrera hasta entonces, por el materno, pasando a presentarse públicamente como Heloisa Teixeira. Ensayista y crítica cultural, es una de las figuras más importantes del feminismo brasileño.
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