
Neste 8M, María Angélica Cruz Contreras (Universidad de Valparaíso) analisa o 8M no Chile em um contexto de ascensão da ultradireita e avanço de contramovimentos neoconservadores. A partir da noção de “desassossego”, a autora examina como os afetos, as memórias e as disputas simbólicas atravessam o presente, tensionando conquistas recentes dos feminismos. Com base em pesquisa etnográfica sobre as marchas em Valparaíso e Santiago, Cruz mostra como o 8M se tornou espaço de transmissão de memórias e politização dos afetos. Retomar essas tramas, para ela, é fundamental para compreender a contraofensiva atual e sustentar a persistência das lutas em um cenário de incertezas.
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Do auge ao desassossego: memórias, afetos e disputas no 8M
Por María Angélica Cruz Contreras (Universidad de Valparaíso)
Escrevo desde o Chile, a poucos dias do início de um governo de ultradireita liderado por uma das principais figuras do contramovimento neoconservador, José Antonio Kast. Escrevo sabendo o que ocorreu na Argentina com Javier Milei e no Brasil com Jair Bolsonaro. Escrevo não a partir do pânico nem da derrota, mas sim do desassossego. O desassossego não é medo paralisante nem raiva mobilizadora. Não é a angústia íntima que recolhe, nem a euforia que promete transformações imediatas. É uma inquietação persistente, uma sensação de deslocamento – algo que não chega a se assentar. É a consciência de que o clima afetivo de uma sociedade pode mudar rapidamente, de que os limites do dizível se deslocam, de que certas crueldades se normalizam e de que algumas conquistas se tornam frágeis.
O desassossego nasce da observação de como, em outros lugares da região, a invocação da liberdade individual se combinou com o desmantelamento de políticas públicas; de como a retórica antigênero se converteu em política de Estado; de como o humor, a ironia e a desqualificação se instalaram como forma legítima de debate público. Não se trata de uma projeção mecânica nem de um anúncio de catástrofe – é memória recente. Escrevo, portanto, a partir desse estado intermediário, nem ingênua nem resignada. Faço-o com a consciência de que as lutas sociais são contingentes e de que os afetos — inclusive os afetos conservadores – organizam mundos. Nesse marco, retorno ao 8 de março.
O movimento feminista politizou praticamente todos os âmbitos da vida. Não se trata de algo novo, mas na América Latina, especialmente nos últimos anos, esse processo assumiu caráter massivo e radical (Gago, 2019). Valparaíso não foi exceção. Desde o chamado Tsunami Feminista de 2018, passando pelo Estallido Social de 2019 e pelo posterior processo constituinte, o feminismo deixou de ser um campo militante relativamente circunscrito para converter-se em fenômeno cultural transversal.
A esta altura, poucos poderiam afirmar desconhecer suas principais reivindicações: aborto legal, vida livre de violências, igualdade de direitos, reconhecimento do trabalho não remunerado, entre outras. Contudo, enumerá-las é sempre insuficiente, pois se trata de um movimento diverso, atravessado por tensões internas e disputas em torno de identidade, sujeito e estratégias. Os feminismos contemporâneos no Chile percorrem desde o liberalismo até posições anticapitalistas, decoloniais e transfeministas. Essa multiplicidade não é um detalhe – constitui parte central de sua potência e também de seus conflitos.
Para além de seus conteúdos programáticos, o que se transformou de maneira mais visível na última década foi o modo de protestar. As ruas encheram-se de corpos que cantavam, dançavam, performavam, gritavam ou marchavam em silêncio. Colocar o corpo no espaço público não é algo novo: remete a legados de luta que podem ser rastreados nas resistências de mulheres durante a ditadura (Cruz et al., 2022), não apenas no Chile, mas em todo o Cone Sul. Nos últimos anos, entretanto, essa presença corporal adquiriu outra densidade. Não se tratou apenas de ocupar o espaço, mas de politizar explicitamente os afetos que atravessam a experiência de gênero.
Como argumentamos em outros trabalhos, os estudos sobre ação coletiva demonstram que as emoções desempenham papel fundamental na decisão de mobilizar-se (Goodwin, Jasper & Polletta, 2001, citados em Cruz, 2026). No Chile, durante o Estallido Social, medo, raiva e esperança foram sentimentos significativos para sair às ruas. No caso dos feminismos massivos, porém, os afetos não apenas impulsionaram a ação – tornaram-se parte das consignas e do repertório político. A raiva deixou de ser sentimento íntimo ou envergonhado para converter-se em declaração pública.
Há uma década venho desenvolvendo uma etnografia longitudinal das marchas feministas em Valparaíso e Santiago. Interessa-me particularmente a marcha do 8M porque, dada sua massividade, nos últimos anos convocou mulheres que não necessariamente possuíam trajetórias prévias de ativismo. Ali foram sendo tecidas redes que, em toda a América Latina, ocuparam as ruas por meio das mobilizações “Ni Una Menos”, da maré verde pelo direito ao aborto ou das ocupações e protestos estudantis contra o assédio sexual.
A marcha feminista passou, assim, a funcionar como espaço de encontro de militantes históricas, mas também como espaço de reeducação emocional e corporal para aquelas que, pela primeira vez, disseram “Basta!”. Ali, experiências vividas como individuais – o medo aprendido desde a infância, a violência sexual, a humilhação cotidiana – passaram a ser nomeadas como violência estrutural de gênero. O corpo treinado para desviar, silenciar ou conter a raiva foi encontrando outras modulações, como expressavam consignas reiteradamente vistas em cartazes individuais e faixas coletivas: “não quero ser valente, quero viver sem medo” ou “que a raiva te organize”. Não se tratava apenas de frases, mas de uma prática coletiva que rompia o isolamento.
A partir de nosso trabalho etnográfico, sustentamos que colocar o corpo nas ruas não é uma invenção recente, mas um repertório carregado de memória (Cruz et al., 2022). As marchas do 8M mostram que a transmissão das memórias sociais não opera apenas por meio de narrativas escritas ou orais, mas também através da ação conjunta dos corpos. Nesse sentido, a performatividade não se limita à linguagem dos cartazes: opera no estar juntas, na ocupação do espaço, no ritmo compartilhado (Butler, 2017).
O 8M de 2020, primeira grande mobilização após o Estallido Social no Chile, condensou essa trama. Às demandas feministas históricas somou-se a denúncia das violações de direitos humanos cometidas durante a repressão à revolta social. Cartazes com dizeres como “Ni perdón ni olvido” conviviam com “Aborto legal” e “Vivas nos queremos”. Mulheres mais velhas, ativistas contra a impunidade dos crimes da ditadura, marchavam ao lado das mais jovens e, além de portar a fotografia de um familiar detido-desaparecido, traziam o lenço verde no pescoço. Ao mesmo tempo, estudantes vinculavam as lutas do presente às das jovens mulheres perseguidas durante a ditadura, como parte de um mesmo legado. As memórias da ditadura e as memórias feministas entrelaçaram-se no espaço público. Não se tratou apenas de recordar o passado, mas de atualizá-lo no presente por meio de corpos que disputavam o sentido da violência. Isso já fora anunciado, dois anos antes, por uma grande faixa levada por coletivos feministas na comemoração do Golpe de Estado: “Ni un golpe más”.
Nas imagens e registros dessas marchas observa-se uma montagem entre corpos, palavras e objetos. O cartaz, a capuz transformado, o lenço verde, o celular que registra, o asfalto que sustenta – não são simples suportes. Constituem parte do próprio ato de pôr o corpo em cena. Seguindo Haraway (2019), o corpo pode ser pensado como material-semiótico, ultrapassando a concepção moderna de uma corporalidade fechada em si mesma. O capuz, por exemplo, não apenas protegia da identificação policial, mas converteu-se em signo de oposição à criminalização e em gesto de identificação coletiva. Essa dimensão material amplifica a ação afetiva.
A massividade do feminismo produziu transformações e abriu horizontes de esperança. O processo constituinte iniciado após o Estallido Social apresentou características inéditas: paridade de gênero, assentos reservados para povos originários, presença de múltiplos movimentos sociais. A Convenção Constituinte tornou-se espaço no qual se tentou traduzir em institucionalidade as demandas entoadas nas ruas. A proposta de nova Constituição incorporava direitos sociais, feministas, LGTBIQ+, ecológicos e indígenas.
Contudo, no plebiscito de setembro de 2022, essa proposta foi rejeitada. Como argumentamos em outro trabalho (Cruz, 2026), naquele contexto ativou-se um contramovimento neoconservador que também mobilizou registros afetivos. Parte significativa da campanha pelo “Rechazo” – à proposta de nova Constituição que substituiria a imposta por Pinochet em 1980 – sustentou que o texto fora elaborado com “a emoção equivocada”, a raiva, e convocou a votar contra “por amor ao Chile”. O conflito não se expressou apenas em termos jurídicos ou programáticos, mas também como disputa pelas emoções consideradas legítimas na política.
Na América Latina, a crescente visibilidade de grupos neoconservadores tem sido amplamente documentada (Gudiño, 2017; Morán & Peñas, 2020; Bárcenas, 2021, citados em Cruz et al., 2024). Esses ativismos, articulados em torno da oposição ao aborto, à identidade de gênero e à educação sexual integral, combinam a defesa de uma ordem moral tradicional com estratégias comunicacionais intensivas (Tabbush & Caminotti, 2020). No caso chileno, nossa pesquisa mostrou como, durante a campanha constituinte, esses atores intervieram tanto no espaço digital quanto nas ruas.
Um dos aspectos mais significativos tem sido a disputa pelo sujeito do feminismo. Ativistas que se identificam como “feministas pró-vida” sustentam que o feminismo dominante exclui aquelas que se opõem ao aborto e que o verdadeiro feminismo deve defender a vida “desde a concepção”. Em entrevistas realizadas em 2022, várias dessas ativistas manifestaram o desejo de marchar no 8M com o lenço celeste, em lugar do verde, numa clara resignificação da efeméride em disputa. Paralelamente, a etnografia digital revelou um ativismo afetivo intenso que buscava se reapropriar do 8M em defesa dos “verdadeiros” direitos das mulheres, excluindo o direito ao aborto (Cruz et al., 2024).
A mobilização afetiva não é, portanto, patrimônio exclusivo dos feminismos progressistas. O contramovimento também mobiliza dor, sofrimento e amor como recursos políticos. A categoria de “pânico moral”, amplamente empregada para analisar tais processos (Bárcenas, 2021, citado em Cruz et al., 2024), permite observar como se constroem ameaças simbólicas diante dos avanços em direitos sexuais e reprodutivos. No espaço digital, essa disputa intensifica-se por meio de imagens impactantes, narrativas de vitimização e circulação massiva de conteúdos sensacionalistas.
Nesse cenário, o 8M adquire outra densidade. Já não é apenas memória do autoritarismo nem celebração do auge recente. Converte-se em espaço de convergência entre distintas gerações de feministas, com desacordos que nem sempre são menores. O feminismo contemporâneo não é homogêneo; encontra-se atravessado por tensões em torno da sexualidade, da identidade de gênero, das estratégias institucionais e da relação com o Estado. Contudo, nem todas as posições são equivalentes: ampliar direitos não é o mesmo que restringi-los.
Hoje o clima afetivo é distinto daquele dos anos de expansão. Se então predominava a esperança de transformação estrutural, o presente é vivido com maior incerteza. Há desassossego, cansaço, uma inquietação persistente diante da crueldade que circula nas redes e da permanência das violências. Mas há também continuidade. Mulheres e dissidências seguimos pesquisando, ensinando, escrevendo, organizando-nos. A resistência nem sempre assume a forma espetacular da multidão; às vezes se expressa na persistência cotidiana.
Comemorar é importante. No Cone Sul, o 8 de março nunca foi apenas uma data ritual. Durante as ditaduras, foi um dos poucos resquícios para denunciar o autoritarismo quando quase tudo estava interditado. Comemorar não é congelar o passado – é trazê-lo ao presente comum em um exercício de transmissão aberta de significados contingentes.
Há pouco mais de uma década, particularmente no Cone Sul, os feminismos acadêmicos e ativistas, junto ao árduo trabalho das mulheres sobreviventes do terrorismo de Estado, generizaram as memórias sociais hegemônicas sobre as ditaduras – memórias que haviam subestimado tanto a repressão política dirigida a mulheres e dissidências sexo-genéricas quanto as lutas das feministas e do movimento de mulheres pela redemocratização. Nos anos recentes, juntamente com as mobilizações massivas, a questão das memórias feministas ampliou-se para diversas tramas, a fim de evitar o risco permanente de apagar a história de quem nos precedeu. Retomar agora as memórias mais recentes, em um contexto de contraofensiva antifeminista e de ascensão de direitas antidereitos, não é um gesto nostálgico, mas uma forma de situar o que estamos vivendo em uma trama mais ampla. Como afirmam minhas companheiras de percurso, Claudia Bacci e Alejandra Oberti (2024), as memórias feministas não se transmitem como heranças intactas; articulam-se de maneira contingente em cada conjuntura, entrelaçando lutas anteriores com demandas atuais.
Essa articulação não é linear nem harmônica, mas tampouco é frágil: ela ata temporalidades, corpos e repertórios que excedem a ampliação formal de direitos. Em nossa região, o feminismo não lutou apenas pelos direitos das mulheres; foi também uma força antineoliberal que questionou o ordenamento social em seu conjunto, impugnando o racismo, o extrativismo, a violência política e as desigualdades estruturais (Gago, 2019). Precisamente por essa vocação transformadora – que ultrapassa o estritamente identitário, como tantas vezes se acusa – a reação tem sido tão intensa. Reconhecer essa continuidade na articulação permite compreender que a contraofensiva atual não irrompe de fora da história, mas responde à potência acumulada dessas tramas que seguimos reatando.
Diante de meu próprio desassossego, recorro a uma de minhas autoras-mestras, Ursula K. Le Guin, que nos mostrava que nenhuma sociedade existe sem histórias que permitam imaginar que o mundo poderia ser diferente. E, como adverte Donna Haraway, outra referência indispensável, importa quais histórias contamos e com quais histórias contamos outras histórias. Em tempos de retrocesso, sustentar memórias longas e recentes que não clausurem o futuro pode constituir uma forma de insistência política.
O 8M é memória longa e disputa aberta; é afeto em conflito e persistência em um cenário cambiante. Por isso, voltaremos a ocupar as ruas, continuaremos escrevendo e lendo umas às outras, manteremos nossos arquivos e reinventaremos novas formas de transformar a vida. Encerrro com a consigna presente em um dos cartazes da marcha do 8M de 2020: “No tengo miedo a luchar, tengo miedo a que todo siga igual”.
Referências
BACCI, Claudia & OBERTI, Alejandra. (2024). A 40 de la democracia: articulaciones y memorias feministas. Revista MORA, v. 30, n. 1, p. 273–278. https://doi.org/10.34096/mora.n30.15692
BUTLER, Judith. (2017). Cuerpos aliados y lucha política. Hacia una teoría performativa de la asamblea. Barcelona: Paidós.
CRUZ, María Angélica. (2026). Miedo y rabia en las marchas del 8M en Valparaíso (2017–2022). In: PELLER, Mariela & FERNÁNDEZ OSSANDÓN, Rosario (coords.). Afectos en clave feminista y latinoamericana. Villa María: EDUVIM–CLACSO (no prelo).
CRUZ, María Angélica & AGUIRRE, Félix & EGUREN, Paula. (2024). “Yo también soy feminista”. Neoconservadurismo de género desde el activismo antiaborto en Chile. Íconos, n. 80, p. 33-52.
CRUZ, María Angélica et al. (2022). Gramáticas del 8M post estallido social en Valparaíso: consignas, imágenes y memorias. In: GAMBOA, Dahiana & ARREDONDO, Manuel & CAZORLA, Ketty (eds.). Chile entre estallidos, revueltas, demandas y pandemias: reflexiones desde la cultura política, memoria y derechos humanos. Valparaíso: CEI-CPMDH, Universidad de Valparaíso. Disponível em: https://repositoriobibliotecas.uv.cl/serveruv/api/core/bitstreams/99b70528-c898-479a-9417-7a0204378a6a/content. Acesso em: 2 mar. 2026.
GAGO, Verónica. (2019). La potencia feminista o el deseo de cambiarlo todo. Madrid: Traficantes de Sueños.
HARAWAY, Donna. (2019). Seguir con el problema. Bilbao: Consonni.
LE GUIN, Ursula K. (2024). La teoría de la bolsa de la ficción. Buenos Aires: Rara Avis.
TABBUSH, Constanza & CAMINOTTI, Mariana. (2020). Más allá del sexo: la ampliación de la oposición conservadora a las políticas de igualdad de género en América Latina. LASA Forum, v. 51, n. 2, p. 27-31.
Sobre a autora
María Angélica Cruz Contreras é doutora em Sociologia, docente e pesquisadora da Escola de Sociologia da Universidade de Valparaíso. Integra o GT do CLACSO Rede de Gêneros, Feminismos e Memórias. Este texto baseia-se no projeto Fondecyt 1210360 (2021-2024). Agradeço às/aos minhas/meus companheiras/os de equipe: Félix Aguirre, María José Reyes, Francisco Jeanneret, Manuela Badilla, Ernesto Bouey, Paula Eguren, Juan Pavez e Alin Lobos.

En este 8M, María Angélica Cruz Contreras (Universidad de Valparaíso) analiza el 8M en Chile en un contexto de ascenso de la ultraderecha y de avance de contramovimientos neoconservadores. A partir de la noción de “desasosiego”, la autora examina cómo los afectos, las memorias y las disputas simbólicas atraviesan el presente, tensionando conquistas recientes de los feminismos. Con base en una investigación etnográfica sobre las marchas en Valparaíso y Santiago, Cruz muestra cómo el 8M se ha convertido en un espacio de transmisión de memorias y de politización de los afectos. Retomar estas tramas, para ella, es fundamental para comprender la contraofensiva actual y sostener la persistencia de las luchas en un escenario de incertidumbres.
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Del auge al desasosiego: memorias, afectos y disputas en el 8M
Por María Angélica Cruz Contreras (Universidad de Valparaíso)
Escribo desde Chile, a poco de que se inicie un gobierno de ultraderecha encabezado por una de las principales figuras del contramovimiento neoconservador, José Antonio Kast. Escribo sabiendo lo que ocurrió en Argentina con Milei y en Brasil con Bolsonaro. Escribo no desde el pánico ni desde la derrota, pero sí desde el desasosiego. El desasosiego no es miedo paralizante ni rabia movilizadora. No es la angustia íntima que repliega ni la euforia que promete transformaciones inmediatas. Es una inquietud persistente, una sensación de desplazamiento. Algo que no termina de asentarse. Es la conciencia de que el clima afectivo de una sociedad puede cambiar rápidamente, que los límites de lo decible se corren, que ciertas crueldades se normalizan, que algunas conquistas se vuelven frágiles.
El desasosiego proviene de observar cómo, en otros lugares de la región, la apelación a la libertad individual se combinó con el desmantelamiento de políticas públicas; cómo la retórica anti-género se volvió política de Estado; cómo el humor, la ironía y la descalificación se instalaron como forma legítima de debate público. No es una proyección mecánica ni un anuncio de catástrofe. Es memoria reciente. Escribo, entonces, desde ese estado intermedio, ni ingenua ni resignada. Lo hago desde la conciencia de que las luchas sociales son contingentes y que los afectos –también los afectos conservadores– organizan mundo. En ese marco, vuelvo al 8 de marzo.
El movimiento feminista ha politizado casi todos los ámbitos de la vida. No es algo nuevo, pero en América Latina, especialmente durante los últimos años, tuvo un carácter masivo y radical (Gago, 2019). Valparaíso no ha sido la excepción. Desde el llamado Tsunami Feminista de 2018, pasando por el Estallido Social de 2019 y el posterior proceso constituyente, el feminismo dejó de ser un campo militante relativamente acotado para convertirse en fenómeno cultural transversal.
A estas alturas, pocos podrían decir que desconocen sus principales demandas: aborto legal, una vida libre de violencias, igualdad de derechos, reconocimiento del trabajo no remunerado, entre muchas otras. Sin embargo, enumerarlas resulta siempre insuficiente, porque se trata de un movimiento diverso, atravesado por tensiones internas y por disputas en torno a identidad, sujeto y estrategias. Los feminismos contemporáneos en Chile recorren desde el liberalismo hasta posiciones anticapitalistas, decoloniales y transfeministas. Esa multiplicidad no es un detalle, más bien es parte constitutiva de su potencia y también de sus conflictos.
Más allá de sus contenidos programáticos, durante la última década, lo que se transformó de manera más visible fue el modo de protestar. Las calles se llenaron de cuerpos que cantaban, danzaban, performaban, gritaban o marchaban en silencio. Poner el cuerpo en el espacio público no es nuevo, sino que remite a legados de lucha que pueden rastrearse en las resistencias de mujeres durante la dictadura (Cruz et al., 2022), no solo en Chile sino en todo el Cono Sur. Sin embargo, en los últimos años esa presencia corporal adquirió otra densidad. No se trató solo de ocupar el espacio, sino de politizar explícitamente los afectos que atraviesan la experiencia de género.
Como hemos argumentado en otros trabajos, los estudios sobre acción colectiva han mostrado que las emociones cumplen un papel fundamental en la decisión de movilizarse (Goodwin, Jasper & Polletta, 2001 citados en Cruz, 2026). En Chile, durante el Estallido Social, el miedo, la rabia y la esperanza fueron sentimientos significativos para salir a la calle. Pero en el caso de los feminismos masivos, los afectos no sólo impulsaron la acción: se volvieron parte de sus consignas y de su repertorio. La rabia dejó de ser un sentimiento íntimo o vergonzante para convertirse en declaración pública.
Desde hace una década vengo desarrollando una etnografía longitudinal de las marchas feministas en Valparaíso y Santiago. Me ha interesado especialmente la marcha del 8M porque, dada su masividad, en los últimos años convocó a mujeres que no necesariamente tenían trayectorias previas en el activismo. Allí se fueron anudando redes que en toda Latinoamérica llenaron las calles a través de las movilizaciones “Ni Una Menos”, en la marea verde por el derecho al aborto o en las tomas y protestas estudiantiles contra el acoso sexual. La marcha feminista ha venido funcionando entonces como un espacio de encuentro de viejas activistas, pero también como espacio de reentrenamiento emocional y corporal para quienes por primera vez dijeron ¡Basta! Allí, experiencias vividas como individuales –el miedo aprendido desde niñas, la violencia sexual, la humillación cotidiana– se nombraron como violencia estructural de género. El cuerpo que se entrenó para esquivar, callar o contener la rabia fue encontrando otras modulaciones, como una consigna que reiteradamente vimos en carteles individuales y lienzos colectivos: “no quiero ser valiente, quiere vivir sin miedo” o “que la rabia te organice”. No se trató solo de frases; sino de una práctica colectiva que rompía el aislamiento.
A partir de nuestro trabajo etnográfico hemos sostenido que poner el cuerpo en las calles no es una invención reciente, sino un repertorio cargado de memoria (Cruz et al., 2022). Las marchas del 8M muestran cómo la transmisión de memorias sociales no opera únicamente a través de narrativas escritas u orales, sino también mediante la acción conjunta de los cuerpos. En ese sentido, la performatividad no se limita al lenguaje de los carteles, sino que opera en el estar juntas, en la ocupación del espacio, en el ritmo compartido (Butler, 2017).
El 8M de 2020, primera gran movilización tras el Estallido Social en Chile, condensó esa trama. A las demandas feministas históricas se sumó la denuncia por las violaciones a los derechos humanos cometidas durante la represión de la revuelta social. Carteles que decían “Ni perdón ni olvido” convivían con “Aborto legal” y “Vivas nos queremos”. Mujeres mayores activistas contra la impunidad de la dictadura marchaban junto a las más jóvenes, pero ahora además de portar la foto de una familiar detenida desaparecida llevaban el pañuelo verde al cuello. Al mismo tiempo las estudiantes vinculaban las luchas del presente a las de las jóvenes mujeres perseguidas durante la dictadura como parte de un mismo legado. Las memorias de la dictadura y las memorias feministas se entrelazaron en el espacio público. No se trató solo de recordar el pasado, sino de actualizarlo en el presente a través de cuerpos que disputaban el sentido de la violencia. Esto ya lo advertía, dos años antes, un gran lienzo que colectivos feministas portaron para la conmemoración del Golpe de Estado: “Ni un golpe más”.
En las imágenes y registros de esas marchas se observa un ensamblaje entre cuerpos, palabras y objetos. El cartel, la capucha intervenida, el pañuelo verde, el celular que registra, el pavimento que sostiene no son simples soportes. Forman parte constitutiva del acto de poner el cuerpo. Siguiendo a Haraway (2019), el cuerpo puede pensarse como material-semiótico, desbordando la idea moderna de una corporalidad cerrada sobre sí misma. La capucha, por ejemplo, no solo protegía del reconocimiento policial, también se convirtió en signo de oposición a la criminalización y en gesto de identificación colectiva. Esa dimensión material amplifica la acción afectiva.
La masividad del feminismo produjo transformación y abrió horizontes de esperanza. El proceso constituyente que se inició tras el Estallido Social tuvo características inéditas: paridad de género, escaños reservados para pueblos originarios, presencia de múltiples movimientos sociales. La Convención Constituyente se convirtió en un espacio donde se intentó traducir en institucionalidad las demandas que habían sido coreadas en las calles. La propuesta de nueva Constitución incorporó derechos sociales, feministas, LGTBIQ+, ecológicos e indígenas.
Sin embargo, en el plebiscito de septiembre de 2022 esa propuesta fue rechazada. Como hemos argumentado en otro lugar (Cruz, 2026), en ese contexto se activó un contra-movimiento neoconservador que también apeló a un registro afectivo. Parte importante de la campaña por el “Rechazo” (de la propuesta de nueva constitución que reemplazaría a la impuesta por Pinochet en 1980) sostuvo que el texto había sido elaborado con “la emoción equivocada”, la rabia, y convocó a votar en contra “por amor a Chile”. El conflicto no se expresó únicamente en términos jurídicos o programáticos, sino también en una disputa por las emociones legítimas en la política.
En América Latina, la creciente visibilidad de grupos neoconservadores ha sido ampliamente documentada (Gudiño, 2017; Morán y Peñas, 2020; Bárcenas, 2021 citados por Cruz et al., 2024). Estos activismos, articulados en torno a la oposición al aborto, a la identidad de género y a la educación sexual integral, combinan la defensa de un orden moral tradicional con estrategias comunicacionales intensivas (Tabbush & Caminotti, 2020). En el caso chileno, nuestra investigación mostró cómo, durante la campaña constituyente, estos actores desplegaron intervenciones tanto en el espacio digital como en las calles.
Uno de los aspectos más significativos ha sido la disputa por el sujeto del feminismo. Activistas que se identifican como “feministas provida” sostienen que el feminismo dominante excluye a quienes se oponen al aborto y que el verdadero feminismo debe defender la vida “desde la concepción”. En entrevistas realizadas en 2022, varias de estas activistas expresaron su deseo de marchar el 8M con el pañuelo celeste en lugar del verde, en una clara resignificación de la conmemoración en disputa. Al mismo tiempo, la etnografía digital nos mostró un intensivo activismo afectivo que buscaba reapropiarse del 8M en defensa de los “verdaderos” derechos de las mujeres que excluían el derecho al aborto (Cruz et al., 2024).
La movilización afectiva no es, entonces, patrimonio exclusivo de los feminismos progresistas. El contra-movimiento también apela al dolor, al sufrimiento y al amor como recursos políticos. La categoría de “pánico moral”, ampliamente utilizada para analizar estos procesos (Bárcenas, 2021 citado en Cruz et al., 2024), permite observar cómo se construyen amenazas simbólicas frente a los avances en derechos sexuales y reproductivos. En el espacio digital, esa disputa se intensifica mediante imágenes impactantes, narrativas de victimización y circulación masiva de contenidos escatológicos.
En este escenario, el 8M adquiere otra densidad. Ya no es solo memoria del autoritarismo ni celebración del auge reciente. Es un espacio donde convergen generaciones distintas de feministas, con desacuerdos que no siempre son menores. El feminismo contemporáneo no es homogéneo; está atravesado por tensiones en torno a sexualidad, identidad de género, estrategias institucionales y relación con el Estado. Sin embargo, no toda posición es equivalente: ampliar derechos no es lo mismo que restringirlos.
Hoy el clima afectivo es distinto al de los años de expansión. Si entonces predominaba la esperanza de transformación estructural, el presente se experimenta con mayor incertidumbre. Hay desasosiego, cansancio, una inquietud persistente frente a la crueldad que circula en redes y frente a la persistencia de las violencias. Pero también hay continuidad. Las mujeres y disidencias seguimos investigando, enseñando, escribiendo, organizándonos. La resistencia no siempre adopta la forma espectacular de la multitud, a veces se expresa en la persistencia cotidiana.
Conmemorar es importante. En el Cono Sur, el 8 de marzo nunca fue solo una fecha ritual. Durante las dictaduras fue uno de los pocos resquicios para denunciar el autoritarismo cuando casi todo estaba clausurado. Conmemorar no es congelar el pasado, es traerlo al presente en común en un ejercicio de transmisión abierta de significados contingentes.
Hace poco más de una década, particularmente en el Cono Sur, los feminismos académicos y activistas, junto al arduo trabajo de las mujeres sobrevivientes del terrorismo de Estado, generizaron las memorias sociales hegemónicas sobre las dictaduras, memorias que habían subestimado tanto la represión política hacia las mujeres y disidencias sexo-genéricas, como las luchas de las feministas y del movimiento de mujeres para recuperar las democracias.
En los años recientes, junto a las masivas movilizaciones, la pregunta por las memorias feministas se amplió a diversas tramas para evitar el eterno riesgo de borrar la historia de quienes nos precedieron. Volver ahora sobre las memorias más recientes, en un contexto de contraofensiva antifeminista y de auge de derechas antiderechos, no es un gesto nostálgico sino una forma de situar lo que estamos viviendo en una trama más amplia. Como han planteado mis compañeras de ruta, Claudia Bacci y Alejandra Oberti (2024), las memorias feministas no se transmiten como herencias intactas, se articulan de manera contingente en cada coyuntura, enlazando luchas previas con demandas actuales. Esa articulación no es lineal ni armónica, pero tampoco es frágil: anuda temporalidades, cuerpos y repertorios que exceden la ampliación formal de derechos. En nuestra región, el feminismo no ha luchado solo por los derechos de las mujeres, ha sido también una fuerza antineoliberal que ha cuestionado el orden social en su conjunto, impugnando el racismo, el extractivismo, la violencia política y las desigualdades estructurales (Gago, 2019). Precisamente por esa vocación transformadora –que desborda lo estrictamente identitario como tanto se ha acusado– la reacción ha sido tan intensa. Reconocer esa continuidad en la articulación permite entender que la contraofensiva actual no irrumpe desde fuera de la historia, sino que responde a la potencia acumulada de esas tramas que seguimos reanudando.
Frente a mi propio desasosiego recurro a una de mis autoras maestras, Ursula K. Le Guin (2024/1986), quien nos mostraba que ninguna sociedad existe sin historias que permitan imaginar que el mundo podría ser de otra manera. Y como advierte Haraway (2019), mi otra indispensable, importa qué historias contamos y con qué historias contamos otras historias. En tiempos de retroceso, sostener memorias largas y recientes que no clausuren el futuro puede ser una forma de insistencia política.
El 8M es memoria larga y disputa abierta, es afecto en conflicto y persistencia en un escenario cambiante. Por eso, volveremos a salir a la calle, seguiremos escribiendo y leyéndonos, mantendremos nuestros archivos y reinventaremos nuevas formas de transformar la vida. Cierro con la consigna de uno de los carteles de la marcha del 8M en 2020 “No tengo miedo a luchar, tengo miedo a que todo siga igual”.
Referencias
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Sobre la autora
María Angélica Cruz Contreras es Doctora en Sociología, docente e investigadora de la Escuela de Sociología de la Universidad de Valparaíso. Integra el GT de CLACSO Red de Géneros, Feminismos y Memorias. Este texto se basa en el proyecto Fondecyt 1210360 (2021-2024). Agradezco a mis compañeras/os del equipo: Félix Aguirre, María José Reyes, Francisco Jeanneret, Manuela Badilla, Ernesto Bouey, Paula Eguren, Juan Pavez y Alin Lobos.
