Ocupação Mulheres 2026 | História dos feminismos na América Latina, por Dora Barrancos

Na última rodada da Ocupação Mulheres 2026, publicamos dois trechos do livro História dos feminismos na América Latina, de Dora Barrancos, uma das principais intelectuais da região nos estudos de gênero e feminismo. No prefácio à edição brasileira, publicada pela Bazar do Tempo em 2022, a autora relembra sua trajetória pessoal e intelectual, marcada pelo exílio no Brasil entre 1977 e 1984, período em que aderiu ao feminismo e passou a reconhecer a centralidade da estrutura patriarcal na produção das desigualdades sociais. Em um trecho da introdução, Barrancos apresenta um panorama histórico dos feminismos latino-americanos, destacando seus diferentes ciclos de desenvolvimento ao longo do século XX e início do XXI e mostrando como essas mobilizações contribuíram para transformar as relações de gênero e ampliar direitos na região.

Aproveitamos para agradecer a participação das autoras nesta quarta edição da Ocupação Mulheres da BVPS. Para saber mais sobre essa edição, com curadoria de Claudia Bacci (IEALC-UBA) e Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), clique aqui. Outros textos publicados podem ser conferidos aqui.

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História dos feminismos na América Latina

Por Dora Barrancos

Prefácio à edição brasileira (2022)[*]

É de um ângulo particular emotivo que escrevo este prefácio para a edição brasileira de História dos feminismos na América Latina. E não poderia ser de outro modo, porque foi durante meu exílio no Brasil, entre os anos 1977 e 1984, que aderi à proposta feminista, iniciando um caminho sem volta.

A partir da revolta gerada pelo assassinato (feminicídio) da mineira Ângela Diniz, em 1976, ocorreram manifestações de mulheres em diversos lugares do Brasil, despertando a consciência de muitas – que também contestavam o autoritarismo da ditatura – e pondo em evidência o crime que seria decididamente interpelado.

Eu tinha uma experiência de luta na reivindicação da justiça social, uma militância tão praticada na minha geração para transformar as relações de classe, que se resumiam em desigualdades abjetas, e não faltavam denúncias quanto às formas de colonização imperialista de nossos territórios, não apenas os da América Latina. Mas, então, eu pensava – desajeitadamente – que o feminismo era individualista, dizia respeito a mulheres burguesas incomodadas, mas relutantes em perceber as verdadeiras fontes da opressão. O reconhecimento de que os fundamentos da desigualdade e da injustiça se encontram na estrutura patriarcal e que nesta são criptografadas e desenvolvidas as formas mais cruéis de iniquidade significou uma profunda mudança nas minhas sensibilidades, me fazendo identificar uma inescapável obrigação intelectual e abandonar a falsa concepção que havia sustentado até então.

Portanto, minhas concepções feministas devem muitíssimo ao território brasileiro. Sigo mantendo vínculos estreitos com muitas pessoas amadas nesse meu segundo solo e, diga-se, também tive o privilégio de cursar meus estudos de pós-graduação em duas notáveis instituições de ensino – Mestrado em Educação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Doutorado em História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Durante esses longos anos, participei de diversas atividades com vários grupos acadêmicos e militantes e segui aprendendo com a criatividade de suas múltiplas produções em diferentes campos, sobretudo naqueles referidos à condição dos grupos subalternos, às mulheres, às relações de gênero, às diversidades sociossexuais.

Eu me sinto parte dessas pessoas que se comprometeram com as manifestações em prol da igualdade e da dignidade, que resistem aos embates que bloqueiam o direito à autonomia dos corpos e que levam adiante, remando contra a maré, as lutas pelos direitos humanos fundamentais, os combates contra a opressão de gênero, classe e etnia, desfraldando a bandeira do arco-íris, um desafio à erradicação da ordem patriarcal

Espero que as/os leitoras/es desse querido país possam se aproximar da história das múltiplas manifestações feministas na América Latina e, sobretudo, descobrir as condições históricas dos diferentes momentos vividos por esses diversos feminismos. Creio que não há dúvida de que, entre as mobilizações mais revigorantes e promissoras em direção à construção de sociedades mais justas na nossa região, estão as levadas adiante pelas mulheres. A tempestade que sacode nossas sociedades pelos direitos das mulheres e das identidades diversas também é a promessa de um mundo mais honroso para a nossa espécie. Não podemos abdicar desse horizonte.

Trecho da IntroduçãoTraços gerais da evolução do feminismo na América Latina

As sociedades latino-americanas incorporaram o feminismo mediante instrumentos que reagiram ao domínio masculino moldado no sentido comum, nos hábitos e nas codificações. Os movimentos feministas trilharam seu caminho de acordo com as possibilidades de cada país, e deve-se dizer que seu desenvolvimento ao longo do século XX não foi compreendido como um movimento de massa, com adesões de escala demográfica muito expressiva, como foi a história de outros empreendimentos pela conquista de direitos, por exemplo, a protagonizada pelo movimento operário. Essa é uma circunstância peculiar que se deve abordar, embora as mulheres fossem e sigam sendo mais da metade da população – por conta disso, é absurdo caracterizar sua agência como própria de “minorias” –, o movimento que as aglutina não foi contado com uma massa prodigiosa de seguidoras, mesmo que no presente haja sinais de que esteja mudando a composição numérica dos movimentos que se dizem feministas e se está alterando notavelmente a antiga fisionomia rala de congêneres. Com efeito, embora a identificação com o feminismo tenha sido módica em todas as sociedades, não resta dúvida de que se multiplicou a empatia, aumentou de modo exponencial o número de mulheres que talvez não se definam de modo contundente como “feministas”, mas suas mudanças de atitude e as transformações singulares de suas subjetividades resultam numa renovação da trama das relações de gênero em nossas sociedades latino-americanas. Em alguns países, pela primeira vez os feminismos estão constituindo um fenômeno de massa, o que talvez seja a grande transformação a que se assiste neste século no qual se acirram os combates contra o sistema patriarcal. O capítulo final deste livro aborda especialmente os movimentos que estão em pleno desenvolvimento em diversos países da região.

Mas voltemos ao lapso temporal de mais de um século desde a implantação feminista no começo do século XX e situemos as características gerais que os diferentes caminhos tiveram no decorrer das décadas. Farei uma síntese das notas comuns que identificaram as diversas vertentes, em dois movimentos bastante diferenciados sobre os quais acredito existir amplo acordo interpretativo. Os feminismos latino-americanos oferecem um divisor de águas temporal que não coincide exatamente com o das órbitas norte-americanas e europeias, embora se assimile bastante. No conjunto – estou longe de indicar um comportamento idêntico dos movimentos feministas em cada um dos países da região —, há um amplo ciclo que vai desde sua germinação, entre as décadas de 1900 e 1910, até os anos 1940; depois se segue certo estancamento que deu lugar a um reflorescimento nos anos 1970, com uma mudança notável de agenda que se observa, sobretudo, no desempenho das décadas de 1980 e 1990. Poderíamos discorrer sobre um terceiro ciclo, iniciado no fim dos anos 1990 e que chega aos nossos dias, quando assistimos a uma clara expansão das manifestações mais livres das sexualidades, à propensão de agendas mais vernáculas com ecos pós-coloniais, à massividade das reivindicações e a formas mais ousadas e expansivas do protesto antipatriarcal.

Não ficam de fora as enormes mudanças sociais e culturais que houve nesse mais de um século de desempenho das agências feministas, as transformações ocorridas nas próprias mulheres, que mudaram muito mais que os homens, proporcionalmente. Com efeito, pensa-se nos obstáculos impostos pelo modelo de mulher criado pelo sistema patriarcal, no exclusivo mandato da procriação e do cuidado, em sólida rede das mentalidades que atribuía uma inteligência menor às mulheres e que delimitava os campos do conhecimento no qual talvez pudessem penetrar sem causar lesões à sociedade… A transposição dessas formidáveis pedreiras simbólicas e materiais foi possível graças à ação das ousadas feministas que surgiram em todas e em cada uma de nossas nações, que puderam indicar caminhos e animar outras mulheres a quebrar o que havia sido marcado como sina e destino. Essas militantes, com frequência isoladas, criaram condições e também aproveitaram as conjunturas, nem sempre com eficácia e tampouco isentas de contradições, mas os costumes foram cedendo.

No primeiro ciclo de desempenho, a maioria das feministas na região provinha de grupos letrados, era composta de professoras ou se dedicava às letras ou, ainda, havia conquistado algum profissionalismo na incipiente abertura na vida universitária. Em sua maioria, essas feministas representavam os segmentos de classe média e média alta de nossas sociedades e não há como negar que, numa enorme proporção, correspondiam às populações brancas e, às vezes, mestiças; raramente, porém, encontravam-se mulheres indígenas entre elas. Sim, houve exceções, e aqui serão encontrados alguns casos emblemáticos dessa ruptura da muito provável monotonia de classe e gênero que constitui a paisagem dominante do coletivo pelos direitos das mulheres. Aquela agenda inicial esteve marcada pelas seguintes questões fundamentais: a igualdade jurídica, a equiparação dos direitos políticos, os benefícios da educação e o reconhecimento dos valores da maternidade com a devida proteção das mães e da prole. Depois estão os detalhes da ação feminista, mais ou menos temerária, em cada uma das nações.

O segundo ciclo desenvolvido na América Latina sem dúvida respondeu às renovações impulsionadas pelo feminismo da “segunda onda”. No fim do século XX, havia grandes evidências no mercado de trabalho, um singular ingresso de mulheres com alta qualificação das universidades e em diversas disciplinas e um incremento incontestável de sua participação na vida política, científica e sindical. Antes da mudança de século, algumas mulheres chegaram a presidir suas nações, e no início do XXI outras seguiram o exemplo destas. Para os homens, quase não houve mudanças nas rotinas do exercício patriarcal, na conduta masculina fundamental exigida. Com efeito, a dominação masculina se seguiu nos diversos campos da vida social, embora a participação das mulheres tenha crescido de modo notável. Ainda na área acadêmica e científica, na qual supostamente o exercício da crítica racional poderia ter reduzido ou eliminado os obstáculos que as mulheres enfrentavam, havia a misoginia, a desconfiança em relação às capacidades femininas, e dominavam as diretrizes científicas masculinas. Ainda falta pesquisar a história das agruras das mulheres, sobretudo das mais jovens, que atuavam em laboratórios e em outros ambientes de pesquisa. No fim do século passado, apesar da alegada antiviolência que constituía um aspecto central das reivindicações feministas, ainda permaneciam na sombra as displicências, as humilhações, as hostilidades e os assédios perpetrados contra as mulheres em todos os âmbitos da existência.

Desde então houve rupturas, não poucos homens abdicaram do folhetim da masculinidade, abraçaram as trocas eróticas e sexuais com outros homens – um fenômeno abjeto para o sistema patriarcal –, arremessaram para longe os ordenamentos e as clausuras, e não foram poucos os que criaram pontes para consagrar fórmulas paritárias. As notas mais pronunciadas do feminismo expressadas entre as décadas de 1970 e 2000 foram a denúncia da violência patriarcal e a luta por sua erradicação – ainda que as primeiras manifestações tenham sido sobre a violência doméstica –, a insurgência contra o mandato exclusivo da reprodução, o reconhecimento das dissidências sexuais com direito próprio, as reivindicações pela ampliação da cidadania política. Em todos os países foram ampliados os direitos das mulheres, e graças ao guarda-chuva da Convenção de Belém do Pará (1994), majoritariamente se sancionou uma legislação contra todas as formas de violência dirigidas às mulheres. Mas é possível falar de um terceiro ciclo com a eclosão das manifestações feministas pós-coloniais e seus clamores de que as mulheres dos povos originários e as afrodescendentes empreendam lutas e interpretações próprias fora dos formatos hegemônicos, em boa medida portadores de rastros acadêmicos. Mais recentemente, as sociedades foram sacudidas por novos desafios para acabar com a violência em todas as suas formas, há reações concatenadas de congêneres muito jovens e de todos os grupos sociais que não desejam ser assombrados por acossadores nem desejam viver acatando nomes que penalizam a livre vontade de dispor de seus corpos e que podem significar a prisão por não levar adiante gestações não deseja- das. Há uma onda renovada de feminismos de muitas cores por todo o solo latino-americano.

Nota

[*] A edição brasileira de História dos feminismos na América Latina foi publicada em 2022 pela editora Bazar do Tempo, com tradução de Michelle Strzoda.

Sobre a autora

Dora Barrancos é doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas e professora na Universidade de Buenos Aires (UBA). É uma das intelectuais mais influentes da América Latina nos estudos de gênero, feminismo e ciências sociais.


En la última ronda de la Ocupación Mujeres de 2026, publicamos dos fragmentos del libro Historia de los feminismos en América Latina, de Dora Barrancos, una de las principales intelectuales de la región en los estudios de género y feminismo. En el prefacio a la edición brasileña, publicada por Bazar do Tempo en 2022, la autora recuerda su trayectoria personal e intelectual, marcada por el exilio en Brasil entre 1977 y 1984, período en el que adhirió al feminismo y pasó a reconocer la centralidad de la estructura patriarcal en la producción de las desigualdades sociales. En un fragmento de la introducción, Barrancos presenta un panorama histórico de los feminismos latinoamericanos, destacando sus diferentes ciclos de desarrollo a lo largo del siglo XX y comienzos del XXI, y mostrando cómo estas movilizaciones contribuyeron a transformar las relaciones de género y a ampliar derechos en la región.

Aprovechamos para agradecer la participación de las autoras en esta cuarta edición de la Ocupación Mujeres de la BVPS. Para saber más sobre esta edición, con curaduría de Claudia Bacci (IEALC-UBA) y Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), haga clic aqu. Otros textos publicados pueden consultarse aquí.

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Historia de los feminismos en América Latina

Por Dora Barrancos

Prefacio a la edición brasileña (2022)

Es desde un ángulo particularmente emotivo que escribo este prefacio para la edición brasileña de História dos feminismos na América Latina.[1] Y no podría ser de otro modo, porque fue durante mi exilio en Brasil, entre los años 1977 y 1984, cuando adherí a la propuesta feminista, iniciando un camino sin retorno.

A partir de la revuelta generada por el asesinato (feminicidio) de la mineira Ângela Diniz, en 1976, se produjeron manifestaciones de mujeres en diversos lugares de Brasil, despertando la conciencia de muchas –que también contestaban el autoritarismo de la dictadura– y poniendo en evidencia un crimen que sería decididamente interpelado.

Yo tenía una experiencia de lucha en la reivindicación de la justicia social, una militancia tan practicada en mi generación para transformar las relaciones de clase, que se resumían en desigualdades abyectas, y no faltaban denuncias sobre las formas de colonización imperialista de nuestros territorios, no solo en América Latina. Pero entonces pensaba –de manera algo torpe– que el feminismo era individualista, que concernía a mujeres burguesas incómodas, pero reacias a percibir las verdaderas fuentes de la opresión. El reconocimiento de que los fundamentos de la desigualdad y de la injusticia se encuentran en la estructura patriarcal y que en ella se cifran y desarrollan las formas más crueles de iniquidad significó un profundo cambio en mis sensibilidades, haciéndome identificar una obligación intelectual ineludible y abandonar la falsa concepción que había sostenido hasta entonces.

Por lo tanto, mis concepciones feministas deben muchísimo al territorio brasileño. Sigo manteniendo vínculos estrechos con muchas personas queridas en ese que es mi segundo suelo y, cabe decirlo, también tuve el privilegio de cursar mis estudios de posgrado en dos notables instituciones de enseñanza –la Maestría en Educación en la Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) y el Doctorado en Historia en la Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Durante esos largos años participé en diversas actividades con varios grupos académicos y militantes, y seguí aprendiendo de la creatividad de sus múltiples producciones en diferentes campos, sobre todo en aquellos referidos a la condición de los grupos subalternos, a las mujeres, a las relaciones de género y a las diversidades sociosexuales.

Me siento parte de esas personas que se han comprometido con las manifestaciones en favor de la igualdad y de la dignidad, que resisten los embates que bloquean el derecho a la autonomía de los cuerpos y que llevan adelante, remando contra la corriente, las luchas por los derechos humanos fundamentales, los combates contra la opresión de género, clase y etnia, desplegando la bandera del arcoíris, un desafío a la erradicación del orden patriarcal.

Espero que las/os lectoras/es de este querido país puedan acercarse a la historia de las múltiples manifestaciones feministas en América Latina y, sobre todo, descubrir las condiciones históricas de los diferentes momentos vividos por esos diversos feminismos. Creo que no hay duda de que, entre las movilizaciones más vigorosas y prometedoras en dirección a la construcción de sociedades más justas en nuestra región, se encuentran las llevadas adelante por las mujeres. La tormenta que sacude nuestras sociedades por los derechos de las mujeres y de las identidades diversas es también la promesa de un mundo más digno para nuestra especie. No podemos abdicar de ese horizonte.

Fragmento de la IntroducciónRasgos generales de la evolución del feminismo en América Latina

Las sociedades latinoamericanas incorporaron el feminismo mediante instrumentos que reaccionaron frente al dominio masculino moldeado en el sentido común, en los hábitos y en las codificaciones. Los movimientos feministas recorrieron su camino de acuerdo con las posibilidades de cada país, y debe decirse que su desarrollo a lo largo del siglo XX no fue comprendido como un movimiento de masas, con adhesiones de escala demográfica muy significativa, como ocurrió en la historia de otros emprendimientos por la conquista de derechos, por ejemplo, el protagonizado por el movimiento obrero. Esta es una circunstancia peculiar que debe abordarse: aunque las mujeres eran y siguen siendo más de la mitad de la población –por lo cual resulta absurdo caracterizar su agencia como propia de “minorías” –, el movimiento que las aglutina no contó con una masa prodigiosa de seguidoras, aun cuando en el presente existan señales de que está cambiando la composición numérica de los movimientos que se dicen feministas y se está alterando notablemente la antigua fisonomía escasa de congéneres. En efecto, aunque la identificación con el feminismo haya sido modesta en todas las sociedades, no cabe duda de que se ha multiplicado la empatía: ha aumentado de manera exponencial el número de mujeres que quizá no se definan de forma contundente como “feministas”, pero cuyos cambios de actitud y transformaciones singulares de sus subjetividades resultan en una renovación de la trama de las relaciones de género en nuestras sociedades latinoamericanas. En algunos países, por primera vez los feminismos están constituyendo un fenómeno de masas, lo que quizá sea la gran transformación a la que asistimos en este siglo, en el cual se intensifican los combates contra el sistema patriarcal. El capítulo final de este libro aborda especialmente los movimientos que están en pleno desarrollo en diversos países de la región.

Pero volvamos al lapso temporal de más de un siglo desde la implantación feminista a comienzos del siglo XX y situemos las características generales que los diferentes caminos asumieron a lo largo de las décadas. Haré una síntesis de las notas comunes que identificaron las diversas vertientes, en dos movimientos bastante diferenciados sobre los cuales creo que existe amplio acuerdo interpretativo. Los feminismos latinoamericanos presentan un divisor temporal que no coincide exactamente con el de las órbitas norteamericanas y europeas, aunque se asemeja bastante. En conjunto –estoy lejos de indicar un comportamiento idéntico de los movimientos feministas en cada uno de los países de la región–, hay un amplio ciclo que va desde su germinación, entre las décadas de 1900 y 1910, hasta los años 1940; luego sigue cierto estancamiento que dio lugar a un reflorecimiento en los años 1970, con un notable cambio de agenda que se observa sobre todo en el desempeño de las décadas de 1980 y 1990. Podríamos hablar de un tercer ciclo, iniciado a fines de los años 1990 y que llega hasta nuestros días, cuando asistimos a una clara expansión de las manifestaciones más libres de las sexualidades, a la propensión de agendas más vernáculas con ecos poscoloniales, a la masividad de las reivindicaciones y a formas más audaces y expansivas de protesta antipatriarcal.

No quedan fuera las enormes transformaciones sociales y culturales ocurridas a lo largo de más de un siglo de actuación de las agencias feministas, ni los cambios experimentados por las propias mujeres, que se transformaron mucho más que los hombres, proporcionalmente. En efecto, basta pensar en los obstáculos impuestos por el modelo de mujer creado por el sistema patriarcal, en el exclusivo mandato de la procreación y del cuidado, en la sólida red de mentalidades que atribuía una inteligencia menor a las mujeres y que delimitaba los campos del conocimiento en los cuales quizá pudieran incursionar sin causar daños a la sociedad… La superación de estas formidables barreras simbólicas y materiales fue posible gracias a la acción de las audaces feministas que surgieron en todas y cada una de nuestras naciones, quienes lograron señalar caminos y animar a otras mujeres a quebrar aquello que había sido marcado como sino y destino. Estas militantes, con frecuencia aisladas, crearon condiciones y también aprovecharon las coyunturas, no siempre con eficacia ni tampoco exentas de contradicciones, pero las costumbres fueron cediendo.

En el primer ciclo de actuación, la mayoría de las feministas en la región provenía de grupos letrados: eran profesoras, se dedicaban a las letras o habían conquistado algún grado de profesionalización en la incipiente apertura de la vida universitaria. En su mayoría, estas feministas representaban a los sectores de clase media y media alta de nuestras sociedades y no puede negarse que, en una enorme proporción, correspondían a poblaciones blancas y, en ocasiones, mestizas; raramente, sin embargo, se encontraban entre ellas mujeres indígenas. Sí hubo excepciones, y aquí se encontrarán algunos casos emblemáticos de esa ruptura con la muy probable monotonía de clase y género que constituye el paisaje dominante del colectivo por los derechos de las mujeres. Aquella agenda inicial estuvo marcada por las siguientes cuestiones fundamentales: la igualdad jurídica, la equiparación de los derechos políticos, los beneficios de la educación y el reconocimiento de los valores de la maternidad con la debida protección de las madres y de la prole. Luego vendrán los detalles de la acción feminista, más o menos temeraria, en cada una de las naciones.

El segundo ciclo desarrollado en América Latina sin duda respondió a las renovaciones impulsadas por el feminismo de la “segunda ola”. A fines del siglo XX había claras evidencias en el mercado de trabajo: un singular ingreso de mujeres con alta calificación provenientes de las universidades y de diversas disciplinas, y un incremento incontestable de su participación en la vida política, científica y sindical. Antes del cambio de siglo, algunas mujeres llegaron a presidir sus naciones y, a comienzos del XXI, otras siguieron su ejemplo. Para los hombres, en cambio, casi no hubo cambios en las rutinas del ejercicio patriarcal ni en la conducta masculina fundamental exigida. En efecto, la dominación masculina continuó en los diversos campos de la vida social, aunque la participación de las mujeres creció de manera notable.

Incluso en el ámbito académico y científico –en el que supuestamente el ejercicio de la crítica racional podría haber reducido o eliminado los obstáculos que enfrentaban las mujeres– persistían la misoginia, la desconfianza respecto de las capacidades femeninas y el predominio de directrices científicas masculinas. Aún falta investigar la historia de las dificultades que enfrentaron las mujeres, sobre todo las más jóvenes, que actuaban en laboratorios y en otros ambientes de investigación. A fines del siglo pasado, pese a la declarada lucha contra la violencia –aspecto central de las reivindicaciones feministas–, permanecían en la sombra las negligencias, las humillaciones, las hostilidades y los acosos perpetrados contra las mujeres en todos los ámbitos de la existencia.

Desde entonces se produjeron rupturas: no pocos hombres renunciaron al folletín de la masculinidad, abrazaron intercambios eróticos y sexuales con otros hombres –un fenómeno abyecto para el sistema patriarcal–, arrojaron lejos los ordenamientos y las clausuras, y no fueron pocos los que tendieron puentes para consagrar fórmulas paritarias. Los rasgos más pronunciados del feminismo expresados entre las décadas de 1970 y 2000 fueron la denuncia de la violencia patriarcal y la lucha por su erradicación –aunque las primeras manifestaciones se centraron en la violencia doméstica–, la insurgencia contra el mandato exclusivo de la reproducción, el reconocimiento de las disidencias sexuales con derechos propios y las reivindicaciones por la ampliación de la ciudadanía política. En todos los países se ampliaron los derechos de las mujeres y, gracias al paraguas de la Convención de Belém do Pará (1994), en su mayoría se sancionó legislación contra todas las formas de violencia dirigidas a las mujeres.

Pero también es posible hablar de un tercer ciclo con la eclosión de las manifestaciones feministas poscoloniales y sus reclamos para que las mujeres de los pueblos originarios y las afrodescendientes emprendan luchas e interpretaciones propias, por fuera de los formatos hegemónicos, en buena medida portadores de marcas académicas. Más recientemente, las sociedades se han visto sacudidas por nuevos desafíos para acabar con la violencia en todas sus formas: hay reacciones concatenadas de congéneres muy jóvenes y de todos los grupos sociales que no desean ser acosados ni vivir sometidos a normas que penalizan la libre voluntad de disponer de sus cuerpos y que pueden significar la prisión por no llevar adelante gestaciones no deseadas. Hay una ola renovada de feminismos de muchos colores en todo el suelo latinoamericano.

Nota

[1] Edición en español: Historia mínima de los feminismos en América Latina. Ciudad de México: El Colegio de México, 2020. 

Sobre la autora

Dora Barrancos es doctora en Historia por la Universidade Estadual de Campinas y profesora en la Universidad de Buenos Aires (UBA). Es una de las intelectuales más influyentes de América Latina en los estudios de género, feminismo y ciencias sociales.