
“Sérgio Buarque de Holanda e uma certa escrita da História” é o nono e penúltimo texto da série Autorais Laura de Mello e Souza, apresentado em 2025 em uma conferência na Academia Brasileira de Letras.
O texto nos convida a percorrer os caminhos longos e tortuosos que levam Sérgio Buarque de Holanda a uma escrita – modernista, sugere a autora – da história, que tem como tema obsessivo a expansão paulista. Como uma “Casa-grande & senzala ao avesso”, seu olhar dirigido para o sertão buscava compreender um “Brasil em movimento”, voltado para as minas e para o interior, surgido a partir da itinerância e da incerteza, que formou uma sociedade de arrivistas e não de aristocratas, discrepando da visão estática do litoral.
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Sérgio Buarque de Holanda e uma certa escrita da História
Por Laura de Mello e Souza (USP)
I. A escrita difícil
Ao celebrar o Recife natal, em 1925, Manuel Bandeira não evocou a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais, nem a cidade dos Mascates ou a que foi cenário das revoluções libertárias. Indo a contrapelo do mais óbvio, e opondo a memória à história, consagrou o Recife da sua infância, o da rua da União, o dos pregões populares. Quando fiz a escolha do recorte do que lhes apresento aqui hoje, o primeiro exemplo que me veio à cabeça foi o do poema de Manuel Bandeira. O Sérgio Buarque de Holanda de que tratarei hoje não é aquele mais evidente, visitado por vários especialistas: o do ensaio de estreia, Raízes do Brasil, o da tese de cátedra, Visão do Paraíso, ou o que, no fim da vida, voltou-se para a história do Segundo Reinado em Do Império à República, por muitos considerada a sua obra-prima[1]. Vou me ater ao autor que, admitindo ter sempre se devotado “ao campo dos estudos brasileiros […] com uma curiosidade dispersiva e mal educada” (Holanda, 1979: 14), aproximou-se da História levado por circunstâncias variadas e inconstantes, até que, em 1958, o interesse se estabilizasse por meio da eleição para a cátedra de História da Civilização Brasileira no Departamento de História da Universidade de São Paulo, que ocupou até se aposentar dez anos depois, em protesto contra as cassações ocorridas no meio universitário em decorrência do AI-5. Antes disso, havia sido jornalista, crítico literário, escrevera um dos grandes ensaios da cultura brasileira, atuara esporadicamente em universidades como auxiliar de pesquisa ou ministrante eventual de cursos sobre literatura e história brasileira.
O percurso do autor rumo à história tal como concebida e praticada pelos profissionais da disciplina fez-se aos poucos, com hesitações, inseguranças, incertezas e uma permanente necessidade de ganhar dinheiro, que o levava a aceitar o que aparecia. Num depoimento dado em junho de 1981 esclareceu em parte os meandros que retardaram sua definição profissional:
os jornais pagavam artigos de crítica literária. Ou seja, fazer crítica histórica não adiantava nada. […] Quando eu estava com falta de dinheiro, era a crítica literária que me ajudava. Eu mandava textos para publicar em São Paulo, Rio, Minas, no Norte. Até que dava um dinheirinho… (Holanda, 2009a: 182).
Quem sabe justamente por isso tenha produzido obra tão original e variada… Dotado de possibilidades, cultura e erudição vastíssimas, que constituem aliás uma de suas marcas mais notáveis, Sérgio Buarque de Holanda não se deteve num assunto, num período ou numa região: não foi propriamente um especialista, como outros grandes historiadores brasileiros. Escreveu sobre o Renascimento, o Barroco, as Luzes, o Modernismo. Publicou ensaios e críticas no domínio da Antropologia, da Sociologia, da Literatura, da Arte, e mesmo após ter se fixado como historiador profissional lançou um livro, Tentativas de Mitologia, de 1979 – três anos, portanto, antes de morrer – no qual fica evidente a impressionante desenvoltura com que transitava entre vários domínios do conhecimento.
Paradoxalmente, a atividade prolífica e ininterrupta não impediu que a escrita fosse para ele muito sofrida. Como registrado no prefácio que escrevi para a última edição de Monções, publicada em 2014, ouvi do próprio autor, por volta de 1977, que custava muito a redigir um só parágrafo, carregando nos bolsos pequenos blocos onde refazia frases e trechos ao longo do dia (Souza, 2014). A dificuldade seria, alguns anos depois, reiterada por ele no referido Tentativas de Mitologia: ao discorrer sobre sua militância como crítico de jornal, reconheceu ter sido forçado, “pelo tirocínio de quem há de redigir cada semana um artigo novo sobre matéria nova”, a buscar um estilo ao mesmo tempo claro e correto, acrescentando que a clareza não lhe era, contudo, natural, e que vinha “tentando realizá-la de longa data”. Na crítica de jornal, continuava, nada lhe viera como “dádiva milagrosa”, e sim como
uma conquista gradual e alcançada largamente sobre um vício meu, não sei bem se adquirido ou congênito, que me fazia quase sempre desenvolver meu raciocínio como se falasse ou escrevesse só para mim, ignorante do interlocutor presente ou do leitor eventual. De onde as obscuridades frequentes em que tropeço ainda hoje, quando me ocorre passar os olhos sobre um dos meus antigos escritos, e que escapavam outrora, por mais que me advertissem vários amigos a respeito delas (Holanda, 1979: 16-17)[2].
Um dos amigos foi Manuel Bandeira. Sérgio Buarque de Holanda deve ter partilhado com ele as dificuldades que o inquietavam, como a explicitada nas primeiras páginas de Tentativas de mitologia: que não se sentia “o que se chama um escritor da raça”, que sabia ser “incapaz de expressar-se, ao correr da pena, nos termos mais adequados”, vendo-se às voltas com uma “vigilância constante sobre a própria dicção, embora sujeitando-se ao perigo de torná-la por vezes artificiosa”, e chegando a enveredar experimentalmente pela “fala brasileira, inventada por Mário de Andrade”, no intuito de diminuir a distância entre esta e a literatura escrita (Holanda, 1979: 17-18). A certa altura, Bandeira reconheceu mudanças no estilo do amigo, mas chamou a atenção para “algum timbre arcaizante” nele persistente: “certo casticismo”, distinto, contudo, daquele dos textos clássicos portugueses, e que suspeitava dever-se à leitura “das atas da Câmara da Vila de São Paulo, das ordens régias e dos testamentos quinhentistas” (Holanda, 1979: 18-19).
A observação de Manuel Bandeira tem fundamento: a partir dos anos 1950, a leitura exaustiva das fontes coevas marcou o estilo do historiador, e a expressão máxima dessa marca é Visão do Paraíso, que no estilo e nas imagens adere à estética do Barroco. No balanço sobre seu ofício feito no final da vida em Tentativas de mitologia, continuava a se questionar quanto à escrita praticada, interrogando-se até que ponto a versatilidade imposta pela crítica de livros o afastara do estilo mais adequado à complexidade imposta pelas disciplinas científicas. Defende-se, em seguida, e considera que “o exercício da crítica” não teria transtornado sua vocação principal de historiador; que não acreditava existir uma “história pura” ou uma “crítica pura”, daí o crítico ter ajudado a formar o historiador, permitindo que evitasse dogmatismos, enquanto o historiador pôde permitir ao crítico que permanecesse alerta “à exigência de pesquisas apuradas” (Holanda, 1979: 31-32). Talvez, de fato, o exercício da crítica tenha sido responsável pelo olhar distante e pelo antidogmatismo que sempre procurou conservar com relação a seus objetos.
II. Uma história em movimento
O livro que marcou o ingresso de Sérgio Buarque de Holanda no mundo dos arquivos e dos documentos antigos foi Monções, publicado em 1945 (cf. Dias, 1985). O crítico de livros que, no ano anterior, reunira escritos de jornal em Cobra de Vidro (1944) se aproximava mais e mais dos estudos históricos, levado pelas possibilidades de emprego – em 1946 foi nomeado historiógrafo do Museu Paulista (popularmente Museu do Ipiranga) – e pelo que era, conforme declarou mais de uma vez, sua vocação mais funda. Os dez anos seguintes foram marcados pela produção que constitui o cerne de minhas considerações presentes: escritos voltados para o que Sérgio Buarque de Holanda considerou a “expansão paulista” dos séculos XVI, XVII e XVIII: andanças por terra em busca de mão de obra indígena; expedições fluviais voltadas ao comércio com as zonas auríferas e que eram conhecidas como “monções de comércio”.
O livro Monções contava inicialmente com seis capítulos: “Os caminhos do sertão”, “O transporte fluvial”, “Ouro”, “Sertanistas e mareantes”, “As estradas móveis” e “Comércio de Cuiabá”. Em 1949 os Anais do Museu Paulista publicaram uma nova pesquisa do diretor: Índios e mamelucos na expansão paulista. O foco mudara, dirigindo-se para as marchas paulistas sertão adentro, ora palmilhando o território rumo ao sul – o Paraguai –, ora rumando para o sudoeste do continente, na busca de minas de prata como as do serro de Potosí[3]. O novo interesse o absorveu nos anos seguintes, sem impedir que, ao mesmo tempo, continuasse a reunir documentos referentes às monções de comércio. Em 1957, já prestes a se apresentar para o concurso de cátedra na USP, cedeu à insistência de amigos, entre eles Otávio Tarquínio de Sousa e Antonio Candido, e reuniu novos escritos a Índios e mamelucos para com eles publicar Caminhos e fronteiras. Neste livro, deteve-se no movimento paulista por terra, mas não esqueceu do comércio fluvial. Numa entrevista ocorrida em 2 de junho de 1981 no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, e da qual participei juntamente com Maria Thereza Petrone, Bolívar Lamounier e Ernani da Silva Bruno, ele confessou mais uma vez tal desejo:
Gostaria ainda de rever esse material. Consegui uma bolsa da Fundação Gulbenkian e fiquei três meses em Portugal, estive também no Mato Grosso, fui até Assunção, no Paraguai, e tenho todo esse arquivo anotado. Enfim, o material é muito grande, só que não tenho tempo, estou fazendo outras coisas. […] Até pensei em fazer com outro título, Monções e povoado. Seria o mesmo livro, só que muito ampliado (Holanda, 2009a: 183).
Mas voltemos no tempo, pois é preciso esclarecer certos aspectos referentes às edições de Monções. Anos antes, em 1976, saíra a segunda edição do livro, com texto igual ao da primeira e observações do autor esclarecendo que não quisera alterar nada do que constasse da edição anterior. Mas após sua morte, ocorrida em 1982, foram encontrados três capítulos refeitos entre seus papéis: “Caminhos do sertão”, no qual as três páginas iniciais se transformaram em 43; “O transporte fluvial”, que teve um acréscimo de 17 páginas às 23 iniciais; “As estradas móveis”, que de 29 páginas passou a contar com 67. A versão refeita de “Caminhos do sertão” havia sido publicada, ainda em vida do autor, na Revista de História da USP. Completamente reescrita, passara a contar com 40 páginas novas. Os demais capítulos reescritos eram inéditos. Na terceira edição, surgida em 1990, oito anos portanto após o desaparecimento do autor, a editora Brasiliense esclareceu em nota que o leitor tinha em mãos o livro “na sua integridade originária, e, como material novo, em apêndice, os três capítulos refeitos” (Holanda, 1990: 7).
Em 2013 fui procurada pela editora Companhia das Letras para prefaciar o que seria a quarta edição de Monções. Após muita hesitação, e valendo-me do fato de estar àquela altura orientando uma pesquisa de iniciação científica sobre A produção historiográfica de Sérgio Buarque de Holanda: entre Monções e Caminhos e fronteiras (Cerqueira, 2011), resolvi incorporar a pesquisa do aluno e o convidei para trabalhar comigo em algo mais ambicioso: uma edição de Monções e de O Extremo Oeste, conjunto de textos inéditos de Sérgio Buarque de Holanda que José Sebastião Witter publicara em 1986 a pedido de sua viúva e colaboradora, Maria Amélia Buarque de Holanda. Caminhos e Fronteiras ficou de fora: na forma que lhe havia sido dada pelo autor em 1957, nascera pronto e irretocável.
O editor aceitou o projeto, André Sekkel preparou as notas e Monções ficou como esteve durante a vida de seu autor: na primeira versão. Os três capítulos refeitos foram juntados a O Extremo Oeste e o conjunto rebatizado de Capítulos de Expansão Paulista. Em 2014 chegou às livrarias uma caixa com os dois volumes, um mais fino e o outro bem grosso. Monções continuou como nascera, mas o enigma não se resolveu. Por que o historiador levara mais de 40 anos procurando reescrever Monções sem ter, afinal, incorporado à edição de 1976, ocorrida ainda durante sua vida, aquilo que conseguira reescrever?
A marca de Capistrano de Abreu sobre a concepção geral desses escritos contou na decisão de chamá-los de Capítulos de Expansão Paulista, pagando tributo aos Capítulos de História Colonial que Capistrano publicara em 1907 e deixando implícita a associação com outra obra desse mestre: a existente entre Caminhos e Fronteiras e Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil, que a Sociedade Capistrano de Abreu publicou em 1930, três anos após a morte do autor[4].
Por que Capistrano? Porque, como ele, Sérgio voltou os olhos para o interior do território que viria a ser o Brasil, tratando ao mesmo tempo, conforme dito por Fernando Novais (1994: 7), “das trilhas dos bandeirantes e raias da Colônia, mas sobretudo das direções e limites de nossa civilização”. Contemporâneo de Gilberto Freyre (1900-1987), em diversas circunstâncias e em vários escritos Sérgio procurou deixar claras, desde Raízes do Brasil, e até Tentativas de mitologia, as diferenças que os separavam quando se tratava de perceber as linhas mestras de nossa formação (Holanda, 1979: 99-110). Num ensaio instigante, Mar e Sertão, Luiz Feldman considerou recentemente que Gilberto e Sérgio pertenceriam a duas tendências diferentes do ensaísmo brasileiro, a do primeiro afeita a destacar o papel do mar na compreensão da nossa história, a do segundo voltada para a presença marcante do sertão. O mar, espaço das navegações e do império marítimo – do “mundo que o português criou” e, a partir dos anos 1950, do luso-tropicalismo – se oporia, portanto, ao sertão, que um outro estudioso da expansão paulista, Alcântara Machado (o pai do modernista), qualificaria como “o centro solar do mundo colonial” (Machado, 1930: 245)[5].
Penso que a questão é mais complexa, escapando ao âmbito destas considerações. O que cabe ressaltar no momento é como um povo de marujos e navegadores se aclimatou a circunstâncias muito distintas das que o haviam norteado até então na busca da sobrevivência, enfrentando dificuldades e incertezas comparáveis às impostas pela lide marítima. Tanto Alcântara Machado quanto Sérgio sublinharam a relação entre a travessia oceânica e a travessia do sertão, e está por explorar melhor o quanto a experiência marítima portuguesa possibilitou que os colonizadores suportassem as agruras da navegação fluvial.
Retomando o que seria a proposta de Luiz Feldman, talvez houvesse tanto de mar quanto de sertão na obra historiográfica de Sérgio Buarque de Holanda, mesmo havendo diferenças fundas entre ele e Gilberto Freyre. Para o primeiro, uma vez vencidas “as escabrosidades da serra do Mar, o meio favoreceu a diferenciação dos habitantes do planalto de Piratininga, e, contrastando com o equilíbrio aparente dos núcleos do litoral nordestino, favoráveis à sedentarização expressa “na sólida habitação dos senhores de engenho”, a situação de instabilidade deu lugar ao contato mais intenso entre os adventícios e a população nativa. Logo na segunda página do capítulo inicial de Monções, o referido “Caminhos do sertão”, Sérgio Buarque de Holanda define o ritmo da história que passava a abraçar, esclarecendo que a vocação dos paulistas “estaria no caminho, que convida ao movimento; não na grande propriedade rural, que cria indivíduos sedentários”. O propalado isolamento de São Paulo – hoje bastante contestado pela historiografia – imporia maior lentidão aos colonizadores: ali, a língua portuguesa só no século XVI suplantaria “a geral, da terra”, e a ação colonizadora se fez “por um processo de contínua adaptação a condições específicas do ambiente americano”, flexível como o couro, “ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio” (Holanda, 1990: 16).
Desde as primeiras páginas, estava assim traçada em Monções a opção pela análise histórica assentada nas complexidades do encontro cultural, necessariamente interdisciplinar. O autor sinalizava que, ao se valer de um legado historiográfico já consolidado – aquele mais convencional de Afonso d’Escragnolle Taunay e seus estudos sobre as bandeiras, mas também aquele mais inovador de Alcântara Machado em Vida e morte do bandeirante – retomava a tradição consagrada por Capistrano, propondo uma outra forma de entender o Brasil. Desafiava de uma só feita Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, autores que criticou com firmeza desde os tempos de Cobra de Vidro. Dois meses antes de morrer, na entrevista que concedeu a Richard Graham para a HAHR, reiterou que coletara muito material para ampliar Monções e reconheceu o quanto a crítica a Freyre e Oliveira Vianna o tinham levado a dedicar-se ao assunto dos movimentos do sertão. Para deixar clara a distância que o separava de Freyre, registrou que, em ensaios dispersos, começara a escrever “uma espécie de Casa Grande & Senzala ao avesso”, pois este livro fazia com que o Brasil parecesse estático, dominado pelo açúcar; olhando para o Atlântico; parado. “Eu queria algo mais dinâmico”, esclareceu, “apontando para as Minas, para o interior”. Um “Brasil em movimento”, acrescentou. Um Brasil movido pelo ouro, pois era riqueza interior e não litorânea, surgida a partir da itinerância e da incerteza, originando uma sociedade de arrivistas e não de aristocratas, capazes de romper com tradições e reinventá-las, discrepando do sedentarismo modorrento do litoral. Um Brasil habitado por homens que se afastavam, quando preciso, da matriz portuguesa tão cara a Freyre, adotando quase sempre, até o final do século XVIII, o nhangatu, ou língua geral do sul. Quanto a Oliveira Vianna, reprovou suas afirmações sobre a carência de ideias democráticas no Brasil, sua obsessão arianista tão distante daquilo que Sérgio considerava quase um dever retratar: um Brasil que não era fruto apenas do intuito colonizador europeu, mas obra de muitos outros elementos, daí o empenho em destacar o papel indígena na determinação das rotas e das práticas que possibilitaram a ação dos colonizadores, imprimindo sua marca na civilização material do Planalto[6].
III. O sertão reinventado
Caminhos e Fronteiras desenvolve certos aspectos que em Monções haviam sido tratados de passagem, detendo-se nas práticas culturais que tornaram possível a expansão paulista. Surgiu meio por acaso, ao sabor das demandas de artigos e dos atalhos que escapavam das coordenadas em torno das quais gravitava o interesse permanente pelas monções de comércio. Passou um tanto despercebido, e ainda hoje não atrai muita atenção. Um ou outro estudo sério e bem fundamentado, como A conquista do oeste, de Robert Wegner, procurou ajustá-lo a uma explicação mais abrangente acerca de um eventual fascínio de Sérgio Buarque de Holanda pelas teorias de Frederick Jackson Turner, sobretudo no livro The Significance of the Frontier in American History, bem como pela problemática geral das fronteiras no pensamento norte-americano. O autor não chegou a ver a obra de Wegner, mas, tomando-se por base o que disse na Introdução a Caminhos e Fronteiras e em Tentativas de Mitologia, teria discordado de tal interpretação. A fronteira de que fala se define na relação permanente com o movimento das populações paulistas, condicionando-o e sendo por ele condicionado, estando o vocábulo fronteira presente já nos “textos contemporâneos da primeira fase da colonização do Brasil” e independendo, portanto, “de quaisquer relações com o significado que adquiriu na moderna historiografia, em particular norte-americana” (Holanda, 1994: 13), lembrando-se ainda que a colonização norte-americana é posterior à realizada ao sul do continente. Para Sérgio, o que interessava eram as manifestações particulares, próprias à ação dos habitantes do planalto paulista, “que em nossa história se podem associar àquele conceito de fronteira” (Holanda, 1994: 13). A fronteira, nas obras sobre a expansão paulista, é vista, portanto, sob perspectiva eminentemente histórica, e foge ao enquadramento mais sociológico sobre o qual se assenta a argumentação de Wegner.
Mais complexo e bem equilibrado do que Monções, Caminhos e Fronteiras não deixa transparecer o fato de ter-se constituído por artigos publicados em momentos diferentes, que neste livro integraram capítulos ordenados segundo três núcleos; “Índios e mamelucos”, “Técnicas rurais” e “O fio e a teia”. O primeiro núcleo aborda “as situações surgidas do contato entre uma população adventícia e os antigos naturais da terra com a subsequente adoção, por aquela, de certos padrões de conduta e, ainda mais, de utensílios e técnicas próprios dos últimos”. O segundo e o terceiro núcleo se referem ao processo de diluição desse legado, ocorrido nos primeiros tempos, e à lenta recuperação subsequente. A presença indígena se faz mais presente no segundo núcleo, pois no terceiro abordam-se “atividades que tendem a acomodar-se aos meios urbanos e se tornam, neste caso, cada vez mais dóceis aos influxos externos” (Holanda, 1994: 12).
Apesar do pioneirismo no estudo do cultivo dos trigais, da pilação dos grãos, do trato do solo, da tecelagem de cunho doméstico – quando o autor mostra que a análise das técnicas deve se valer tanto da antropologia como da consideração dos universos mentais envolvidos –, “Índios e mamelucos” se destaca das demais partes pelo caráter extremamente inovador e pela beleza da escrita. Os nove artigos ali reunidos articulam a vida material à dimensão cultural dos sentidos e da percepção bem antes que o historiador italiano Carlo Ginzburg o fizesse numa bela análise publicada no final dos anos 1980 sobre o conhecimento indiciário (“Sinais: raízes de um paradigma indiciário”); os nove artigos detêm-se sobre a adoção de uma corporalidade específica por parte dos caminhantes, que para suportarem as marchas longas inclinam um pouco o corpo para frente e giram ligeiramente os pés para dentro, imitando os naturais da terra; esmiúçam a incorporação, pelos europeus, de hábitos alimentares, venatórios e curativos inusitados, mostrando o quanto a itinerância, a iminência da doença ou o flagelo da fome – por ele considerada uma “companheira da aventura” –, impunham a adoção de critérios ora seletivos, ora analógicos. Na nova terra, diante de peculiaridades do meio natural, “onde não se reproduzem exatamente as visões habituais, a imaginação adquire direitos novos”, apesar de haver sempre quem insistisse nas analogias, procurando o pão de trigo na mandioca, a castanha europeia na araucária, a uva na jabuticaba, a carne de vaca na do tamanduá, conforme registrado em tantos dos primeiros cronistas. O apuro teórico e metodológico impressiona ainda porque antecipa modos de análise cultural que só se generalizariam no final do século passado, quando as análises sobre encontros culturais ganham espaço:
nada tão difícil […] como uma análise histórica tendente a discriminar […] entre os elementos importados e os que procederam diretamente do gentio. Traços comuns prepararam, sem dúvida, e anteciparam, a síntese desses diversos elementos. […] São dignos de interesse, por outro lado, os processos de racionalização e assimilação a que o europeu sujeitou muitos de tais elementos, dando-lhes novos significados e novo encadeamento lógico, mais em harmonia com seus sentimentos e seus padrões de conduta tradicional (Holanda, 1994: 78-80).
Escrevendo num momento em que muitos acreditavam na sobredeterminação do econômico, e quando se cogitava, entre os historiadores franceses, da autonomia das mentalidades – que seriam fenômenos de longuíssima duração –, o autor fica numa espécie de meio caminho sugestivo, pois o livro mostra ter sido nos aspectos da vida material que o colono e seus primeiros descendentes se mostraram mais sensíveis “a manifestações divergentes da tradição europeia”, enquanto determinados traços de mentalidade, peculiares aos colonizadores portugueses, permitiriam operar a seleção das técnicas adotadas, a retirar, da botica da natureza, certas substâncias e não outras, imprimindo sentido nos arranjos culturais e influindo sobre a história dos homens. Mentalidade que não se apresentava imóvel, como em certos trabalhos da escola francesa, mas passível de ir se alterando aos poucos, sob o impacto da ‘agitação de superfície’ representada pela adoção de novas técnicas e de novos costumes” (Holanda, 1994: 136).
Caminhos e fronteiras demarca territórios e indica um tempo novo nos estudos do sertão. Sendo um marco inovador, não perde de vista certa tradição historiográfica brasileira, ali representada, como já referido, por Alcântara Machado e Capistrano de Abreu. Ambos haviam dedicado capítulos ao sertão, e Sérgio dialoga com eles, tanto implícita como explicitamente.
IV. Colagem modernista
Os escritos sobre a expansão paulista deixados inéditos por Sérgio Buarque de Holanda quando de sua morte continuam sendo um enigma. Como se viu, foram publicados em 1986 por José Sebastião Witter e batizados de O Extremo Oeste, e em 2014 reunidos por mim aos três capítulos reescritos de Monções sob o título de Capítulos de Expansão Paulista. André Sekkel Cerqueira e eu não conseguimos chegar a um juízo seguro a respeito da sua natureza. Várias são as passagens reescritas que se encontram também em Monções e, em menor incidência, em Caminhos e Fronteiras. Os textos datilografados trazem correções manuscritas do próprio Sérgio, que também reescreveu trechos ou acrescentou passagens novas nas margens das folhas. Na introdução a O Extremo Oeste, Witter, um de seus discípulos mais próximos, deu o testemunho sobre a obsessão do mestre com a escrita e a reescrita, com a busca da forma perfeita, da palavra mais justa, reproduzindo alguns desses exemplos refeitos existentes no texto datilografado. Flagrou enganos, gralhas e até erros de data, deixando claro que aquilo jamais ocorreria caso tivessem sido revistos com o rigor obsessivo que caracterizava seu autor. Eram textos, portanto, que estavam longe de ser encaminhados para uma publicação. Não há tampouco qualquer referência à data em que foram escritos. Possivelmente são muitas, o historiador dedicando-se a eles quando sobrava tempo da tarefa que mais o absorveu nos últimos anos de vida e que referiu em mais de uma entrevista: a continuação do volume sobre o Império, dedicado aos militares e à sua inserção na política da época[7]. As notas de rodapé, quando as há, são bastante completas e Witter pôde inclusive, com base nelas, conferir transcrições de manuscritos que desconfiou estarem erradas – e algumas de fato estavam. Mas há longas passagens em que o escritor soltou a pena e a imaginação, deixando de lado as referências. Numa aproximação ainda precária, é possível estabelecer alguns marcos com base nas citações bibliográficas que contêm datas, sem, contudo, avançar muito. Qual o destino de tais trechos? Integrariam a reescrita de Monções, sob o título de Monções e povoado? Dariam origem a um novo livro? Seriam apenas rascunhos do que publicara nas décadas de 1940 e 1950, e que não passaram por seu crivo crítico apertadíssimo?
Difícil saber. Tanto há indícios de que já escrevia essas passagens na década de 1940 quanto de que o fazia ao final da de 1970. A beleza de alguns trechos e a coerência interna que apresentam impedem, por sua vez, que sejam considerados rascunhos, e a originalidade de alguns assuntos não coaduna com a possibilidade de que fossem descartados, pois só no século atual a pesquisa acadêmica passou a se ocupar deles.
Poderia citar vários exemplos, mas vou me deter no que me parece o mais brilhante: a incursão pelo papel do Paraguai na expansão paulista, e a relação complementar e contraditória – dialética, em suma – estabelecida entre São Paulo e Assunção. Na segunda metade do século XVI, esta última eclipsou a vila surgida em torno do colégio dos jesuítas, e desde sua fundação, em 1537, a cidade paraguaia teria sido mais determinante na ocupação do sudeste e do sul da América portuguesa do que a presença francesa na costa atlântica: se os franceses, adversários que vinham de longe, insinuaram-se “sobre as partes mais visíveis ou ostensivas da colônia”,de onde poderiam ser desalojados, os assuncenos eram inimigos mais íntimos e mais perigosos, “vivendo ali ao lado de paredes-meias” com os portugueses, podendo feri-los “de flanco”, se assim o quisessem (Holanda, 1986: 119). Antes de se descobrir e explorar o cerro de Potosí, em 1545, o Paraguai era a grande atração sul-americana para os ibéricos, e houve um período indefinido, quando pouco se sabia sobre os limites estabelecidos por Tordesilhas, em que, segundo nosso historiador, a região tanto poderia ter se tornado lusa quanto espanhola (Holanda, 1986: 107). Famílias paulistas e assuncenas se entrelaçaram, relações de comércio e de contrabando andaram lado a lado nas duas regiões, os negócios mostrando-se “de muito proveito para ambas as partes”, e o caminho entre São Vicente e Assunção sendo tão frequentado que, uma vez estabelecido na Bahia o governo geral, em 1549, Tomé de Souza o mandou obstruir, preocupado com o que dali poderia decorrer.
Por meio de uma análise assentada no domínio espetacular da história factual, da diplomacia da época e do desenvolvimento da cartografia, Sérgio Buarque de Holanda está na verdade preocupado em explorar a ideia da imprevisibilidade na História e mostrar que elementos aleatórios e improváveis, a exemplo da refundação de Buenos Aires e do desenvolvimento de um núcleo isolado e estranho às grandes rotas sul-americanas, como São Paulo, acabaram por subverter a situação. Se antes ocupara uma “posição central, que lhe daria a chave de todo o continente, bloqueando todas as possibilidades de acesso dos de Portugal às minas de metal rico”, Assunção acabou por ser eclipsada (Holanda, 1986: 119).
Rebatizados de Capítulos de Expansão Paulista, esses textos parecem ser a chave possível para melhor entender a escrita da História em Sérgio Buarque de Holanda. Recuando a Cobra de vidro e avançando até Tentativas de mitologia, como procurei fazer aqui, sugere-se que o tema obsessivo desse grande historiador foi a expansão paulista. Seus depoimentos indicam que se desgostou com Raízes do Brasil, desinteressou-se de Visão do paraíso e só começou a se livrar das monções, dos caminhos e das raias do continente sul-americano quando surgiu o interesse tardio que o levou ao Segundo Reinado. Se o poeta Cláudio Manuel da Costa, que Sérgio Buarque de Holanda analisou como ninguém[8], viveu dividido entre limar obsessivamente os poemas e entregar-se à febre da inspiração, o alvo da lima do historiador foi, sem dúvida, a temática da expansão paulista, sua febre tardia sendo, possivelmente, a da história do Império.
No tempo que mediou entre o começo da escrita historiográfica segundo moldes mais acadêmicos e o seu ocaso, Sérgio Buarque de Holanda escreveu, recortou e reescreveu. Fez com que os pedaços transplantados estabelecessem relações horizontais, ora transpondo e adaptando passagens de uns para outros, ora fazendo com que entabulassem uma espécie de diálogo ou conversa, alguns dos temas assumindo quase que a função dos estribilhos ou dos leitmotivs que se repetem nas obras musicais.
Em Cobra de vidro, seu primeiro livro após a estreia de 1936 com Raízes do Brasil, pelo menos dois dos capítulos – que são resenhas de livros – contêm germes do que viriam a ser os escritos sobre as andanças dos piratininganos: “S.I.”, onde discorre sobre os jesuítas, a atração dos paulistas pelo sertão e envereda pela conexão paraguaia; e “Gramática e história”, que traz elementos desenvolvidos na segunda e na terceira parte de Caminhos e Fronteiras, quando enfatiza o papel das técnicas – o monjolo, o tear, a extração do mel – ou seja, os elementos que, após a adesão dos mamelucos de São Paulo a hábitos e práticas “mestiças”, os leva a valorizar o legado europeu.
Sérgio Buarque de Holanda foi na juventude profundamente marcado pelo Modernismo, movimento no qual fez alguns dos bons amigos que teve na vida, como Manuel Bandeira, Prudente de Moraes, neto, Rubens Borba de Moraes e Mário de Andrade. Os documentos coevos atraíram-no para a forma barroca, presente sobretudo em Visão do Paraíso, mas que, confirmando a intuição de Manuel Bandeira, o teria sempre perseguido, impedindo-o, na maior parte de suas obras, de atingir o ideal de clareza e objetividade que diz ter sido o seu.
Termino com uma hipótese, talvez uma provocação. Camuflado sob uma escrita que ele talvez julgasse mais adequada aos cânones acadêmicos, mais capaz de conferir ao crítico o reconhecimento devido ao historiador, Sérgio Buarque de Holanda, no íntimo, permaneceu um modernista. Quem o conheceu pôde testemunhar sua irreverência, sua ironia, as tiradas meio surrealistas, o apreço pela carnavalização, a personalidade boêmia. A tentativa aqui empreendida de dissecar seu modo de escrever reitera tal juízo. Afinal, em boa parte de sua atividade de escritor da História, recorreu com frequência aos restos, ao recorte, ao aproveitamento de pedaços, à superposição, à colagem, como se fosse um Juan Gris, um Georges Braque ou um Pablo Picasso a decifrar os movimentos dos mamelucos de Piratininga continente adentro.
Notas
[1] Questionado em junho de 1981 por Maria Thereza Petrone sobre qual dentre seus livros era o preferido, respondeu: “Este que estou fazendo agora, sobre o Império. Mas não sei se vai ficar bom. Ando sentindo uma dificuldade grande para escrever” (Holanda, 2009a: 189).
[2] Em fevereiro de 1982, em entrevista concedida a Richard Graham dois meses antes de morrer, Sérgio Buarque de Holanda referiu sua dificuldade em escrever quase nos mesmos termos. Ver Holanda (2009b: 211).
[3] Para uma excelente cronologia comentada, ver Furtado (2022: 547-558).
[4] Quem primeiro usou a palavra “Capítulos” para designar os inéditos deixados por Sérgio Buarque de Holanda foi Antonio Candido, no caso para os ensaios de crítica literária publicados como Capítulos de literatura colonial. Não sei, contudo, se o fez com alguma intenção de aludir à marca desse historiador sobre Sérgio Buarque de Holanda.
[5] A marca deste capítulo, “O sertão”, sobre os estudos sobre a expansão paulista de Sérgio Buarque de Holanda é, a meu ver, evidente e inegável.
[6] Sobre as críticas a Oliveira Vianna, ver “Cultura e política” em Holanda (1979). Ver também o depoimento em Holanda (2009b: 205, 207-209).
[7] O historiador refere a essa atividade nas duas últimas entrevistas que concedeu, já mencionadas e ocorridas em junho de 1981 e fevereiro de 1982.
[8] Na Apresentação a Tentativas de mitologia, seu último livro, Sérgio Buarque de Holanda deixa entrever que se sente à vontade como crítico de poesia: “Se tenho a presunção de sair-me com relativa segurança nas críticas de poesia […] é talvez porque, sem ser poeta, mas acreditando-me dotado de alguma sensibilidade, já isto bastava para criar a distância conveniente entre o crítico e o objeto da crítica” (Holanda, 1979: 32)
Referências
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FURTADO, André. (2022). Sérgio Buarque de Holanda, historiador desterrado. Rio de Janeiro: FAPERJ-EDUFF.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. (1979). Tentativas de mitologia. São Paulo, Perspectiva.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. (1986). A conquista do Extremo Oeste. In: O Extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense
HOLANDA, Sérgio Buarque de. (1990). Monções. 3ª edição ampliada. São Paulo: Editora Brasiliense.
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MACHADO, Alcântara. (1930). O sertão. In: Vida e morte do bandeirante. 2ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais.
NOVAIS, Fernando. (1994). Prefácio. Caminhos e Fronteiras. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras.
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