
Mário de Andrade volta sua atenção para a lepra, problema urgente no Rio Grande do Norte de 1929. Segundo observa, a doença, relativamente recente no estado, vinha sendo enfrentada com medidas enérgicas, a exemplo da construção de um leprosário nos arredores de Natal. O modernista, entretanto, não deixa de registrar, com certo humor trágico, a história de um telegrafista que, na esperança de cura, passou a viver com uma cascavel à espera da picada milagrosa.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (5 de janeiro)
Um dos problemas que, atacado a tempo no Rio Grande do Norte, já está quasi resolvido, é o da lepra. Por mim confesso inda não topei com leproso declarado por aqui. Vi, foi a cara dum horrendo, em fotografia, num cartaz de propaganda contra a doença, bem por cima da bilheteria de selos, no Correio.
Parece que o Estado atualmente contará com pouco mais de cem leprosos, informa o dr. Varella Santiago, medico de Natal, se dedicando ao problema e autor dum “Esbôço historico da Lepra no Rio Grande do Norte”, de que vou me servir.
A lepra é relativamente recente no Estado. O primeiro caso conhecido data já da segunda metade do seculo passado. Seguiram casos raros, quando sinão quando aparecia um, se isolando por si mesmo ou vivendo, na paciencia sem medo dos outros, a vida social, que nem um telegrafista de Mossoró por 1883. Esse telegrafista, Deus me perdôe! é um caso engraçado de psicologia morfetica. Se falava naqueles tempos que morfetico mordido por cobra, sarava da lepra. Mas como não se sabia direito si o leproso sarava tambem da mordida da cobra o pobre do telegrafista ficou numa hesitação danada. Andou campeando uma cobra, arranjou uma cascavel, ótima pra morder, trouxe ela pra casa. Desde então viveram na maior comunhão possivel, cascavel e telegrafista. Mas morder é que jamais êle não se deixou. Viveu eternamente na esperança de ser mordido sem querer. — É hoje, êle se falava, hoje de certo a cascavel escapole e me morde. — Passava que mais passava junto da caixa. Se escutava lá dentro um chocalho baixinho. Mas não houve remedio: nunca que a cobra escapoliu e o telegrafista morreu leproso. Morreu leproso, num morrer de todas as horas martirisado, antiofidico mas pelo menos não provou picada de cascavel que além de matar depressa, talvez doa. Si existe caso mais dramaticamente comico, outro que conte.
A lepra se desenvolveu no Estado com as primeiras voltas de paroaras, da Amazonia. Em 1926 o problema estava presente e o atual senador José Augusto, então dirigindo o Estado, tratou da construção dum leprosario. Fundaram então o de S. Francisco, a sete quilometros de Natal, primitivamente duas casas apenas. Nesse isolamento provido de todos os confortos, esperam a morte 52 desinfelizes. Agora estão concluindo um grupo de mais 10 casas com capacidade para 70 doentes. Inaugurado êsse grupo, será iniciado outro igual. Ha energia e decisão rapida por aqui. Se espera dentro dum ano, isolar o Estado completamente.
MÁRIO DE ANDRADE
