
A Sociologia chega aos 60!
A BVPS parabeniza Celi Scalon e Frédéric Vandenberghe, ambos do IFCS/UFRJ, pelos aniversários recentes. Aproveitamos a ocasião para fazer da homenagem reflexão. Celebramos as trajetórias individuais desses dois sociólogos destacados na nossa comunidade nacional, claro. Mas, à semelhança de outras ações que realizamos, como a série e o livro Modos de narrar a Sociologia brasileira, propomos pensar, sociologicamente, sobre as realizações, impasses e desafios da Sociologia a partir das trajetórias pessoais. Aqui abordadas a partir da categoria de “geração”, variável analítica que, infelizmente, praticamente desapareceu do trabalho recente, e que já se mostrava decisiva na Modos de narrar a sociologia.
Assim, temos a alegria de publicar textos de André Salata (PUC-RS) e Lucas Soneghel (UFPE), homenageando seus antigos orientadores, Celi e Fred, duas trajetórias que, cada uma a seu modo, mostram que a melhor Sociologia se faz com rigor, compromisso e generosidade. Parabéns à Celi e ao Fred, a quem agradecemos a trajetória de contribuição à nossa disciplina, que importa tanto ser pensada e repensada.
Boa leitura!
Entre estruturas e oportunidades: Celi Scalon e sua geração
André Salata (PUC-RS)
Nos estudos sobre estratificação social, é comum tratarmos de coortes, que, tecnicamente, se constituem pela agregação de indivíduos cujo ano de nascimento se situa em determinado intervalo de tempo. Do ponto de vista sociológico, coortes reúnem indivíduos que, por razões que estão para além de suas escolhas, enfrentam um mesmo contexto histórico, político e social, ainda que este seja também, sem dúvida, recortado pelas dimensões de classe, raça e gênero, entre outras. A coorte à qual cada indivíduo pertence, e que constitui um dos mais relevantes princípios adscritos de estratificação, impõe constrangimentos e oportunidades diante dos quais ele deverá agir. Não é diferente para nós, cientistas sociais, cuja atuação também pode ser pensada em termos de coortes ou, para usar um termo mais propriamente sociológico, de gerações.
É a partir dessa lente que, acredito, podemos compreender de modo mais aprofundado a trajetória e as contribuições da professora Celi Scalon. Não me refiro aqui a uma coorte estritamente etária, mas a uma coorte de formação e ingresso no ofício. Celi faz parte da geração de sociólogos brasileiros que se formaram e iniciaram sua atuação acadêmica entre os anos de 1980 e 2000, período que a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) denominou de “expansão e consolidação do campo” (Lima & Bomeny, 2021). É a geração que inicia sua trajetória nos anos da transição para a democracia, após um contexto de forte intimidação, repressão e perseguição ao campo da Sociologia, que havia inclusive resultado na suspensão das atividades da SBS, retomadas em 1986. Do ponto de vista institucional, trata-se de uma coorte que se formou em condições favorecidas pela expansão dos cursos de graduação e pós-graduação em Sociologia e Ciências Sociais, pela multiplicação dos centros de pesquisa e pela consolidação, no país, da infraestrutura de apoio à pós-graduação e à pesquisa acadêmica.
A trajetória da professora Celi Scalon é profundamente atravessada por esse contexto, por suas oportunidades e por seus constrangimentos. Sua formação acadêmica se inicia na década de 1980, primeiro no curso técnico da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, passando pela graduação em Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (UFF) e chegando ao mestrado em Sociologia, no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), em 1991, antes de ingressar no doutorado naquela mesma instituição, em 1993. Já em 1996, antes mesmo de concluir o doutorado, Celi foi contratada como professora efetiva do IUPERJ, uma conquista notável para uma jovem socióloga. Sua trajetória de rápida ascensão reflete o encontro entre seu enorme talento como pesquisadora e a estrutura de oportunidades e constrangimentos colocada à sua geração no campo acadêmico ou, mais especificamente, no campo da Sociologia. A formulação, que ouvi dela certa vez de modo espontâneo, resume bem essa tensão: Sociologia é o estudo do que os indivíduos fazem dada a estrutura que lhes é imposta.
A questão das desigualdades sempre foi elemento primordial nas pesquisas desenvolvidas e nos estudos publicados por Celi Scalon. Não haveria, na verdade, como pensar o Brasil sem considerar as hierarquias e disparidades que marcam as relações sociais que por aqui se estabelecem. Já no período de formação do campo da Sociologia no Brasil, entre sociólogos e sociólogas das gerações precursoras – como Florestan Fernandes, Abdias do Nascimento, Octavio Ianni, Guerreiro Ramos e Fernando Henrique Cardoso, entre outros -, a desigualdade aparece como elemento-chave para decifrar o funcionamento da sociedade brasileira. A obra de Celi e de sua geração, sem dúvida, dialoga com os conceitos, ideias e teorias desses autores fundadores. Mas, refletindo o contexto de profissionalização da pesquisa e do campo da Sociologia no país, seu trabalho se caracteriza também pelo uso rigoroso e sistemático de métodos e técnicas de pesquisa empírica.
Se, por um lado, sua geração não abandonou as grandes perguntas sobre o Brasil, por outro, mudou o modo de respondê-las, exigindo que democracia, classe, raça, gênero, violência, educação, mobilidade, entre outras questões, fossem analisadas por meio de mecanismos empiricamente observáveis. Se as gerações anteriores formularam a desigualdade como chave da formação brasileira, a geração de Celi Scalon fez dela uma sociologia das oportunidades e de sua distribuição desigual, ancorada na observação empírica e na análise sistemática.
Destaca-se, aqui, sua tese de doutorado, publicada em 1999 pela Revan sob o título Mobilidade social no Brasil: padrões e tendências. Orientada por Nelson do Valle Silva, a tese preenchia uma lacuna nos estudos de estratificação social desenvolvidos até então no Brasil, em que havia verdadeira escassez de análises sobre mobilidade. Não por acaso, tornou-se leitura de referência em disciplinas sobre estratificação social oferecidas em cursos de graduação e pós-graduação espalhados pelo país. Uma das novidades trazidas pela tese de Celi foi a inclusão da dimensão de gênero nos estudos de mobilidade, que tradicionalmente se limitavam aos homens. Na tese, portanto, Celi já se mostrava atenta às relações entre múltiplas dimensões da desigualdade, como classe e gênero, sem subsumir a segunda à primeira.
Nesse sentido, o trabalho de Celi Scalon dialoga intensamente com a obra de Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva, seus orientadores de mestrado e doutorado, respectivamente, cujas contribuições foram fundamentais para os estudos sobre estratificação e desigualdades raciais no Brasil. As duas dissertações de mestrado apresentadas por Celi tratavam, inclusive, da dimensão racial das desigualdades no país, em relação à seletividade conjugal e às trajetórias ocupacionais. Sobre desigualdade de gênero, o livro organizado por Celi em parceria com a professora Clara Araújo, Gênero, família e trabalho (Editora da FGV, 2005), fruto de um survey nacional, reuniu informações que iam muito além daquelas normalmente coletadas em levantamentos oficiais, como a divisão do trabalho doméstico e as percepções sobre papéis de gênero.
Sem abandonar o legado dos sociólogos precursores do campo no país, a obra de Celi Scalon não procura oferecer uma grande narrativa totalizante sobre as desigualdades no Brasil, mas analisá-las metódica e sistematicamente, selecionando recortes específicos de uma realidade complexa, multidimensional e que não caberia em um modelo teórico rígido. Ouso afirmar, sem o consentimento prévio de Celi, por minha conta e risco, que sua obra encarna, de forma exemplar, algo como um programa weberiano de análise das desigualdades no Brasil. E que, dessa forma, Celi, assim como muitos outros sociólogos de sua geração, soube tirar enorme proveito das possibilidades abertas por um contexto que permitia e encorajava maior pluralismo teórico, combinado a rigor metodológico.
Ao mesmo tempo, a preocupação com o papel da Sociologia no enfrentamento das desigualdades sociais sempre esteve presente na obra de Celi Scalon. Coerente com seu momento histórico, em um contexto de redemocratização e de avanço das políticas sociais, sua contribuição passou sobretudo pela produção de conhecimento objetivo, válido e capaz de orientar a formulação e a avaliação de políticas públicas. Foi nessa direção que Celi publicou obras fundamentais para compreender os desafios envolvidos no enfrentamento das desigualdades no Brasil. O livro Imagens da desigualdade (Editora da UFMG, 2004), também fruto de um levantamento nacional cuja aplicação no Brasil foi coordenada por Celi, foi pioneiro ao analisar o modo como brasileiros percebiam, avaliavam e justificavam as desigualdades no país – dimensão certamente decisiva para a implementação bem-sucedida de políticas públicas. Outros trabalhos em que esteve envolvida, como o People Security Survey no Brasil, em colaboração com Lena Lavinas, sua inserção no CEBRAP e sua participação no relatório do IPEA conhecido como O Estado da Nação (2005), revelam a mesma preocupação: fazer da pesquisa sociológica não apenas uma forma de compreender a questão social brasileira, mas também um instrumento para enfrentá-la por meio de políticas públicas bem concebidas.
A própria fase de consolidação, profissionalização e especialização da Sociologia no Brasil abriu espaço para que pesquisadores talentosos pudessem contribuir para a formação e estruturação de campos específicos de atuação. O momento em que Celi se formava e se afirmava como pesquisadora era também o momento de criação e consolidação da área de estratificação social no Brasil, na qual seus orientadores de mestrado e doutorado figuravam como precursores, e colegas como Carlos Antonio Costa Ribeiro, José Alcides Figueiredo Santos e Danielle Cireno Fernandes, entre outros, como importantes interlocutores. Dado seu talento, competência, imaginação sociológica e perspicácia, Celi prestou contribuição inestimável para o desenvolvimento desse campo de estudos no âmbito da sociologia brasileira.
Para tanto, foi fundamental a interlocução com colegas e instituições estrangeiros e a participação em redes internacionais de pesquisa, cuja possibilidade era cada vez maior em um contexto democrático, de intensificação da internacionalização acadêmica e de consolidação do arcabouço institucional de financiamento a colaborações de pesquisa com o exterior. Celi frequentou cursos de metodologia quantitativa aplicada às Ciências Sociais no Inter-university Consortium for Political and Social Research (ICPSR), da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, com bolsa da Mellon Foundation. Posteriormente, realizou doutorado-sanduíche na Universidade de Warwick, na Inglaterra, com bolsa da CAPES, sob supervisão do professor Richard Lampard. Em 1998, voltou à Universidade de Michigan para novo curso de metodologia em Ann Arbor. Mais tarde, em 2002, o convite de John H. Goldthorpe para um período de pós-doutorado no Nuffield College, em Oxford, coroaria sua inserção internacional na área de mobilidade social.
Foi por meio dessas experiências, somadas ao conhecimento transmitido pela geração anterior à sua – que já havia recebido treinamento metodológico no exterior e retornado ao Brasil -, que Celi pôde aprofundar sua expertise em análise estatística de dados no âmbito das Ciências Sociais, incluindo a análise de dados categóricos, fundamental para a área de estratificação social. Celi faz parte de uma geração que, em busca de formação mais sólida em técnicas de pesquisa, precisou ir ao exterior. Ao retornar ao Brasil, ela e muitos outros sociólogos de sua geração tiveram – e ainda têm – papel fundamental na formação de novas gerações de pesquisadores.
Professores como Fernando Tavares Júnior, Lygia Costa e Felícia Picanço, entre muitos outros, hoje pesquisadores e pesquisadoras reconhecidos em seus campos de atuação, foram orientandos de Celi. E eu mesmo, como orientando de Celi no mestrado e no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, pude me beneficiar de seu conhecimento e capacidade intelectual em meus trabalhos. Como professora e orientadora, Celi sempre fez questão de nos ensinar algo que, em minha avaliação, torna muitos de seus trabalhos verdadeiros estudos exemplares: é preciso muito rigor no uso das técnicas de pesquisa, mas sem esquecer que o método é somente o meio para se chegar àquilo que realmente importa, uma resposta adequada a um problema de pesquisa verdadeiramente sociológico. Ou seja, é preciso ser capaz de beber das grandes teorias e, ao mesmo tempo, utilizar técnicas rigorosas de análise empírica. Um equilíbrio difícil, mas que a obra de Celi alcança com rara excelência.
Como orientando, pude perceber que a atuação profissional de Celi revelava também a valorização de um modo coletivo de fazer Sociologia, por meio de parcerias, redes de pesquisa e colaboração com instituições nacionais e internacionais. Acompanhar parte de sua trajetória, quando eu ainda era estudante em formação, permitiu-me enxergar como aquela Sociologia do grande intelectual, formulador de uma interpretação do país junto a seus seguidores, e que ainda compõe boa parte dos currículos de graduação em Ciências Sociais, havia dado lugar, sem desaparecer por completo, a uma geração de sociólogos e sociólogas para os quais o fazer sociológico se tornava cada vez mais entrelaçado e coletivo.
Celi fez e faz isso com muito êxito, o que se pode aferir por seu papel relevante nas aplicações do International Social Survey Programme (ISSP) no Brasil, por sua inserção no Research Committee 28 (RC28) da International Sociological Association (ISA) e por sua participação nas mais variadas redes de pesquisa. Destaco, por exemplo, sua presença na rede de pesquisas sobre os BRIC, que resultou na publicação do Handbook on Social Stratification in the BRIC Countries (World Scientific, 2013) em parceria com colegas da Índia, China e Rússia, além do Brasil. Vale lembrar ainda que, em 2004, Celi organizou no Rio de Janeiro o encontro internacional do RC28, Inequality and Stratification: Broadening the Comparative Scope, contribuindo não apenas para inserir a sociologia brasileira em redes transnacionais, mas também para trazer essas redes ao Brasil.
Foi no contexto da rede de pesquisadores dos BRIC, inclusive, que pude acompanhar ainda mais de perto o modo de trabalhar de Celi. Na época, eu iniciava, sob sua orientação, uma tese sobre a então chamada nova classe média brasileira. Celi, generosamente, convidou-me para escrever com ela um capítulo sobre o tema, que viria a ser publicado no livro resultante da pesquisa. Confesso que fiquei surpreso com a confiança depositada em alguém que, naquele momento, era ainda um doutorando recém-ingresso. Celi conduziu a parceria com maestria, dosando, na medida exata, a liberdade que me concedia e suas intervenções sempre imprescindíveis. Foi um verdadeiro aprendizado, que depois se aprofundaria durante a escrita da minha tese de doutorado. Assim como fez – e segue fazendo – com tantos outros orientandos, Celi me abriu portas e ofereceu oportunidades únicas. Havia, nisso, uma continuidade entre sua obra e sua prática como orientadora: quem estudava as desigualdades de oportunidades sabia também abrir caminhos concretos para seus estudantes. Com ela, aprendi que, mesmo em um campo tão competitivo como a academia, há lugar para afeto, confiança e amizade.
Mais recentemente, Celi alcançou novo marco institucional ao se tornar a primeira mulher na área de Sociologia a ser contemplada no edital do INCT-CNPq. Junto com o professor André Botelho, Celi hoje coordena o INCT Instituto Igualdade: Instituto Nacional de Aprendizado Social e Promoção da Igualdade. O instituto se organiza em torno de três eixos relacionais: as ações e estruturas organizacionais públicas; a experiência e os repertórios históricos, sociais e culturais de grupos e atores sociais no enfrentamento das desigualdades; e o monitoramento de indicadores de desigualdade e de políticas públicas voltadas à promoção da equidade. Assim, o projeto reúne, de forma exemplar, a capacidade de articulação e trabalho colaborativo de Celi, sua preocupação com o rigor metodológico e sua disposição permanente de fazer da análise sociológica um instrumento para compreender e enfrentar as desigualdades.
É relevante mencionar que a geração de que faz parte não apenas se beneficiou da expansão da Sociologia brasileira; também trabalhou para dar-lhe forma, densidade e continuidade. Celi foi coordenadora do PPGSA da UFRJ, presidente da SBS, coordenadora da área de Sociologia da CAPES e membro do Comitê Assessor da área de Sociologia do CNPq, posições a partir das quais contribuiu para a própria organização do campo que ajudou a consolidar. Há, portanto, uma dimensão institucional que não pode ser separada de sua trajetória intelectual.
Talvez por isso seja especialmente fecundo retornar, ao final, à ideia de geração. Se, por um lado, cada geração recebe uma estrutura de oportunidades que não escolheu, por outro, possui alguma margem para agir sobre ela. A geração de Celi recebeu uma Sociologia que saía da resistência e entrava em fase de expansão, um sistema de pós-graduação em consolidação e novas condições de circulação internacional; ela ajudou a converter essas condições em pesquisas, instituições, redes, novos pesquisadores e novas perguntas. É nesse sentido que a trajetória de Celi Scalon merece ser celebrada. Sua obra mostra que a boa Sociologia se faz quando a imaginação teórica encontra rigor metodológico, quando certezas dão lugar a dúvidas, quando a vaidade intelectual cede espaço à generosidade e à colaboração, e quando uma trajetória individual, sem deixar de ser singular, amplia o horizonte dos que vêm depois. Para uma socióloga que dedica sua trajetória ao estudo das desigualdades de oportunidades, talvez não haja homenagem mais justa do que reconhecer também sua capacidade de criar oportunidades para futuras gerações.
