BVPS Celebra | A Sociologia chega aos 60: Celi Scalon e Frédéric Vandenberghe

A Sociologia chega aos 60!

A BVPS parabeniza Celi Scalon e Frédéric Vandenberghe, ambos do IFCS/UFRJ, pelos aniversários recentes. Aproveitamos a ocasião para fazer da homenagem reflexão. Celebramos as trajetórias individuais desses dois sociólogos destacados na nossa comunidade nacional, claro. Mas, à semelhança de outras ações que realizamos, como a série e o livro Modos de narrar a Sociologia brasileira, propomos pensar, sociologicamente, sobre as realizações, impasses e desafios da Sociologia a partir das trajetórias pessoais. Aqui abordadas a partir da categoria de “geração”, variável analítica que, infelizmente, praticamente desapareceu do trabalho recente, e que já se mostrava decisiva na Modos de narrar a sociologia.

Assim, temos a alegria de publicar textos de André Salata (PUC-RS) e Lucas Soneghel (UFPE), homenageando seus antigos orientadores, Celi e Fred, duas trajetórias que, cada uma a seu modo, mostram que a melhor Sociologia se faz com rigor, compromisso e generosidade. Parabéns à Celi e ao Fred, a quem agradecemos a trajetória de contribuição à nossa disciplina, que importa tanto ser pensada e repensada.

Boa leitura!


Por uma teoria social reconstrutiva e dialógica: uma homenagem aos 60 anos de Frédéric Vandenberghe

Lucas Soneghet (UFPE)

Frédéric Vandenberghe completa 60 anos com uma obra sociológica que não cabe em tão pouco tempo. Afirmamos isso sem qualquer ironia. Seus escritos o precedem e, quando tomados em conjunto, nos apresentam um pensamento grande em profundidade e extensão. Como é verdade para todo escritor (sociólogo ou não), as palavras no papel não são retrato fiel das mãos que as escreveram. São uma aproximação, no máximo. Com Frédéric, contudo, são uma aproximação melhor do que a maioria. É claro que conhecer seus livros e artigos não é o mesmo que conhecê-lo, mas estes nos dão uma janela para o Fred professor, orientador e amigo.

Frédéric é um sociólogo de vocação. É um bom professor, sem dúvida. Um exímio escritor também. Mas antes de tudo, um teórico social. Há quem diga que ele é mais filósofo, mas isso é só para quem entende a sociologia em termos muito restritos. Frédéric vê a sociologia como continuadora da filosofia moral (incluindo a filosofia prática, filosofia política e filosofia da história), com um projeto humanista crítico e normativo que visa a reconstrução da sociedade, da cultura e do eu. Nesse grande projeto, contribui principalmente pela teoria, sua paixão e ofício. Essa teoria não é, porém, sinônimo dos modelos explicativos de médio alcance. Em seus verbetes e críticas, Fred se mostra um exímio metateórico.

A metateoria, para citar o próprio, procede geralmente pelos comentários dos clássicos e pela crítica dos contemporâneos, visando o mapeamento das pressuposições e proposições gerais da teoria social e sociológica[1]. Se não parar aí, serve como plataforma para a construção de uma teoria mais abrangente, que incorpora e supera as demais. Frédéric usa a metateoria para os dois propósitos, acumulando uma vasta e diversa literatura de sistematização, reconstrução e síntese: a filosofia do amor de Scheler (2008); história filosófica da sociologia alemã (2009); a família da sociologia francesa pós-bourdiesiana (2006); a sociologia relacional (Dépelteau e Vandenberghe, 2021); o realismo crítico (2014); o pós-humanismo (2025). No afã de quem leu tudo (ou quase tudo), Frédéric é um excelente sistematizador e expositor da teoria. Porém, não para por aí. Afirma suas coordenadas pressuposicionais e marcha rumo à sua teoria social.

Começa então pela afirmação categórica de que a sociologia é normativamente interessada e politicamente engajada. Não há simpatia pela neutralidade axiológica. Frédéric faz remontar esse engajamento (o projeto normativo da sociologia) às suas raízes como “superdisciplina”, como visava Comte. Não somente uma disciplina dentre outras, mas uma ciência social geral que conduziria a produção de conhecimento acerca da sociedade. Entre Weber, Marx e Durkheim, rejeita as pressuposições normativas de Weber e as metodológicas de Durkheim, apropriando-se da crítica imanente e do projeto emancipatório de Marx. Tempera-o, contudo, com uma visão mais generosa e otimista dos atores sociais, sem dúvida uma marca de Habermas e Mauss em seu pensamento. Do primeiro – bem como da filosofia das formas simbólicas de Cassirer e da fenomenologia de Husserl a Dilthey – recupera a importância da dimensão simbólicometa-comunicativa da vida social. A cultura é o pano de fundo, a mediação simbólica, o transcendental empírico que conecta indivíduos entre si e à sociedade. É também o que nos salvaguarda das representações do ator social como agente cínico, calculista, competitivo e interessado, vistas tanto na teoria da escolha racional quanto na sociologia crítica de Bourdieu. Assim, a sociologia é uma hermenêutica. Mas não só da linguagem e dos textos no horizonte da interação intersubjetiva. Frédéric não abandona a filosofia da história, mas a reabilita por meios especulativos e empíricos, com forte influência de Mannheim. É pela recomposição das visões de mundo na história, pelo mapeamento da pluralidade de posições e pela compreensão e explicitação de cada uma, que a sociologia apreende ao mesmo tempo o espírito do tempo e os espíritos dos seres humanos, entrelaçados na história. Essa história simbolicamente densa é complementada por Mauss, onde Frédéric encontra uma alternativa aos acentos agônicos e antagônicos da tradição marxista, inspirado na sociologia geral da dádiva. A sociedade não é só a luta de posições ou a trama das dominações. É também um mundo significativo, no qual a ação humana é, antes de qualquer coisa, um modo comunicativo e simbólico de estar no mundo com os outros.

A variedade de inspirações, que pode ser observada nas décadas de exímio trabalho teórico, está organizada com excelência nos volumes I e II da Teoria Social Reconstrutiva, mais recente obra coletânea de Frédéric (2024, 2026). Contudo, uma lista extensa de nomes de pessoas e correntes teóricas não é o melhor jeito de prestar uma homenagem a Fred como pessoa e intelectual. Em vez de pensar em como cada corrente contribui para seu pensamento, como muitos rios fluindo para o mesmo mar, penso ser mais justo entender como o exercício da sociologia se expressa pelo prisma da atuação de Frédéric.

O diálogo e a generosidade são as tônicas dessa atuação. Não é à toa que ele se chama vez ou outra de “habermaussiano”. Um pensador crítico, sem dúvida, mas sempre atento aos exageros da crítica e da desconstrução. Criticar é necessário, mas não é o fim do caminho. É preciso reconstruir, explicitar, se fazer entender. Fred imagina, em seu projeto e modo de fazer sociologia, um mundo em que a força do melhor argumento, moralmente justificado e amorosamente guiado, ainda pode se fazer valer, mesmo diante da força da violência, da agressividade, do desamparo e da fragmentação. O diálogo, a comunicação e, mais ainda, a interpretação são centrais não só em sua teoria, mas no seu modo de pensar. À moda verdadeiramente sintética e dialética, Fred procura entender e incorporar abordagens diferentes, das mais antigas às mais novas. Conta-se nos dedos de uma mão os poucos “adversários” com os quais não se engaja diretamente. Salvo engano, só os positivistas e os adeptos da teoria da escolha racional recebem o tratamento de silêncio. Frédéric está sempre pronto a aprender e assim se renova enquanto pensador. Contudo, não perde o fio da meada. A coletânea de seus volumes (Vandenberghe, 2024, 2026) é testamento disso: uma variedade enorme de textos, escritos em mais de 3 décadas, mas costurados pelo fio do projeto de uma sociologia crítica, compreensiva e emancipatória. Nas orientações e trocas intelectuais, sua generosidade se expressa.

O Sociofilo, grupo de pesquisa que criou em 2007, não foi apenas um laboratório de teoria social. Foi e continua sendo um espaço de formação, circulação e imaginação sociológica. Ali, a teoria nunca apareceu como um enclave distante da vida, mas como um ponto de encontro entre tradições, problemas, temas e pessoas. Frédéric fez do Sociofilo uma referência nacional e um nó de redes internacionais, reunindo pesquisadores, cursos, coleções, debates e interlocutores. Mas talvez seu gesto mais importante tenha sido outro: mostrar que é possível fazer teoria em alta densidade, imaginando com ousadia e coragem, desde a formação. Apesar da vultuosa experiência e obra, Fred não bloqueia o caminho da teoria. Pelo contrário, encoraja jovens pesquisadores e pesquisadoras a dialogar, ler e criar. Por que não juntar o realismo crítico e a teoria pós-colonial? Por que não pensar a morte pelo prisma da história das figurações sociais, da vida cotidiana e do corpo ao mesmo tempo? O grupo não se une por uma temática, nem mesmo corresponde a uma subárea da sociologia, como de praxe. É um grupo de afinidades teóricas, pessoais e existenciais. É um espaço para ser bem lido e bem interpretado a partir de uma variedade de posições. Da morte e espiritualidade até o vício e a violência política, passando pelas artes, as tecnologias e a imaginação, tudo se encontra nas reuniões de grupo, instâncias em que se faz ver a generosidade intelectual de Frédéric, sempre disposto a ler, comentar, orientar. Enquanto orientador, ensina a trabalhar com “todos os registros abertos”. Ele pode não ser a pessoa recomendada para cortar parágrafos ou recortar objetos, mas é aquele que vai abrir caminhos, oferecer referências e dar novas ideias. No diálogo de orientação, o que começa tímido e pouco coeso se reformula em ideias ricas e robustas, sustentadas em colocações cirúrgicas acerca de pressupostos que os/as orientandos/as carregavam e não sabiam. Assim, o intérprete da teoria se mostra um intérprete generoso do pensamento do outro, além de um exímio interlocutor. 

Aos 60 anos, Frédéric Vandenberghe chega com uma obra vasta, original e internacionalmente reconhecida, mas também com algo que não se mede em currículos ou livros. Sua prática enquanto sociólogo e sua obra expressam o verdadeiro sentido da reconstrução. Não somente uma reunião de referências e uma conexão superficial entre conceitos. Não só um nome para uma teoria social abrangente e eclética. Reconstruir é, na trajetória de Frédéric, o ato amoroso de conhecer e o ato conhecedor de amar, para parafrasear sua leitura de Max Scheler. É agir pelo reconhecimento do outro, em vez do conhecimento, procurar a ressonância com o mundo, e não sua dominação ou destruição. É procurar as pontes, conexões, comunalidades. A sociologia de Frédéric, que não é um projeto acabado, chega no seu aniversário de 60 anos como uma promessa e uma esperança. A promessa de um conhecimento engajado e sensível que explicita as melhores faculdades e virtudes do ser humano. A esperança de um mundo reconstruído no encontro e no diálogo, em que o “novo mundo” e o “novo eu” sempre caminham de mãos dadas.


Nota

[1] Disponível em: https://blogdolabemus.com/2019/11/11/metateoria-teoria-social-teoria-sociologica-prefacio-a-traducao-brasileira-por-frederic-vandenberghe/