Pasolini com a gente | 120 dias em uma Sodoma-Favela: uma autobiografia sem autopiedade, por JORDAN

Na terceira semana de posts da série Pasolini com a gente, trazemos publicações de Renato Negrão e JORDAN, que, através de relatos autobiográficos, retratam como a dimensão individual se relaciona de maneira visceral ao repertório legado por Pier Paolo Pasolini.

Negrão, como que um convite à descrença, nos traz um texto que não distingue com clareza o que viveu do que inventou. Seja em uma livraria, um teatro, um aterro ou mesma em cama alheia, o autor coleciona capítulos de um roteiro em que parece não reconhecer como seu, mas que Pasolini, como uma sombra, reaparece em cada um deles. O poeta JORDAN, por sua vez, também em relato pessoal, atravessa elementos como infância, violência, sexualidade e fé sem pedir licença. Convocando Freud como interlocutor, nos traz uma prosa nua e crua que não separa o corpo das memórias.

Não perca, na próxima semana quinta-feira, a última publicação da série. Confira os posts anteriores clicando aqui.

Boa leitura!


120 dias em uma Sodoma-Favela: uma autobiografia sem autopiedade

JORDAN

Não lembro exatamente quando foi a primeira vez que Junior me enrabou. Mas eu ainda não tinha perdido os dentes de leite. Antes de me enxerir no cu, ele gostou de me ver tocar o pinto de um outro primo. Esse sim, da mesma idade que eu. Escale a cabecinha do pinto dele, escale a cabecinha do seu pinto, ele dizia. Olha o meu como é bem maior. O de vocês ainda vai ficar assim. Quer lamber? Não, disse meu primo antes de ir embora.  

A casa logo acima da minha era ocupada pela família da minha tia. Tia Iza. Mãe de Júnior e irmã do meu pai. O meu primeiro incisivo central, foi ela quem arrancou. Eu não chorei. Dali em diante, ela revezaria com outra tia, a extração de praticamente todos os meus dentes de leite. Tia Iza criou e administrou, durante muitos anos, uma casa de recuperação de dependentes químicos. Na zona rural da nossa cidade. Certo dia, eu e meus pais fomos visitar o centro. Mas não encontramos ela no prédio. No lugar dela, uma das filhas dela chamada Girlene estava na casa e disse que ela tinha ido “orar’” com um dos internos. Disse “orar” e deu um sorrizinho. 

O som do tamanco da minha tia, no teto da minha casa, era prenúncio de que em alguns minutos eu já poderia subir e encontrar Júnior. Sozinho. Em casa. Eu subia. Encontrava ele assistindo à sessão da tarde e não perdíamos muito tempo até ele mostrar o quanto o dele era bem maior e me orientar. Como um professor. Um tutor generoso. Talvez uma das pessoas mais carinhosas naquele cenário. Meu pai era presente, mas silencioso. Mas não tínhamos muita proximidade nessa época. Ao passo que minha mãe era violenta. Absolutamente todos os dias me agredia. Com cintos, sandálias, tamancos, fivelas. De modo que ir encontrar Júnior logo após minha tia ir “orar”; em alguma falsa medida, significava uma pastilha de alívio. 

A rotina dos meus seis ou sete anos de idade era apanhar da minha mãe. Me deparar com o silêncio do meu pai e subir para o colo de Junior. Contudo, num determinado dia, subi e encontrei Junior comendo a irmã dele, Girlene. Girlene, que era mais nova que Junior e mais velha que eu, tinha entre 14 a 15 anos, morava no centro de recuperação de dependentes, que ficava na zona rural. Mas naquele dia e dali pra frente voltaria a morar na nossa viela. Em outra data, Girlene me pediu pra colocar dentro dela. E eu fui. E coloquei. Mas não era tão bom. E ela percebeu que eu não gostava dela, mas gostava de fazer com Junior. E passou a rivalizar. 

Os momentos em que minha tia saía e eu subia para encontrar Junior se tornaram momentos dele com a irmã. Girlene não me queria mais lá no horário da tarde e Junior passou a se tornar silencioso, assim como meu pai. Quando Girlene percebeu que minha mãe só precisava de um motivo pra me bater, passou a confrontar os limites da sua própria criatividade. Tudo o que o sádico precisa é da fábula. E a união estava formada. Uma sherazade como Girlene, nunca mais encontrei. Após os episódios de violência e humilhação, não havia mais o colo de Junior com a mesma frequência. 

Num domingo de 1997 a família inteira comemorava com samba, suor e cerveja. Tocava Só Pra Contrariar, uma banda de pagode que fez muito sucesso no Brasil na época. O cantor Alexandre Pires, um homem negro de Uberlândia, Minas Gerais, era frequentemente comparado a Junior. Eles tinham o enquadramento do rosto parecido, a tonalidade da pele também, e as pessoas da vizinhança especulavam que poderiam ser da mesma altura. Ao lado de uma caixa de som gigante, um refrigerador com muitas latas de cerveja antarctica decoravam o quintal compartilhado e o sol da Bahia estressava toda apatia ao redor. As janelas da nossa viela estavam em festa. Isso porque Junior, que era meio de campo, havia sido contratado pra jogar no sub-20 de time de futebol em São Paulo. Ele viajaria em algumas semanas e parecia que aquilo poderia mudar tudo na vida de todo mundo que ali morava.

Depois que ele viajou, Girlene interrompeu a parceria com minha mãe. Mas a sádica tinha uma produção autônoma e inventava os seus próprios motivos. Era uma tarde calma, estava passando a novela A Gata Comeu, na reprise da TV Globo, quando eu comecei a apanhar por algum motivo. Após a surra, subi pra casa da minha tia, tendo esquecido que Junior não estava, e me deparei com Girlene que, feito uma bacante, caçoava de mim, “agora você está sem macho pra te proteger, putinha de Junior” disse ela, girando uma mangueira de água nas mãos e trepada com três outros primos de 7, 8 e 9 anos. 

No processo de extração caseira, arrancar meu segundo incisivo central doeu mais do que o primeiro. Minha tia estava com pressa nesse dia. E o dente partiu em dois, foram duas extrações no lugar de uma. Depois de extrair subi num pé de jambo que ficava no nosso quintal compartilhado e senti uma falta imensa de Junior. Eu não fazia ideia do que era São Paulo. Muito menos do quão longe ele estava. Havia boatos de que ele nunca voltaria. Talvez não voltasse nunca mesmo. Talvez, um dia, quando eu fosse mais velho, eu também iria morar em São Paulo e o encontraria. Até porque ouvi minha mãe dizer que iríamos mudar logo em breve. 

Viver numa casa construída num quintal de um quintal de um quintal é convocar dilemas universais. Ao passo que minha mãe passou a caminhar pra ser cristã, minhas tias se interessavam pelas igrejas pentecostais e o quintal onde todas as nossas casas foram construídas, décadas antes, era um terreiro de candomblé de nação ketu. E essa última informação ficou intolerável pra minha mãe. Mudamos, fomos para uma outra casa, num bairro próximo e a vida começou a tomar outros ares. As surras diminuíram. Minha mãe começou a deixar os cabelos crescer. Passou a usar muitos vestidos. E a ler a bíblia todos os dias. 

De repente, eu não precisava mais de Junior. Uma fábula atrás da outra e a bíblia foi ganhando a minha admiração. Consegui começar a acreditar e admirar todos aqueles espaços épicos. Reis. Juízes. Profetas. Apóstolos. Parábolas. Provérbios. Salmos. As aliterações pra vida real. As profecias para o futuro. E enfim, fui apresentado às lideranças da religião. E escolhido. De repente, não mais que de repente, de saco de pancadas passei a ser um menino prodígio. Passei a cumprir funções pequenas dentro daquela religião mas que me davam muito destaque. Outras crianças passaram a me ver como alguém talentoso e especial diante de “deus”. Não precisei ler duas vezes, pra entender que eu e minha família fugimos de “Sodoma e Gomorra”, tal como Ló e sua família. 

Nesse ínterim entendi, lendo a bíblia, que eu era homem e que não deveria me deitar com outro homem. Pois dessa forma eu não herdaria o reino de deus. Ou pior ainda, eu deixaria de ser o menino prodígio da quebrada. Ou pior ainda, voltaria a ser espancado pela minha mãe como antes. E nessa altura, eu não me suportava contraditório ou excuso. Além disso fui entendendo sobre deus e gostando dele. Chamando-o pelo nome e com muita intimidade. Eu chamava deus de Jeová. Que começa com J. Como Junior. Esse Jota que parece não ter recuo. Uma consoante que fricativa, que sempre me pareceu ter mais ação que muitos verbos e que parece sempre expurgar.  

Na ausência de Junior, Jeová tomou-me no colo. Era a ele que eu recorria após as violências, que mesmo que tivessem diminuído drasticamente não se encerraram. Mas passaram a ser realizadas “em nome” dele. Depois que minha mãe começou a comprar vestidos, eu fiquei alucinado por eles. Em especial, um vestido vermelho. Que batia nos joelhos e combinava com o batom com que ela se decorava quando parava diante de um espelho imenso, que ela tinha colocado na nossa nova sala. Todos os dias, quando ela saía para ir pra academia, eu vestia aquele vestido, passava batom e ficava na janela da casa. Ser visto de vestido pela vizinhança com aquele vestido me enchia de vida. Mas a favela é como a viela. Consegue convocar dilemas universais. De modo que os vizinhos falavam pra minha mãe, que se autorizava a resolver aquilo com cinto, sandália, tamanco, fivelas. 

Antes de me bater ela lia o versículo 16 do segundo capítulo da primeira carta de Pedro. Que em partes diz “comportai-vos como homens”. Ela lia. Ela me batia. E eu. No dia seguinte fazia tudo de novo. E apanhava tudo de novo. Levei tempo pra entender que vestir vestidos e passar batom ameaçaria a minha reputação de menino prodígio da Lama Preta (bairro onde cresci). Como último ato, recebi um pastor em casa, de vestido. Ele ficou assustado e depois de contar pra minha mãe me fez uma espécie de maratona espiritual, traumática o suficiente, pra não voltar a usar vestido e batom. Depois desse episódio, a religião passou a virar a coisa mais séria da minha vida. Mais que a escola ou qualquer coisa. 

Virei uma espécie de semifanático. Ou fanático mirim. Pra tudo eu lembrava de um versículo bíblico. Me sentia mais próximo de deus do que muita gente. Criticava mentalmente outras pessoas que não levavam a vida com “fé”. E que tomavam decisões sem levar em consideração a palavra de Deus. Tinha certeza de que haveria um armagedom, um apocalipse. E aos 9 ou 10 anos, tinha certeza de que deus iria reverter minha sexualidade. Pois eu pedia isso pra ele todos os dias, com muita força. Tudo isso, sem sequer ter, de fato, entrado na puberdade. 

Na favela, raramente os banheiros terão portas. Na melhor das hipóteses haverá uma porta sanfonada ou uma lona. Na casa da minha avó, era uma lona. No verão, depois do último dia de aula do ano letivo, fui visitar minha avó. Catei jambos no quintal. Falei com alguns primos, com quem não falava há algum tempo e quando entrei no banheiro da casa da minha avó, encontrei Junior cagando. Eu não sabia que ele tinha voltado. Ninguém lá em casa tinha comentado. Parei uns instantes, entre a sensação de rever ele, o quanto eu tinha mudado, o quanto ele estava diferente, mais forte, mais musculoso, com barba e esse foi o tempo necessário pra ele ficar de pau duro. 

Eu já havia trocado todos os incisivos centrais e alguns dos laterais. Não era mais minha tia Iza quem arrancava. Mas meu pai tinha sido aprovado no concurso dos correios, e eu comecei a frequentar o dentista e ter os dentes extraídos de forma mais digna. Mas eu ainda não tinha pelos, ejaculação. E ele já passava dos vinte e tinha uma namorada grávida quando começou a se masturbar e me chamar pra ficar mais próximo dele, que estava sentado no vaso sanitário cagando. 

Lembrei dos versículos bíblicos, lembrei do episódio traumático e de tudo o que eu perderia. Se eu fosse. Eu deixaria de ser o menino prodígio da Lama Preta. Ainda que ninguém nunca ficasse sabendo, Jeová saberia. Jeová está em todos os lugares. Ele é onipresente. E ele tem mudado minha vida. Hoje em dia, tenho dentista, graças a ele. Minha mãe me bate menos. Temos um espelho gigante na sala. E se tudo der certo, teremos antena parabólica até o final do ano. E saí do banheiro. Resoluto de estar fazendo o certo e de que Jeová estaria super orgulhoso comigo. E que por conta disso, iria reverter minha sexualidade. Mas ele veio atrás de mim. Me pegou pelo braço. Me agarrou pela perna. E disse que se eu não fizesse, ele contaria pra meu pai e minha mãe que eu que fui em cima dele e que coagi ele. Eu sabia que minha mãe acreditaria. E se um vestido me levou a tantos episódios de violência, um ato deliberadamente sexual poderia me levar à morte. Eu tive certeza. 

Eu não cedi. Eu fui segurado pelos braços. Empurrado na parede. Talvez nunca tivesse sido carinho. Pensei, enquanto ele cuspia no meu cu e segurava meu punho com força. Mas acho que ainda tenho algum poder nisto aqui. Tenho mais do que Girlene. Enquanto ele me enfiava um dedo. Onde será que está Girlene, agora? Entrou a cabecinha. Será que ela voltou pro centro? E está “orando” como minha tia orava com os internos? Entrou tudinho. Ele me enrabava e masturbava meu pequeno pinto. Até que não é tão ruim. Só preciso relaxar. Mas não tem como relaxar. Eu não consigo. E se eu sair correndo? Agora! Um. Dois. Três. Corri. Espero que ele não grite. Porque se ele gritar. Vão querer saber o que houve. E ele vai contar que eu que coagi ele. Que eu que queria ele. E se um vestido me levou a tantas surras. Imagine um ato deliberadamente sexual. Corri e enquanto corria pensei que eu não deveria ir direto pra casa, pra não levantar suspeitas com meu estado de espírito e cheguei na casa de Dona Graça. Que tinha uma espécie de lan house na varanda, e era frequentada por toda quebrada. Principalmente por crianças e adolescentes pra jogar video game.

O filho de Dona Graça, me viu chegando ofegante e perguntou “tava correndo do capeta?”. Entreguei pra ele algum valor em moedas e ele liberou meia hora num nintendo 64. Sentei pra jogar Super Mario Cart e um vizinho da minha avó, chamado Melo, perguntou se poderia pegar um controle e jogar comigo. Eu disse que sim. Melo era craque. Tinha algo entre 16 ou 18 anos. E conseguiu zerar as duas primeiras fases em dez minutos, pegar um yoshi pra ele e pra mim, que fiquei como Luigi. Em algum momento ele começou a orientar os comandos no controle dele e no meu controle também. Aperta esse e esse botão ao mesmo tempo. Usa esse comando aqui em cima. Joga pra lá. Joga pra cá. E a interação nos dois controles era tão grande que o braço dele cansou e ele precisou repousar sobre a minha virilha. Pediu pro filho de Dona Graça colocar mais meia hora na nossa máquina e logo depois colou a mão dentro do meu short. E a minha mão sobre o short dele. 

Eu não sabia se eu continuava ali, pra não gerar suspeitas. Ou se eu levantava e inventava uma história e gerava mais suspeitas e sairia mais ofegante e saia correndo do “capeta” outra vez e gerava mais suspeita. E outra vez, eu sentia que iria perder tudo se continuasse ali. Perder de ser o menino prodígio, perder de apanhar menos, perder as consultas no dentista. 

Cheguei em casa. Entreguei o boletim. Todos ficaram felizes. As notas em matemática nunca foram o meu forte. Mas meu pai gostou de ver que eu me saí bem em História e Língua Portuguesa. Os anos se passaram. Cheguei à puberdade. A primeira polução noturna. A primeira punheta. O primeiro vídeo pornô. E a paixão por homens mais velhos. Qualquer homem de mais de trinta anos me levava à loucura. Mas eu jamais admitiria ferir o pacto que eu havia combinado com Deus, por conta de um homem. E silenciosamente, eu acreditava que um dia, Deus iria entrar dentro de mim e inverter a configuração. Um dia eu iria acordar me interessando por mulheres. Um dia eu poderia até comer Girlene. 

Depois de muitos anos dividindo o quarto com minha irmã. Meu pai entendeu que eu deveria ter meu próprio quarto e chamou vários primos e tios pra bater uma laje e comer uma feijoada. Os tios chegaram. Começaram a obra. Entre uma cerveja e um balde de concreto, muitas conversas. Junior virou assunto. Depois que ele voltou de São Paulo, não conseguiu fazer mais nada como jogador de futebol. Todos que tinham acreditado no potencial dele, passaram a ridicularizá-lo. Junior é um perna-de-pau. Alguém disse e, em pouco tempo, aquela opinião se tornou unanimidade. Mudaram de assunto quando ele chegou um tempinho depois. 

Em algum vago instante, entre toda aquela movimentação, ele conseguiu encontrar uma suspensão pra me fazer chupá-lo. Nesse episódio, eu já tinha por volta de 13 anos. E entendia que ainda havia o risco de não acreditarem em mim. Mas ele estava com o pau pra fora, quando meu pai entrou no quarto. E guardou rapidamente. Meu pai desconfiou e veio me perguntar. Ele te fez alguma coisa? Pode falar. Eu vou acreditar em você. Eu pensei e disse que não. Eu não tive coragem. Meu pai voltou desconfiado pra obra. E quando ela acabou, todos se sentaram no quintal.

Na minha casa, tinha seis cadeiras. E naquele dia havia umas dez ou doze pessoas na minha casa. Talvez quinze, entre chegadas e partidas. Eu sentava num bloco. Os primos da mesma idade também. Algumas mulheres comiam em pé. Minha avó estava numa espécie de poltrona. E em algum momento, alguém perguntou. E o futebol, Junior? Não rolou mais nenhum convite? Todos fizeram silêncio. Ele ficou brevemente alvoroçado. E respondeu que tem um zumzumzum de que talvez role um convite. Que Bobô viu ele jogar e disse que ele é o melhor meio de campo que ele já tinha visto. Que ele fez três armações no jogo de ontem no campinho. E depois dele ter dito tudo isso: um silêncio constrangedor. Depois do almoço, todos foram embora. Menos Junior. Ele ficou ajudando meu pai a catar o lixo, varrer a poeira do cimento, limpar as ferramentas e meu pai seguia muito desconfiado e mais introspectivo do que o normal. 

Minha mãe chamou meu pai pra fazer algo. E meu pai foi. Eu fui atrás. Mas nos perdemos e foi mais uma oportunidade que Junior teve de vir em cima de mim. Com o pau duro e empurrando minha cabeça pra baixo pra chupá-lo rápida e imediatamente. Cheguei a sentir o cheiro daquela pica fedida, imensa, nojenta e com uma pele mais fina do que todas as que eu veria muitos anos depois. Mas inventei um intervalo pra tentar desarmá-lo. Todos estavam falando que você é um perna de pau. Que não sabe jogar futebol. Que nunca vai conseguir entrar em time nenhum. Porque você joga mal. E só você acredita que joga bem. Todo mundo estava falando isso. Antes de você chegar. 

Ele brochou. O pau dele foi ficando murcho e admiravelmente mole. E os olhos dele também. Adicionei mais algumas informações. Dessa vez citando nomes. Tio Ramom disse que não adianta, você não tem mais idade pra entrar no sub-20. Tio Harlei disse que te viu jogar no campinho e que você não segurava a bola nem por um metro. Tia Iza, sua mãe, se acabou de rir. Eu senti que ele perdeu o chão. E eu senti que eu amei ter tirado ele do lugar naquele nível. Terminei dizendo que tinha nojo dele. E ele foi embora. Quando meu pai voltou, ele perguntou. Cadê Junior? Foi embora. Eu disse pra ele que todo mundo tava dizendo que ele era um perna de pau. De alguma forma, meu pai entendeu tudo. Não falamos mais nada a respeito. 

Ele nunca mais foi na minha casa. Quando eu ia na casa da minha avó, ele passava direto por mim. Depois do primeiro filho, ele teve mais outros três. Começou a trabalhar com construção civil. E tudo o que eu sabia dele era através da minha tia. Quando ela ia na minha casa. Na adolescência, passei a me dedicar cada vez mais à religião e à ideia de que Deus iria transformar a minha sexualidade. E todas as vezes que eu via esse “sonho” ser frustrado, encarregava a culpa da minha sexualidade a Junior. 

Passei uns cinco anos sem vê-lo. Até que a nossa vó morreu. No velório, ele estava lá. Com os quatro filhos dele. Fiquei olhando a cara dos filhos e senti uma espécie de pena. Será que ele também violentava os filhos? Girlene sumiu. Nunca mais a vi. Na saída do caixão, com o corpo da minha avó dentro, ele segurou uma alça e eu outra. Nesse instante, nos olhamos fundo um nos olhos do outro. E ele conseguiu dar uma risadinha. Uma risadinha similar à da irmã dele, quando disse que minha tia tinha ido “orar” com os internos da clínica de reabilitação. 

Passei a adolescência inteira perseguindo a ideia de uma reversão da minha sexualidade. Com vinte anos, resolvi que estava na hora de inverter aquela ideia e bancar minha sexualidade e afetividade. Saí da religião. Perdi a fé em Jeová. Comecei a confrontá-lo. Entendi, que independente de Junior, minha sexualidade sim, era uma benção. 

Casei com o meu primeiro namorado. Amei um outro homem e me senti amado por outro homem. Terminei a faculdade. Mudei de estado. Um belo dia, eu estava cochilando no peito de um homem com o qual o amor parecia um estádio de futebol. Recebi uma ligação. Minha mãe dizia: seu primo Junior faleceu. Foi mesmo? O que houve? Ele foi soterrado. Empurraram ele dentro de um poço e jogaram terra. Passou uns dias desaparecido e encontraram hoje. 

Nunca me permiti ser tão ruim quanto pude ser nesse momento. Consegui sentir nenhuma compaixão. Nenhuma humanidade. Nenhuma nuvem. Ligue pra sua tia para desejar pêsames, ela está arrasada. Tá certo. Vou ligar. Mas nunca liguei. E todas as vezes que eu encontrei ela depois disso, não tive iniciativa de dizer sinto muito. Ela diz e chora ao dizer que não entende porque mataram ele com tanta crueldade. Que se fosse um tiro. Uma bala perdida. Ela sofreria menos. Mas o jeito que ele morreu tira o sono dela. Tira a respiração dela. Que ela se sente no lugar dele. E ouvindo tudo isso, ficar em silêncio é a minha melhor posição enquanto imagino ele tão petrificado quanto a mulher de Ló. 

Não sei quem assassinou Junior. Mas quando assisti ao filme Salò ou 120 dias de Sodoma nada me parecia assustador, profano demais ou desumano. Havia uma espécie de sentimento de convivência com o que pra alguns pode soar como absurdo. Sentia grande excitação, cada vez que personagens como a Signora Vaccari entravam em cena, descendo as escadas, esplêndidas, irretocáveis e, ao lado de um piano de armário, contavam macabriedades que dissolviam as que vivi antes de perder todos os dentes de leite.

Sodoma é pra sempre. Hoje ponho um vestido e vou para casas de dominação. Imploro por tapas na cara. Cipoadas nas costas. E recentemente voltei a me permitir ser enrabado enquanto um homem forte toca no meu pau mole. Também encontrei espaços onde homens que gostam de ser humilhados aparecem. Dispostos à humilhação. Na humilhação verbal, consigo ser muito eficiente. Já fiz alguns homens gozarem dizendo as piores coisas pra ele e sobre ele.  

Somente Vaccari me recoloca no mundo. Dentro da tristeza das violências usamos vestidos belíssimos e giramos no palco dos dias. Não me faço amargurado exceto pelo fascismo. Isso me deixa escandalosamente amargurado. Até ouvir Só Pra Contrariar não me dá no instinto recordações engatilhadas. Não. Ao contrário. Acho ótimo. Enxergar pessoas que não precisaram sobreviver a nada parecido é que me deixa inconformado. Pessoas puras é que me angustiam. Pessoas excepcionalmente boas me fazem chorar de raiva. Como seria a vida sem toda a maldade? Como eu seria sem o sadismo de Girlene? De minha mãe? De Junior? De Jeová? Seria um indivíduo mais oportuno para a vida? Não consigo me imaginar assim. Sodoma não acaba. Sodoma é pra sempre. 

Sempre tive receio de contar essa história, não por vergonha ou pela possibilidade de despertar “gatilhos”. Mas pela improdutiva possibilidade de que alguém sentisse pena do que eu vivi. Tal como a Senhora Vaccari, não seria impossível pra mim, contar tudo isso com uma primavera no olhar e na companhia dos uivos de coiote de Ennio Morricone. A única precaução que tenho é a de omitir detalhes capazes de deixar excitados, não pelo pudor moral mas o civil. E por enfim, concordar com a civilização regente. 

Quando navego em aplicativos de pornografia facilmente localizo caras como o meu primo Junior. Ele se enquadraria como mavambo. Diversos caras de quebrada se vangloriam do enquadramento. Em suma, é um personagem social com a afetividade dilacerada, que performa um sexo irracional e de máxima resolução tanática. Principalmente por viverem sempre entre a vida e a morte. No ápice, do segundo arco ou ato do filme 120 dias de Sodoma, uma personagem é obrigada a comer fezes. Engolir, sem vomitar, e em meio a muito sofrimento. O prazer de quem a obriga a comer é sublime. 

Perambulando, agora na vida adulta, por ambientes de dogging e cuckold, com frequência percebo o quanto pessoas negras e que cresceram em situação de vulnerabilidade seguem castradas da sua mais autêntica sexualidade. E passamos a entender que atender a ordens como “coma”, “coma”, “coma”, é muito mais sobre dar prazer ao outro enquanto degolam seus próprios desejos. Entrevistando-os informalmente, ouço uma clássica expressão: “gosto de ver o outro sentindo prazer”.  

Numa certa noite, fui até um local de cruising, decidi por realizar uma aferição descomprometida, entrevistei cinco homens, todos eles negros e todos eles performavam o mavambo. Todos os cinco, na altura da entrevista, já haviam comido alguém. Dos cinco, apenas um havia “gozado”. E todos repetiram a frase “gosto de ver elas/eles gozando”. Quando eles dizem “elas” em geral estão falando sobre mulheres casadas que chegaram ao local acompanhadas dos seus maridos (todos maridos brancos). Que se masturbavam e gozavam vendo a esposa sendo deflorada por um “negão dotado”.

Nesta mesma noite, em momentos diferentes, depois de termos conversado, um dos mavambos começou a se masturbar do meu lado, enquanto assistia a uma cena de sexo. Isso depois que o mesmo havia transado com uns três ou quatro casais. Quando ele estava próximo de gozar ele segurou meu pau, que apesar de ereto estava dentro da minha calça, lembrei de Melo e do yoshi que ele conseguiu pra mim  e pra ele, e lembrei que Melo casou com uma amiga da minha tia, e que talvez faça o mesmo hoje. “Gosto de ver elas gozando” enquanto sonha em gozar segurando o pau de alguém. 

Fiquei intrigado com o fato dele ter gozado segurando meu pau e de não ter gozado metendo em vários caras e mulheres, durante toda a noite. Ainda que a ejaculação não signifique “tudo” sobre o prazer no sexo. De algum modo, ela pode denunciar algo importante no sexo.  

O prêmio por ter a melhor bunda ou o maior pau, em geral, é morrer. E a morte é uma benção quando não se tem muitas possibilidades. A analogia de Pasolini, com a cena da garota que come merda à força, me inspira longamente. E me fez andar pela casa, contente de que alguém talvez já tenha pensado em coisas parecidas às que penso sobre o erotismo, o sexo, a pornografia e o gozo. Se eu não tivesse, aos vinte anos, rompido com a religiosidade e a fé, que tipo de merda estaria comendo ainda hoje? Talvez estivesse comendo Girlene. 

Sem ambicionar trajeto de jornada do herói, assumo que saí de um extremo negativo e fui para um extremo possível. Ainda tenho muito o que caminhar. E caso me poupem, eu ainda vou conseguir escrever sobre o que há de bom quando pessoas marginalizadas dividem quatro paredes. Faço do amor e do sexo um laboratório. E depois de ouvir alguns homens marginalizados repetirem a frase “gosto de ver elas/eles gozando”, iniciei, nos últimos meses, o projeto de levar homens negros de meia idade pra cama. 

Alguns conheci em espaços de pegação, cruising. Outros, no pagode, no samba, no metrô, na pracinha. Sou simpático. Gosto de música antiga. Gosto de futebol. Escuto com muita atenção. E em algum momento, digo “eu adoraria ficar a sós com você”. A maioria, leva alguns segundos ou até um minuto pra processar a informação mas todos, até o momento, aceitaram de primeira. E então, levo-o para um dia fora de Sodoma. 

Um deles chorou nos meus braços. Outro quis ficar abraçado durante a noite inteira. Ainda outro, que venho encontrando com frequência, gosta de me dar banho ouvindo Jorge Aragão. Outros quiseram me dar tudo o que poderia. E fui enfático em dizer: não quero que você me pague nem uma cerveja. Todos me falam sobre os filhos. Todos me falam sobre os problemas com a esposa. Todos ficam de pau duro ao me ver pelado. Todos sentiram-se seguros o suficiente pra tocar no meu pau. Dizendo: nunca tive coragem de fazer isso. E analisam, comentam o formato, comparam com o dele, o tamanho, a grossura, sopesam minhas bolas, enquanto repetem que nunca tinham feito isso. E a pupila dilatada me confirmando que finalmente não estão diante da ‘merda’. 

Viver episódios como esse, não me desperta piedade por esses homens, nem tampouco a sensação de que vou salvá-los, ou mudar qualquer coisa que seja. Ou tão somente que eu esteja proporcionando algo legitimamente bom. Embora seja um cenário de especulação pra eles. O que mais me instiga é saber que aquele momento ficará intrigando nas certezas de cada um deles. De que quando estiverem outra vez diante da “merda”, estarão levemente inconformados. Como se estivesse prometendo pra eles que eles agora seriam menino prodígio do bairro. E sobretudo, me sinto cada vez mais parecido com a minha tia, que criou um centro de reabilitação de dependentes químicos, na zona rural da nossa cidade. Eu me sinto levando esses homens marginalizados, para “orar” no monte. E de lá de cima, olhar pra baixo e entender que — apesar daquele instante — Sodoma é pra sempre. 

Ninguém nunca me fez perguntas a esse respeito

Freud diz que as cenas de sedução são camufladas, na intenção de se proteger por “fantasias” mas que ainda assim delas provém “material verdadeiro”. As fantasias por sua vez são “embelezamentos” dos fatos. Porque “as fantasias são fachadas psíquicas produzidas com a finalidade de impedir o acesso a essas recordações”. Quando li isso senti um leve lapso de esperança de que, no mínimo, alguma parte do que contei no texto anterior pudesse ter sido uma alegoria dos verdadeiros fatos. Entretanto, Junior realmente morreu soterrado, há algumas reportagens publicadas nos portais de notícias da minha cidade. 

Num outro relâmpago de esperança, iniciei uma conversa com minha mãe sobre as violências que ela me fez durante a infância. A primeira reação dela foi negar, o que me traria relevante felicidade. A segunda reação foi colaborar com mais detalhes dos quais, estes sim, eu não lembrava. Os detalhes deixaram tudo pior. Eu imaginava, por exemplo, que as surras tivessem começado quando eu tinha entre seis ou sete anos. Mas ela foi generosa e honesta em compartilhar a verdade de que tudo começou quando eu tinha apenas três anos de idade. E que as violências eram muito mais cruéis do que as fantasias poderiam embelezar. Um outro detalhe, do qual eu não lembrava, era de que as pessoas iam até a janela da minha casa (naquele contexto de viela-cortiço onde todos moravam perto) pra assistir ela me batendo. Era um espetáculo caloroso. 

Aquilo com que somos confrontados são falsificações da memória e fantasias – essas últimas, referentes ao passado ou ao futuro. […] Ao lado delas, surgem impulsos perversos; e quando, como se faz necessário posteriormente, essas fantasias e impulsos são recalcados, os determinantes superiores dos sintomas já decorrentes das lembranças passam a se manifestar, bem como novos motivos para que haja um apego à doença. (Freud, 1986: 256)

Num contexto mais óbvio, sinto que as práticas pedófilas deferidas pelo finado Junior contra mim é que poderiam ter sido camufladas por fantasias ou recalcadas. Saibam que elas se mantiveram bem límpidas na minha memória em todas essas décadas. Exceto que me provocam fortes emoções. Não me provocam. Apenas uma higiênica repugnância da feição dele, do pau e com um vigor maior: do sorriso dele. 

As violências que minha mãe praticou ficaram absolutamente reclusas na minha memória durante longos anos. Na madrugada do dia 2 de fevereiro de 2024, acordei de um pesadelo em que meu chefe do serviço – com o qual eu já vinha tendo embates – corria atrás de mim com o cinto virado na parte da fivela. E não era qualquer cinto. Era o mesmo cinto marrom, com cheiro de couro, da marca Azaléia, que minha mãe usava. Acordei sem fôlego e num choro de pânico. Voltei a dormir algumas horas depois e um novo sonho aconteceu. E nesse novo sonho já não era mais o meu chefe, mas minha mãe que corria atrás de mim com o antigo cinturão. Depois de eu correr muito, cheguei no rio que cruzava minha quebrada. O rio que deu nome ao bairro que cresci, o rio Joanes, outrora chamado de Lama Preta.

Oxum, divindade do candomblé, me colocava no colo e me acolhia. Dentro do sonho, eu era uma criança que parava de chorar no colo dela. Acordei do sonho e continuei chorando durante o dia inteiro. Naquele mesmo dia, 2 de fevereiro, eu tinha sessão de terapia e foi a primeira vez que o tema da violência desferida por minha mãe se tornou assunto das minhas análises. Durante dez anos de acompanhamento psicanalítico esse assunto nunca havia sido mencionado. 

Não era uma memória. Até então não passava de um aroma nos meus pensamentos. Ao longo dos meses seguintes, comecei a frequentar festas dirigidas a casais bissexuais liberais, podólatras e todo tipo de fetichista. Numa das primeiras vezes, segurei diferentes tipos de chicote de couro. Do mais covarde ao mais intempestivo, por assim dizer. E enquanto no rodízio experimental de chicotes, eu sentia que me convocava retomar algum domínio sobre a violência. 

Os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram) são também um elemento integrante das neuroses. […] Esses impulsos são recalcados nos períodos em que desperta a compaixão pelos pais – nas épocas de doença ou morte deles. […] Ao que parece, é como se esse desejo de morte voltasse, nos filhos, contra o pai e, nas filhas, contra a mãe.  (Freud, 1986: 251)

Naquela etapa da vida eu tinha uma vontade de fazer morrer aquela que me colocou no mundo. Não literalmente, mas fazer tudo o que ela representava naquela dor, morrer. E por ocasião de estar na casa fetichista, surgiu uma moça disposta a ir para uma espécie de cama para que eu pudesse bater nela. Mas abandonei os chicotes e ao contrário do que poderia acontecer, pedi que ela me batesse na cara. E ela atendeu o meu pedido. Receber aquele tapa na cara foi estranhamente delicioso. E me levou à uma nova memória. 

“Isso porque minha mão é leve; você merece apanhar da mão de homem na sua cara; uma mão pesada” disse minha mãe uma dúzias de vezes. Fiquei remoendo essa frase, nos dias seguintes, e pensando no quanto sou interpelado pela mão dos homens que me interessam sexualmente. A primeira coisa que costumo olhar ao conhecer uma pessoa, são as mãos. É como se eu pudesse prever a personalidade da pessoa através do modo como ela movimenta a direita e a esquerda, apara ou rói as unhas, cuida da palma e sobretudo valoriza peso das próprias mãos. 

Convido vocês a entrar no quarto de um motel, do centro de São Paulo. Não tem luzes rosadas, mas azuladas. Não tem uma cama redonda, mas uma cama quadrada, lençóis brancos e uma decoração moderna, amadeirada e antisséptica, além de uma área externa com piscina e vista para o céu da capital mais populosa do país. Depois do sexo com um daqueles homens negros mais velhos, que chamaremos de Antônio, houve esse momento:

  • Você me surpreendeu. (Disse Antônio, enquanto me oferecia uma cerveja que ele acabara de abrir). 
  • Em que sentido? (Respondi)
  • Você é legal. É um cara bacana.
  • É bom ser, né?
  • É que caras da sua idade não costumam ser legais. Eles são mais ligeiros. 
  • Como assim?
  • Geralmente, quando eles vêem que meu pau não é grande, caem fora. Eles gostam de negão, como eu, mas do pau grandão. E você não ligou pra isso e ainda é divertido, leve, sorridente. 
  • Obrigado. Vamos colocar uma música?
  • Coloca aí. 
  • Jovelina ou Jorge Aragão?
  • Jorge Aragão. 
  • Jorge Aragão e Arlindo Cruz?
  • Jorge Aragão.
  • Vou colocar Arlindo, só pra você parar de achar que eu sou legal.

E coloquei uma playlist de Arlindo Cruz, porque era domingo e o sol da área externa do motel combinava com a piscina que estava disponível pra nós dois até às 14:00 – e com a cerveja que ele tinha aberto às oito da manhã.

  • O que você achou do meu pau? (Perguntei pra ele, enquanto guiava-o até a área externa e triscava a água da piscina com a ponta do pé.) 
  • Nunca fui muito de olhar pro pau dos caras com quem eu fico, mas achei você todo gostoso e legal. Como eu falei. 
  • Vamos pular?

Entramos na piscina, mergulhamos, nadamos de um lado para o outro. E nos reencontrando na borda, celebramos com um beijo e um abraço aprofundado. Depois de um pequeno período de silêncio, perguntei pra ele:

  • Qual dos seus três filhos você mais gosta?
  • Gosto dos três igualmente. O mais velho parece mais comigo. Me trata como se eu fosse um rei. Toda vez que me vê me abraça, me beija. Isso faz eu ter mais afeto por ele. Mas gosto igualmente dos três. É que nesse momento, o mais velho tem esse carinho e é óbvio que eu vou retribuir com mais animação.
  • E os outros dois?
  • O do meio também. É igual ao mais velho. Já o mais novo…
  • O mais novo é mais danado?
  • Briga comigo todo dia. Me afronta. Só falta me botar pra fora de casa. Mas eu enfrento ele de igual. 
  • Você acha algum dos seus filhos atraentes? 
  • São todos bonitos. O mais velho é assim que nem você. Altão. E parecia comigo quando eu era mais novo. 
  • Ele era bonito também quando era pequeno?
  • Não. Era insuportável. Vivia dando briga na escola, quebrando as coisas dentro de casa. Era preciso dar muita surra nele pra ele se consertar. 
  • Você batia muito nele quando ele era criança?
  • Batia. 
  • De quê?
  • De sandália, palmatória, cinturão. Tudo o que você imaginar. E deu certo, né?
  • O que será que ele pensa sobre isso hoje?
  • Ah, deu certo. Hoje é um homem direito, com a vida direita, me respeita.
  • Você pode me dar um tapa na cara? 
  • Agora? Assim?
  • Sim. Como se eu fosse seu filho.

Será que é amor? Parece muito mais, cantava Arlindo Cruz na playlist que tocava no quarto do motel, na hora do tapa. E dentro de mim, uma espécie de catarse. Finalmente eu levava o tapa que minha mãe tanto falava. Chegou o tapa no meu rosto como o som de uma caixinha de música. Um cheiro de macarronada com queijo ralado. Uma situação confortabilíssima. Um primeiro passo em prol do sonho enquanto o sono não vem.  

(…) Introduzi os termos “objetos transicionais” e “fenômenos transicionais” para designar a área intermediária entre o polegar e o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que já foi introjetado, entre o desconhecimento primário de dívida e o reconhecimento desta. (…) Por essa definição, o balbucio de um bebê e o modo como uma criança mais velha entoa um repertório de canções e melodias enquanto se prepara para dormir, incidem na área intermediária enquanto fenômenos transicionais, juntamente com o uso que é dado a objetos que não fazem parte do corpo do bebê, embora ainda não sejam plenamente reconhecidos como pertencentes à realidade externa. (Winnicott, 1975: 14)

  • Por quê? 
  • Por que, o quê?
  • Esse tapa assim no meio do nada?
  • Minha mãe dizia pra mim, quando eu era criança, que eu tinha que experimentar o tapa de um homem, que tem uma mão pesada, como a sua mão. 
  • Sua mãe te acha o filho mais bonito?
  • Acho que ela me acha bonito. Mas minha irmã também é linda. 
  • E quando você era criança? Ela já te achava bonito?
  • Tá aí, ninguém nunca me fez perguntas a esse respeito. Mas acho que sim. 

A questão sexual atrai as pessoas, que ficam inteiramente atônitas e depois se vão, convencidas, exclamando: “Ninguém nunca me fez perguntas a esse respeito”. (Freud, 1986: 57)

Depois desse dia no motel, voltamos a nos encontrar muitas outras vezes. O fato de sequer ter ideia do endereço dele e ele não conhecer o meu primeiro nome, nos permitia uma liberdade absoluta nas confissões. Um dia, bebemos mais do que o normal e o tesão parecia estar em segundo plano. No dia seguinte, acordamos de ressaca. Assim que eu abri os olhos, ele estava assistindo à programação de domingo da TV Globo. E contou que quando era criança, passou meses internado no hospital por conta de um problema intestinal.

Em um relato compacto: ele fora também abusado sexualmente por um parente quando morava numa roça nas veredas dos Gerais. A família nunca voltou a comentar sobre o fato e nem ele perguntava ou trazia o assunto pra mesa. O parente distanciou-se. E após a recuperação dele o assunto ficou abafado. Como ele se sentia diante disso? Não tive coragem de prolongar a conversa. Me senti cansado, sem vontade de ouvir mais a respeito. Nem de vê-lo também. 

Há pessoas que nunca poderão sair de Sodoma e é com essas pessoas que não sinto caso de estar perto. Por outro lado, são muitas as pessoas que me indignam com sua presença. Em geral, todas aquelas que apostam na retidão como grandeza maior da vida. Não ter condições de atingi-las na pureza e enxergar no espírito das mesmas uma crença de que a vida tem virtude me paralisa psicossomaticamente. Pra ser mais preciso, na lombar. Prostitutas, cafetões, garotos de programa, usuários de drogas, alcoolistas, ninfomaníacos, verborrágicos, todos estes, por sua vez, aparecem sempre com motivos mais nobres pra vida. 

JORDAN
30/01/2026


Referências

FREUD, Sigmund. (1986). A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess: 1887-1904. Edição de Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, Donald Woods. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Sobre o autor

JORDAN é poeta, dramaturgo e compositor baiano, natural de Camaçari (BA). Vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu (2023), é autor do livro Coisa Feita – Dois Preto Apaixonado na Cama, obra que explora a identidade, o erotismo e a vivência homoafetiva de homens negros.