Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Bom Jardim (12 de janeiro)   


Esta é uma crônica de saudade. Talvez a primeira desse tipo, desde o inicio da jornada de Mário de Andrade ao Nordeste. E o motivo é o cantador de cocos Chico Antonio, que, agora partido, faz a tarde cair numa tristura que machuca. “Adeus sala! Adeus cadêra! Adeus piano de tocá!”. Nada o havia preenchido de tanta falta. Uma das páginas mais melancólicas de O Turista Aprendiz.

As apresentações da série Nordestes, com as entradas de diário de O Turista Aprendiz, são de autoria do editor Onildo Correa (PPGSA/UFRJ), que, também, acaba de organizar, junto com André Botelho (UFRJ), a íntegra do diário de Mário de Andrade para a Casa Matinas (disponível aqui). Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Bom Jardim (12 de janeiro)

A tarde cai numa tristura que machuca, assombrada pela saudade de Chico Antonio, partido faz pouco.  

Aliás desde minha viagem pelo Amazonas já reparei uma coisa curiosa: as tardes por aqui jamais são tristes. Uma diferença enorme das paulistas. Boca-da-noite, mesmo na fazenda de café mais agradavel de paisagem, sempre é tristonha. Por aqui não. As mais largas, o sentimento que despertam é duma calma guassú, do tamanho da morte, perfeitamente sossegada. Mas no geral são alegres, bem visiveis, um certo quê de espetacular muito refletido na psicologia do nordestino. 

Mas a tarde de hoje está triste por causa do Chico Antonio que partiu. Não eram bem 17 horas, foi ensilhar o cavalo, pôs espora, o chapelão de aba larga sempre escurentando a cara simpatica, veio se despedir de mim. Careceu dizer o que sentia e trouxe o ganzá porquê só pode contar os sentimentos, cantando! Tirou o “Boi Tungão”, certamente um dos cantos mais sublimes que conheço, principiou por uma firmata solene, que ninguem não esperava: 

“Boi Tungããããã!…” 

e foi falando.  

E disse coisas duma comoção tão simples, ditas com a verdade verdadeira dos homens simples; disse que quando eu chegasse na minha terra havia de ter saudades dele; mas que se voltasse por estas bandas que o mandasse chamar e êle viria. Então principiou se despedindo dos nossos trabalhos, do papel em que eu assentara as melodias dele, da tinta, do piano, tudo.  

“Adeus sala! adeus cadêra! 

Adeus piano de tocá! 

Adeus tinta de iscrevê! 

Adeus papé de assentá! 

— Boi Tungão!…” 

Estava despedido. Estendeu a mão comprida num adeus de árvore e lá foi-se embora no passinho esquipado come-legua dos cavalos daqui. 

E a boca-da-noite já está queimada de tristura, quasi negra, estrêlas, uma luzinha de habitação no lado do açude.  

Por detrás da casa, parecendo perto, principia um bate-bate surdo. É longe. É um zambê, coco pra dançar, acompanhado a puita, zambê, gauzá e a “chama”, outro tambor de voz medonha, atravessando os ares. A “chama” é o telegrama de convite. Quem a escuta vem pro coco.  

“Olê, rosêra, 

Murchasse agora!…” 

A luzinha do querozene é quasi inutil na noite. O brazeiro fumacento alumia a taipa bordada da parede e serve de pano de fundo. O cabrocha dá um salto pro meio da roda, gira e cai numas letras duma leveza espantosa, saúda os “coqueiros” e tocadores, faz mais outras letras, dá umbigada num parceiro e sai da roda. É a vez dêste. O coco esquenta e fico por ali vendo o pessoal, encompridado pelo fundo do brazeiro, saracotear num espetaculo assombrado. O “zambê” instrumento, que qualifica a dança, é pesadissimo, tronco em que o tocador amonta pra bater no couro esticado.  

São 24 horas e me deito. O zambê continua no longe. E continuará de certo até que rompa a arraiada. Uma sensação estranha de seculo XIX… Samba de escravos perpetuado através de todas essas liberdades servis… Que não acabarão de verdade enquanto não vier uma fatal, mas longinqua ainda, bandeira encarnada. 

MÁRIO DE ANDRADE