Copa do Mundo na BVPS | Nova série da BVPS Edições

A série Copa do Mundo na BVPS estreia hoje na BVPS Edições, com ensaios semanais publicados sempre às sextas-feiras, que ampliam o olhar sobre o futebol – sobre quem conta a história do torneio e como ela circula nas plataformas digitais, sobre os mercados de apostas e a mercantilização do esporte, sobre o futebol feminino, a antropologia do jogo e muito mais. Uma série pensada na diversidade que o futebol nos impõe como fascinante objeto de investigação.

A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história: 48 seleções, 3 países-sede, um torneio que se aproxima do centenário. Mas o que está em jogo vai muito além dos gramados. Das disputas narrativas travadas nas redes sociais às engrenagens opacas do capital e do poder que movem o futebol nos bastidores, o jogo é também um espelho das sociedades contemporâneas e de suas tensões mais profundas.

Para dar início aos trabalhos, publicamos a apresentação do organizador Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ e BVPS) e o ensaio de Marco Bettine (USP), que investiga como a Copa se tornou uma arena global de disputa por significados – e por que, em 2026, a pergunta mais relevante talvez não seja quem vencerá o torneio, mas quem contará a sua história.

Para ficar por dentro de todas as nossas postagens, você pode assinar nossa lista de e-mails, seguir nosso Instagram ou entrar no canal da BVPS no WhatsApp. Boa leitura!


Apresentação

Por Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ e BVPS)

Está em andamento a maior e mais longa Copa do Mundo de todos os tempos desde de sua fundação, em 1930. São 3 países-sede e 48 seleções nacionais que entram em campo com o intuito de conquistar, junto ao seu povo, o título de melhor seleção de futebol do mundo. Ao menos pelos próximos 4 anos, é claro. E a grande maioria nunca sequer venceu este torneio que completará 100 anos em sua próxima edição, o que o torna, para elas, ainda mais cobiçado. No “concerto das nações” da FIFA com 210 confederações – note-se, mais países filiados do que a própria ONU reconhece –, apenas Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, França, Uruguai, Espanha e Inglaterra alcançaram o topo do mundo no esporte mais popular de todos. 

Contrariando a profecia irônica de Graciliano Ramos, escrita em crônica intitulada Traças a Esmo de 1921, de que o futebol seria apenas uma mania passageira, “um fogo de palha” em terras brasileiras, o esporte importado “pegou” por aqui. Basta observarmos a mobilização da população durante os jogos, como que numa efervescência coletiva durkheimiana. Talvez, e aqui me dou o direito de escrever sem dados empíricos, apenas por impressões, a descrença em relação à seleção brasileira de futebol tenha aumentado ao longo do tempo recente. Mas ela está longe de significar falta de interesse. São 24 anos sem um título de Copa do Mundo e eliminações constantes para seleções sem tanta história, como Bélgica e Croácia. Sem mencionar, obviamente, o trauma produzido em Belo Horizonte, no estádio do Mineirão, em 2014: os 7×1 humilhantes para a Alemanha, diante dos olhos petrificados de seu povo. E, claro, as tantas denúncias de corrupção da Confederação de Futebol Brasileiro e ex-presidentes presos.

Mas não podemos interpretar essas justificativas por uma ótica maniqueísta, que opõe “engajados” que, por essas razões, não se engajam com a seleção a “alienados” que torcem apaixonadamente vestindo a camisa canarinho. Quando se trata de Copa do Mundo, o sentimento é maior que a razão, bastando observar os assuntos que imperam nas interações cotidianas do povo brasileiro nas ruas e, principalmente, a expressividade coletiva durante as partidas do Brasil. Como nos lembra José Miguel Wisnik em seu já clássico Veneno remédio (2007), o futebol brasileiro insiste e resiste em ser o emplasto Brás Cubas que deu certo. É a forma que o povo brasileiro consegue colocar ao avesso tantos problemas estruturais, suspendendo momentaneamente as hierarquias e fragmentações da vida social para experimentar um raro sentimento de pertencimento coletivo. Se o emplasto imaginado por Brás Cubas prometia curar simbolicamente as mazelas da humanidade sem jamais cumprir sua promessa, o futebol realiza, ainda que de modo efêmero, uma espécie de integração nacional capaz de produzir reconhecimento mútuo, identificação e esperança em uma sociedade marcada por profundas desigualdades. E, no plano externo, ao menos até há bem pouco tempo, a geopolítica do futebol inverteria a ordem das potências econômicas, o Brasil figurando aí como um contraimpério do lúdico, detentor de um tipo raro de tecnologia de ponta do ócio.

E mesmo diante de tantas mudanças nas correlações de forças das sociedades contemporâneas, nas quais a criação e manifestação de identidade se dá por meio de diversas outras formas de cooperação e conflito, a Copa do Mundo parece se tornar a grande “guardiã” da identidade nacional na sua face positiva de solidariedade social. Essa competição quadrienal é, sem dúvidas, uma das principais manifestações das identidades nacionais no mundo contemporâneo, marcado pela hegemonia do capital sem pátria e pelo desacoplamento entre Estado e nação e pela mobilização e concorrência de identidades sub e supranacionais. Um exemplo irremediável desta edição de 2026 recai sobre Carlo Ancelotti, ou “Carleto”, cuja pronúncia abrasileirada de “Ancelotti” com o “C” da língua portuguesa constitui estratégia utilizada pelo conglomerado da principal rede de televisão do Brasil de “abrasileirar” o treinador italiano e torná-lo o mais identificado possível com o povo da seleção em que trabalha. Em que outras condições podemos observar tantos indivíduos distintos, deixando sob suspensão estratificações sociais e ideologias, se aglomerando por vontade própria, apenas pelo sentimento de compartilhamento linguístico e cultural em detrimento de outros? Se as nações são categorias absolutamente abstratas, intangíveis, comunidades políticas imaginadas, como nos ensina Benedict Anderson, a Copa do Mundo consegue torná-las uma matéria palpável, com audição, olfato, visão, e – por que não? – paladar (explorado sem moderação pelas marcas de cerveja).

A famosa distinção do cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini entre o futebol “prosa” dos times europeus, lineares, rígidos e afeitos à organização tática, e o futebol “poesia” sul-americano, especialmente o brasileiro, marcado pela individualidade, pelo manejo corporal e pela não-linearidade das decisões improvisadas, já nos indicava que o jogo carrega em si formas distintas de ver e habitar o mundo. Mas o futebol mudou, e suas dimensões extrapolam tanto a metáfora estética de Pasolini quanto os confrontos representativos do autocontrole dos instintos que Norbert Elias via na gênese dos esportes e sua relação direta com o funcionamento da sociedade moderna. Desde sua criação no século XIX até hoje, o futebol se matizou e complexificou, tornando-se um esporte composto por muitos elementos sociológicos extra-campo.

Esporte mais popular do mundo, o futebol, como espetáculo, move não só muitas paixões, mas muito dinheiro. Fora do campo e numa divisão de elites, ocorre um outro jogo de regras opacas: entre capital, poder e instituições. Entidades como a FIFA operam historicamente com baixa transparência e frequentam escândalos de corrupção; clubes e mercados de transferência funcionam como canais facilitadores para engenharia financeira, superfaturamento e possível lavagem de dinheiro, denunciados por investigações como o Football Leaks; a expansão desenfreada do mercado de apostas esportivas exponencia riscos de manipulação de resultados e conexão com redes criminosas; direitos de transmissão concentram poder em grandes conglomerados de mídia, como o Grupo Globo; agentes acumulam influência com comissões escusas, exemplificados por figuras como Jorge Mendes; a entrada de fundos soberanos e bilionários, como no caso do Paris Saint-Germain, levanta questões de “sportswashing” e geopolítica; estruturas offshore e paraísos fiscais, expostos em vazamentos como os Panama Papers, abrigam práticas de elisão e ocultação patrimonial; enquanto isso, o endividamento crônico dos clubes e suas imbricações com interesses políticos locais completam um quadro em que práticas legais pouco transparentes e ilegalidades potenciais tabelam, exigindo análise rigorosa das redes, fluxos e incentivos que estruturam esse sistema de jogo.

É, portanto, esta visão matizada do futebol que a série Copa do Mundo na BVPS busca trazer ao leitor. Publicaremos semanalmente, até o fim da Copa, às sextas-feiras, ensaios que ampliam o olhar sobre o futebol, trazendo reflexões sobre temas atuais que possibilitam enxergar o jogo de diferentes perspectivas, para além da competição em andamento. Serão publicados ensaios que tratam de temas como as disputas narrativas em torno de quem detém o monopólio discursivo do jogo; as tão propagandeadas bets e seus mercados selvagens nocivos à população; o processo de intensa mercantilização do futebol e as transformações dos clubes em empresas globais; o futebol feminino e seu sucesso e desafios; a relação entre antropologia e futebol. Agradeço a todas e todos que toparam participar desta série, pensada na diversidade que o futebol nos impõe como fascinante objeto de investigação.


A Copa das Narrativas: esfera pública, plataformas digitais e a disputa global por significados

Por Marco Bettine (USP)

Ao longo dos últimos quinze anos, pesquisas que desenvolvi sobre a cobertura internacional das Copas do Mundo realizadas na África do Sul, no Brasil, na Rússia e no Catar revelaram um fenômeno curioso. Embora o futebol permanecesse no centro do espetáculo, os debates que mobilizavam a atenção global frequentemente aconteciam fora dos gramados. Apartheid, desigualdade social, autoritarismo, direitos humanos, migrações, identidade nacional e geopolítica passaram a ocupar espaço tão importante quanto os resultados das partidas. A Copa deixava de ser apenas um torneio esportivo para se transformar em uma arena global de interpretação das sociedades contemporâneas.

Essa constatação talvez não surpreendesse Jürgen Habermas. Desde os anos 1960, o filósofo alemão argumentava que os grandes acontecimentos coletivos são também disputas por significado. Eles mobilizam narrativas concorrentes sobre aquilo que uma sociedade considera legítimo, verdadeiro ou representativo de si mesma. Durante décadas, jornais, rádios e emissoras de televisão ocuparam posição privilegiada nesse processo. Eram eles que selecionavam os fatos considerados relevantes e organizavam as narrativas que orientavam a opinião pública.

A Copa do Mundo de 2026 ocorrerá em um cenário muito diferente. A esfera pública tornou-se mais fragmentada, mais veloz e mais disputada. Governos, jornalistas, influenciadores digitais, celebridades esportivas, plataformas algorítmicas e sistemas de inteligência artificial participarão simultaneamente da construção dos significados do torneio. Cada celular conectado à internet funciona hoje como um potencial centro de produção e circulação de narrativas. A pergunta que emerge desse novo contexto já não é apenas quem vencerá a Copa. A questão talvez mais relevante seja outra: quem contará a história da Copa?

O mundo olha para a Copa (…) e vê muito mais que futebol

Durante muito tempo, organizar uma Copa do Mundo significava muito mais do que sediar uma competição esportiva. Governos enxergavam o torneio como uma oportunidade rara de apresentar ao mundo uma imagem positiva de seus países, atrair investimentos, ampliar fluxos turísticos e fortalecer sua posição internacional. O futebol funcionava como uma forma de diplomacia cultural capaz de alcançar públicos que dificilmente seriam mobilizados por discursos políticos convencionais. A promessa era simples: por algumas semanas, a atenção global estaria voltada para uma única nação.

Foi essa expectativa que orientou grande parte dos megaeventos esportivos das últimas décadas. A África do Sul pretendia apresentar-se como símbolo da reconciliação pós-apartheid; o Brasil buscava consolidar sua imagem como potência emergente; a Rússia procurava reafirmar seu protagonismo geopolítico; e o Catar investiu recursos sem precedentes para projetar uma narrativa de modernização e prosperidade. Em todos esses casos, a Copa foi concebida como uma vitrine nacional.

As pesquisas que desenvolvi sobre a cobertura internacional desses quatro torneios revelaram, contudo, um fenômeno recorrente: a narrativa construída pelos organizadores raramente coincidia com aquela produzida pela esfera pública global. Quanto maior a visibilidade do evento, maior parecia ser também o escrutínio internacional. A Copa oferecia aos governos uma oportunidade para falar sobre si mesmos, mas oferecia igualmente à imprensa, às organizações da sociedade civil e aos cidadãos uma oportunidade para discutir aspectos que os discursos oficiais prefeririam deixar em segundo plano.

Na prática, cada Mundial acabou sendo associado a temas que extrapolavam o universo esportivo. A África do Sul foi frequentemente narrada a partir da memória do apartheid e dos desafios persistentes da desigualdade racial. O Brasil apareceu marcado pelos protestos de 2013, pelos debates sobre gastos públicos e pelas tensões de uma sociedade profundamente desigual. A Rússia foi interpretada através da figura de Vladimir Putin e das disputas geopolíticas com o Ocidente. O Catar tornou-se palco de discussões sobre direitos humanos, trabalhadores migrantes e os limites políticos de uma petromonarquia altamente centralizada.

O aspecto mais interessante é que nenhum desses temas foi escolhido pelos organizadores dos torneios. Eles emergiram da interação entre jornalistas, pesquisadores, movimentos sociais, governos e audiências espalhadas pelo mundo. Em outras palavras, a Copa deixou de ser apenas um instrumento de projeção internacional para se transformar em um espaço de disputa simbólica. Os países continuavam tentando contar histórias sobre si mesmos, mas essas histórias passaram a competir com inúmeras outras interpretações produzidas pela esfera pública global.

Essa mudança ajuda a compreender por que os megaeventos esportivos se tornaram observatórios privilegiados das transformações contemporâneas da comunicação. A questão central já não é apenas qual imagem um país deseja projetar. A questão é quem possui legitimidade para definir o significado dessa imagem. Em uma sociedade conectada por redes digitais, múltiplos atores participam simultaneamente da produção dessas narrativas. É justamente nesse contexto que a Copa de 2026 adquire um significado particular.

A política da visibilidade

A transformação das Copas do Mundo nas últimas décadas acompanha mudanças mais amplas ocorridas na própria esfera pública. Quando Jürgen Habermas escreveu sobre os meios de comunicação de massa, imaginava um ambiente estruturado por instituições relativamente estáveis, no qual jornais, rádios e emissoras de televisão desempenhavam papel central na seleção dos temas considerados relevantes para o debate coletivo. Embora marcado por desigualdades e relações de poder, esse modelo compartilhava certos mecanismos de mediação capazes de organizar a circulação da informação.

Nas primeiras décadas do século XXI, essa arquitetura foi profundamente alterada. As plataformas digitais descentralizaram a produção de conteúdo, multiplicaram os emissores e transformaram a visibilidade em um recurso político estratégico. Milhões de pessoas passaram a comentar acontecimentos em tempo real, produzir interpretações próprias e construir audiências independentes. A esfera pública tornou-se mais aberta, mas também mais fragmentada, acelerada, competitiva e ruidosa. Em um ambiente saturado por informações, imagens e estímulos permanentes, capturar atenção passou a ser quase tão importante quanto formular argumentos.

Poucos líderes políticos simbolizam essa transformação de maneira tão evidente quanto Donald Trump. Sua relevância não deriva apenas das posições que defende, mas da capacidade constante de produzir acontecimentos comunicacionais capazes de ocupar o centro das conversas públicas. Declarações provocativas, conflitos abertos e intervenções inesperadas garantem uma presença contínua nos fluxos informacionais contemporâneos. Nesse sentido, Trump tornou-se uma expressão emblemática de uma política orientada pela disputa permanente por atenção.

A Copa do Mundo de 2026 ocorrerá justamente nesse contexto. O torneio será realizado em um país atravessado por debates sobre imigração, identidade nacional, fronteiras, soberania, guerras e polarização política, temas que ocupam posição central na vida pública norte-americana contemporânea. Como ocorreu com Putin na Rússia ou com os debates sobre direitos humanos no Catar, é improvável que o contexto político do país anfitrião permaneça separado das narrativas produzidas em torno do evento. A Copa continuará sendo uma competição esportiva, mas será também interpretada através dos conflitos, tensões e disputas simbólicas do mundo que a cerca.

Essa mudança nos conduz a uma questão. Se a atenção se tornou um dos recursos mais valiosos da esfera pública contemporânea, quem define aquilo que merece ser visto? Quem determina quais acontecimentos ganharão projeção global e quais permanecerão invisíveis? A resposta já não pode ser atribuída apenas a jornalistas, governos ou empresas de comunicação. Cada vez mais, ela envolve sistemas automatizados que organizam fluxos de informação e distribuem visibilidade em escala planetária. Para compreender a Copa de 2026, portanto, não basta observar os atores que entram em campo. É necessário compreender também as infraestruturas digitais que organizam a circulação das narrativas sobre o próprio jogo.

A Copa das Narrativas

Se a política contemporânea é cada vez mais uma disputa por atenção, a Copa do Mundo representa um de seus maiores palcos globais. A experiência do torneio já não depende apenas dos acontecimentos que ocorrem dentro dos estádios, mas também das formas pelas quais esses acontecimentos circulam no ambiente digital. Quando um torcedor publica um vídeo comemorando um gol, quando um influenciador comenta uma partida ou quando um jornalista analisa uma decisão da arbitragem, não há garantia de que essas mensagens alcançarão públicos significativos. Entre a produção e a recepção opera um conjunto de sistemas responsáveis por organizar a visibilidade dos conteúdos e distribuir atenção em escala global.

Essa transformação altera profundamente as condições de funcionamento da esfera pública. Habermas imaginava um espaço no qual argumentos poderiam ser submetidos ao escrutínio coletivo e disputar legitimidade por meio do debate racional. Embora esse ideal jamais tenha sido plenamente realizado, permanecia a expectativa de que critérios de relevância pública orientassem a circulação das informações. A lógica algorítmica introduz uma nova dinâmica. O conteúdo que alcança maior visibilidade nem sempre é o mais relevante ou o mais bem fundamentado. Frequentemente, é aquele capaz de gerar maior engajamento emocional, provocar controvérsias ou capturar atenção de forma mais eficiente.

Nos últimos anos, diversos pesquisadores passaram a descrever esse fenômeno como uma economia da atenção. Em um ambiente marcado pela abundância de informação, o recurso escasso deixou de ser o conteúdo e passou a ser o interesse do público. Plataformas digitais transformaram atenção em valor econômico, convertendo cliques, compartilhamentos e tempo de permanência em ativos centrais de seu funcionamento. Essa lógica atravessa também o universo do esporte e do lazer. Em pesquisas recentes sobre a plataformização do lazer, argumentei que atividades associadas à espontaneidade e ao prazer passaram a ser reorganizadas por métricas, rankings, recomendações e mecanismos permanentes de visibilidade. A Copa de 2026 representa uma expressão ampliada desse processo.

O Mundial será acompanhado por bilhões de pessoas, mas sua experiência coletiva não será construída por uma única narrativa. As imagens que veremos, os debates que acompanharão os jogos e até mesmo os temas associados ao torneio serão influenciados por plataformas digitais que operam de forma contínua e muitas vezes invisível. Os estádios continuarão sendo os palcos físicos da competição, mas uma parte significativa da experiência pública ocorrerá em ambientes virtuais que participam ativamente da produção dos significados do evento.

A inteligência artificial acrescenta uma novidade histórica a esse cenário. Pela primeira vez, conteúdos produzidos artificialmente circularão em escala massiva durante uma Copa do Mundo. Sistemas de IA produzirão traduções instantâneas, resumos, imagens, vídeos e novas formas de circulação da informação. Mais do que uma questão tecnológica, trata-se de uma transformação na própria produção social da realidade. A disputa pelos significados do torneio já não envolverá apenas governos, jornalistas, atletas e torcedores, mas também sistemas automatizados capazes de influenciar a criação e a difusão de narrativas.

Quando Manuel Castells descreveu a emergência da sociedade em rede, observava que o poder dependia crescentemente da capacidade de produzir significados em ambientes comunicacionais complexos. A Copa do Mundo de 2026 talvez ofereça uma das expressões mais visíveis dessa transformação.

Os novos narradores do futebol

Quando a bola começar a rolar nos estádios dos Estados Unidos, México e Canadá, bilhões de pessoas estarão acompanhando a Copa do Mundo de 2026. Haverá favoritos, surpresas, heróis improváveis e derrotas memoráveis. O futebol continuará produzindo aquilo que sempre produziu: emoções compartilhadas, narrativas épicas e formas particulares de pertencimento coletivo.

Mas a singularidade deste Mundial talvez esteja em outro lugar. Como procurei argumentar ao longo deste ensaio, a Copa tornou-se um observatório privilegiado das transformações da esfera pública contemporânea. Se os torneios anteriores já haviam revelado disputas em torno de identidade nacional, direitos humanos, geopolítica e reconhecimento internacional, a edição de 2026 ocorrerá em um ambiente comunicacional ainda mais complexo.

Habermas observava que a vida democrática depende da capacidade das sociedades de construir entendimentos compartilhados sobre acontecimentos de interesse comum. A Copa do Mundo continua sendo um dos raros momentos capazes de mobilizar simultaneamente públicos espalhados pelo planeta. Mais do que um campeonato mundial de futebol, ela será um grande laboratório das novas formas pelas quais sociedades produzem atenção, reconhecimento e significado em uma esfera pública global conectada por redes, plataformas e algoritmos.


Sobre o autor

Marco Bettine é professor da Universidade de São Paulo (USP). Desenvolve pesquisas sobre sociologia do esporte, teoria social e comunicação, com especial interesse na obra de Jürgen Habermas e nos estudos sobre Copa do Mundo, FIFA, cultura digital e esfera pública. É autor e organizador de livros e artigos nas áreas de esporte, política e sociedade.

Sobre o organizador

Miguel Cunha é mestre em Ciências Sociais pelo PPGCS/UFRRJ. Atualmente é doutorando no mesmo programa, onde pesquisa as disputas simbólicas em torno do significado hegemônico do Nordeste nas produções audiovisuais. Compõe, também, a equipe de editoria da BVPS.