
Seguindo o fio de Ariadne lançado no texto de abertura da série, Maria Moraes (UFSCar) inicia sua travessia pelos labirintos das plantações paulistas acompanhando as mulheres que foram expulsas do campo pelas transformações promovidas pela modernização agrícola. Neste primeiro episódio, o caminhão dos boias-frias emerge como objeto de análise. Moraes o discute não apenas como meio de transporte, mas espaço social de vigilância e disciplinamento, onde as trabalhadoras rurais precisam enfrentar os estigmas e as relações de poder que forçosamente atravessam suas vidas. Como ela escreve: o caminhão é o microcosmo da dominação de classe e gênero. Chorar em silêncio é um mergulho nas paisagens invisibilizadas do trabalho rural brasileiro.
Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.
Boa leitura!
“Chorar em Silêncio”. Mulheres a caminho do eitoi
Por Maria Moraes (UFSCar)
Craquenta, mão craquenta, craquenta, craquenta, e as lágrimas arrebentavam, grossas e mornas e ela enterrava os olhos na fronha e queria morrer e sofria todas as dores, porque ela tinha acabado de fazer quinze anos, amava e estava ali, no quarto frio do barraco, chorando, enquanto ele estava na festa e ela ali, com suas mãos craquentas, chorando lágrimas que nasciam ardidas, fruto de fogo brotando dos olhos azuis, sem aguentar a ausência, arrebentando de raiva das mãos: craquentas, craquentas.
Murilo de Carvalho, Chorar em silêncio (1978)
Seguindo a proposta desenhada anteriormente – de seguir o fio de Ariadne e raspar as camadas do palimpsesto –, este episódio acompanhará as mulheres expulsas do campo no bojo do processo de reestruturação produtiva implantado pela ditadura militar a partir da década de 1960. Em virtude das dificuldades encontradas para a sobrevivência nas cidades, elas foram obrigadas a pegar o caminhão e trabalhar no eito (palavra advinda do período escravocrata).ii Lançadas no mundo trabalho, os maiores desafios das mulheres não estavam ligados ao trabalho propriamente dito: já estavam acostumadas a ele, desde crianças. As dificuldades encontradas deveram-se a dois fatores: a alteração da concepção de tempo de trabalho, que passou a ser submetido à racionalidade da empresa capitalista; e a submissão às novas formas de controle e dominação, que deixaram de ser centradas na figura do pai ou do marido – arquétipos da dominação masculina –, passando a centrar-se nas figuras do feitor, fiscais, “gatos” e empreiteiros, figuras do espaço público (Silva, 1992: 152).
A individualização do trabalho significou para muitas mulheres andarem sós, trabalharem sós, comportamentos que, antes, eram sinais de exclusão, marginalização e toda sorte de estereótipos. Agora, estão diante de dois enfrentamentos: pegar caminhão e trabalhar no eito com a turma.
Primeiro enfrentamento: pegar caminhão
O caminhão representa um espaço de dominação de classe racializada e de gênero. O caminhão pode ser analisado sob vários ângulos. Aparentemente, apenas um meio de transporte, um espaço físico. Na realidade, um espaço cristalizado pela violência de toda sorte. Na cabine, iam os feitores e fiscais. Na carroceria, com vários bancos dispostos longitudinal ou transversalmente, iam em média 50 homens e mulheres. Com o passar do tempo, os bancos das mulheres eram separados, a fim de dar respeito. A carroceria era coberta por um toldo com pequenas frestas laterais. Sob o assoalho, eram levados os instrumentos de trabalho: limas, enxadas, enxadões, facões (podões).
Devido à precariedade dos caminhões, os acidentes eram frequentes, resultando em muitas mortesiii. Ademais da desvalorização simbólica do caminhão, o que levava muitos/as de seus ocupantes a descerem antes do bairro onde residiam, pois as pessoas tiravam sarro, o caminhão era um espaço de violência, pois transportava coisas e animais e, agora, pessoas. O caminhão era o produto da desvalorização e da estigmatização. Ele cristalizava para as pessoas o processo de perda dos valores culturais de antes. Pegar caminhão, caminhão de boias frias são sinônimos de vergonha corporal e cultural. Muitas mulheres se envergonhavam de suas vestes, pois eram obrigadas a usar saia sobre a calça comprida, a fim de dar respeito, ser mais seguro, medo que a calça rasgasse, mais seguro para subir no caminhão. Ter vergonha do corpo, vergonha social e cultural, vergonha do caminhão, vergonha de ser boia fria. Segundo Bourdieu (1979: 52), o poder de eficácia do olhar do outro só se exerce na medida em que o “olhado” se reconhece, interioriza a percepção e a apreciação. É um elemento estruturante da história objetivada e incorporada destes homens e mulheres. A máquina-caminhão é imprescindível ao processo de circulação dessa força de trabalho, portanto é um elemento necessário à produção e reprodução dos capitais. O caminhão, peça imposta, é um processo social e cultural resultante de um processo desintegrador, que visa à homogeneização das condutas, à normatização.
A causa da desagregação não é a exploração econômica (…) mas a desintegração do ambiente cultural da vítima (…). O resultado é a perda do auto respeito e dos padrões, seja de um povo ou de uma classe (Polany, 1980: 160).
O caminhão é o microcosmo da dominação de classe e gênero. É uma das faces do brutalismo, segundo a concepção de Achile Mbembe (2022). O caminhão pode, às vezes, resultar no impedimento ao trabalho. Algumas mulheres afirmaram que foram obrigadas a abandonar o trabalho, pois, devido à idade, não conseguiam subir no caminhão. Outras afirmaram que, na cabine, os motoristas preferiam as mocinhas. Pegar caminhão representava para as mulheres vários enfrentamentos. Precisavam enfrentar a língua do povo, o assedio sexual dos feitores e fiscais, outras eram impedidas pelos maridos ou pais (Martinez-Alier, 1977). Outras só poderiam pegar caminhão na companhia de parentes. As que iam sós eram vítimas de preconceitos, pois mulher séria não pega caminhão. Este estigma encobria, na verdade, a situação de provedor incapaz, vivenciada pelo homem, chefe de família, para quem o trabalho da mulher representava sua própria incapacidade de sustentar sozinho a família, em razão, sobretudo, dos baixos salários pagos pelas empresas.
O rebaixamento salarial, ao impedir a reprodução do grupo familiar, impõe às mulheres outro enfrentamento: além do fardo do trabalho, os olhares de reprovação e preconceito.
Aos poucos, as táticas e técnicas de dominação foram se alterando. Os feitores passaram a dividir o espaço do caminhão em bancos para homens e bancos para as mulheres. Em nível das representações, passaram a existir dois tipos de caminhões: os de “respeito” e os outros, onde “não havia respeito”. No primeiro caso, “qualquer mãe de família pode pegar caminhão, sem se manchar, não havia bagunça”. As mulheres passam a ser vigiadas pelos agentes de controle, que estão na cabine. Sentem-se olhadas. A determinação de lugares para homens e mulheres satisfaz “não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar espaço útil” (Foucault, 1983). Espaço útil para a normatização dos corpos reduzidos a tempo de trabalho, suporte da carga da superação de suas forças. Segundo as palavras de um empreiteiro: na minha turma, eu exijo respeito, se alguém disser uma palavrinha, eu já chego, já corto, já falo…Uma mulher casada não vai querer trabalhar num caminhão desses (desrespeitados). Um caminhão respeitado é mais fácil de lidar (depoimento colhido em 1990).
Caminhão respeitado é mais fácil de lidar, ou seja, de controlar. As práticas de controle moral e da sexualidade vigentes no caminhão e no eito, inserem-se na cadeia disciplinar, que sustenta as relações de poder. Do mesmo modo, a exclusão de mulheres bagunceiras e enrabichadas constitui-se num verdadeiro dispositivo da sexualidade, segundo a análise foucaultiana. Por outro lado, há a punição de homens que falam palavrões, desrespeitando as mulheres. Aí reside a outra face das relações de poder, na medida em que não há um total esmagamento da personagem que figura no polo de dominada/explorada. As mulheres se empoderam e reclamam, o que mostra que a subalternidade não significa total ausência de poder, ainda que distribuído desigualmente (Saffioti, 1990: 2).
Outra faceta do caminhão pode ser observada nos momentos de greve, quando os feitores ficam na carroceria para evitar que eles/as falem sobre a greve. Durante as greves, os/as trabalhadores/as impediam que os caminhões saíssem dos pontos das cidades. Homens e mulheres grevistas subiam nas carrocerias e conclamavam os/as colegas a não irem para o eito. Era o momento em que elas e eles transformavam o caminhão em escudos, em pontas de lanças durante os confrontos com a polícia. No caso das mulheres, muitas delas eram chamads de vagabundas por estarem ali, conclamando à greve, pois, ali era lugar de homens. Assim, o caminhão é um espaço social, onde se produzem o poder, a dominação e a experiência, como faces contraditórias de um mesmo processo social.
Notas
[i] Texto extraído do artigo: SILVA, Maria Moraes. (1992). Mulheres boias frias a caminho do eito. In: BRUSCHINI, C.; COSTA, A (Orgs.). Entre a virtude e o pecado. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos Chagas, p. 147-168.
[ii] Com base nos achados de pesquisas realizadas nos finais da década de 1980 e início da década seguinte. Com o acordo de Guariba (1989), resultante de uma greve que atingiu várias regiões do estado, as empresas foram obrigadas a usar os ônibus (RURAIS) para o transporte de trabalhadores rurais, muitos dos quais, em condições precárias. Enquanto escrevia este texto, houve a notícia de um acidente com trabalhadores maranhenses, com sete mortos e dezenas de feridos em estado grave, que se destinavam à colheita de maçãs em Santa Catarina. Segundo a reportagem, o ônibus não possuía licença para trafegar. Acesse aqui.
[iii] Em Bebedouro, no dia 12 de abril de 1982, morreram 20 pessoas num acidente de caminhão que transportava trabalhadores rurais. Outros números foram registrados. Em Araraquara, 1976: 19 mortos; Presidente Vesceslau, 1980: 11 mortos; em Monte Alto, 17 de março: 1 morto (Maria Helena da Silva, 16 anos); Boituva, final de março: 1 morto (Maria Roseli Alves); em Matão, 14 de abril: acidente, sem vítimas; Santa Vitória (MG), 1 de abril: 2 mortos. A maioria dos acidentes, inclusive com grande número de mortos, não chega ao conhecimento da opinião pública.
Referências
BOURDIEU, Pierre. (1979). Remarques provisoires sur la percepcionsociale du corps. Actes de la recherce. Paris, N, 14, p. 51-54.
FOUCAULT, Michel. (1983). Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes.
POLANYI, Karl. (1980). A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus.
MARTINEZ-ALLER, Verena. (1977). As mulheres do caminhão de turma. In: PINSKY, J. (Org.). Capital e trabalho no campo. São Paulo: Hucitec, p. 69-100.
MBEMBE, Achille. (2022). Brutalismo. São Paulo: Edições n-1.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. (1990). Rearticulando gênero e classe social. Texto apresentado no GT “Relações Sociais de Gênero”, XIV Encontro Anual da ANPOCS.
SILVA, Maria Moraes. (1992). Mulheres boias frias a caminho do eito. In: BRUSCHINI, C.; COSTA, A (Orgs.). Entre a virtude e o pecado. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos Chagas, p. 147-168.
