BVPS | Ainda há tempo: múltiplas vozes

A BVPS traz um conjunto de comentários sobre o livro Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro, de Nísia Trindade Lima, recém-publicado pela editora Civilização Brasileira. O livro, como ressaltamos no booktrailer que lançamos, é profundamente marcado pelas qualidades de escuta e diálogo, características bem conhecidas da autora. Ao se fazer narradora, Nísia Trindade conseguiu recuperar, analisar e narrar a experiência da pandemia de covid-19, trazendo sua vivência ímpar, que fez toda a diferença para a sociedade brasileira, na presidência da Fiocruz e, posteriormente, na reconstrução do Ministério da Saúde. Porque fez e faz de sua voz muitas vozes, nosso propósito, nesta ação que hoje se inicia, é reunir múltiplos diálogos em torno do seu importante livro.

Damos início com comentários de Lilia Schwarcz (USP), Manoel Barral-Netto (Fiocruz), Luiz F. D. Duarte (UFRJ) e Gulnar Azevedo (Uerj).

Ao longo das próximas quartas-feiras, publicaremos comentários de diferentes leitoras e leitores, que ajudam a ampliar e aprofundar as questões suscitadas por esta obra tão necessária ao nosso tempo.

Boa leitura!


Sobre memória, testemunho e dádiva

Por Lilia Schwarcz (USP)

Uma longa tradição de estudos vem discutindo a importância dos escritos de memória e acerca do lugar da testemunha. Esse tipo de reflexão atravessa vários textos de Hannah Arendt, como Eichmann in Jerusalem, quando a pensadora discute o papel dos testemunhos no evento de julgamento desse militar, assim como aborda a questão do trauma individual e da capacidade subjetiva de lembrar (Arendt, 1999). Para ela, essa é a condição de preservação da verdade: “Facts need testimony to be remembered and to survive.” (Arendt, 1968).

Primo Levi, ele próprio uma testemunha da guerra, propõe, paradoxalmente, que ninguém é testemunha “integral” do extermínio: “Nós, sobreviventes, não somos as verdadeiras testemunhas. […] As verdadeiras testemunhas, as testemunhas integrais, são aqueles que tocaram o fundo. Os que viram a Górgona não voltaram para contar, ou voltaram sem palavras.” (Levi, 1990). A testemunha continua para sempre marcada por uma falta, por uma impossibilidade de representar plenamente o horror. Nesse sentido, também Agamben acredita que “a autoridade da testemunha consiste no fato de que ela pode falar unicamente em nome de uma impossibilidade de falar.” É o indizível (Agamben, 2008).

Não há como esquecer do conceito de “memória de si”, de Foucault, e que está presente sobretudo nos últimos cursos e livros do filósofo, quando ele passa a estudar as “tecnologias de si” na Antiguidade greco-romana. Embora não empregado como conceito sistemático, ele se relaciona ao que o filósofo chama de “cuidado de si”.

A memória se converte, assim, em prática ética e política. Nos textos antigos — especialmente estoicos e epicuristas — lembrar-se de si significava exercer um trabalho contínuo de vigilância, reflexão e de transformação pessoal. O ponto central é que o sujeito se fabrica por meio de exercícios: atos de escrever diários e notas pessoais, ⁠de reler máximas filosóficas, ⁠ ⁠rememorar ações diárias, ⁠ ⁠dialogar consigo mesmo.  “Memória de si” não significa a introspecção psicológica moderna, nem o culto de uma autenticidade individual. É prática de constituição ética do sujeito – da “ascese”.

No Brasil, para citar apenas poucos nomes de uma longa relação, destaca-se o trabalho de Jeanne Marie Gagnebin, que dialoga diretamente com Walter Benjamin. Para ela, o testemunho assume um compromisso ético e político junto à memória. “Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro.” Além do mais, “o testemunho não é somente o relato de quem viveu um acontecimento, mas também o compromisso daquele que escuta e transmite essa experiência” (Gagnebin, 2006; Gagnebin, 2013). Assim, testemunhar significa resistir ao esquecimento.

Na área dos memorialistas médicos vale lembrar de Pedro Nava que, em sua obra, faz da memória um testemunho literário em que a experiência vivida é reconstruída narrativamente, articulando-se infância, formação social, observação médica, afetividade e fragmentação temporal (Nava, 2012).

Mas o exemplo que Nísia Trindade Lima evoca é o de Euclides da Cunha: o de um “livro vingador”. Autor que a socióloga conhece muito bem, ele vira inspiração para Ainda há tempo. Afinal, a socióloga é, ao mesmo tempo testemunha e protagonista da batalha encetada contra a pandemia da Covid e contra o negacionismo científico que se instalou no Brasil durante o governo Bolsonaro.

Na época, Nísia Trindade era presidente da Fundação Oswaldo Cruz – a fundamental Fiocruz; a principal instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina. Primeira mulher a presidir o estabelecimento, cargo que ocupou de 2017 a 2022, Nísia precisou vestir muitas camisas ao mesmo tempo, sobretudo as de socióloga e de sanitarista, para fazer frente ao período conturbado que testemunhou: liderou o centro na resposta à Pandemia, coordenou iniciativas como o Observatório Covid-19 e participou das negociações que permitiram a produção, no Brasil, da vacina Oxford–AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca.

Nesse sentido, e sob a batuta de Nísia, a Fiocruz cumpriu papel estratégico não só no desenvolvimento tecnológico da vacina, como na sua fabricação em larga escala e na própria transferência de tecnologia. Por conta de tantos méritos, seus e da instituição que presidia, em janeiro de 2023 foi também a primeira mulher a dirigir o Ministério da Saúde. Durante sua gestão, a Ministra atuou no sentido de recuperar as coberturas vacinais; fortalecer o Sistema Único de Saúde; ampliar o acesso a medicamentos e exames e reconstruir programas de saúde pública. 

Em fevereiro de 2025, ela deixou o Ministério da Saúde, e foi nesse tempo curto, de lá para cá, que Nísia escreveu esse seu novo livro que traz suas memórias enquanto gestora na área da saúde, mas também como mãe, avó, amiga e cidadã do Brasil. Nele, ela reflete sobre o passado, mas não desiste de pensar no futuro. Aí transparece a pensadora ativista e a ativista pensadora; a socióloga que reflete sobre o país, a sanitarista que sabe que um dos pilares da República precisa ser a saúde pública de qualidade – sobretudo em um país tão desigual como o nosso.

A despeito de esse ser um “livro testemunho”, ele não apresenta uma história evolutiva ou triunfalista. Nísia socióloga não se dá ao luxo de suspender o cobertor da crítica quando analisa a sua própria atuação enquanto sanitarista. Dividido em duas partes, Ainda há tempo trata, primeiramente, da resposta à Covid-19 no Brasil. Para isso, ficamos conhecendo a atuação da autora à frente da Fiocruz e diante da crise global da saúde. A presidente foi protagonista dessa verdadeira cruzada científica, quando, diante da emergência sanitária, se deu um encontro virtuoso entre pesquisa e inovação.

Nísia mostra, porém, como ciência, sozinha, não resolve crise. De um lado, ela explica a importância da “sociedade em movimento”, das iniciativas de vários coletivos, que também buscaram mitigar a desigualdade social expressa, dessa vez, na área da saúde. Por outro lado, corajosa, a socióloga revela como governos podem construir, mas também destruir projetos de saúde pública – e precisam ser responsabilizados por isso.

Acompanhamos então os ataques que cientistas e pesquisadores sofreram nessa saga da vacina. Lemos sobre o colapso de Manaus, as sabotagens do governo Bolsonaro, e a escalada de mortes que atingiu, especialmente, as populações mais vulneráveis. Vemos nomes de cientistas virarem temas de almoço e jantar, sendo publicamente reconhecidos. É comovente o exemplo do neto Bento, então com 4 anos, que dá de presente de aniversário para a avó um tubo de ensaio e pede que ela faça a vacina.

Essas são facetas desse trauma que dividiu a humanidade em um “antes e depois” da Pandemia – isso a despeito de o final da emergência sanitária não anunciar uma “nova normalidade” – como tanto se comentou à época. Ao contrário, vimos renascer um mundo em muitos sentidos, menos coletivo, aberto a guerras e mais voltado para uma cidadania do “eu sou mais eu” e não do coletivo.  “Poderia ter sido diferente”, desabafa a sanitarista ativista; a socióloga que pensa o Brasil e lamenta as vidas perdidas.

Na segunda parte do livro sentimos ainda mais o pulso da pensadora, quando Nísia passa a se perguntar sobre o futuro e reafirma seu compromisso com a equidade social. Ela empresta, então, o conceito de “fato social total” de Marcel Mauss e assim analisa a Pandemia:  como um daqueles raros eventos que movimentam toda a sociedade. É nesses termos que inclui, ainda, o conceito de “interdependência” e passa a mobilizar diferentes áreas também afetadas em termos de prognósticos, ações e esperanças.

Em primeiro lugar, Nísia reafirma sua concepção de que pensar saúde pública significa apostar na democracia e no papel da sociedade e do social. Nessa mesma direção, enfrenta os desafios socioambientais de nosso tempo e argumenta que projetar o futuro implica investir nessas relações de “interdependência”.

Nísia Trindade Lima convoca, assim, a tradição dos cientistas sociais ativistas, que podem, a nível do desejo, se dar ao luxo de serem otimistas ao imaginar futuros diferentes. Mas, como sociólogos e profissionais da saúde, se encontram obrigados a duvidar e a inquirir o porvir.

Testemunho, no caso dessa obra, deixa de ser apenas um relato individual, até porque envolve memória coletiva, reconhecimento público, produção da verdade histórica e reconstrução do tecido social. O próprio conceito de “fato social total” recebe aqui uma derivação um pouco distinta. É certo que Mauss mobiliza simultaneamente diversas dimensões da vida social. Explica o antropólogo que “esses fenômenos sociais ‘totais’, como propomos chamá-los, exprimem-se ao mesmo tempo e de uma só vez todas as espécies de instituições: religiosas, jurídicas e morais — estas sendo políticas e familiares ao mesmo tempo —, econômicas — supondo formas particulares de produção e de consumo, ou antes, de prestação e distribuição —, sem contar os fenômenos estéticos e os fenômenos morfológicos que essas instituições manifestam” (Mauss, 2003: 187).

Mas “total” não significa “absoluto” ou “o que explica tudo”. Significa que determinado fenômeno atravessa diferentes dimensões da vida coletiva, simultaneamente; incluindo-se nelas a dádiva. Dessa maneira, o dom alcança relações de parentesco, obrigações jurídicas, prestígio político, crenças religiosas, valores morais, rituais e simbolismos.

Essa é a “lógica da dádiva” – parte fundamental desse conceito. Para Mauss, ela seria regida por três obrigações – dar, receber e retribuir – as quais criam e mantêm relações sociais. O essencial não é somente o objeto que circula, mas o vínculo produzido por essa circulação. Em outras palavras, a troca de presentes é um mecanismo de produção da vida social.

Nesse sentido, Ainda há tempo talvez não seja “apenas” um “livro vingador”. Afinal, o testemunho de Nísia pode ser compreendido como uma dádiva no sentido de produzir reconhecimento das vítimas; fundamentar processos judiciais; contribuir para a escrita da história; mobilizar afetos e responsabilidades éticas; influenciar políticas de memória; fortalecer identidades coletivas.

Como sugere Paul Ricoeur, leitor de Mauss, certas formas de reconhecimento podem ser pensadas à luz da própria eficácia da dádiva e assim oferecer um testemunho que, ao mesmo tempo, significa um dom ao espaço público, ao passo que acolhê-lo e preservá-lo constitui uma forma de reciprocidade ética (Ricouer, 2004: 387).

O argumento central é que o reconhecimento entre sujeitos não se reduz à luta por protagonismo. Ele também se constrói por meio de gestos de reciprocidade e dádiva. “A experiência da dádiva oferece um modelo de reconhecimento mútuo”, explica ele, enquanto o testemunho envolve um pacto de confiança – pressupõe uma relação ética entre quem fala e quem escuta (Ricouer, 2006; Ricoeur, 2007).

Por isso, talvez a chave explicativa de Ainda há tempo esteja em sua epígrafe retirada da fala do diretor de teatro, Hugo Rodas, que encenou um movimento político-afetivo para recuperar pessoas soterradas pelas estatísticas apavorantes da mortalidade por Covid-19. Declarou ele que “quem partiu é o amor de alguém”.

Nísia refaz justamente esse pacto e, com ele, retribui a dádiva que há de nos unir para diminuir as desigualdades sociais brasileiras que não permaneceram no passado, mas insistem em se apresentar na lógica do presente.  

Referências

AGAMBEN, Giorgio. (2008). O que resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo.

ARENDT, Hannah. (1968). Between Past and Future: Eight Exercises in Political Thought. New York: The Viking Press.

ARENDT, Hannah. (1999). Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras.

FOUCAULT, Michel. (1984). História da Sexualidade 2: O Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Graal.

FOUCAULT, Michel. (1985). História da Sexualidade 3: O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal.

FOUCAULT, Michel. (2004). A Hermenêutica do Sujeito: curso no Collège de France (1981–1982). São Paulo: Martins Fontes.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. (2006). Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. (2013). História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva.

LEVI, Primo. (1990). Os afogados e os sobreviventes. São Paulo: Paz e Terra.

MAUSS, Marcel. (2003). Ensaio sobre a Dádiva. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify.

NAVA, Pedro. (2012). Baú de ossos. São Paulo: Companhia das Letras.

RICOEUR, Paul. (2004). Parcours de la reconnaissance: trois études. Paris: Éditions Stock.

RICOEUR, Paul. (2006). Percurso do reconhecimento. São Paulo: Loyola.

RICOEUR, Paul. (2007). A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp.

Sobre a autora

Lilia Moritz Schwarcz é Professora sênior do Departamento em Antropologia Social (USP), Global Scholar e Professora visitante em Princeton, (desde 2009), Affiliated Scholar Brazil Lab, e Doutora Honoris Causa pela UBA. É editora da Companhia das Letras, Pesquisadora Senior do CNPq, Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República e Membro da Academia Brasileira de Letras (desde 2024).


Memória contra o esquecimento: resenha de Ainda há tempo…, de Nísia Trindade Lima

Por Manoel Barral-Netto (Fiocruz)

Ainda há tempo… não é um livro de memórias no sentido convencional. É um ensaio sociopolítico construído a partir de uma posição de observação incomum: Nísia Trindade Lima presidiu a Fiocruz no auge da pandemia da covid-19 e, na sequência, chefiou o Ministério da Saúde no período de reconstrução. A obra não se propõe a narrar bastidores; assume-se como testemunho de socióloga, sanitarista, gestora pública e cidadã politicamente engajada sobre um dos episódios mais graves da história recente da saúde pública brasileira.

A autora abre o livro tratando a pandemia como um evento capaz de dividir o tempo social em um antes e um depois, mas relembra o risco do esquecimento coletivo diante de novas emergências, guerras e da erosão da confiança nas instituições. Nessa perspectiva, memória não é apenas tema: é condição para avaliar decisões, reparar quem foi afetado e imaginar futuros mais equitativos – o oposto da naturalização das mortes e da desinformação que marcaram o país naqueles anos.

Nísia é explícita quanto a não pretender neutralidade. Rejeita uma objetividade dissociada de posicionamento político, mas preserva o rigor metodológico das ciências sociais. Essa combinação – compromisso normativo e disciplina analítica – faz do livro, simultaneamente, um registro contra o esquecimento e uma interpretação do Brasil na pandemia, com atenção às relações entre Estado, ciência, desigualdade e democracia.

André Botelho chamou o livro de “experimento de inovação de escrita”, descrição precisa. Diante de um tema multidimensional – gestão institucional, políticas de saúde, diplomacia científica, disputas de conhecimento, afetos coletivos – e de um protagonismo imposto pelas circunstâncias, não havia forma pronta de narrar. A solução foi uma escrita por heterônimos: a autora fala como socióloga, como presidente da Fiocruz, como ministra, como mulher e cidadã, explicitando a ideia de plures auctores in uno. O resultado foge à autobiografia linear e se aproxima do ensaio biográfico-sociológico, em que trajetória pessoal e processos coletivos se entrelaçam sem recair no heroísmo individual.

A primeira parte reconstitui as ações da Fiocruz no enfrentamento da covid-19. Nísia narra a reviravolta política que a levou à presidência da instituição, em meio ao impeachment de Dilma Rousseff, à ascensão de Michel Temer e ao avanço de agendas que atingiam diretamente o financiamento da saúde e a autonomia das instituições de pesquisa – incluindo a tentativa de nomear outra candidata contra o resultado da consulta interna, revertida por mobilização de comunidades científicas e movimentos sociais. O episódio ilustra como mecanismos de participação interna podem funcionar como barreira contra tentativas de captura autoritária de uma instituição pública.

O livro situa esse enfrentamento em uma trajetória institucional mais longa, do Massacre de Manguinhos na ditadura militar à reconstrução democrática liderada por Sergio Arouca e outros nomes da reforma sanitária – processo que consolidou a Fiocruz como laboratório de políticas públicas e espaço de encontro entre ciência e cidadania. Esse capital histórico é apresentado como recurso decisivo para enfrentar a crise, da chegada do novo coronavírus, em janeiro de 2020, à catástrofe sanitária que se seguiu: em março de 2022, o Brasil concentrava 10,7% das mortes por covid-19 no mundo, com cerca de 2,7% da população global, dado que a autora associa diretamente a escolhas políticas equivocadas e ao negacionismo científico do governo federal – promoção de remédios ineficazes, recusa de medidas não farmacológicas, deslegitimação da vacinação e disseminação de desinformação.

O capítulo sobre a vacina é um dos mais relevantes para quem acompanha política de inovação e o complexo industrial da saúde. Ao descrever a encomenda tecnológica e a transferência da vacina Oxford/AstraZeneca para Bio-Manguinhos, Nísia mostra como decisões aparentemente técnicas – escolha de parceiros internacionais, cláusulas de propriedade intelectual, capacidade produtiva – estão imbricadas em disputas políticas internas e externas. E que garantir a vacina não bastava: era preciso vencer resistências culturais, desigualdades territoriais e a desconfiança na ciência para transformar a imunização em bem público universal, tensão que o livro conecta ao capítulo sobre negacionismo médico e à CPI da Pandemia.

Um dos eixos mais fortes da obra articula pandemia, desigualdades históricas e gênero. A autora retoma o fato de o Brasil ter sido o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, sem qualquer política de reparação – marca que segue produzindo desigualdade social e racial e que, no argumento do livro, funciona como determinante ativo de quem corre mais risco e de quem tem acesso a serviços de saúde. O SUS aparece, nesse quadro, como um dos espaços públicos mais estratégicos para refundar a sociedade brasileira, testado ao limite pela pandemia e, ao mesmo tempo, reafirmado como política de Estado. No plano de gênero, Nísia relata, a partir de sua experiência como a primeira mulher a presidir a Fiocruz e a chefiar o Ministério da Saúde, episódios em que sua formação em sociologia foi usada para questionar sua autoridade em temas de saúde – expondo a persistência do machismo institucional.

A segunda parte desloca o olhar para os desafios futuros e analisa o Acordo sobre Pandemias, aprovado pela Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2025, reconhecendo avanços na institucionalização de compromissos internacionais de prevenção, mas mantendo em aberto a questão da equidade – tema que a autora conecta ao acesso a vacinas, à propriedade intelectual, ao financiamento de sistemas de saúde e ao acordo TRIPS. Sua conclusão é a de que mecanismos formais de cooperação não bastam sem enfrentar assimetrias históricas entre países centrais e periféricos. O livro amplia, ainda, o horizonte para os desafios socioambientais, situando a covid-19 dentro de um quadro mais amplo em que saúde, biodiversidade e clima formam uma tríade de emergências interdependentes.

O capítulo final, “Saudades do futuro”, retoma a ideia de Klaus Eder de que as sociedades aprendem, mas o mundo é difícil de mudar, para perguntar até que ponto o trauma da pandemia pode se converter em mudança concreta na organização da vida coletiva. A resposta não é um otimismo ingênuo, mas uma tentativa de equilíbrio entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão: mesmo sem garantias, é preciso assumir responsabilidades públicas e apostar em processos cumulativos de aprendizado institucional e social. Podemos assumir que o otimismo venceu em Nísia, pois o livro termina com uma espécie de vade mecum: fortalecer o SUS, preparar o Brasil para novas pandemias, reconstruir a confiança na ciência, enfrentar o negacionismo e unir memória e projeto político em chave democrática. Ou seja, escrever não apenas para registrar o que aconteceu, mas para convocar leitores e instituições à tarefa de transformar o futuro enquanto ainda há tempo.

Sobre o autor

Manoel Barral-Netto é pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz – Fiocruz Bahia, e membro titular da Academia Brasileira de Ciências.


Um prêmio à revolta. Comentário sobre Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro, de Nísia Trindade Lima.

Por Luiz F. D. Duarte (UFRJ)

Quando se sentia tentado a misturar diretamente sua confidência às mil vozes dos pestilentos, era contido pelo pensamento de que não havia um único de seus sofrimentos que não fosse ao mesmo tempo o de todos os outros – e que, em um mundo em que a dor é quase sempre solitária, essa era uma vantagem. Com toda certeza, ele deveria falar em nome de todos (Camus, 1947: 291, minha tradução e meu negrito).

Não é em vão que trago, desde já, a lembrança de Albert Camus ao comentar o livro que Nísia Trindade Lima nos oferece agora. Durante toda a fascinada leitura que este impõe, sempre me voltava à mente a lembrança das lições recebidas ainda jovem ao ler as obras daquele autor. Eis por que logo aporto a ideia de “revolta”, essencial em A Peste, assim como em Ainda há tempo. Lá era categoria explícita, inscrita em um programa filosófico severo, seguindo-se ao “absurdo”, magistralmente tratado em O Mito de Sísifo. Aqui ela se faz adivinhar – com toda a sua força – sob a elegância da escrita de Nísia, sob a clareza de sua recuperação histórica e memorialística, sob a cuidadosa panóplia dos eventos e das instituições, sob a polida e bem-vinda insistência nas ameaças a esconjurar e nos valores a preservar e promover.

Um livro como este, em que a revolta latente se transmuta, a cada página, em informações preciosas, em justas análises, em luminosos conselhos, é um desafio para os comentadores. O risco de um mero panegírico nos espreita facilmente. Felizmente, ao lado dessas qualidades gerais inestimáveis, percebo alguns nódulos temáticos que me tocam mais de perto e que me permitirão dizer alguma coisa de mais vivo a partir da obra.

Isso não significa desdenhar da referência inicial a algumas das qualidades mais marcantes da obra. A primeira é, provavelmente, a do tesouro de informação que aí se sistematiza sobre dimensões críticas da relação moderna entre a nação brasileira e a saúde. A história da Fiocruz da década de 1980 à de 2020 é um ponto de vista privilegiado para a compreensão de todo o panorama da saúde coletiva no Brasil, incluindo a criação do SUS e os avanços de sua institucionalização – até os retrocessos sofridos nos governos Temer e Bolsonaro. Mas também está aí, intensificada nos últimos anos, a história dos acordos, convenções e institucionalidades do sistema internacional, em que a Fiocruz e o Brasil como um todo desempenham um forte protagonismo. Quem mais nos poderia ter fornecido um quadro tão vivo e tão minucioso desses intrincados processos, senão essa participante privilegiada dos desafios, dramas e sucessos dessas sagas essenciais para nossas vidas?

Mas o coração do trabalho é a epopeia-thriller da luta pelas vacinas e pela vacinação no quadro da pandemia da covid-19. É ela que ilumina, com suas inquietantes refrações, todo o quadro do livro: uma ameaça sanitária radical envolta em uma ameaça política espantosa. O que mais surpreende não é rever a crueza daquela experiência, mas perceber como – no meio das piores circunstâncias – ainda se pôde canalizar com sucesso esforços de monta e se contrapor à morte física e à morte moral campeantes. Mas a que custo!

Nísia é impecável em sua apresentação generosa de todas as pessoas que – em tantos níveis e situações – estiveram congregadas para atingir aqueles fins. Remete à cuidadosa pesquisa que registrou as experiências de muitos de seus companheiros dessa viagem, além de suas próprias memórias e anotações. É aí que surgem as especulações morais sobre o que sustenta tão ingentes lutas. Pergunta-se sobre o sentido de um “heroísmo”, substitui-o pelo sentido de uma “coragem” (“força propulsora de vida”), envelopa tudo numa “esperança” que alenta. Sim; mas resta a singularidade de sua persistência, de seu faro político, da absurda permanência da revolta. Sim: “É preciso imaginar Sísifo feliz”, como nos lembra Camus. Talvez seja a isso que Nísia se refira, mais ao fim de seu “manifesto político-afetivo”, como uma “leveza” – como a do pássaro, e não a da pena, ao citar Valéry…

Quase como contrapeso ao risco de idealização da luta pessoal, encontra-se no livro um elogio constante da “institucionalidade”, de como nada pode avançar na vida coletiva sem a armação de quadros institucionais consequentes – como demonstra com o próprio “projeto institucional” da Fiocruz, ou como demanda em relação ao sempre crucial SUS, ou ainda na defesa da multilateralidade internacional e de seus órgãos ativos.

A demonstração do quanto a desigualdade social – ainda mais na forma violenta que caracteriza nosso país – está na raiz de todo sofrimento e de todo adoecimento coletivo é lição indelével, provavelmente a mais analítica e severa das que oferece Nísia sob as tramas acontecimentais.

Entre meus interesses de pesquisa nos últimos anos, tornou-se central a questão do populismo de direita, esse que insufla os movimentos antidemocráticos da política brasileira há pelo menos uma década. Ele se encontra ativo a cada momento na saga de Nísia, nos valores e práticas detestáveis do “negacionismo”, da “anticiência”, do “hiperindividualismo”, do “neoliberalismo”, do “desmantelamento” da estrutura do Estado, do desprezo pelas convenções públicas lastreadas em evidências e construídas sobre bases democráticas.[1] Ela se inquieta com o sentido dessas forças e se pergunta: “que condições propiciam o aparecimento de médicos negacionistas?” (p. 233). Levanta, a esse propósito, as hipóteses mais evidentes de “alinhamento ideológico, interesses econômicos e busca de protagonismo e fama” (p. 234), mas percebe que há algo mais profundo em jogo. Seu declarado interesse nas condições morais em que se desenvolve a ação individual no emaranhado da história encontra perfeito eco no que me levou a analisar a emergência da “pessoa fascista”, seja na literatura psicossociológica clássica (Marx, M. Weber, Le Bon, Freud, Adorno), seja na literatura de ficção (Sartre), seja na bibliografia abundante que se tem debruçado sobre o exuberante caso brasileiro, ou sobre as recorrentes manifestações internacionais contemporâneas.

Em trabalho não muito distante, formulei algumas hipóteses que poderiam ser úteis na resposta à indagação de Nísia (Duarte & Martínez-Moreno, 2024). Trago delas apenas uma, mais genérica, quiçá: a do “ressentimento”, que anima os segmentos sociais que se percebem como subjugados ou “humilhados” pelo poder-saber das “elites” políticas e intelectuais (visto – sob a forma de um conspiracionismo – como aliado de altos e espúrios interesses políticos e econômicos). Não é nenhuma novidade: já Marx descrevia esse efeito psicossocial no lumpemproletariado de O 18 Brumário; já Weber o percebia (e nomeava) nas competições entre frações da Reforma na Europa. O que é notável é como isso emerge palpável nas manifestações contemporâneas, das mais elaboradas, como as de Olavo de Carvalho, Steve Bannon ou Aleksandr Dúgin, até as miseráveis autoridades dos governos Trump ou Bolsonaro, arrogantemente desafiadoras dos saberes constituídos.

Isso vem sendo tão mais desconcertante quanto se insinua sob um dos principais processos de democratização da governança no Brasil, como o do chamado “controle social” ou das “audiências públicas”. Nísia cita o exemplo de pesquisa coordenada por Deisy Ventura, que demonstra “a captura ideológica das audiências públicas por grupos em defesa de posições anticiência, além da atuação articulada da extrema direita (…)” (p. 291). Ela denuncia igualmente como uma “ideia populista de democratização” avassalou a comunicação virtual – tema da mais alta relevância, sobre o qual fiz uma revisão também no artigo citado.

O tema do populismo não deixa de ter relação – ainda que mais indireta – com outro, de meu mais vivo interesse, que reponta em Ainda há tempo. Trata-se do contraste entre o eminente e geral valor da interdisciplinaridade – horizonte de toda a carreira dessa socióloga doublée de sanitarista – e o permanente risco contido no fato de que – nos seus próprios termos – “apesar de todos os aprendizados, em geral os esforços interdisciplinares tendem a hierarquizar conhecimentos e a avaliar contribuições advindas de estudos das ciências sociais com parâmetros de outras áreas científicas, como as ciências biomédicas” (p. 301-302). Como me ocupei da representação das ciências humanas, durante longos anos, no combate renhido que têm livrado com as ciências biomédicas no tocante à regulamentação nacional da ética em pesquisa, regozijei-me com esse reconhecimento de alguém que – melhor do que ninguém – trafega nessa trilha do diálogo interdisciplinar. Não de qualquer diálogo interdisciplinar, mas desse que se tenta estabelecer com as ciências biomédicas.

No caso de Nísia, essa relação se deu no mais alto nível, nesse ninho de competência de pesquisa, atenção e administração em saúde que é a Fiocruz (e suas similares, nacionais e internacionais). A mim, infelizmente, coube a situação inversa, ao lidar com o sistema CEP/Conep[2] – onde os funcionários também se apresentam como representantes das ciências biomédicas, mas não passam de expressões de experiências menores, carreiras distantes da pesquisa, semelhantes possivelmente às dos profissionais médicos que se antepuseram às decisões dos pesquisadores qualificados congregados nos órgãos internacionais de controle da saúde, durante a pandemia. Ao invocarem – esses outros sujeitos – o valor da interdisciplinaridade, fazem-no em defesa de suas prerrogativas burocráticas, desprezando sistematicamente a experiência e os valores das ciências humanas. Embora tenha publicado diversas críticas a esse sistema espúrio e opressivo, não me havia ocorrido antes reconhecer também ali esse “ressentimento” que anima perigosamente os pequenos poderes e que tão insana influência teve na saga da pandemia.

Mas já – com isso – avanço para além da possível contribuição ao esclarecimento do quanto merece esta obra o mais alto prêmio: o de uma revolta que não se esgota na agitação palavrosa, mas que se configura como elevado exemplo do empenho e da dignidade da luta cívica. Afinal de contas, “há um país que precisamos construir. Ainda há tempo!” (p. 226).

Parafraseando o que lhe disse, Nísia, o Werneck, em momento glorioso (“Nísia, você nos representa!”), e parafraseando, ainda, o que Camus colocou na boca de seu Dr. Rieux em minha epígrafe: Nísia, você pôde, pode e poderá “falar em nome de todos”!!!

***

(…) o doutor Rieux decidiu então redigir o relato que aqui termina, para não ser daqueles que se calam, para testemunhar em prol dos pestilentos, para deixar pelo menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes haviam sido feitas – e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos humanos mais coisas a admirar que a desprezar (Camus, 1947: 295-6, tradução e negrito meus).

Notas

[1] Isso se concentra particularmente no segmento intitulado “Negacionismo como política e a CPI da Pandemia” (p. 231 e seg.), embora reponte novamente em “Desconfiança, ciência e democracia” (p. 348).

[2] A Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) foi um comitê do CNS, vinculado ao Ministério da Saúde, criado pela Resolução nº 196/1996, e que foi transmutado, por força da lei nº 14.874/2024, na INAEP (Instância Nacional de Ética em Pesquisa), em um formato que consolidou a subordinação da pesquisa de todas as ciências humanas à regulamentação da “pesquisa clínica”. Ver Duarte (2025).

Referências

CAMUS, Albert. (1947). La peste. Disponível em: https://archive.org/details/lapestealbertcamus/page/n297/mode/2up

DUARTE, Luiz Fernando Dias. (2025). A Lei nº 14.874/2024 e a subordinação oficial à bioética das ciências humanas e sociais no Brasil. Revista Ética na Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. v. 1, n. 1, p. 17-34. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/EPCHS/article/view/58395

DUARTE, Luiz Fernando Dias & MARTÍNEZ-MORENO, Marco J. (2024). The person in contemporary contexts of right-wing populism: an uncomfortable study. Vibrant – Virtual Brazilian Anthropology. v. 21, e211002. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/EPCHS/article/view/58395

Sobre o autor

Luiz F. D. Duarte é antropólogo e pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Ainda há tempo? Para quê?

Por Gulnar Azevedo e Silva (Uerj)

O recém-lançado livro de Nísia Trindade Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro traz a reflexão crítica de uma trajetória profissional marcante em cenários adversos. Nele não estão contidas apenas experiências, mas o que estas experiências trouxeram enquanto significado e aprendizado. Com muita competência e riqueza de detalhes, descrições de momentos decisivos são feitas e acrescidas das implicações e sentimentos por eles gerados. Há um esforço narrativo com honestidade intelectual e densidade histórica, de um período em que a vida institucional, da autora enquanto pesquisadora, sanitarista e gestora, sofreu forte tensão gerada por uma crise política sem precedentes no país. O resultado é um texto que interpreta e nos situa no tempo e nos remete às grandes questões da democracia, das desigualdades sociais e do futuro das políticas públicas.

Ainda na introdução, percebe-se que a força do livro está menos em construir uma narrativa de vitória pessoal do que em organizar, com clareza e responsabilidade, sua atuação à frente de uma instituição nacional que, há mais de um século, vem desempenhando um papel decisivo na busca de soluções para as grandes emergências sanitárias enfrentadas no Brasil. Não se trata de uma história triunfal, mas de um testemunho que reconhece as ambiguidades do poder, o peso das decisões em contextos de crises e a necessidade de agir sem perder de vista o compromisso com o coletivo. Nesse sentido, a obra tem um mérito raro: ela mantém a dimensão humana da liderança sem dissolver a complexidade institucional e política que a cerca.

A pandemia aparece como eixo condutor da narrativa, e não por acaso. Ela foi, para o Brasil e para o mundo, mais do que uma crise sanitária; expôs as fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas, organizou a imensa desigualdade dentro e entre os países, tornou visíveis assimetrias históricas e exigiu respostas rápidas em meio à incerteza. Ao acompanhar esse processo, o livro valoriza o trabalho técnico e científico, mas também evidencia que nenhuma resposta sanitária é neutra: toda política de saúde carrega escolhas, prioridades e projetos de sociedade.

Suponho que a questão mais marcante que inspirou Nísia a escrever este livro foi quebrar o silêncio. E ela descreve com muita propriedade que ele “é o pior adversário diante de traumas, ainda mais quando podemos considerá-los coletivos”. E acrescenta que as meias-palavras também trazem angústia, porém muitas vezes são necessárias para tomada de decisões. O silêncio não aparece como ausência de fala, mas como efeito de traumas coletivos gerados por pressões políticas. Este reconhecimento traz a dimensão ética essencial de que relatar não se limita à cronologia, mas exige ter coragem para nomear os conflitos, os impasses e as escolhas difíceis que precisaram ser tomadas.

O livro não se limita ao cenário nacional, mas dialoga com desafios internacionais e as dificuldades do multilateralismo para lidar com a cooperação, a equidade e a governança em escala mais ampla. Ao discutir os limites de abordagens excessivamente centradas em dimensões ecológicas isoladas, o livro recoloca no centro temas indispensáveis: desigualdades sociais, condições de vida, trabalho, organização dos sistemas de saúde e políticas públicas. Ou seja, situa a saúde em sua dimensão ampla e verdadeiramente coletiva.

A descrição do trabalho desenvolvido na presidência da Fiocruz, quando foi encarada a pandemia de frente, é rica em detalhes não só das questões trabalhadas, mas também das pessoas que participaram de cada passo. O que mostra que mais uma vez a Fiocruz se fez presente, honrou seu passado e confirmou sua missão. O potencial científico e técnico de uma coletividade enorme e complexa diante da pandemia de Covid-19 não foi uma tarefa simples e exigiu muito equilíbrio e cooperação.

A experiência na Fiocruz surge não apenas como trajetória profissional, mas como exercício de responsabilidade histórica diante de uma instituição que tem profunda vocação social. A Fiocruz é apresentada, com razão, como espaço de produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, como instância de intervenção sobre problemas concretos de saúde pública.

Fica claro que houve um reconhecimento desta capacidade de liderança, o que a fez ser convidada para o cargo de Ministra da Saúde. Escolha que, segundo a autora, “determinou, em grande medida, meu destino profissional, político e pessoal.”

A reflexão sobre “Uma Só Saúde” também merece destaque, sobretudo porque o livro não trata o conceito como solução automática ou fórmula pronta. Pelo contrário, ele sugere que qualquer abordagem integrada precisa preservar como prioridade a justiça social e a defesa dos sistemas universais de saúde. Assim, a autora define que enfrentar pandemias e outras emergências sanitárias requer articulação entre ciência, gestão e política e, sobretudo, a preocupação com os efeitos dos determinantes sociais na saúde das populações.

O livro é atravessado por uma ideia fundamental de que crises são também momentos de aprendizagem histórica. Há a compreensão de que, além do Estado, é necessário investir na capacidade de envolvimento da sociedade. O grande ensinamento a partir da experiência na gestão é que boas iniciativas não são suficientes. Faz-se necessário apostar na articulação entre elas e no diálogo e pactuação coletiva que promovam inovação na construção de políticas públicas.

O olhar para o futuro para enfrentar crises sanitárias não aparece como um otimismo ingênuo. Para transformá-lo é preciso reconstruir esperanças integrando ciência, gestão e compromisso social, mantendo como eixo central a defesa da democracia e a cooperação entre os povos.

Para Nísia é tempo de esperanças e projetos coletivos no Brasil e no mundo.

Sobre a autora

Professora do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro e atual reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.