
Depois de acompanharmos o caminhão dos boias-frias no primeiro episódio de sua participação na série Sociológicas, Maria Moraes (UFSCar) nos conduz agora ao eito, espaço onde o trabalho rural se realiza e se tornam visíveis as formas cotidianas de controle sobre os corpos das trabalhadoras. Aqui, a autora mostra como exploração econômica, patriarcado e racismo se constituem em organizações sociais distintas, que se entrelaçam na organização do trabalho agrícola. Desse entrecruzamento emergem diferentes formas de violência e enfrentamento: seja ao subir no caminhão, trabalhar no eito ou mandar embora os maridos agressores.
Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.
Boa leitura!
O trabalho no eito e a volta para casa
Por Maria Moraes (UFSCar)
Porque todos dias ao chegarem do campo à vila, onde, não obstante, preferem ser mais a mulher do que a “bóia-fria” do “caminhão de turma” elas, moças como as outras dos “bairros de cima”, sentem no vão da pele o peso da vergonha de passear nas ruas com facões, sacolas-volante e marmitas e tira-colo e serem vistas com roupas de guerra e de vergonha nos seus rostos de mulher, de gente. De maria (Brandão, 1982: 24).
Eito é também chamado de talhão ou talho, ou seja, uma parte das plantações delimitadas pelos carreadores, por onde circulam tratores e caminhões. O eito é o cenário do processo de trabalho. É, como já dito, uma palavra originária da escravidão. O momento da compra da força de trabalho ocorre na cidade e do consumo no campo. São dois espaços (fisicamente separados), mas interligados socialmente. Eito e cidade formam um todo indissolúvel onde se produzem a vida, o trabalho, o cotidiano, a aceitação e a recusa. O eito é o espaço da redução do trabalhador a tempo de trabalho, a trabalho abstrato.
Feitores, fiscais, empreiteiros (gatos), exercem um controle microscópico sobre os/as trabalhadores/as. A microscopia do olhar exige que o espaço seja pequeno, ou seja, o tamanho do eito de cada um/a precisa se adequar ao exercício do controle. A arquitetura do eito é pautada na divisão entre homens e mulheres, entre “os de fora” e “os do lugar”, entre os grevistas e os outros. Todos/as não podem ficar parados, ao contrário, é preciso mexer o corpo. Portanto há, ao contrário da fábrica, uma mobilidade constante, mas controlada.
Assim que descem do caminhão, o eito é distribuído pelos feitores, segundo os caracteres acima mencionados. Algumas mulheres, principalmente as “mocinhas”, “as meninas que aceitam as cantadas” dos feitores aceitam ser “suas amigadas” para conseguir os melhores eitos e aumento do salário. As que resistem aos assédios correm o risco de serem excluídas do trabalho ou até mesmo, irem para a “listas negras”, que circulam entre os agentes do controle de todas as usinas. Nestas listas estão os nomes de todos/as que reclamem, que fazem greve, que não conseguem atingir os níveis de produtividade exigidos. É o retrato do poder despótico das usinas e fazendas.
A forma utilizada pelos feitores ou empreiteiros para aumentarem o salário das mulheres que “aceitam as cantadas” (os assédios) era retirando parte da produção dos/as demais, já que a forma de pagamento era baseada na produção diária. Nos canaviais sempre vigeu a norma baseada na transformação de metros de cana cortada em toneladas. Esta norma era uma forma de fraudar a quantidade real de cana cortada, dado que os/as trabalhadores/as não tinham acesso ao quantum de metros de cana cortada convertido em toneladas, medida usada para o pagamento da produção diária. Logo, a burla não era contra as usinas e sim contra todos/as do respectivo eito.
Muitos testemunhos revelam que muitas dessas “meninas” se engravidaram dos feitores e empreiteiros, em razão dos assédios/violência frequentemente cometidos.

Fotografia: acervo da autora.
Durante a realização das pesquisas de campo, entrevistei muitas mulheres que mencionaram os assédios nos canaviais e laranjais, bem como a situação de vulnerabilidade das jovens que engravidaram. Muitas delas foram expulsas da casa dos pais e passaram a viver sozinhas em cômodos precários. Colhi também o testemunho de um empreiteiro que afirmou que no papo, eu consegui muitas delas.
Outra forma de controle era por meio da aplicação do gancho (ficar três dias impedida de trabalhar), o que implicava na diminuição do salário e, por consequência, no aumento das dificuldades de reprodução social. Sofrerem assédios, ficarem de gancho, irem para a lista negra, obrigadas a apresentarem atestado de esterilidade (prática ilegal), comprovando que não ficariam grávidas, serem obrigadas a usar a saia sobre a calça comprida, esconderem a gravidez sob as vestes, são os elementos do controle dos corpos e da sexualidade, além da exploração econômica e da extração do mais-valor. São corpos transformados em corpos-territórios do controle e dominação.
No período escravocrata, as mulheres escravizadas sofriam os abusos e violências dos patrões da casa grande. Muitas mulheres chegaram a afirmar que eram tratadas como escravas, outras, como gado, aliás, testemunho também de um médico ginecologista. Viviam sob o medo, medo de falar, de contar, de perder o emprego, de ser “mal falada”, de participar de greve, medo dos feitores, dos maridos, dos pais, da mãe, da “boca do povo”. Por isso, choravam em silêncio, com as mãos craquentas e as marcas no corpo e na alma, segundo as lentes de Murilo de Carvalho.
À desestruturação da ação comunicativa produzida por situações-limite geraram também reações e resistências. A dialética entre as relações de gênero e classe racializada pressupõe os antagonismos, a historicidade, as contradições e as recusas. Muitas foram as práticas instituintes desestruturantes das relações de dominação impostas (Silva, 1999; Medina, 2012). No eito, derrubavam a cana antes de ser cortada, prática proibida pelos feitores, dado que a rebrota da gramínea poderia ser comprometida. Deixavam as pontas da cana sem o cortei, prática também proibida, chamada por elas de deixar telefone. Deixar telefone é assim: você corta o pé da cana, joga na leira, depois você vem cortando. Era o jeito de fazer render o serviço. Outras se recusaram a assinar o gancho: não vou assinar e ninguém assinou. Corremos atrás do feitor e ele guardou o papel do gancho sem nossa assinatura, porque ele queria que as outras pessoas assinassem no meu nome.
A grande recusa ocorreu durante a maior greve de boias frias em 1984 em Guariba, o levante de Guaribaii, quando centenas de milhares de trabalhadores/as levantaram o podão nos canaviais e se dirigiram à cidade. Quem iniciou o protesto foi uma mulher negra que levantou o podão durante o trabalho e parou toda a turma, ato seguido por todas as demais.

Fotografia: acervo da autora.
Finda a jornada, ao descerem do caminhão, exaustas, em função do trabalho duro, experienciaram outro enfrentamento: quando chegavam em casa. Aí se iniciava a segunda jornada de trabalho: limpar a casa, preparar o jantar, lavar as roupas, pois, em virtude da cana queimada, as roupas ficavam impregnadas de fuligem, além do suor e do caldo da cana. No espaço reprodutivo, a dominação de gênero continuava, por meio da mulher assumir todas as tarefas domésticas, incluindo o cuidado dos filhos. Quanto aos homens, a grande maioria deles ao descer do caminhão, dirigia-se aos botecos do bairro para o consumo de bebidas alcoólicas. Ao chegarem em casa, com frequência, exerciam violência sobre as mulheres e filhos. Em virtude deste fato, muitas tomaram a decisão de viver sós com os filhos. Em minhas pesquisas, verifiquei que um terço dessas mulheres estava nesta condição: o homem da casa foi embora, eu preferi cuidar dos meus filhos, sozinha. Outras chegaram a me dizer: eu prefiro o eito do que o leito, pelo memos lá no eito eu não sou agredida, lá tenho minhas amigas, a gente conversa, esquece as tristezas.
*************
Nos dois primeiros episódios, o objetivo foi mostrar como se estruturaram as experiências dessas mulheres inseridas em relações de classe racializada e de gênero nos espaços do caminhão, do eito e da própria casa. A leitura desses espaços evidencia os mecanismos de controle e dominação de classe racializada e de gênero e também a afirmação de um possível. Também fica evidente que há uma transversalidade das relações de poder da classe racializada e do patriarcado. Desta sorte, capitalismo, patriarcado e racismo se constituem em organizações sociais distintas, porém, entrelaçadas. Por trás das relações de exploração/dominação, essas mulheres foram tecendo suas histórias de perdas, silêncios, negação, abandono, violência e também seus enfrentamentos, onde subir no caminhão, trabalhar no eito e mandar embora os maridos agressores são alguns exemplos.
A partir dos anos 2000, a demanda de trabalho nos canaviais se centrou principalmente nos migrantes provenientes do nordeste e do Vale do Jequitinhonha (MG). Aos poucos, as mulheres foram sendo alijadas da atividade do corte da cana e destinadas a outras funções, ainda mais desqualificadas e árduas, tal como mostrarei no próximo episódio. O fio de Ariadne nos encaminhará a outros labirintos…
Notas
i A maior parte da sacarose da cana se concentra na base. A exigência de cortar as pontas, ou ponteiros se deve ao fato de que nesta parte, o teor de sacarose é mínimo. Logo, deixar de cortar os ponteiros representaria acréscimo dos custos de transporte para as empresas. Daí a exigência de cortar um a um os ponteiros e não na leira (monte), pois as canas são cortadas, carregadas nos braços e lançadas nas leiras para serem recolhidas pelos guinchos e depositadas nos caminhões, que as transportam para as moendas das usinas. Deixar telefone significava deixar o ponteiro da cana, portanto, uma infração que poderia ser punida com o gancho.
ii No dia 15 de maio de 1984 ocorreu o chamado “levante de Guariba”, quando mais de 10 mil cortadores de cana se dirigiram à cidade de Guariba, destruindo o prédio da SABESP, saqueando supermercados e enfrentando a tropa de choque da polícia militar de Ribeirão Preto. Após cinco dias de confrontos, onde casas foram invadidas, trabalhadores presos e violentados pela polícia, um morto e dezenas de pessoas feridas, foi firmada a chamada carta de Guariba. Os principais pontos dessa carta foram: o fim do corte por meio da prática das sete ruas (fileiras de cana) que aumentava o esforço dos cortadores, registro em carteira e substituição dos caminhões por ônibus. O eito voltou a ser de cinco ruas.
Referências
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. (1982). Diário de Campo: A Antropologia como Alegoria. São Paulo: Brasiliense, .
MEDINA, Etore Dias. (2012). Vivendo vida rapina. Considerações sobre a presença das mulheres boias frias do caminhão de turma na literatura de Carlos Rodrigues Brandão e Murilo de Carvalho. Áskesis. v. 1, n. 2, jul/dez, p. 66-78
SILVA, Maria Moraes. (1999). Errantes do fim do século. São Paulo: Edunesp.
