BVPS | Ainda há tempo: múltiplas vozes

A BVPS traz um conjunto de comentários sobre o livro Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro, de Nísia Trindade Lima, recém-publicado pela editora Civilização Brasileira. O livro, como ressaltamos no booktrailer que lançamos, é profundamente marcado pelas qualidades de escuta e diálogo, características bem conhecidas da autora. Ao se fazer narradora, Nísia Trindade conseguiu recuperar, analisar e narrar a experiência da pandemia de Covid-19, trazendo sua vivência ímpar, que fez toda a diferença para a sociedade brasileira, na presidência da Fiocruz e, posteriormente, na reconstrução do Ministério da Saúde. Porque fez e faz de sua voz muitas vozes, nosso propósito, nesta ação, é reunir múltiplos diálogos em torno do seu importante livro.

Damos continuidade ao segundo post com comentários de Carlos Gadelha (Fiocruz), Carmen Felgueiras (UFF), Paulo Cassimiro (UERJ), Rossana Rocha (USP) e Rodrigo Jorge (UFF).

Ao longo das próximas quartas-feiras, publicaremos comentários de diferentes leitoras e leitores, que ajudam a ampliar e aprofundar as questões suscitadas por esta obra tão necessária ao nosso tempo.

Boa leitura!


Ainda há tempo de Nísia Trindade Lima

Por Carlos A. Grabois Gadelha (Fiocruz)

Acompanho a trajetória de Nísia Trindade Lima desde sua entrada na Fiocruz em 1986, marcada por sua inserção acadêmica no campo da sociologia e história, sua atuação institucional e seu compromisso com a luta por “um Brasil que falta” (mais uma de suas expressões-síntese cheias de significado), sempre na perspectiva de contribuir com a proposição de projetos políticos e ações concretas que permitissem melhor entender o nosso país…. para transformá-lo. Há, nesse percurso, um caminho, longe da linearidade, que vai da ciência para a realidade e para a ação e destas retorna ao conhecimento, avançando para novos desafios. Ciência, vida, transformação, política e desafio constituem parte inerente de sua história e de seus projetos de futuro, sempre se trasladando para uma perspectiva coletiva.

O livro Ainda há tempo funde testemunho, análise de um tempo crítico e dramático – o tempo pandêmico da Covid-19 – e a ação política com a perspectiva de construção de projetos de Brasil e de Mundo, algo tão necessário para enfrentar e lutar contra um longo processo de esgotamento de energias utópicas – tomando de empréstimo a visão de Habermas – que desembocou em movimentos distópicos, permeados por fragmentação, descrença, individualismo e perda da crença em projetos coletivos.

O livro, nesse contexto, constitui um precioso relato que evidencia como, mesmo nos momentos mais difíceis da política nacional e global, é possível construir projetos em que os interesses da sociedade se sobrepõem a uma ação individual e isolada em que os “de cima” pretendiam exercer seu privilégio, inclusive no direito à vida. À frente da Fiocruz no período mais desafiador de sua história recente, a autora mostra a força da ação coletiva ao assumir uma liderança no enfrentamento da Covid-19, na ausência da autoridade sanitária nacional.

Representa, ao mesmo tempo, a história da liderança exercida pela primeira mulher presidente da Fiocruz – isso precisa ser enfatizado, uma vez que a generosidade da autora não deve ofuscar o seu próprio papel, que devo ressaltar como um testemunho histórico. Liderança política e ação coletiva não são antíteses, mas sim dimensões necessárias para viabilizar respostas eficazes no âmbito da ação pública, como a pandemia evidenciou de modo avassalador, seja nas situações de fracasso – mais de 700 mil vidas perdidas! – ou de sucesso nas intervenções públicas – como a produção nacional de vacinas em tempo recorde!

Pude evidenciar essa síntese dialética entre a liderança de Nísia e a mobilização de uma ação coletiva quando a Fiocruz decidiu realizar a encomenda tecnológica de uma das vacinas mais promissoras, assumindo os riscos apontados explicitamente pelas autoridades federais da época (“a caneta é da Senhora”) para viabilizar a transferência de tecnologia e adquirir 100 milhões de doses de uma vacina ainda inexistente, que deveria ser paga mesmo em caso de fracasso. Assisti à sua resposta frente ao medo e às veladas ameaças permeadas por um sentimento antivacina e anticiência. Nísia afirmava, de modo muito claro, em minha precisa memória daquele momento, que “o maior risco nesse contexto é não assumir o risco para proteger a população” com uma vacina nacional, em um cenário que havia um verdadeiro mercantilismo e disputa desigual pelo acesso às vacinas e, portanto, pelo próprio direito à vida.

E mais. Coerente com a visão e a tradição da Fiocruz, foi defendido no debate público que a vacina “ou era para todos, de acordo com os riscos dos diferentes grupos de pessoas, ou não seria para ninguém”. A Fiocruz lutou tanto pela produção nacional da vacina – envolvendo também um amplo leque de ações de saúde pública e de comunicação e informação científica para a sociedade brasileira, descritas em detalhe no livro – quanto pela defesa da equidade, da garantia do acesso universal e republicano a um bem essencial à vida, seguindo os princípios norteadores do SUS.

Em uma leitura mais livre do sentido da obra, pode-se afirmar que Nísia Trindade avança, de modo implícito, na reflexão sobre o próprio Brasil, dando continuidade ao seu trabalho publicado pela primeira vez em 1999, Um Sertão Chamado Brasil, fruto da tese de doutorado defendida dois anos antes. Se neste trabalho anterior perpassa a recusa de uma visão dicotômica e estática entre a dualidade “litoral/sertão”, sendo, de fato, o “lugar da vida rústica” e sua relação com a “vida civilizada” nas regiões modernas um retrato do próprio Brasil, no Ainda há tempo a autora faz aflorar um processo de superação dialética em que a dimensão planetária e ecológica, a democracia, a questão da ciência e da soberania científica e tecnológica e a própria dinâmica do capitalismo global entram em cena de modo determinante. Na realidade, a partir da pandemia e incorporando sua tradição sociológica, a autora se vale dos conceitos de “fato social total” (Marcel Mauss) e de “interdependência” (Norbert Elias) para evidenciar que a situação pandêmica extrema aflora as contradições da sociedade em âmbito nacional, regional e global. A dinâmica capitalista em que a busca da valorização do capital se sobrepõe às necessidades humanas e planetárias emerge como a “causa causans” do processo descrito por Celso Furtado como de modernização com marginalização para caracterizar o (sub)desenvolvimento capitalista no Brasil e, por que não, do próprio do mundo dito “desenvolvido”, como a própria autora resgata na frase de Josué de Castro de que “o mundo continua sendo subdesenvolvido”.

A análise dos sertões transborda como símbolo e como espaço de vida que pode aparecer logo ali, ‘no final da Avenida Central’ — frase de Afrânio Peixoto, citada por Gilberto Hochman e resgatada por Nísia em seu livro anterior —; nas favelas, como mostram diversos de seus trabalhos; ou entre os excluídos das vacinas e das inovações tecnológicas disruptivas em saúde disponíveis apenas para algumas pessoas e para alguns territórios em meio a uma emergência sanitária global. É nessa perspectiva que a autora incorpora a questão da ciência, do avanço tecnológico e da inovação e do risco de reprodução da dependência no Complexo Econômico-Industrial da Saúde, como uma marca da necessidade de direcionar as forças produtivas da saúde a serviço da vida, social e planetária.

O livro Ainda há tempo é, em síntese, um testemunho histórico que reflete a dinâmica social, excludente e insustentável, de nosso tempo e, simultaneamente, oferece pistas, estímulos e energias para repensarmos nosso País e a vida planetária em um novo futuro que podemos construir. Fica evidente que a ação humana é capaz de construir soluções pautadas pela solidariedade e pela visão coletiva, contrapondo-se à naturalização das forças de uma modernização excludente. Todavia, também fica evidente que a participação da sociedade, a articulação política e o resgate da força do Estado para se contrapor às tendências existentes continuam sendo centrais para a mudança estrutural necessária. A sociedade e o planeta requerem essa força. Este livro nos enche de energia para continuar uma luta que não pode ser perdida. Ainda há tempo! Boa leitura!

Sobre o autor

Carlos Gadelha é Coordenador da Rede e Grupo de Pesquisa “Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Desenvolvimento Sustentável e Ciência, Tecnologia & Inovação”, CEE-ENSP/FIOCRUZ.


Para uma política de memória

Por Carmen Felgueiras (UFF)

“A memória é uma esponja. Absorve material de outros tempos e de outros lugares, derramando tudo sobre o momento em causa.” (Ian McEwan, O que podemos saber).

Muito provavelmente, Nísia Trindade Lima leu A peste de Albert Camus, romance sobre o flagelo que teria se abatido, na década de 1940, sobre a cidade de Oran, na Argélia. Passados mais de meio século do contato de nossa geração com a obra, as muitas semelhanças existentes entre a narrativa do século XX e a realidade vivida pela população mundial entre os anos de 2020 e 2022 impressionam. Contudo, o que se depreende da leitura de Ainda há tempo é que, para Nísia, esse é um enredo sem grandes novidades. Se ela o releu mais recentemente, deve ter constatado que o livro de 1947, desde uma perspectiva sócio-histórica de análise das doenças contagiosas, sintetiza “uma espécie de dramaturgia com enredo previsível”. (Trindade: 312).

Mas, como apreciar de outro modo as semelhanças entre ficção e realidade na incredulidade, no negacionismo, no despreparo das autoridades e órgãos governamentais, no altruísmo dos profissionais de saúde e dos voluntários, no uso de medicamentos e soluções fantasiosas e ineficazes, como o incentivo ao consumo de álcool pelos negociantes inescrupulosos de Oran - que nos faz lembrar de imediato o “tratamento precoce” por cloroquina e ivermectina de Jair Bolsonaro e a injeção de desinfetante de Donald Trump; nas semelhanças nas medidas de profilaxia e na procura da vacina, contestadas, em 2020, por teses como “a imunidade de rebanho” de Osmar Terra? Estão lá e cá a urgência da ação antes até da (necessária) compreensão - pois, perguntado, “O senhor está certo de que é peste?”, o médico Bernard Rieux, o narrador do romance, responde: “Não é questão de vocabulário, é questão de tempo” (Camus: 32); na despersonalização dos habitantes, reduzidos a números nas estatísticas oficiais; nas desigualdades sociais, que foram ampliadas pela epidemia/pandemia: “As famílias pobres achavam-se, pois, em situação muito penosa, enquanto às ricas não faltava quase nada” (Idem: 142); na sensação do exílio produzida pelo confinamento; na busca de saídas, reais e imaginárias: “Percebendo o perigo, deram-se aos prazeres. No crepúsculo ardente e empoeirado, a angústia que lemos nos rostos se transforma numa espécie de excitação feroz, numa desastrosa liberdade, e isto inflama a população” (Idem: 72), ou seja, “[q]uanto mais se estender a epidemia mais elástica a moral se tornará” (Idem); na miríade de dúvidas morais e dilemas éticos que foram vividos por personagens e gente de carne e osso, enfim.

Exemplares de gêneros discursivos diversos, A peste e Ainda há tempo enunciam uma pergunta comum:  O que podemos aprender com a doença? Não só como debelá-la, mas o que seu enfrentamento nos revela sobre a condição humana, sobre os homens e mulheres em sociedade e sobre nós próprios como indivíduos. Mais ainda, quero crer que as duas obras se inscrevem, conforme Nísia reivindica, em uma política da memória da saúde pública em plano nacional e internacional, que se faz necessária como aprendizagem para que possamos seguir em frente.

Assim, nesta chave de uma política de memória, duas questões tratadas em ambos os livros me parecem fundamentais.

A primeira é o modo como o próprio patógeno é representado.

 “Os outros dizem: – ‘é a peste. Tivemos a peste’. Só falta pedirem condecorações. Mas que vem a ser a peste? É a vida, nada mais.” (Camus: 184). Se a interpretação corrente de que A peste seria uma metáfora da guerra está correta, por outro lado, dado que, para o autor, a guerra é uma tolice humana, ela deixa de ser a única possível- sobretudo nesta passagem em que dá voz ao velho, personagem sobrevivente, para quem o bacilo é um ente isento de moralidade - nem malévolo por si nem instrumento de castigo divino.

Nísia é precisa neste ponto, ao destacar que, além de fenômeno biológico, a pandemia de Covid-19 é ao mesmo tempo um fenômeno social e político. As barreiras de transmissão de patógenos entre organismos humanos e não-humanos sempre foram tênues, ratos e homens, quando infectados, morrem do mesmo jeito, mas o desarranjo ambiental causado pelas sociedades humanas em todos os tempos e de forma progressiva, amplifica enormemente os riscos para todos.

Consequentemente, algo em que Nísia insiste bastante, a pandemia e as doenças coletivas em geral não são um assunto da área médica apenas. De certo modo, também para Camus, pois embora o protagonista e narrador do romance seja um médico, ele valoriza, nos limites de um romance, a solidariedade e as opiniões dos outros personagens no combate à peste -dando-lhe inclusive extrema densidade psicológica.

Mas isso é uma obviedade para cientistas sociais, ou seja, uma abordagem da pandemia em seus múltiplos aspectos, foi um ponto central na disputa política travada na Fiocruz desde sua primeira eleição para a presidência. A propósito, Nísia não se exime de expor os conflitos na construção institucional da Fiocruz e do SUS, tanto quando se refere ao contexto de ideias transformadoras sob a liderança de pessoas como Sergio Arouca e Hésio Cordeiro como à disputa em torno de recursos e a uma visão limitada da missão da própria instituição.

Se o vírus não é, em suas palavras, democrático, pois verificaram-se taxas de transmissão e letalidade muito maiores nos grupos sociais mais vulneráveis, sua contenção e cura passam necessariamente por formas democráticas de gestão e participação. Com isso, chegamos ao segundo ponto para a construção de uma política de memória, a recusa da heroicização dos agentes.

Diz Camus “Não é intuito do narrador, porém, dar às formações sanitárias mais importância do que tiveram. Muitas pessoas talvez cedam hoje à tentação de lhes exagerar o papel. Mas o narrador tende a crer que dar à belas ações importância demasiada equivale a render homenagem indireta ao mal” (Camus: 78). Mais adiante, completa: “não se trata aqui de heroísmo. Trata-se de honestidade. A ideia pode fazer rir, mas não há outro meio de lutarmos contra a peste. Honestidade.” (Idem: 99).

Diz Nísia, “não me considero heroína: apenas alguém com sentido de responsabilidade e compromisso político, que busca reunir as mais diversas competências nas equipes sob sua coordenação e que acredita na força da sensibilidade e da gestão democrática”. (Trindade: 160).

Honestidade, sinceridade, responsabilidade, compromisso, sensibilidade, democracia. Esses são alguns dos valores compartilhados pelos personagens de A peste e pelos incontáveis participantes da luta contra o vírus SARS-CoV-2, coordenados por Nísia, e que, antes que movidos por interesses pessoais, engajaram-se em um contexto bastante adverso para assumir a sua responsabilidade pública, pois, como afirma Jürgen Habermas em seu último livro Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a política deliberativa, “a sociedade civil só pode assumir o papel de uma espécie de sistema de alerta antecipado para a política se produzir os atores que, na esfera pública, organizam a atenção dos cidadãos para os temas relevantes.” (Habermas: 45).

Para concluir, há um último ponto em que, para além das semelhanças, ficção e realidade se afastam completamente. Ausente de A peste, a perversidade humana se revela no testemunho circunstanciado de Nísia de sua trajetória de combate à Covid-19 no governo Bolsonaro.  Seu diagnóstico recusa as clivagens fáceis entre partidários de campos ideológicos opostos: “não é possível afirmar que a divisão entre esquerda e direita implique maior ou menor adesão a orientações científicas. (…) O que ocorreu no Brasil foi muito além de um posicionamento de direita, demonstrando total descaso com a vida da população e falta de visão de proteção econômica efetiva, só possível com o enfrentamento adequado da pandemia, e não com sua negação” (Trindade: 195). Assim, não houve como omitir fatos ou se manter isenta diante da “partidarização de um bem público”, da “gestão desastrosa e desumana” (Idem: 208), “de um projeto político de preservação do poder e desprezo pela proteção da vida”. (Idem: 256) que lançou mão com grandes doses de cinismo de veiculação de mentiras e desinformação deliberada sobre a doença e do ataque à reputação dos trabalhadores das instituições públicas de saúde.

A rememoração desses e de outros malfeitos empresta um tom dramático à passagem: “A despeito de todos os obstáculos relatados e de termos vivido um ano sob tanta pressão, o acolhimento à vacinação foi um fato extraordinário.” (Idem: 208)

Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro dialoga com a sociedade brasileira, mas sobretudo com os negacionistas e os fatalistas. “Vejam a monumentalidade do que foi feito” parece dizer. “Ainda há tempo para ações de prevenção, preparação e resposta para uma próxima pandemia e outras catástrofes de grandes proporções”.

Metafóricas ou não, as últimas linhas de A peste confirmam o temor de Nísia e servem para reforçar as suas advertências: “a multidão festiva ignorava o que se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece, fica dezenas de anos a dormir (…) e chega talvez o dia em que para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz. (Camus: 185).

No entanto, o impressionante esforço coletivo materializado em trabalho e conhecimento acumulado, descrito com zelo e minúcia por Nísia Trindade Lima, é um alento para os que defendem valores como equidade e solidariedade como pressupostos para a tomada de decisões justas e acertadas no mundo de hoje e no de amanhã.

Referências

CAMUS, Albert. (1973). A peste. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora.

HABERMAS, Jürgen. (2023). Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a política deliberativa. São Paulo: Editora Unesp.

LIMA, Nísia Trindade. (2026). Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

MCEWAN, Ian. (2026). O que podemos saber. São Paulo: Companhia das Letras.

Sobre a autora

Carmen Felgueiras é socióloga e professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Entre a máscara e a tirania: Nísia Trindade, Bolsonaro e a crise da democracia na pandemia.

Por Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro (UERJ)

A história do poder sempre gravitou em torno de uma distinção essencial: a decisão política deve orientar-se por alguma concepção do interesse coletivo, jamais pela vontade arbitrária de quem governa. As inúmeras tipologias forjadas pelo pensamento político — separando formas legítimas de governos corrompidos — assentam-se, invariavelmente, na diferença entre o princípio que confere legitimidade ao exercício do mando — seja a sacralidade do poder monárquico, a propriedade na aristocracia, ou o respaldo popular na democracia — e as formas puramente despóticas de tomada e manutenção do poder, que os antigos denominavam tirania.

A tirania sempre se confundiu com o medo: este não é apenas o instrumento de subjugação dos governados, mas também um traço constitutivo da psicologia do tirano. Xenofonte observou que o tirano não é livre, pois vive sitiado pelo próprio temor. O medo que impõe aos outros reverte-se em temor de uma reação violenta contra si mesmo. Todavia, é em Montesquieu que encontramos uma das caracterizações mais agudas e duradouras da tirania: o que a distingue das demais formas de governo é a decisão fundada exclusivamente na vontade do tirano, em detrimento de costumes, práticas e leis. Para tanto, é necessário que as esferas pública e privada se confundam, e que o tirano afaste todos aqueles que exercem o poder segundo normas gerais, transformando o Estado em uma extensão de seu domínio doméstico: “tudo se reduz a conciliar o governo político e civil com o governo doméstico, os funcionários do Estado com os do serralho”.

A ascensão do populismo reacionário no Brasil é pontuada por episódios em que o arbítrio subjugou as instituições à sua vontade. Desde o momento em que o Supremo Tribunal Federal alterou seu entendimento sobre a prisão em segunda instância — ciente de que a decisão tiraria de cena um personagem específico —, a eleição de 2018 já violava um princípio elementar da mais mínima definição de democracia: a livre competição política. A partir de então, o exercício do poder por Jair Bolsonaro foi marcado por ataques formais e informais às instituições: da tentativa de subverter a finalidade de órgãos públicos — nomeando negacionistas para a saúde e fundamentalistas religiosos para a pasta dos direitos humanos — até a investida golpista iniciada em outubro de 2022, Bolsonaro empenhou-se em converter a já fragilizada democracia brasileira em tirania.

O relato de Nísia Trindade sobre sua relação com Bolsonaro assume contornos do clássico embate entre lei e arbítrio. Seu testemunho mais emblemático é a reunião de 11 de janeiro de 2021 com o então presidente. Conduzida à presença de Bolsonaro pelo ministro Walter Braga Netto — futuro articulador da tentativa de golpe —, a então presidente da Fiocruz foi convidada a posar para uma fotografia ao lado do presidente. Nesse momento, Braga Netto sugeriu que ela removesse a máscara para ser reconhecida na imagem, ao que respondeu: “Ministro, não posso retirar a máscara. Sou presidente da Fiocruz”. O episódio é exemplar: a posição institucional era o único escudo de que Nísia dispunha para defender políticas públicas essenciais diante do avanço do arbítrio. Se, como atesta a literatura contemporânea da ciência política, os processos de erosão democrática hoje se operam não por tanques nas ruas, mas pela ação interna de presidentes eleitos que corroem as instituições limitadoras do poder, o testemunho de Nísia constitui um caso paradigmático desse fenômeno.

Enquanto a imprensa e o consenso progressista tenderam a interpretar a postura de Bolsonaro durante a pandemia como expressão de um negacionismo típico da extrema-direita, Nísia, com a perspicácia de cientista social, revela uma dimensão mais complexa: o negacionismo é a face visível de um projeto político mais amplo, cujo objetivo é deslegitimar instituições e mecanismos de produção da verdade, erigindo novas esferas de interesse e ação política como legítimas. Se o negacionismo surge como recusa das instâncias tradicionais de verdade científica, ele também revela o surgimento de novos atores que buscam ocupar esse espaço: think tanks, influenciadores vinculados a redes extremistas internacionais, articuladores de bolhas informacionais e lideranças políticas compõem uma estrutura que evidencia o caráter transnacional e articulado do projeto de hegemonia da extrema-direita. Ainda é tempo contribui para a análise desse fenômeno não apenas pelo testemunho pessoal de Nísia, mas também por sua leitura da CPI da Covid — palco revelador de como médicos, lobistas, pastores e militares até então anônimos tentaram forjar uma nova esfera de legitimação do discurso sobre a pandemia.

Nísia também chama atenção para as mudanças administrativas que pavimentaram o caminho para o discurso negacionista: já no primeiro ano de governo, diversas instâncias de participação social essenciais à implementação e avaliação de políticas públicas federais foram desfeitas ou esvaziadas pelo não preenchimento de suas cadeiras. Mais uma vez, ecoa a lição de Montesquieu sobre o tirano: para que nada limite sua vontade, é preciso dissolver toda instituição intermediária que possa frear seus atos arbitrários. Como a autora reitera ao longo da obra, a crítica ao negacionismo é insuficiente sem uma investigação aprofundada dos interesses e motivações — nacionais e internacionais — desses novos atores políticos que emergiram na última década e que, graças à eleição de Bolsonaro, alcançaram o centro do poder.

As armas de Nísia em Ainda é tempo são múltiplas: não apenas a ciência — forjada em sua trajetória como socióloga e gestora da Fiocruz — nem somente a política, vivenciada em seu período no Ministério da Saúde, mas também a memória, que ela transmuta com maestria em uma “súmula contra os tiranos”. Esse aprendizado memorialístico é enriquecido pelo olhar treinado de uma cientista social, apta a captar interações sociais e políticas que transcendem o discurso manifesto. Por isso, Ainda é tempo não é apenas o registro de uma trajetória pessoal, mas a articulação entre experiência vivida e ensaio de interpretação social — forma privilegiada de reflexão sobre a desafiante realidade brasileira.

Sobre o autor

Paulo Henrique Cassimiro é doutor em Ciência Polítca pelo IESP-UERJ. É professor do Departamento de Ciência Política e dos programas de pós-graduação em Ciências Sociais (PPCIS) e em Ciência Política (PPGCP-IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Ainda há tempo. Um manifesto político-afetivo.

Por Rossana Rocha Reis (USP)

“Perplexidade, medo, dor e, ao mesmo tempo, busca por respostas e proteção moldaram nossa sensibilidade individual e coletiva na pandemia de Covid-19”. É com essa frase que Nísia Trindade Lima abre sua obra sobre os anos que passou à frente da Fiocruz, e posteriormente, do Ministério da Saúde, período que coincidiu, em grande medida, com a emergência sanitária e com o governo de Jair Messias Bolsonaro.

Acredito que todos nós, que vivemos também esse momento, podemos nos identificar com esses sentimentos. A tragédia resultante da combinação entre a grave ameaça à saúde pública com a estratégia de propagação do vírus adotada pelo governo Bolsonaro produziu uma situação distópica, onde muitos perderam a vida e a saúde, e cujos efeitos ainda são e serão sentidos por longos anos.

Se o sentimento nos une, a posição que Nísia ocupava no momento dos acontecimentos, no entanto, lhe dá uma perspectiva única sobre o que houve de trágico e o que houve de heroico ao longo daqueles dias. Ao oferecer-nos um testemunho, e não uma autobiografia, Nísia opta por enfatizar o projeto coletivo do qual faz parte, que articula atores individuais e institucionais, em torno de um ideal e de uma prática que entendem que democracia, ciência e saúde pública são interdependentes e essenciais para a construção de um país menos desigual e mais preparado para as crises que virão no futuro.

Desse modo, ela nos oferece uma história com muitos protagonistas e cujo propósito sempre remete à dimensão coletiva. Em um texto que traz informações e análises que mobilizam diferentes campos do conhecimento, Nísia recusa ser o centro da narrativa e produz um documento em que identifica problemas e propõe caminhos para a saúde pública no Brasil. Nesse sentido, o livro como um todo já é uma referência indispensável para quem quiser saber mais sobre a história da pandemia de Covid-19 no Brasil.

Ainda assim, peço licença para seguir na contramão do caminho indicado pela autora, a partir da convicção de que também existe algo a aprender com as poucas vezes em que Nísia torna o seu relato mais pessoal. É assim quando ela nos indica que se o silêncio “é o pior adversário dos traumas”, “as meias-palavras tantas vezes necessárias para que providências fundamentais fossem tomadas” também podem ser angustiantes. Esse pequeno fragmento de texto nos ajuda a entender como, em determinados momentos, a força de uma personagem central não está no grito, mas na contenção. Foram anos assistindo de perto e observando em primeira mão os efeitos tenebrosos da “postura anticientífica” e do “desprezo à vida” sob o governo Bolsonaro, e buscando ao mesmo tempo, garantir a capacidade de agência da Fiocruz e do Sistema Único de Saúde. Apesar do “medo, da dor e da perplexidade”, o relato nos conta do reconhecimento da importância de permanecer em um posto estratégico naquele momento, e de um trabalho persistente de limitar a expressão dos próprios pensamentos e emoções para que o coletivo saísse beneficiado.

Acho fundamental pontuar aqui as virtudes da contenção, justamente porque no vocabulário político que nos rodeia, ela é muitas vezes confundida com fraqueza, especialmente nos tempos que correm, onde o Plenário do Congresso se tornou um campeonato de fanfarrices instagramáveis, e a descortesia virou sinônimo de autenticidade.

Enquanto o presidente vinha a público desqualificar a doença e ofender os profissionais e políticos que defendiam as medidas de distanciamento social preconizadas pela OMS, conclamar o povo a parar de choramingar e “deixar se ser um país de maricas”, o testemunho de Nísia nos mostra que a verdadeira coragem estava nos “trabalhadores da saúde, cientistas, gestores e outros setores da sociedade” que seguiram com seu trabalho em condições tão adversas, e que apesar do medo, se expuseram ao risco, pelo bem do coletivo.

É essa coragem, de resistir, de enfrentar, de arcar com o desgosto das meias-palavras quando se quer o grito que faz falta na vida pública, não o simulacro de coragem ancorado em um teatro de virilidade que tivemos e temos que suportar de Bolsonaro e bolsonaristas ao longo dos últimos anos.  

Finalmente, embora a crise da gestão da Pandemia da Covid-19 seja o eixo da narrativa de Ainda há tempo, também há espaço, nos últimos capítulos, para discutir o futuro, aprendendo com os erros do passado. Nesse sentido, Nísia reafirma a atualidade do projeto de democratização da saúde que animou a criação do SUS, a partir da constatação de que hoje esse projeto envolve não apenas o tema da justiça social, mas a própria sobrevivência da espécie, diante de novos desafios como o aquecimento global e certeza da chegada de novas pandemias.

Talvez o grande mérito do livro seja justamente demonstrar, a partir da perspectiva de alguém que ocupou posições de liderança durante a crise sanitária, a importância perene da ciência, da justiça social e da ética da responsabilidade  na condução das políticas de saúde pública no Brasil.

Sobre a autora

Rossana Rocha Reis é professora do DCP-USP e do Instituto de Relações Internacionais da USP. É pesquisadora do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC). Atua principalmente nos seguintes temas: teoria política, direitos humanos, migrações internacionais, identidade nacional e relações centro-periferia. É Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da USP.


O relógio de palavras

Por Rodrigo Jorge Neves (UFF)

Na muralha de Ávila, na Espanha, há um monumento conhecido como “Relógio da História”, contendo uma placa metálica com a inscrição: “Esta muralla esta hecha de piedra, de luz, pero sobre todo de tiempo. La muralla tiene su biografía, sus horas, sus días, sus momentos y la de todos la que a ella pertenecieron y pertenecemos. Este reloj caótico marca a la vez, las horas y los siglos, los grandes acontecimientos, pero también las pequeñas cosas”. O tempo de que é feita a muralha vem das mãos que a ergueram e dos pés que a atravessaram pelos séculos. Tempo dos grandes eventos, tempo das insignificâncias. A vida tem o seu valor quando somos capazes de contar sobre o que fizemos, por onde andamos, quem amamos, quando vencemos, por que caímos e quanto tempo levamos para voltarmos a caminhar. Antonio Candido disse, certa vez[1], que o tempo é o tecido das nossas vidas. Portanto, se há vida, ainda há tempo.

O título do novo livro da socióloga Nísia Trindade de Lima ressoa dentro de mim como a urgência do alarme no volume máximo, mas também como o som das ondas quebrando na rocha depois de dias em alto-mar. Ainda há tempo. Para quê? Na perspectiva da autora, “para a reconstrução de esperanças e projetos coletivos no Brasil e no mundo” (p. 31). Viver é preciso. Ao resgatar, nessa obra, sua trajetória de vida entrelaçada com um poderoso depoimento intelectual sobre sua atuação em um dos momentos mais catastróficos no cenário global contemporâneo, a pandemia da Covid-19, Nísia nos conduz a uma reflexão cada vez mais necessária sobre os desafios que precisamos enfrentar em uma sociedade como a nossa, estruturada na violência, na exclusão e nas desigualdades. E pensar o Brasil é também uma forma de ação.

No entanto, Nísia não apenas pensou o país. Primeira mulher a assumir a presidência da Fiocruz e o cargo de ministra da Saúde, ela foi uma das principais responsáveis por impedir que empilhássemos ainda mais corpos vitimados pela doença, ao lutar pela vacina contra o coronavírus, e a contribuir para a reestruturação de um Ministério destroçado pelo obscurantismo e pela subserviência ideológica. O SUS, como sabemos, é o maior sistema de saúde pública do mundo e um instrumento poderoso de combate às desigualdades sociais. Como ressalta o sociólogo André Botelho, em prefácio ao livro, o SUS representa “o espaço público que, pela sua relevância, alcance e qualidade, se mostra um dos mais estratégicos para refundar a sociedade brasileira”. Só por isso Ainda há tempo merece a leitura, pois revela os bastidores da atuação exemplar de Nísia Trindade de Lima à frente dessas duas frentes decisivas para a saúde pública nacional, o que reforça ainda mais o papel que possuem nos dias atuais.

Para Nísia, Ainda há tempo é seu “livro vingador”, à maneira de Euclides da Cunha, mas é também “um manifesto político-afetivo”, em que razão e sensibilidade se entrelaçam na tessitura da narrativa memorialista. A socióloga não se limita à descrição pura e simples dos eventos e de suas atividades profissionais. Embora o livro apresente dados, fotografias e fac-símiles de documentos públicos, ele não é um relatório estruturado com a aridez desse tipo textual, voltado para o cumprimento das demandas próprias do aparato burocrático. Em Ainda há tempo, temos também uma concepção literária notável. E não me refiro a uma correção gramatical ou a uma qualidade estilística do texto da autora, mas a sua capacidade de se mover, através das palavras, nas fraturas da nossa sociedade, sem perder de vista uma dimensão humana comovente.    

Júlia Lopes de Almeida, em seu primeiro romance, Memórias de Marta (1889), aborda o surgimento dos cortiços no Rio de Janeiro, pouco antes da obra de Aluísio Azevedo, sendo, portanto, precursora dessa temática na nossa literatura. Para isso, acompanhamos as recordações da personagem-título, desde a perda do pai para a febre amarela, a mudança com a mãe para uma das habitações populares, a exploração do proprietário do espaço, as dificuldades para as mulheres naquele período, até chegar na ascensão social da narradora por meio da educação e do trabalho, desfecho comum na obra ficcional da escritora carioca.

Enquanto lia Ainda há tempo, de Nísia Trindade de Lima, não conseguia não pensar no romance de Júlia. Embora pertençam a gêneros textuais distintos, ambas fazem uso da memória como instrumento de investigação dos liames entre a economia das relações sociais e a construção do indivíduo através da sua subjetividade. O que fazer diante do horror e dos limites estruturais que nos são impostos? Quando avançar e quando retroceder para tentar avançar mais tarde? Para onde ir? Ainda há tempo? Para as duas obras, há. Claro que toda decisão cobra o seu preço, assim, é preciso uma boa dose de coragem para fazer da pergunta uma ação efetiva contra o mal, que são as desigualdades sociais. Nesse ponto, as duas autoras não hesitam em combatê-lo, cada uma à maneira e no seu tempo.

Esse talvez seja um dos aspectos mais instigantes do novo livro de Nísia, o lugar ocupado pelo problema das nossas desigualdades e o quanto a saúde pública é fundamental para enfrentá-las. Em Memórias de Marta, a morte do pai da protagonista escancara o modo como se estruturam essas desigualdades. Ele trabalhava em um armazém na rua da Alfândega, Centro do Rio, e contraiu febre amarela no local. A epidemia de febre amarela foi um dos problemas de saúde pública mais graves do país, matando milhares de pessoas em cerca de meio século, a esmagadora maioria eram pessoas pobres e habitantes dos cortiços e avenidas. Apenas no início do século XX, após as medidas adotadas por Oswaldo Cruz, a cidade se viu livre dessa e de outras doenças. No XXI, uma mulher à frente da instituição que leva o nome desse médico e cientista foi responsável por feito semelhante, porém, em um cenário político-governamental turbulento e adverso.

No romance de Júlia, a relação entre doença e desigualdades sociais é fundamental para acompanhar tanto a trajetória da narradora quanto as dinâmicas da formação da cidade naquele período. Marta se forma como professora, o que reforça o papel da formação educacional no combate às desigualdades, neste caso, por meio da emancipação feminina. O direito à memória é outro ponto a ser ressaltado. Lembrar porque estamos vivos, para honrar os que não podem mais, para que a morte não apague nossas histórias e não interrompa nossa luta por uma sociedade mais justa e democrática.

O livro de Nísia Trindade de Lima é para mim uma reivindicação desse direito, tanto ao relatar seu período de atuação durante a pandemia quanto ao demonstrar, por meio da rememoração, a importância de nos engajarmos, coletivamente, na luta contra as desigualdades sociais. Para isso, a sensibilidade é necessária, tão quanto a construção de políticas públicas que transformem as condições que estruturam historicamente essas desigualdades. O relato memorialístico de Nísia, portanto, é como um relógio de palavras. Ele marca a hora em que tudo aconteceu, mas também aponta para o instante que ainda vem. Afinal, há tempo, e para muito ainda.

Nota

[1] Palestra na inauguração da Biblioteca Florestan Fernandes, do MST, em 5 de agosto de 2006.

Sobre o autor

Rodrigo Jorge Neves é professor adjunto de Literatura Brasileira no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Letras por esta mesma instituição e graduado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), tem experiência na área de Letras e Artes, com ênfase em Modernismo Brasileiro, Escritas de si, Epistolografia, Arquivos Literários, Literatura Comparada e Relações Interartes.