BVPS Recomenda | “Memórias de um sociólogo”, de Heraldo Pessoa Souto Maior

A BVPS parabeniza o professor Heraldo Pessoa Souto Maior pela publicação de suas memórias. Nelas, a sociologia e, em especial, a sociologia em Pernambuco, ganham protagonismo central. O livro é, assim, uma celebração do encontro pessoal de Heraldo com a disciplina que ele ajudou a construir numa carreira de sucesso. E, mais ainda, numa vida plena de realizações que merece não apenas registro, mas também memória.

Confira abaixo o prefácio do livro escrito por Silke Weber.


O ofício de lembrar e compreender a sociedade

Por Silke Weber

Fiquei comovida e honrada ao receber de Rosa Souto Maior a informação de que fora decidido, no seio de sua família, convidar-me para escrever o prefácio do livro Memórias de um Sociólogo, no qual o Professor Heraldo Pessoa Souto Maior narra suas memórias por razões inteiramente pessoais: rastrear quem foi no passado, em que circunstâncias, e contribuir, com a sua vivência, para o conhecimento da história institucional da Sociologia em Pernambuco.

Desse modo, Heraldo registra, de forma instigante, diferentes aspectos relacionados ao seu processo de socialização ao longo de sua formação educacional, nos diversos níveis e graus de ensino, com destaque para a preparação e o exercício profissional. Nesse relato, por vezes circunstanciado, são mencionados momentos significativos da construção de sua trajetória na área da Sociologia, iniciada de modo quase autodidata na Faculdade de Direito do Recife, então o único caminho formal de acesso ao debate sistemático sobre sociedade, cultura, mudança social.

Parece possível afirmar que o clima intelectual e político então vivenciado, com ênfase no debate social sobre o desenvolvimento socioeconômico e educacional do país — ainda protagonizado, em grande medida, por bacharéis em Direito —, suscitou-lhe preocupações com o delineamento do conhecimento específico requerido para a compreensão dos aspectos envolvidos em tais processos. Em sua visão, impunhase a oferta de uma formação especializada, fundada também em conhecimento produzido no Brasil — perspectiva que ganharia relevo a partir de meados dos anos 1950, com a criação de instituições de pesquisa e de formação pós-graduada nas diversas áreas.

Em suas memórias, Heraldo faz amplo uso desse conhecimento novo, que se agrega àquele incorporado ao longo da infância e da juventude, selecionando aspectos que considera relevantes para salientar particularidades de sua socialização primária e secundária, as quais moldaram sua maneira de ser. Assim, apresenta ao leitor características do mundo rural, como experiência vivida e refletida, que lhe permitiram trazer à tona elementos que, mais adiante, como sociólogo, tornaram-se objeto de pesquisa e ensino sistemáticos. Após o relato das características familiares e de suas circunstâncias, coloca em relevo sua trajetória escolar citadina em Caruaru, município do Agreste de Pernambuco, seguida da vida urbana que se inicia na cidade do Recife, com vistas à sua formação profissional em Direito. Com riqueza de detalhes, compartilha vivências que delineiam tanto o período universitário quanto o de formação pósgraduada no país e no exterior, especialmente nas áreas da Sociologia Rural e da Família, que acabaram por demarcar sua atuação como sociólogo e, notadamente, como orientador e formador em nível de pósgraduação, bem como propositor de projetos, programas e instituições vinculadas a essas atividades.

Como é de seu feitio, desde a sua inserção no serviço público, envolveuse com oportunidades de formação e aprofundamento do conhecimento relacionado ao exercício profissional, assim como também o fez durante os períodos em que contribuiu para a atuação de instituições complexas de caráter administrativo, investigativo e formativo, como o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários (IAPI), a Federação das Associações Rurais de Pernambuco (FAREP), o Serviço Social Rural, o Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco ( FUNDAJ) e a Universidade do Recife, mais tarde renomeada Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, onde influenciou e realizou iniciativas as mais diversas por mais de cinquenta anos.

Dentre elas, cabe ressaltar aquelas relativas à institucionalização da Sociologia no Estado de Pernambuco e no País — um caminho que exigiu estabelecer e consolidar os procedimentos requeridos para a formação de pesquisadores em nível de mestrado e doutorado nessa área de conhecimento. O relato desse processo, feito por Heraldo, traz à tona tensões e disputas locais e nacionais que evidenciam quão pouco republicanos eram, por vezes, os encaminhamentos dados a informações indispensáveis à obtenção dos resultados almejados.

No relato do autor, especial atenção é dada aos obstáculos enfrentados e aos êxitos obtidos na materialização de um projeto de universidade contemporânea, calcada na formação científica e na socialização do conhecimento nela produzido, mediante a criação de uma instituição interdisciplinar: o PIMES (Programa Integrado em Economia e Sociologia), que congregou essas duas áreas posteriormente consolidadas, de forma independente, com seus respectivos cursos de mestrado e doutorado, hoje referenciais.

Os leitores das memórias de Heraldo não apenas muito aprenderão sobre cultura, sociedade e valores do Agreste e da capital pernambucana. O livro assinala ainda a importância de a vida acadêmica manter a criticidade e, como disse Heraldo certa vez, “a ira, a paciência e também o senso de humor”.