BVPS Edições | Copa do Mundo na BVPS | “Brasa ou Brasil, azul ou vermelha”, por Vinicius Alvim

No encerramento da série Copa do Mundo na BVPS, publicamos texto de Vinicius Alvim (PPGS/Unicamp), que lança um olhar sobre as disputas simbólicas geradas em torno do uniforme da Seleção Brasileira na Copa do Mundo deste ano.

Diante do fracasso brasileiro, como compreender a centralidade atribuída às questões extracampo, capazes de intensas mobilizações entre diferentes agentes? Da CBF – instituição responsável pela preparação da seleção – à empresa fornecedora de material esportivo, passando pela imprensa e pela opinião pública, a camisa da seleção surge como um espaço de disputas. Como demonstra Alvim, a definição de suas cores revelou controvérsias em torno da possível adoção de uma camisa vermelha e da alcunha “Brasa”, evidenciando que essas disputas são atravessadas por interesses políticos, comerciais e culturais que vão além do desempenho da seleção dentro das quatro linhas.

A série teve organização de Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ e BVPS). Agradecemos a todos os autores que contribuíram para a elaboração desta série. Para acompanhar todos os posts anteriores, clique aqui.

Boa leitura!


Brasa ou Brasil, azul ou vermelha: as disputas simbólicas em torno do uniforme da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026

Por Vinicius Borges Alvim (PPGS/Unicamp)

Uma síntese das próximas páginas e do texto aqui exposto poderia ser apresentada como a retomada de uma ideia de Eric Hobsbawm, em Nações e Nacionalismo desde 1780, quando o autor pontua que “A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome.” (1990: 171). Com o início de mais uma Copa do Mundo, abre-se mais uma vez uma janela para que a vida cotidiana seja marcada, e por vezes tomada, pelos jogos e todas as implicações da realização do maior evento futebolístico do planeta.

O que proponho é uma reflexão acerca dos elementos da identidade nacional brasileira introduzidos no uniforme da Seleção na Copa do Mundo de 2026, em meio a um processo de disputa pela definição simbólica daquilo que se entende como Brasil em um contexto de globalização. Mais especificamente, as disputas simbólicas que envolvem a produção desta peça, tendo como ponto de partida que os uniformes das seleções vão muito além de um pedaço de tecido, sendo parte e produto da dinâmica da vida social.

Para dar conta desta proposta, divido o texto em três seções. Na primeira delas, explorarei esta noção que busca compreender os uniformes não apenas como o trançado de fios sintéticos de tecido, mas como um objeto imbuído dos mais diversos sentidos e significados, entre eles aqueles ligados à identidade nacional. Na segunda, trarei uma discussão que tem a construção da nação como o seu ponto central, em como se produz simbolicamente o Brasil em um contexto de disputa entre diferentes agentes. Por fim, na seção “Da camisa vermelha ao Brasa”, remontarei algumas das polêmicas que envolveram a produção do uniforme utilizado pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026, buscando demonstrar como a unidade que se apresenta como nação na forma de 11 jogadores possui, na verdade, diversas rachaduras fruto das disputas que envolvem este símbolo nacional.

A amarelinha da Seleção

Amarela com detalhes em verde nas golas, mangas, ombros e laterais e com elementos texturizados pela camisa, calção em azul (ainda que tenha sido utilizado o branco no empate contra o Marrocos, na estreia da competição) e meiões brancos, a camisa número 1 da Seleção Brasileira de Futebol a ser utilizada na Copa do Mundo de 2026 foi apresentada pela Nike, fornecedora dos materiais esportivos da Seleção, no dia 21/03/2026, com uma proposta de retomada de um estilo mais “tradicional” após uma leva de uniformes conceitualmente mais ousados, em um tom de amarelo registrado pela marca como canary, em referência à tonalidade amarela do uniforme principal brasileiro há muitas décadas. De acordo com a designer Rachel Denti, “O Brasil é o Brasil, não precisa de muita coisa para ser o Brasil. Ele é fácil de ser identificado. Quando você vê a Amarelinha, você sabe que é o Brasil”. A camisa 2, lançada um dia antes, em tons de azul escuro e preto, shorts com o mesmo padrão e meiões pretos, causou alguma repercussão devido à parceria inédita com a Jordan – marca ligada ao ex-jogador de basquete Michael Jordan e que funciona e é produzida dentro da estrutura da Nike.

Com os conjuntos apresentados, o que desejo discutir aqui é como o uniforme, este objeto, também é dotado de significados sociais, ou, em outros termos, em como o uniforme pode ser analisado como coisa. Uma excelente interpretação que versa nesse sentido foi fornecida por Luiz Henrique de Toledo, professor de Antropologia na Universidade Federal de São Carlos no artigo “(In)vestindo camisas de futebol: moda esportiva e agência na produção das emoções torcedoras” (2019). É com a retomada do texto e das ideias trazidas por Kike Toledo, como é conhecido por todos o professor Luiz Henrique nos espaços menos formais de vivência acadêmica, que pretendo estabelecer um ponto de partida da trilha a ser percorrida nas próximas páginas e seções do texto.

Nele, é apresentado de forma objetiva – e em uma escrita e montagem do texto que torna a leitura fluida – reflexões que têm no jogo de palavras “vestir” e “investir” o eixo central de uma análise que busca compreender os uniformes como artefatos nos quais estão depositadas intencionalidades diversas, que incluem desde a sua função mais, digamos, operacional, de vestir no sentido de cobrir corpos; as relações do uniforme enquanto mercadoria; e, por que não, como instrumento de representação da identidade nacional, ainda que estas intencionalidades possam ser de outras ordens não contempladas nestes exemplos acima. Mais do que apenas vestir, o uso dos uniformes de clubes e também da seleção, é tratado por Toledo como um investimento de torcedores que têm em suas mãos um objeto distintivo e carregado de elementos da identidade torcedora nos mais diferentes contextos.

 Nesta perspectiva, os uniformes de futebol funcionam em um sentido duplo que não o reduz nem à sua função operacional e nem somente à ideia de representação. E por mais que isso possa parecer óbvio, de que o uniforme deva ser considerado como um objeto potencialmente complexo e cujos significados são disputados, este é um elemento importante de ressaltar na medida em que as características simbólicas atribuídas à camisa da seleção brasileira pelos mais diversos agentes em disputas em diferentes campos, como o esportivo, o da moda, o da política, se assentam e se materializam no uso e nos elementos concretos do uniforme, que devem estar em consonância com os departamentos de marketing e design que ajudam a criar não apenas a vestimenta em si, mas também o conceito por trás de cada escolha estética dos uniformes. Ou seja, é neste jogo entre as intencionalidades coletivas nacionais, em um sentido amplo de nação e, outras intencionalidades envolvidas na confecção do uniforme da Seleção Brasileira de Futebol masculino, que se encontra o objeto deste texto.

A marca-Brasil: como representar os elementos simbólicos nacionais nos elementos concretos nacionais?

Nesta segunda seção, agora já estabelecida a relevância dos uniformes de futebol como um artefato repleto de significados sociais, retornarei para como se dá a produção simbólica da nação, tendo como referência o trabalho de Michel Nicolau Netto, professor de Sociologia na Universidade Estadual de Campinas, e autor do livro Do Brasil e outras marcas: nação e economia simbólica dos megaeventos esportivos (2019) e do artigo “A memória nacional globalizada: as condições sociais de produção simbólica da nação” (2021), resultados de uma pesquisa inserida no efervescente contexto de produção acadêmica na área de estudos sociais do futebol, dos esportes e do lazer, durante o “ciclo de megaeventos” no Brasil, que comportou os anos anteriores e os de realização da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e as Olímpiadas de Verão em 2016, no Rio de Janeiro. Em meio a reflexões sobre a preocupação das instituições que realizam estes eventos com o controle da produção de imagens, e, portanto, o controle da produção estética e simbólica do produto Copa do Mundo e sobre o legado dos megaeventos esportivos, o autor tece um panorama geral acerca da relação entre nação, produção simbólica e seus agentes produtores em meio ao processo de globalização que será articulado ao debate sobre a produção dos uniformes da Seleção.

Como aponta Nicolau Netto – em um argumento que denota a formação e as relações institucionais do próprio autor e a sua filiação teórico-conceitual a uma (podemos chamar de?) tradição de pensamento sobre a globalização que se consolidou no Departamento de Sociologia da Unicamp na década de 1990 e que tinha em Octavio Ianni e Renato Ortiz as suas figuras mais proeminentes, mas com um corpo docente que se propôs também a analisar o tema nos anos seguintes com nomes como Élide Rugai Bastos, Josué Pereira e Leila Ferreira – em diálogo com Renato Ortiz, seu orientador durante a pós-graduação, o desenvolvimento da globalização não implicou no desaparecimento das referências nacionais, mas uma remodelação da produção da nação transnacionalmente. Para o autor, o que está posto com a globalização é a coexistência de duas memórias nacionais, uma que se globaliza, fazendo parte da memória transnacional, compartilhada entre diversos países; e uma que permanece local, compartilhada entre a comunidade imaginada. Com a globalização a instância de produção da nação não está voltada apenas para o ambiente nacional, com monopólio desta produção pelo Estado, mas ela ganha um novo terreno de disputa com uma série de outras referências culturais que se globalizam e passam a ser compartilhadas mundialmente.

Evidentemente, estas duas memórias nacionais – a que se globaliza e que permanece restrita ao âmbito local de produção do que se entende como nação – se relacionam. A memória nacional globalizada faz referência direta à memória nacional local, tentando mobilizar um conjunto de aspectos e símbolos que representam esta produção nacional em um espaço transnacional nos quais outras memórias nacionais também estão sendo produzidas e disputadas. Cada nação, nesse sentido, se engaja na produção de uma memória nacional que não é compartilhada globalmente e, ao mesmo tempo, na produção de uma memória globalizada que será apresentada nestes espaços transnacionais em conjunto de uma série de outros referenciais de outras nações. Nicolau Netto ainda nos lembra da importância que a cultura do consumo e as indústrias culturais têm na propagação dos símbolos nacionais, sendo um dos mais efetivos meios pelos quais produzimos os elementos simbólicos da nação que se globalizaram.

Voltemos uma última vez à frase de Hobsbawm: “A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome.” (1990: 171). O auge que estas onze pessoas vestidas com seus uniformes, repletos de significados e intencionalidades, podem alcançar no meio do futebol é justamente uma Copa do Mundo, que, mais do que uma extraordinária competição esportiva, se transformou em um dos mais valiosos produtos culturais globais. Nesse sentido, as disputas pelos significados simbólicos dos uniformes das seleções nacionais atingem o seu ápice de atenção, interesse e discussão, não sendo aleatória a escolha por tal tema para a escrita deste texto.

Da camisa vermelha ao Brasa

Afinal, o que será discutido nesta última seção? O que pretendo apresentar são dois casos que até caminham em conjunto desta produção voltada aos “usos políticos da amarelinha”, mas que oferecem outras perspectivas: o primeiro deles diz respeito ao espectro vermelho que rondou a camisa da Seleção; o segundo, a inserção, e posterior retirada, da alcunha “Brasa” nos uniformes brasileiros.

Que “a nossa bandeira jamais será vermelha” é um lema que acredito que praticamente todo leitor que esteve vivo no Brasil nos últimos pelo menos 12 anos deve ter se deparado com ele. Mas e se a camisa da seleção brasileira fosse vermelha? Em um ano de Copa do Mundo e de eleições majoritárias? Em meio ao fortalecimento de uma onda de extrema direita na América Latina? Essa possibilidade, longe de um devaneio pautado por preferências políticas e estéticas pessoais do autor deste texto, esteve de fato presente durante a preparação da Seleção para a Copa do Mundo, em um acalorado debate na imprensa e opinião pública sobre as cores do uniforme, voltando a ser pauta com a competição em andamento.

Ainda durante a presidência de Ednaldo Rodrigues na CBF, afastado em maio de 2025, despontou um boato na mídia e no burburinho das redes sociais de que a Nike estaria produzindo um modelo de camiseta de cor vermelha para que a Seleção Brasileira utilizasse como segundo uniforme durante a Copa do Mundo. Com a queda de Ednaldo Rodrigues, Samir Xaud foi empossado como novo Presidente da CBF e logo se apressou em ir à imprensa negar a hipotética camiseta, cuja versão final nunca foi de fato vista. Meses depois, já em 2026 e no embalo da preparação para a Copa do Mundo, Xaud voltou aos microfones para dizer que rechaçava qualquer possibilidade da camiseta vermelha, dizendo que

 Ao meu conhecimento, a partir do momento em que entrei, já no primeiro mês de gestão, nós nos debruçamos em cima de assuntos importantes e vocês acompanharam comigo, a questão da camisa vermelha, uma coisa que de princípio já barramos, pois eu sei da nossa identidade, da nossa cultura como brasileiro, como torcedor. Essa questão do patriotismo, sempre deixo claro, independente de lado político, aqui não estamos para fazer política em cima do futebol, principalmente em cima da CBF.

Já com a competição em andamento, existiu a possibilidade de os goleiros brasileiros atuarem com camisas vermelhas na partida contra a Escócia, pela última rodada da fase de grupos, o que acabou não ocorrendo. Alguns veículos de imprensa chegaram a noticiar que o uso da camisa vermelha pelos goleiros da Seleção teria sido vetado por Xaud, versão contestada pela CBF, que afirma ser a camisa vermelha apenas uma possibilidade registrada, mas não produzida pela Nike e, portanto, indisponível para uso durante a competição.

Se o lançamento dos uniformes delimitou a discussão sobre a camisa vermelha, ele também foi capaz de lançar uma nova polêmica. A parte interna da gola das camisas trazia a frase “Vai, Brasa”, em uma decisão anunciada pela empresa como uma referência a como os brasileiros se referiam ao Brasil em estádios e ruas. Mais uma vez o assunto ganhou o debate público, virando pauta em círculos que acompanham mais de perto a preparação para a Copa do Mundo. Assim como com a camisa vermelha, a CBF, na figura do seu presidente Samir Xaud, vetou a inscrição da alcunha Brasa, ressaltando que “por respeito à identidade brasileira”, seria utilizado o nome do país, Brasil.

Ainda, é necessário dizer que a escala da discussão e principalmente o nível dos ataques realizados em redes sociais e até em setores da imprensa – não é difícil encontrar reações, no mínimo, histéricas de jornalistas e criadores de conteúdo – sem dúvida se devem também ao fato de a designer dos uniformes, Rachel Denti, ser uma mulher. A própria comentou as críticas e a repercussão nas redes sociais, citando o machismo como possível motivação e proferindo uma frase que não deixa de ser interessante: “Atuei, e sigo atuando, na condição de representante da companhia e de um coletivo composto por centenas de indivíduos envolvidos no projeto.”

A indefinição em torno da confecção, ou não, da camisa vermelha da seleção brasileira e da inserção da alcunha Brasa é um bom exemplo de como o processo de produção da nação está imerso em disputas pelos mais diferentes agentes e de como essa produção pode estar direcionada a objetos do cotidiano, como os uniformes de futebol. Em alguma medida, se deposita neste conjunto de camisa, calções e meiões expectativas das mais variadas ordens, ainda mais com a relevância que esta peça ganhou no campo da disputa política. A possibilidade da existência de uma camisa vermelha reacendeu um debate que, de fundo, estava permeado pela seguinte pergunta: qual é a ideia de Brasil que queremos, enquanto nação, ver inscrita no uniforme?

Para respondê-la, seria necessário levar em consideração uma série de fatores e agentes mais ou menos envolvidos na produção do material. Por um lado, a Nike, com as suas intenções comerciais particulares; a imprensa, com uma reação que se dividiu entre a indignação e a curiosidade; os torcedores e não torcedores, com um intenso debate, e uma notável reprovação, especialmente nas redes sociais, sobre a possível cor; a CBF, imersa em meio à disputa e com imensa capacidade de interferência e definição; isso sem citar as possíveis e prováveis pressões de outros setores acerca do tema.

De fato, como aponta Nicolau Netto, a produção da nação na globalização necessita, primordialmente, de um processo de desnacionalização. Uma empresa com sede nos Estados Unidos, que terceiriza sua produção para locais como o Vietnã, contrata uma designer brasileira radicada nos Estados Unidos para confeccionar os uniformes da Seleção do Brasil para a Copa do Mundo, que serão vendidos planeta afora, com a missão de condensar e representar os anseios, aspirações e, de uma maneira geral, a cultura da nação brasileira.


Sobre o autor

Vinicius Borges Alvim é doutorando em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (PPGS-IFCH-UNICAMP) com o projeto de pesquisa “Panaceia de coisa alguma?’: os mecanismos da empresarização do futebol brasileiro. Pesquisador no “Projeto Ianni, 100”, vinculado ao Centro de Sociologia Contemporânea do IFCH/UNICAMP. Tem experiência na área de Sociologia da Cultura e Memória, tendo como seu principal tema de pesquisa a Sociologia da Esporte, com destaque para o futebol e suas interações com o mercado e a conversão dos clubes de futebol em clube-empresa.