Centenário de Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, por Elide Rugai Bastos, André Botelho e Caroline Tresoldi

Celebrar o centenário de nascimento de Octavio Ianni é um momento especial para a BVPS. Por inúmeras razões. Ao lado da afetiva, por alguns de nós da equipe termos tido a oportunidade de convívio pessoal, destacamos apenas uma: Octavio Ianni faz muita falta à sociologia. Seu raciocínio e expressão claros sobre problemas complexos, sua habilidade de pensar o contemporâneo e o processo social simultaneamente, sua perspectiva multidimensional, capaz de relacionar o gesto mais subjetivo ao mais macrossocial, e sua capacidade de fazer e refazer perguntas fundamentais são cruciais para um renascimento sociológico. A sociologia, diria o próprio Ianni, está permanentemente em crise, pois o social está sempre em movimento. E ela tem potencialmente a capacidade de se repensar e se reinventar nessas crises, mas, para isso, é preciso coragem. Elide Rugai Bastos, André Botelho e Caroline Tresoldi trazem, nesta nova série da BVPS, o testemunho e a reflexão de alguns que conviveram com Ianni e de outros que são seus leitores, à distância. O que se percebe no conjunto, no entanto, desfaz a própria dicotomia. Ianni existe e está vivo em seus textos, plenos de presença, mapas e caminhos inspiradores de uma sociologia crítica.

No pôster da série, além da ideia mais evidente da comemoração do centenário como oportunidade para desmontar e remontar a contribuição de Octavio Ianni à sociologia, queremos também sugerir algo sobre a dinâmica constitutiva da sociedade e sobre como a sociologia deve acompanhá-la. 

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. A série tem início hoje com a apresentação dos curadores, que pode ser conferida a seguir, e um ensaio de Gabriel Cohn, que pode ser acessado aqui.

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Boa leitura!


Apresentação

Octavio Ianni: sociedade e sociologia em movimento

Elide Rugai Bastos (Unicamp)
André Botelho (UFRJ)
Caroline Tresoldi (PPGS/UFRJ)

Poucos sociólogos produziram uma reflexão com tamanha extensão temática, densidade histórica e abertura teórica como Octavio Ianni (1926-2004). De seus estudos pioneiros sobre escravidão, raça e mobilidade social no Brasil às interpretações sobre populismo, Estado e capitalismo dependente; das reflexões sobre imperialismo e América Latina às formulações sobre globalização e modernidade-mundo; da questão agrária à crítica da cultura e à relação entre sociologia e literatura, sua obra constitui um vasto repertório voltado à compreensão da sociedade brasileira e das contradições do capitalismo moderno. Embora dedicada aos mais diversos objetos, essa produção possui uma notável unidade: a convicção de que a sociologia encontra sua força crítica na capacidade de compreender o movimento histórico da sociedade e de formular, a partir dele, novos problemas para a reflexão social.

Passadas pouco mais de duas décadas de sua morte, Ianni continua a fazer muita falta à sociologia brasileira. Há diversas razões para isso. Como poucos, assumiu com radicalidade a sociologia como vocação, compatibilizando as tarefas do especialista rigoroso, no sentido weberiano, com as do intelectual público, sempre pronto ao diálogo e ao debate de ideias com diferentes grupos da sociedade (Botelho, 2004). Como poucos, fez da sala de aula um laboratório para a compreensão e a reinvenção da sociedade, onde podemos e devemos desencantar e reencantar utopicamente o mundo. Em suas pesquisas e na formação de sucessivas gerações de cientistas sociais, ensinou que a sociologia não se reduz a um conjunto de objetos, teorias ou conceitos, mas constitui, antes de tudo, um modo de interrogar a realidade. É justamente sua visão do que é a análise sociológica que procuramos destacar aqui. Mais do que apresentar alguns dos diferentes temas explorados por Ianni, interessa-nos indicar o princípio de inteligibilidade que articula sua obra e orienta seu modo de fazer sociologia. 

Primeiramente, cabe lembrar que Ianni pertence a uma tradição de pensamento que tem como ponto de partida a reflexão sobre o que significa fazer sociologia no Brasil, e não apenas sociologia do Brasil (Bastos, 2002). Não se trata somente de elaborar um diagnóstico da sociedade brasileira, o que, sem dúvida, é importante, mas também de pensar como sua condição histórica permite contribuir para a reflexão da própria teoria sociológica. Em outros termos, parte-se da pergunta: o que significa fazer sociologia em um país situado na periferia do capitalismo, marcado por profundas e inaceitáveis desigualdades? Essa visão desdobra-se entre os diferentes pesquisadores ligados à sociologia uspiana instituída por Florestan Fernandes, seu orientador, por meio de problemáticas específicas, como a dependência, o desenvolvimentismo e o imperialismo.

Como essa perspectiva se realiza nas pesquisas de Octavio Ianni? Ao longo de quase cinco décadas de atuação intelectual, ela pode ser observada na maneira como o autor aborda dois problemas centrais da teoria sociológica: a mudança social e os processos históricos. Em ambas as abordagens, Ianni afasta-se tanto de uma visão linear quanto de uma visão dualista.

Ianni entende que a visão linear decorre da aceitação de um modelo de formação social elaborado a partir das sociedades centrais e posteriormente convertido em parâmetro para a interpretação de outras realidades. Quando transferido para a análise da sociedade brasileira, esse modelo não apenas desconsidera as especificidades decorrentes de sua inserção na periferia do capitalismo, como também reduz o próprio sentido das mudanças sociais. Para ele, as mudanças não podem ser compreendidas apenas a partir das dinâmicas internas do país; é necessário considerar o itinerário do capitalismo visto em perspectiva mundial integrada.

A visão dualista, por sua vez, assenta-se na ideia de atraso aplicada às sociedades latino-americanas. Presente, por exemplo, em algumas formulações da Cepal, ela conduz a uma concepção intervencionista do desenvolvimento na região. Ianni questiona esse pressuposto tanto em sua análise do desenvolvimentismo, presente em Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1930-1970) (1971), quanto em sua crítica às formas de intervenção externa, apresentada em Imperialismo na América Latina (1974), entre outras obras.

Como superar esses dois polos analíticos, que exerceram forte influência não apenas na produção sociológica, mas também nas direções políticas assumidas pelos países sul-americanos, como indica a simultaneidade das ditaduras militares na segunda metade do século XX? A resposta de Ianni não consiste simplesmente na adoção de uma visão intermediária. Seu argumento desloca o próprio problema ao mostrar que a redefinição do lugar ocupado pelos atores sociais é decisiva para compreender a mudança histórica. Esta apresenta um duplo movimento: de um lado, os atores passam a ocupar novos lugares sociais; de outro, esses novos lugares incorporam representações e formas de poder herdadas do passado, que permitem a preservação dos privilégios de determinados grupos e a manutenção da subalternidade de outros. 

Como bem notou Gabriel Cohn (1996), há um termo recorrente na obra de Ianni que sintetiza esse movimento: o de metamorfose. Mais do que simples mudança, a metamorfose permite apreender a emergência de novas formas de relações no interior das antigas, de tal modo que os traços do passado permanecem inscritos nas formas novas. Um exemplo expressivo encontra-se em sua tese de doutorado, publicada em 1962 sob o título As metamorfoses do escravo.

Ao afastar-se tanto de uma visão linear das mudanças sociais quanto de uma aplicação estática do conceito de mudança no singular, Ianni confere centralidade à historicidade, que permite apreender um aspecto fundamental: o processo social visto a partir da articulação entre as diferentes esferas que compõem a sociedade – a econômica, a política, a social e a cultural. Os movimentos, por vezes ambíguos, que caracterizam o processo histórico de formação da sociedade brasileira devem, portanto, ser incorporados à análise. Mais do que isso, Ianni mostra que as mudanças que alteram o lugar dos atores sociais constituem processos de intervenção na realidade, atravessados pela distribuição desigual do poder na sociedade.

Essa perspectiva aparece com clareza em seus estudos sobre a questão racial, nos quais analisa diferentes unidades empíricas – o Brasil e a América Latina – em obras como As metamorfoses do escravo, Raças e Classes Sociais no Brasil (1972) e Escravidão e racismo (1978). Dialogando criticamente com parte da bibliografia que assinalava um suposto equilíbrio das relações raciais, o sociólogo paulista evidencia a persistência de assimetrias expressas em práticas e comportamentos discriminatórios. Essa perspectiva também orienta sua crítica ao dualismo presente em parte significativa da tradição sociológica latino-americana. Nela, pares conceituais como arcaico-moderno, rural-urbano e agrário-industrial são concebidos como esferas dotadas de dinâmicas próprias, retomando, em certa medida, a oposição entre civilização e barbárie presente desde o clássico Facundo. É nesse horizonte que sua crítica ganha especial relevância nas análises do desenvolvimentismo, cujas formulações, sobretudo na Cepal e na Unesco, operavam a partir dessa lógica dual.

A perspectiva de Ianni, já anunciada pelo conceito de metamorfose, avança, portanto, na direção de apontar a articulação entre formas tradicionais e modernas. A manutenção das formas antigas não aparece como simples resíduo do passado, mas como parte do próprio processo que torna possível a realização do moderno. Trata-se de uma combinação historicamente recorrente nas sociedades brasileira e latino-americanas, como Ianni formula com precisão em “Sociedades duais e desenvolvimento desigual”, de Sociologia da sociologia (1989).

Os efeitos dessa articulação são frequentemente ambíguos, incidindo sobre as práticas sociais, os comportamentos, as formas de organização e a institucionalidade. Tanto que, no Brasil, foi possível combinar capitalismo e escravidão – um capitalismo que operou sem a centralidade do trabalho livre, frequentemente tomada como condição intrínseca de sua própria definição. Dessa combinação resultou, de um lado, a permanência de amplos contingentes de trabalhadores à margem dos direitos do trabalho; de outro, a reprodução das desigualdades, na medida em que a recusa à igualdade ganha vigência por meio de sua naturalização. Tal discussão atravessa obras como Origens agrárias do Estado brasileiro (1984) e Colonização e contra-reforma agrária na Amazônia (1979). Como no caso de Florestan, o que importa em Ianni é compreender os modos de produção (no plural) da desigualdade, mais do que seus efeitos ou produtos reificados na vida social.

Sua compreensão refinada da análise sociológica e sua capacidade de renovar continuamente as perguntas, sem dissociar a elaboração teórica dos problemas históricos concretos, constituem, certamente, algumas das maiores contribuições de Ianni às ciências sociais. São essas e outras dimensões de sua obra que serão exploradas nesta nova série da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), que comemora o centenário de seu nascimento. Reúnem-se aqui colegas e ex-alunos que conviveram diretamente com Ianni, ao lado de pesquisadores de novas gerações que o conheceram sobretudo pela leitura, compondo um conjunto de interpretações que acompanha diferentes momentos de sua trajetória intelectual e as múltiplas questões que atravessam sua produção.

Acompanhando essa apresentação, a série abre com uma reflexão de Gabriel Cohn, que propõe uma chave geral de leitura da obra de Ianni ao identificar na ideia de metamorfose um princípio organizador de sua imaginação sociológica. A sequência dos textos, sempre publicados em duplas, misturará diferentes dimensões de seu projeto intelectual. Diogo Valença de Azevedo Costa retorna aos primeiros anos de sua formação, recuperando um manuscrito inédito, escrito ainda em seus tempos de estudante de Ciências Sociais da USP, sobre imigração, religião e miscigenação. Carmen Felgueiras revisita o ensaio “O jovem radical” a partir de suas duas publicações, em 1963 e 1968, mostrando como as mudanças de conjuntura redefinem seus sentidos. Ernesto Renan Freitas Pinto, por sua vez, oferece um panorama dos temas que estruturam a obra de Ianni.

A questão agrária, um dos eixos fundamentais da interpretação de Ianni sobre a formação social brasileira, é abordada nos textos de Lucas Carvalho e Lucas Bezerra, enquanto Marilene Corrêa da Silva Freitas demonstra como a Amazônia se converte em lugar privilegiado para compreender a expansão do capitalismo, a ação do Estado e os conflitos pela terra no Brasil.

Vera Cepêda retoma a interpretação de Ianni sobre o desenvolvimentismo e lembra que, para ele, a produção intelectual participa da elaboração dos projetos de nação. Os textos de Karim Helayel e Leonardo Belinelli discutem suas contribuições aos debates sobre imperialismo, dependência e América Latina. Jorge Chaloub retorna a O colapso do populismo no Brasil para examinar a historicidade do próprio conceito de populismo. Já os ensaios de André da Rocha Santos e Juan Michel Montezuma dos Santos abordam a fase tardia da obra de Ianni, marcada pelas reflexões sobre a sociedade global, as metamorfoses do capitalismo e a necessidade de reinvenção das ciências sociais.

A centralidade da questão racial em Ianni é analisada por Valter Roberto Silvério, ao passo que Rafael Tauil evidencia sua articulação com a luta de classes e o populismo. As relações entre sociologia, cultura e literatura são revisitadas nos ensaios de Andréa Borges Leão, Deni Alfaro Rubbo e Carlos Henrique Gileno, que mostram como essas relações ocupam posição constitutiva – e não periférica – na sociologia de Ianni. Por fim, textos de Renato Ortiz, José Vicente Tavares-dos-Santos, Lucas van Hombeeck e Conrado Pires de Castro encerram a série com reflexões sobre o modo de fazer sociologia de Ianni – sua escrita, sua imaginação dialética e a atualidade de seu legado.

Vistos em conjunto, os 22 textos que integram a série indicam que pesquisadores e pesquisadoras interessados na questão racial, no conflito agrário, no populismo, no imperialismo, na Amazônia, na cultura, na globalização ou na teoria sociológica encontrarão em Ianni não um repertório de respostas prontas, mas um modo de formular problemas, de relacionar diferentes escalas da vida social e de interrogar criticamente o presente. Como o próprio Ianni insistia, o movimento do social exige também o permanente movimento da sociologia. É essa disposição para reinventar a sociologia, sem ceder à indiferença ou ao conformismo em relação à ordem existente, que faz de sua obra um arquivo indispensável para seguir pensando os desafios do nosso tempo.


Referências

BASTOS, Elide Rugai. (2002). Pensamento social da Escola Sociológica Paulista. In: MICELI, Sergio (Org.). O que ler na ciência social brasileira, 1970-2002. v. 4. São Paulo: ANPOCS; Sumaré; Brasília: CAPES.

BOTELHO, André. (2004). Octavio Ianni: a sociologia como vocação. Revista de Ciência Política. n. 17, maio/jun. [Republicado em: Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS). Disponível em: https://blogbvps.com/2024/06/05/octavio-ianni-a-sociologia-como-vocacao-por-andre-botelho/. Acesso em: 01 jun. 2026.] 

COHN, Gabriel. (1996). Crise e metamorfoses: aspectos metodológicos da obra de Octavio Ianni. In: FALEIROS, Maria Izabel Leme & CRESPO, Regina Aída (Orgs.). Humanismo e compromisso: ensaios sobre Octavio Ianni. São Paulo: Ed. UNESP, p. 145-157.

Sobre os organizadores

Elide Rugai Bastos é professora titular aposentada do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição em que recebeu o título de professora emérita. 

André Botelho é professor titular do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador do CNPq e da FAPERJ. Atualmente, coordena a Biblioteca Virtual do Pensamento Social e o Instituto Igualdade e Aprendizado Social (INCT/CNPq).

Caroline Tresoldi é doutoranda em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa FAPERJ Nota 10. É editora da Biblioteca Virtual do Pensamento Social.