BVPS Edições | Autorais Elisa Reis

Primeiro texto da série Autorais Elisa Reis, “A forma da sociologia: observando a história do nosso presente” foi publicado originalmente em 2012 no livro The Shape of Sociology for the 21th Century, organizado por Devorah Kalekin-Fishman e Ann Dennis, e traduzido nesta ocasião pelo curador da série, Karim Helayel.

Expandindo a imagem de Polanyi (1944) de uma “grande transformação” para pensar o presente, neste texto Elisa Reis sugere que as mudanças nas percepções coletivas vivenciadas nas últimas décadas levaram os quadros conceituais da sociologia ao limite, exigindo novos modos de olhar para a sociedade. A partir desse diagnóstico, a autora aponta a necessidade de a sociologia revisar seus pressupostos, apostando no fortalecimento do diálogo entre diferentes perspectivas teóricas, contextos sociais e disciplinas como caminhos para enfrentar os desafios colocados pelo cenário atual.

Não perca, semanalmente, sempre às segundas-feiras, as publicações dessa nova edição da série Autorais. Para conferir o texto de apresentação da série, clique aqui. Boa leitura!


A forma da sociologia: observando a história do nosso presente

Por Elisa Reis (UFRJ)

Introdução

Embora as mudanças contínuas pelas quais o mundo passa afetem constantemente a forma da sociologia, há pontos de inflexão em que uma grande perplexidade — e até mesmo uma sensação de ruptura — parecem inevitáveis. Como seres históricos, sempre experienciamos o mundo em mutação. No entanto, também é verdade que existem momentos em que a amplitude e o ritmo das mudanças são tais que os sociólogos, em seus esforços para decifrar os processos em curso, passam a exercer um papel mais forte na concepção da maneira como a sociedade percebe a transformação.

Neste artigo, exploro a ideia de que algumas das mudanças nas percepções coletivas que a sociedade experienciou em décadas recentes equivalem a uma nova grande transformação, para usar a imagem de Polanyi (1944) sobre o mundo moderno nascente. Nas páginas que seguem, pretendo comentar, em poucas palavras, três grandes questões que foram colocadas aos participantes do Seminário sobre “A Forma da Sociologia Contemporânea”.

1)  Quais são as mudanças no âmbito social?

2)  Como os desenvolvimentos na sociologia acompanham essas mudanças?

3) Como essas mudanças deveriam ser expressas na organização da comunidade sociológica?

Sugiro que, como estamos novamente experienciando uma nova grande transformação, a sociologia precisa confrontar mais uma vez alguns de seus pressupostos básicos e adotar certas linhas estratégicas de organização e ação.

Os sociólogos estão acostumados à ideia de que a mudança social e a mudança conceitual estão entrelaçadas. Quando a sociologia reflete sobre as transformações culturais em curso que o mundo experiencia, ela as traduz criando ou redefinindo conceitos sociológicos, formulando novas proposições e sugerindo interpretações inéditas. Conceitos, proposições e interpretações, por sua vez, na medida em que nomeiam e conectam processos e eventos, contribuem para moldar as percepções sociais (Somers & Gibson, 1994). Assim, por exemplo, o maior espaço conferido à subjetividade pela sociedade contemporânea fez com que a sociologia se tornasse mais atenta a ela (Bauman, 2000; Castells, 1997; Giddens, 1991). Ao mesmo tempo, ao refletir sobre questões subjetivas, a sociologia oferece um repertório para que as pessoas lidem com a subjetividade e, portanto, contribui para ampliar o lugar que lhe é atribuído (Lamont & Molnar, 2002; Swidler, 1986). Reconhecemos que as dimensões objetiva e subjetiva se interpenetram e que é legítimo distingui-las para fins analíticos. No entanto, é igualmente legítimo e relevante refletir sobre a interação mútua entre ambas.

Retornando ao livro de Polanyi, ele se concentra em fatos que ocorreram tanto no mundo objetivo quanto no subjetivo. A transformação fictícia da terra, do trabalho e do dinheiro em mercadorias, que ele destacou, refletia uma transformação simultaneamente cultural e material, que constitui a causa e a consequência de uma ruptura com a vida social anterior (Polanyi, 1944: cap. 6). O que há de tão abrangente nas mudanças atuais que me permite evocar a imagem de uma nova grande transformação? Minha resposta sintética é que, para os sociólogos, essas mudanças representam transformações que levam nossos quadros conceituais ao limite e impõem redefinições teóricas. Assim, seguindo Polanyi, para as pessoas que viveram a transição para o mundo moderno, conceber a terra (ou a natureza) como um bem transacionável, ou o trabalho como algo distinto da atividade humana natural, foi uma profunda mudança cultural. Houve também outras mudanças culturais significativas típicas daquela época, por exemplo, a generalização da ideia de que o crescimento econômico é um movimento perpétuo, de que o desenvolvimento econômico contínuo é natural, enquanto a estagnação econômica é uma anomalia a ser corrigida. Essas novas crenças substituíram a antiga percepção do mundo como regido por ciclos naturais ou sujeito a interferências imprevisíveis em seu estado de estabilidade. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que a sociedade se modernizava, ocorreram profundas mudanças intelectuais que buscavam explicar esses processos. Por sua vez, as percepções e valores transformados contribuíram para estabelecer novas direções para a vida social.

Pensando no presente, também podemos identificar grandes mudanças culturais contemporâneas, como a crença de que, para persistir, o crescimento precisa ser sustentável (Costanza et al., 2007). A percepção de que a ação humana pode dificultar o crescimento material, e até mesmo colocar em risco a própria espécie humana, constitui uma mudança cultural significativa, que tem profundo impacto na agenda das ciências e coloca novas ênfases no diálogo entre cientistas e formuladores de políticas públicas. Assim como essa, muitas outras transformações estão ocorrendo e exigem redefinições de nossos conceitos, teorias e tópicos de pesquisa empírica.

Tendemos a ver a sociologia de nossos clássicos como organizada em torno de temas unificadores. Assim, apesar das constantes afirmações sobre a falta de coerência e consenso na sociologia atual, há um acordo razoável de que as concepções de mundo moderno entre os clássicos giravam em torno de capitalismo para Marx, igualdade para Tocqueville, racionalização para Weber e diferenciação social para Durkheim (Nisbet, 1966). Tendemos a concordar que eles constituem nossos clássicos porque foram capazes de conferir sentido ao que estava acontecendo, oferecendo uma espécie de quadro unificado. Pode-se dizer que essa é a história de um consenso que construímos, o modo pelo qual interpretamos os antigos mestres para servir a nossos propósitos teóricos. No entanto, o que é incontestável é que eles ofereceram sínteses convincentes do que estava ocorrendo. Além disso, propuseram conceitos, tipologias, classificações sistemáticas e, mais ainda, identificaram tendências e perspectivas de futuro que eram socialmente relevantes (Aron, 1967; Nisbet, 1966). Eles foram intérpretes das grandes transformações que ocorriam em seu tempo.

Igualmente importante, porém, foi o fato de que, ao refletirem sobre as grandes transformações de seu tempo, os clássicos conceberam o seu presente como qualitativamente diferente do passado e chamaram a atenção para novos modos de olhar para a sociedade. Como na tradição clássica, os sociólogos de meados do século XX buscaram compreender o seu mundo, principalmente por meio do contraste entre sociedade tradicional e sociedade moderna. As dicotomias tornaram-se a matéria-prima tanto para descrever o mundo quanto para construir teorias. Quando a sociologia parsoniana era dominante, as variáveis-padrão eram amplamente utilizadas para transmitir a ideia de uma ruptura com o passado, sugerindo que as novas formas de agir e interagir eram mais propícias ao fomento do desenvolvimento social, político e econômico (Parsons, 1937). A modernização e o desenvolvimento, por sua vez, tornaram-se os novos conceitos que expressavam o otimismo dos herdeiros modernos do Iluminismo.

Se a dicotomia tradicional versus moderno já estava implícita ou explícita nas obras dos clássicos, foi nessa segunda fase que a sociologia a utilizou para criar o clima intelectual que informou o esforço concertado de planejar a transformação social. Teorias e pesquisas sobre mobilização social, participação política, reforma, revolução e temas correlatos tornaram-se, de certo modo, parceiras da formulação de políticas sociais, de planos de desenvolvimento e de estratégias de reforma (Deutsch, 1961; Huntington, 1968; Lerner, 1964; Lipset, 1960). De fato, até mesmo a negatividade dos teóricos críticos podia ser utilizada de forma construtiva, uma vez que seus diagnósticos estimulavam maneiras de contrabalançar os males sociais.

Ao contribuir para a busca de respostas às questões cruciais daquele período, a sociologia — assim como outras disciplinas das ciências sociais — desempenhou seu papel público. Embora essas questões pudessem variar ao longo do tempo e do espaço, havia alguns elementos comuns, se pensarmos em temas como reforma, revolução, políticas de estabilização e inclusão social. Embora a sociologia não oferecesse respostas imediatas para os problemas sociais prementes, seus construtos sociológicos ajudaram a estruturar o diálogo em torno dessas questões.

Do período pós-guerra até o último quarto do século XX, espalhou-se um tipo de otimismo, envolvendo perspectivas de crescimento econômico, expansão da cidadania, progresso do bem-estar social, autodeterminação das ex-colônias, criação de uma comunidade de Estados-nação e implementação de direitos humanos (Bendix, 1964; Cardoso & Faletto, 1971; Marshall, 1950; Tilly, 1975). A sociologia não esteve imune a esse ambiente cultural, apesar das grandes controvérsias teóricas que mobilizaram os sociólogos. Pode-se até pensar que tais controvérsias e desacordos foram o sinal mais claro do vigor da disciplina e de seu compromisso com a relevância. Além disso, ao fornecer o repertório para discutir mobilização social, revolução, processos de modernização, pleno emprego, cidadania e questões similares, a sociologia também contribuiu oferecendo roteiros que leigos podiam utilizar para conferir sentido à vida social e suas mudanças em curso.

Embora o dualismo histórico herdado dos clássicos fosse amplamente compartilhado pelos sociólogos do período, com o tempo dualidades lógicas recorrentes os distinguiram. Ação versus estrutura, individualismo versus coletivismo e voluntarismo versus determinismo foram algumas das formas concorrentes mais populares de teorizar (Alexander, 1982; Knorr-Cetina & Cicourel, 1981). Curiosamente, a evolução dessas disputas não inclinou a balança para um ou outro lado das dicotomias (Alexander, 1988; Giddens, 1984). Nem as tentativas de síntese teórica foram sempre bem-sucedidas em propor um programa de pesquisa. No entanto, essas tentativas já indicavam transformações significativas nas percepções sociais, contribuindo para a elaboração de uma imagem multifacetada da vida social.

No que estou chamando de terceira fase da sociologia, a que estamos atravessando agora, os processos de mudança no mundo e a virada cultural correlata na sociologia têm levado os sociólogos a confrontar novas questões, temas que os obrigam a pensar além das dicotomias e dualidades. Na verdade, por muito tempo, dicotomias e dualidades foram percebidas como insatisfatórias para explicar o mundo social, mas demorou até que nos tornássemos plenamente conscientes de que já lidávamos com multiplicidade, diferenças e ambiguidades como realidades persistentes: conceitos como reconhecimento (Fraser & Honneth, 2003), multiculturalismo (Gutmann, 1992; Kymlicka, 1995; Parekh, 2000) e modernidades múltiplas (Eisenstadt, 2000; Kaya, 2004; Wagner, 2000) passaram a fazer parte do léxico comum dos sociólogos. Não que todos concordemos quanto aos significados de tais conceitos, sem falar da relevância que lhes conferimos. Ainda assim, além das divergências conceituais, as palavras que usamos são testemunho do repertório sociológico atual, com suas inconsistências, promessas e limitações.

Sem dúvida, é muito mais difícil enquadrar a situação atual no molde interpretativo sintético que apontei na sociologia de períodos históricos anteriores. Por estarmos tão próximos e imersos em nossa própria história, os sociólogos contemporâneos têm muito mais dificuldade em formular sínteses dos processos correntes, ou em definir o estado da arte da sociologia, seus dilemas presentes e os desvios significativos em relação aos modelos do passado. No entanto, é possível identificar polêmicas intensas, a emergência de novas tendências teóricas e importantes redefinições conceituais em curso.

Tomando as três grandes questões colocadas aos participantes do Seminário como um quadro geral para organizar meus pensamentos, abaixo, busco transmitir uma imagem sintética de como vejo a forma da sociologia hoje.

Nosso mundo social transformado

Quais são as mudanças mais significativas que tiveram lugar no mundo social? Embora não possa afirmar ter a resposta, é certamente razoável sugerir alguns elementos que são relevantes para ela. Para começar, em muitos aspectos, as transformações que ocorrem tanto na esfera pública quanto na privada têm conferido novos perfis aos fenômenos sociais, e os sociólogos estão em busca de novas noções sintéticas para caracterizar o mundo em que vivemos. Se os clássicos diagnosticaram algum tipo de “antes” e “depois” da sociedade usando a dicotomia “tradicional” versus “moderna”, hoje podemos identificar a necessidade sentida de um rótulo geral para caracterizar o presente, transmitindo a ideia de descontinuidade com o passado recente. “Global”, “pós-moderno”, “tardo-moderno”, “transformação epocal” são algumas das expressões recorrentes que observamos em nosso léxico sociológico contemporâneo (Albrow, 1996; Beck et al., 1994; Harvey, 1989; Lash, 1990).

Mesmo que não haja consenso sobre o que melhor descreve o mundo social contemporâneo, parece haver acordo de que a magnitude das mudanças em curso interfere na confirmação de nossas noções básicas. Pense, por exemplo, na ideia de comunidade. Seguindo os clássicos, a sociologia costumava tomar como referência principal a pequena vila, onde as pessoas compartilhavam múltiplas dimensões da vida e um destino comum (Maine, 1986: cap. V; Tönnies, 1963). Sob essa perspectiva, ao observar as transformações sociais em curso, os analistas consideravam a superação dos laços locais como um sinal de que uma comunidade havia adquirido contornos mais amplos, deixando para trás sua referência à particularidade para assumir um escopo mais abrangente.

Na prática, a referência principal da comunidade se tornou o Estado-nação, sob a suposição de que os ideais nacionais eram compartilhados por aqueles que viviam no mesmo território, sob a égide de um Estado soberano (Anderson, 1991; Grillo, 1980; Renan, 1996). Voltarei a essa questão mais adiante. Por enquanto, quero apenas destacar que essa noção “moderna” de comunidade não é mais a preferida quando o conceito é usado para explicar o presente. O referente de comunalidade que ganhou força é, ou a humanidade como um todo, ou então as identidades fluidas que os indivíduos formam com aqueles com quem compartilham alguma condição específica e, consequentemente, algum interesse ideal ou material (Archibugi & Held, 1995; Beck, 2006; Calhoun, 1994; Cheah & Robbins, 1998; Taylor, 1989).

Não precisamos nos restringir ao nível de generalidade mencionado acima para identificar mudanças na forma como percebemos e experienciamos nosso mundo. Várias dimensões da sociedade passaram por transformações radicais, exigindo revisões teóricas. Tomando alguns exemplos, vamos começar pela família. Tanto em termos objetivos quanto subjetivos, ocorreram mudanças enormes em sua estrutura e prática. O aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, novos padrões de casamento, planejamento familiar, novos métodos contraceptivos e perfis demográficos alterados são alguns dos desenvolvimentos cruciais que transformaram a forma como as famílias operam e interagem com outros atores sociais. Tais transformações acabaram redefinindo o funcionamento das unidades familiares, o que, por sua vez, tem afetado a maneira como outras instituições operam (ver, por exemplo, Ferguson, 2001; Graham, 1999; Newman & Grauerholz, 2002).

Tomando o trabalho como outro exemplo, podemos observar transformações igualmente significativas. Primeiro, a centralidade do trabalho na vida social tem sido colocada à prova por analistas que chamam atenção para crescentes taxas de desemprego, exclusão permanente de gerações inteiras do mercado de trabalho e o surgimento de éticas alternativas que competem com o trabalho. Além disso, mudanças dramáticas no perfil da demanda por trabalho, a busca por novas habilidades e o rápido desaparecimento de ocupações consolidadas apontam para o fato de que o mercado de trabalho não é mais o mesmo que no início da Revolução Industrial (Vallas, 2001).

Outras mudanças significativas incluem, por um lado, a mobilidade ampliada do trabalho e, por outro, o fato de que as descontinuidades entre o lar e o trabalho após a revolução das comunicações não são mais imperativas. Isso leva, então, a especular sobre o que acontecerá com as pressuposições e hipóteses teóricas sobre os motivos e os desempenhos das pessoas na força de trabalho, dos parâmetros de regulação do mercado de trabalho ou das estratégias dos agentes de mercado (Stehr, 2002).

Para concluir esta breve ilustração do perfil das alterações do mundo social, vamos refletir por um minuto sobre as mudanças que afetam outro ator social-chave, o Estado nacional. Se seu monopólio legítimo do uso da violência em um determinado território ainda se mantém como uma definição relevante, o uso generalizado da violência por traficantes de drogas e milícias privadas indica que o uso ilegítimo da violência é, em muitos lugares, uma ameaça real à manutenção da ordem, representando um desafio sério à autoridade pública. Além disso, no contexto internacional, as melhorias nas comunicações têm contribuído para a maior vulnerabilidade dos Estados e para restrições à sua soberania. Por último, mas não menos importante, confrontados por forças locais e transnacionais, os Estados nacionais enfrentam obstáculos crescentes para reivindicar a lealdade incontestada de seus cidadãos (Guéhenno, 1993; Sassen, 1996; Van Creveld, 1999).

Em resumo, os poucos exemplos mencionados acima são ilustrações eloquentes das grandes mudanças que estão ocorrendo no mundo social. Agora passo para a segunda questão geral apresentada aos participantes do Seminário.

Mudanças sociais e sabedoria sociológica

Como a sociologia respondeu às profundas mudanças na sociedade? Mesmo aqueles que buscam traçar uma linha nítida entre sociologia e história concordariam que os processos históricos têm consequências para a teoria e a prática sociológica. Devemos refletir constantemente sobre os conceitos que usamos, levando em conta que sua fluidez é, de certa forma, paralela às mudanças históricas no mundo social. Isso, entretanto, não exclui o fato de que, como já indicado, existe uma certa circularidade aqui, dado que, ao fornecer conceitos, a sociologia contribui para conferir significado ao que está acontecendo. Ao rotular o que ocorre, a sociologia oferece repertórios que dão aos atores sociais tanto uma compreensão do que está acontecendo quanto os instrumentos para lidar com os processos sociais em curso.

A crítica ao nacionalismo metodológico que tem emergido na teorização do cosmopolitismo constitui um bom exemplo disso (Beck, 2005; Urry, 2000). Não é à toa que a crítica em questão aponta para uma questão epistemológica séria, com profundas implicações para a maneira como concebemos a sociedade, nosso objeto de estudo. Ainda assim, é importante observar que essa crítica somente surgiu no contexto dos muitos processos globais que mudam a forma como as pessoas enxergam o mundo. A sociologia dos pais fundadores, assim como a do meio do século XX, não questionava o postulado de que o referente “natural” e imediato da sociedade era o Estado-nação. Em minha visão, ainda não avaliamos completamente as implicações de desconstruir essa ideia, nem compreendemos totalmente as consequências mais recentes da desnaturalização da longa simbiose entre nação e Estado. Ainda assim, isso não deve nos impedir de reconhecer que haverá revisões teóricas significativas em nossa disciplina à medida que ela se liberta da falácia geopolítica. Embora os Estados-nação continuem sendo atores-chave na vida social, a sociedade será concebida como um conceito muito mais fluido (Beck, 1992; Reis, 2004; Urry, 2000).

Tomando outro exemplo, considero relevante observar que o conceito de sociedade civil, que se tornou popular nas últimas décadas, tem sido recuperado após um longo período de esquecimento, mas com propósitos diferentes e significados distintos das suas definições antigas (Alexander, 1998, 2006; Cohen & Arato, 1992; Keane, 1988). Na minha visão, pelo menos no contexto da sociologia política, a noção de sociedade civil tem sido resgatada para sugerir que existem três tipos de recursos organizacionais de que a sociedade pode dispor: autoridade, interesse e solidariedade. Tipicamente, o primeiro é colocado sob responsabilidade do Estado, o segundo deixado ao mercado, e o terceiro conta com a sociedade civil (Reis, 2009).

Enquanto, durante a maior parte do século XX, tendíamos a ver a sociedade contando com dois tipos de recursos organizacionais, ou seja, os do mercado e do Estado (Bendix, 1964), hoje tendemos a olhar para a sociedade como o locus par excellence da solidariedade, embora não como um corpo uniforme de interesses (Wolfe, 1989). Enquanto no passado a representação dual confundia interesses materiais e ideais e, portanto, colocava mercado e comunidade do mesmo lado, em oposição à autoridade, agora há uma tendência a ver a própria sociedade civil como o âmbito dos interesses não mercantis. O terceiro setor e as organizações não governamentais são expressões típicas dos recursos de solidariedade no presente (Reis, 2009). Usando este exemplo como ilustração, a ideia que busco transmitir é a de que a nova percepção tripla, que está substituindo a antiga visão dual (Estado e mercado), é tanto uma mudança cultural em andamento que a sociologia captura quanto uma transformação cultural que a sociologia está ajudando a moldar. Ao analisar o fenômeno, a sociologia, como já afirmei, está acrescentando novos significados ao repertório cultural.

Aprofundando ainda mais o exemplo mencionado, observo que as responsabilidades e características tradicionais que identificamos como típicas do Estado e do mercado agora são muito menos distintas entre si. Pelo menos em termos normativos, os Estados têm adquirido características anteriormente esperadas como típicas do mercado. Assim, a nova doutrina de gestão pública defendida pelos governos contemporâneos é modelada segundo princípios tradicionalmente identificados como virtudes do mercado (Pollitt & Bouckaert, 2000). Por sua vez, a noção de responsabilidade social corporativa, que vem ganhando cada vez mais prestígio no mundo empresarial, sugere que papeis tradicionais do Estado têm sido incorporados pelo mercado (Carrol, 1999; Garriga & Melé, 2004). Para completar o quadro, a sociedade civil está assumindo responsabilidades anteriormente percebidas como exclusivas do Estado (Clayton, 1996; Salamon, 1999). Não é que a sociedade não desempenhasse os tipos de tarefas que agora consideramos típicas do terceiro setor. O importante é que agora pensamos na sociedade civil como um terceiro setor, ao lado do Estado e do mercado.

A mudança conceitual mencionada acima é apenas uma dentre muitas que a sociologia tem ou terá que processar, a fim de lidar com as transformações no mundo social. Como a forma que os sociólogos percebem o mundo afeta e é afetada pelas percepções leigas, a clarificação conceitual será sempre um desafio para a disciplina. Além disso, à medida que nossas definições conceituais mudam, nossas percepções da sociedade também mudam. Tomemos, por exemplo, os desafios contemporâneos que se apresentam ao Estado-nação, mencionados acima. Considerando que os Estados-nação não podem mais contar com as condições estabelecidas no passado para afirmar sua soberania na cena global, serão necessários novos entendimentos sobre o poder do Estado, tanto em termos teóricos quanto empíricos.

As pressões que o Estado enfrenta internamente não reduzem a necessidade de novas formulações teóricas e de clarificações empíricas. À medida que a pretensão dos Estados-nação de serem os portadores primordiais da solidariedade social é questionada, a lealdade de seus cidadãos deve ser compreendida de novas maneiras. Tanto as pressões externas quanto internas são bastante pertinentes à questão do nacionalismo metodológico já mencionada. Enquanto os sociólogos estão cientes das mudanças em curso e buscam maneiras de explicá-las, formas profundamente enraizadas de teorização resistem, e novas formas alternativas também competem entre si. Não há nada de novo nisso. Afinal, este sempre foi o modus vivendi da sociologia. Debates axiológicos, disputas conceituais e divergências teóricas sempre nos acompanharam. Na verdade, são os instrumentos por trás da modelagem da sociologia.

O que é distintivo no presente, como sugerido acima, é que a magnitude e o escopo das mudanças correntes apontam para uma nova grande transformação. As poucas dimensões mencionadas aqui como ilustrações não deixam margem para dúvida: as mudanças que observamos na sociedade e os desafios que elas impõem à sociologia sugerem que, para compreender o mundo em transformação, precisamos nos afastar radicalmente das formas como costumávamos conceber nosso mundo social. Não existem respostas fáceis para as questões que confrontamos, nem receitas prontas para produzi-las. No entanto, ter tais questões em mente, em nossas práticas teóricas e empíricas de pesquisa, é necessário para o compromisso da sociologia de desenhar um quadro mais claro da sociedade contemporânea. Tendo isso em vista, abordo a terceira das questões propostas para discussão.

A sociologia e os desafios do presente

Desejo centrar minhas observações finais na ideia de atravessar fronteiras. Aqui, tenho em mente as fronteiras teóricas, geográficas e disciplinares que nos separam. A meu ver, o diálogo através dessas três linhas continua sendo um dos instrumentos mais poderosos de que dispomos. Se, olhando para os outros, criamos sempre novas oportunidades de nos enxergarmos a nós mesmos, isso se torna particularmente verdadeiro em tempos de grandes transformações sociais, quando métodos rotineiros e explicações canônicas nos falham.

Confrontar posições teóricas dentro da sociologia, observar como fenômenos que investigamos aqui operam ali, ou buscar compreender como outras disciplinas lidam com os mesmos processos e eventos que observamos, constituem formas promissoras de lançar luz sobre nosso próprio objeto. À medida que abrimos espaço para observar outros contextos, aprimoramos nosso foco para capturar a mudança. Observar como outras disciplinas e/ou outras perspectivas sociológicas produzem conhecimento também contribui para tornar o panorama das experiências de transformação social mais denso e significativo. Em suma, comparações, confrontos teóricos e empreendimentos interdisciplinares são recursos com os quais devemos contar para aprimorar nossa capacidade de decifrar a nova grande transformação.

Como associações profissionais, e a ISA em particular, podem contribuir para fortalecer tais diálogos e comparações? A meu ver, associações profissionais são atores privilegiados para promover diálogos. Observando o desempenho atual, vemos que, de fato, elas já desempenham esse papel, mas muito mais pode ser feito para expandir a relevância pública da ciência. Pensando especificamente em nossa associação, a ISA poderia, talvez, adotar uma política mais explícita de incentivos para comparações sistemáticas dentro de seus comitês de pesquisa. Na medida em que tais órgãos se reúnem em torno de interesses temáticos, sociólogos de várias vertentes teóricas e de diferentes contextos sociais, temos um ambiente muito propício para desenvolver práticas comparativas.

Promover amplos debates teóricos em fóruns abertos seria outra forma de fomentar o diálogo e explorar o potencial de diferentes modelos para dar conta das mudanças em curso. Simplesmente esclarecer os pontos fortes e fracos das teorias concorrentes pode lançar luz sobre os discursos sociológicos. Além disso, convidar especialistas de diferentes disciplinas para discutir conosco questões atuais do mundo, entre elas problemas ambientais, mudanças demográficas ou controvérsias bioéticas, pode ser um passo decisivo para tornar a pesquisa sociológica mais relevante.

Tornar operativas iniciativas como as sugeridas acima não é tarefa trivial. Se a ISA as considerar medidas relevantes, será necessário elaborar instrumentos/estratégias adequadas para fomentar esforços comparativos sistemáticos e debates frutíferos. Como tarefa preliminar, vale chamar a atenção para os instrumentos e recursos que a ISA já possui para tornar seus planos operativos. Aqui estou pensando, principalmente, em suas estruturas e programas que já desempenham tarefas ao longo das linhas que sugiro, mas que certamente poderiam ser mais focados para maximizar seu impacto. Assim, por exemplo, nossas séries de livros e periódicos poderiam selecionar questões contemporâneas para serem exploradas sob uma perspectiva comparada. Os Comitês de Pesquisa da ISA poderiam incluir incentivos nos programas de suas reuniões de médio prazo para discutir a adequação de conceitos e métodos específicos para a análise de novos problemas. Premiar pesquisas comparativas também seria um incentivo, considerando procedimentos que a ISA já utiliza para distribuir prêmios já existentes (Comitês de Pesquisa). Mesas-redondas poderiam ser programadas para os diversos encontros da ISA, a fim de discutir os resultados de iniciativas interdisciplinares já existentes, etc.

Em resumo, embora não possamos esperar simplificar a complexidade do mundo, nem encontrar soluções prontas para a perplexidade teórica, podemos certamente fortalecer a comunidade sociológica através de esforços deliberados para nos compreendermos mutuamente, recorrendo à comparação e ao diálogo. Associações científicas internacionais já são instrumentos poderosos para contornar o vírus do etnocentrismo pelo simples fato de proporcionarem oportunidades de intensa e concentrada interação com a diversidade.

Para concluir minhas breves reflexões sobre o impacto das mudanças sociais contemporâneas na forma da sociologia atual, insisto nas implicações mais amplas das grandes transformações culturais que afetam profundamente o modo pelo qual as pessoas enxergam o mundo. Uma vez que isso é reconhecido, não se pode mais ignorar o fato de que existem necessidades prementes para que a sociologia revise seus pressupostos, conceitos, proposições e métodos, a fim de enfrentar os desafios do presente. Seja como for, o lugar que o conhecimento, enquanto tal, adquiriu em nossa sociedade atual só pode ampliar ainda mais as perspectivas de relevância expandida da sociologia. O fato de que a comunidade de sociólogos da ISA esteja amplamente consciente disso contribui para o meu otimismo renovado.


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