
Publicamos hoje a resenha de Caetano Araújo sobre o livro Um bandido tímido: ensaio sobre Lima Barreto, de Angélica Madeira, publicado no final do ano passado pela Ateliê de Humanidades Editorial.
Por que Lima Barreto, autor de mérito inegável, nunca compareceu a uma recepção e foi três vezes recusado pela Academia Brasileira de Letras? Em Um bandido tímido, Angélica Madeira oferece respostas com as ferramentas da sociologia da cultura, examinando em conjunto a vida e a obra do escritor. Na resenha, Caetano Araújo adianta o que o leitor vai encontrar: um autor coerente em suas posições contramajoritárias, em especial contra o nacionalismo pueril e o cientificismo racista, personagens lidos como “blocos de afeto” spinozanos e os temas fantasmas dos últimos anos – loucura, alcoolismo e morte. O retrato de quem, à margem da cultura oficial da República Velha, antecipou debates sobre raça e gênero que só ganhariam projeção décadas depois.
Boa leitura!
Um bandido tímido
Por Caetano Araújo
No final do ano passado, a Ateliê de Humanidades Editorial trouxe a público um livro singular, destinado certamente a alimentar, por bastante tempo, os debates sobre a obra de um dos maiores escritores nacionais do início do século XX. Trata-se de Um bandido tímido: ensaio sobre Lima Barreto, de Angélica Madeira. Resultado de uma longa convivência com a obra do autor e com o corpo significativo de crítica acumulado desde seu falecimento, em 1922, o ensaio aporta ao debate, de maneira persuasiva, a perspectiva da reflexão teórica da sociologia da cultura, dos intelectuais e da produção artística, campo no qual a autora construiu sua carreira acadêmica.
Nos quatro capítulos em que se divide o ensaio, Angélica examina, em conjunto, a vida e a obra de Lima Barreto. No primeiro, aborda sua relação com as instituições relevantes na vida cultural da primeira República, seu posicionamento frente aos grandes temas de debate na época, bem como a construção progressiva de suas simpatias e antipatias políticas.
Apresenta suas relações de amizade, a participação nas rodas e círculos literários, assim como as tentativas frustradas de ingresso na Academia Brasileira de Letras, nos últimos anos de vida. Mostra também, ao longo do capítulo, sua postura sempre crítica em relação a seu local de trabalho, a repartição pública, então uma espécie de estação de mobilidade social, na qual pessoas de origem popular em ascensão, como ele, conviviam com filhos e netos empobrecidos de fazendeiros.
Destaca a coerência de suas manifestações nos grandes debates da época. Sempre em posição contramajoritária, contra o nacionalismo pueril, mas contra também a subserviência irrefletida aos modismos estrangeiros; contra a literatura ornamental, em favor das letras como instrumento de consciência e de mudança; contra o cientificismo imperante, racista e sexista, em favor da elevação de negros e mulheres à condição de cidadãos plenos. Na política institucional, sua aversão ininterrupta à República dos latifundiários, dos senhores recém-privados de seus escravos, aversão que, canalizada na primeira juventude para uma simpatia monarquista, na tradição de seus familiares, alimentou posteriormente seu apoio ao anarquismo, ao maximalismo e, finalmente, aos revolucionários russos de 1917.
O segundo capítulo é dedicado à caracterização dos intelectuais na obra de Lima Barreto. Como assinala Angélica, o tom é crítico, mas não uniforme. Há gradações nos retratos que surgem em sua obra, que passam pelo sarcasmo, pela ironia, para chegar a alguns momentos à caracterização trágica de personagens que evocam, indiscutivelmente, traços da experiência pessoal do autor. As críticas mais duras recaem, contudo, sobre os intelectuais apresentados como exemplares nos parâmetros distorcidos da República Velha: oportunistas, estelionatários como os interlocutores Castelo e Castro. Seus nomes apontam para relações de semelhança e a cumplicidade entre eles, relações das quais está excluído, evidentemente, o autor do conto.
No terceiro capítulo, a galeria de personagens de Lima Barreto é apresentada de forma original, consequente com a ideia que inspira o autor no seu trabalho criativo. Se a função da literatura é revelar as almas, os afetos se apresentam como caminho privilegiado para avaliar o resultado da atividade literária. Angélica, inspirada no uso que Roberto Machado e Gilles Deleuze fazem da obra de Spinoza, discute o conjunto dos personagens a partir da categoria blocos de afeto, separados pelo critério etário em blocos de infância, de juventude, de maturidade e de velhice.
Finalmente, no último capítulo, Angélica chega aos temas que, embora presentes ao longo de toda a obra, ganham relevância nos últimos anos de Lima Barreto, ocupados principalmente na redação de seu “Diário Íntimo” e no romance inacabado “Cemitério dos Vivos”: seus “temas fantasmas”, a loucura, o alcoolismo e a morte. Todos, como também sua criação literária, decorrentes da frustração reiterada das justas expectativas de um autor dotado de enorme sensibilidade.
O retrato do artista que emerge do ensaio impressiona. Trata-se de uma obra construída na contraposição permanente ao mundo da cultura oficial da República Velha e a todos os seus medalhões. Feita a partir da percepção dolorosa e cotidiana, por parte do autor, de sua própria exclusão, da recusa do reconhecimento de seu mérito, inegável, por motivações de classe e de raça, motivações incompatíveis com os ideais democráticos e republicanos afirmados na Constituição, nas leis e nas manifestações consagradas da cultura oficial.
Comprovam a consciência do mérito próprio e a demanda por reconhecimento justo as três tentativas frustradas de ingresso na Academia Brasileira de Letras, nos anos derradeiros de sua vida. Como aponta Angélica, o insucesso não pode ser debitado exclusivamente à cor da pele, uma vez que houve negros na Academia desde sua fundação. No caso de Lima Barreto, pesavam, adicionalmente, barreiras sociais, particularmente, sua posição de outsider nos círculos culturais da capital. Lima publicava na imprensa carioca e frequentava rodas literárias nos bares da cidade. No entanto, estava excluído da vida da sociedade, dos salões, locais onde os literatos se apresentavam como tais junto ao escasso público leitor da época. Na observação perspicaz do biógrafo, que Angélica recupera, Lima Barreto talvez tenha sido o único escritor do seu tempo que nunca compareceu a uma recepção. No fundo, os mesmos fatores que alimentaram sua visão crítica, da sociedade e da produção literária de sua época, contribuíram para a recusa do reconhecimento pleno de sua obra por parte de seus pares.
Lima Barreto percebia com clareza, e o ensaio mostra isso muito bem, o caráter sistêmico do processo de apartação social e racial que vigorava no Brasil recém-egresso da escravatura, assim como a necessidade de mudanças políticas profundas para superar essa situação. Daí ter direcionado sua simpatia para os anarquistas e socialistas de seu tempo. Mas a simpatia ao campo político dos trabalhadores, que já contava na sua época com uma tradição consolidada de militância sindical e reflexão teórica era muito pouco para sua sensibilidade extrema a toda forma de desigualdade. Lima foi além, antecipando, no seu tratamento às questões da raça e de gênero, problemas que chegariam ao senso comum das sociedades ocidentais décadas depois de sua morte.
Predominava nessa época nos meios intelectuais a ideia da inferioridade da raça negra, tida como permanente, em razão das leis inexoráveis da hereditariedade, tudo com a chancela da pseudociência então em voga. Lima Barreto combateu explicitamente esse ideário, ao mostrar como o caráter supraindividual do racismo não dependia de motivações pessoais. Desnudou, assim, o caráter sistêmico ou estrutural do problema, como é corrente reconhecer hoje, com a consequente insuficiência da simples afirmação da igualdade dos cidadãos perante a lei para a sua resolução.
Mas o exemplo mais marcante de prefiguração do futuro que Angélica mostra em seu ensaio é a sensibilidade de Lima Barreto para a questão de gênero, sua extraordinária empatia com a condição feminina, sua simpatia tanto com as mulheres seduzidas e empurradas para a prostituição, quanto com aquelas aprisionadas em um casamento no qual não têm escolha nem voz.
O individualismo é um processo histórico, no qual valores associados à centralidade do indivíduo, como liberdade e igualdade, se expandem geográfica e tematicamente, de forma ambígua e contraditória, identificando como relevantes novas desigualdades a serem superadas, sempre em tensão com impulsos regressivos, em favor das antigas hierarquias. Nessa perspectiva, a fronteira móvel da desigualdade chegou, e continua a chegar hoje, a territórios que Lima Barreto, com as lentes da sua arte, começou a mapear mais de cem anos atrás, na capital da então recente República brasileira.
