
A Central Galeria (Rua Minas Gerais, 362 – Higienópolis, São Paulo) apresenta Céu de Concreto, primeira exposição individual de Luiz Carlos Paulino (Bizil) na galeria, que ficará em cartaz de 15 de agosto a 19 de setembro. A mostra reúne três núcleos de obras que incorporam diferentes perspectivas da vida dos egressos da Casa de Detenção, integrando-as ao debate do programa anual da galeria – voltado aos tempos políticos e ao campo aberto da liberdade, da experimentação e da imaginação.
Luiz Carlos Paulino é sobrevivente do massacre do Carandiru (1992), uma das maiores barbáries da história do país. Em sua produção, transforma essa experiência em obra, dando forma à violência da ação policial que deixou 111 mortos, segundo dados oficiais. Entre representações do horror e dimensões imateriais e espirituais, suas obras denunciam a negação de direitos básicos, as violências do Estado e também afirmam sua sobrevivência como um milagre.
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Confira abaixo o texto crítico da mostra, escrito por Lilia Moritz Schwarcz.
Luiz Paulino: o bafo da morte e a memória da barbárie
Por Lilia Moritz Schwarcz
Logo após o final da Segunda Guerra Mundial – depois da abertura dos campos de concentração nazistas e o julgamento dos chefes do Terceiro Reich –, Hannah Arendt elegeu um conceito estratégico para nomear as pessoas que resistem aos momentos de terror: seriam as “testemunhas de seu tempo”. Mas elas são mais que testemunhas passivas. São testemunhas/ sobreviventes, que conseguem traduzir sofrimento em formas de conhecimento e escapam dos silêncios deixados pela história triunfalista, para incluir em suas narrativas a resistência, a violência, o arbítrio do Estado e dos poderosos.
A filósofa concluiu, então, que “testemunhas” são aquelas que “ficam para contar”, sendo capazes de construir memória e história acerca de traumas que são, ao mesmo tempo, individuais e coletivos.
E dentre os tantos “traumas” que fazem parte da nossa “odisseia brasileira”, figura o Massacre do Carandiru – uma das mais graves violações de direitos humanos da história recente do país. O episódio ocorreu em 2 de outubro de 1992, na antiga Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, durante uma intervenção da Polícia Militar do Estado que, teoricamente, deveria, apenas, conter uma rebelião no Pavilhão 9. Ao final da operação truculenta, e segundo dados oficiais, 111 pessoas que se encontravam presas naquele local caíram mortas. Foram assassinadas.
Naquela circunstância, o Carandiru era conhecido como o maior complexo penitenciário da América Latina, contando com uma população carcerária muito acima de sua capacidade. As condições eram marcadas por superlotação, precariedade sanitária e frequentes episódios de violência.
Pois bem. Após uma briga entre dois detentos do Pavilhão 9 – Barba e Coelho –, toma volume uma rebelião motivada pela decisão dos agentes de segurança de recolherem todos os presos às suas celas, retirando-os do pátio e das horas de lazer. Inicia-se, nessa circunstância, às 14 horas, um movimento que em poucos minutos escalou. O governo estadual autorizou, então, a entrada da Polícia Militar, que chegou ao lugar às 18 horas – fortemente armada.
A operação foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que, durante cerca de 12 horas, liderou um verdadeiro banho de sangue que tingiu as instalações. Exames periciais mostraram que muitas pessoas foram atingidas por tiros à queima-roupa, em posições que sugeriam rendição ou tentativa de proteção com o próprio corpo. Nenhum militar morreu durante a operação.
Investigações e decisões judiciais posteriores concluíram que 102 detentos morreram por disparos da Polícia Militar, enquanto 9 perderam suas vidas, dizem eles, em decorrência de violência entre os próprios presos e antes da entrada da PM.
O episódio passou à história como o Massacre do Carandiru. Entre 2013 e 2014, dezenas de policiais militares foram condenados pelo Tribunal do Júri, mas em 2016, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou essas condenações, entendendo que não era possível individualizar a responsabilidade penal de cada policial. Nesse verdadeiro “deixa pra lá coletivo”, anos depois, o Superior Tribunal de Justiça restabeleceu as condenações, mas a tramitação judicial continuou a ser prorrogada. O caso se transformou em símbolo da dificuldade de responsabilização em episódios de violência estatal.
Mesmo assim, o massacre ganhou enorme repercussão nacional e internacional, e a própria Comissão Interamericana de Direitos Humanos culpou o Estado brasileiro por violações graves de direitos humanos relacionadas ao episódio.
O tempo costuma ser, porém, cruel diante de episódios desse tipo, que não são da ordem do acaso; fazem parte de um projeto estruturado de violência prisional, que as autoridades pretendem, sinceramente, apagar. E, passados mais de 20 anos, pouco se fala dessa cicatriz aberta na história brasileira, que não devemos ou podemos esquecer.
Essas são, aliás, histórias recorrentes no Brasil. Em 1902, Euclides da Cunha publicou o livro Os sertões, e afirmou ter escrito um “livro vingador”. Em 1897, ele foi testemunha ocular do massacre de Canudos, quando tropas militares da recém-inaugurada República assassinaram boa parte do arraial. Estima-se, aliás, que cerca de 15 a 25 mil pessoas tenham sido mortas ao longo do conflito.
Euclides, que partiu do Rio de Janeiro cheio de certezas, voltou sobrecarregado de dúvidas acerca da, assim chamada, civilização. Chamou tudo que viu de massacre e disse terem lhe faltado palavras diante de tudo que presenciou. Tampouco imagens, que são ainda mais raras nessas ocasiões.
Luiz Paulino testemunha/sobrevivente
Entre o massacre de Canudos e o do Carandiru transcorreu quase um século. Naquele exemplo, restaram algumas poucas fotos feitas por Flávio de Barros, e o “relato vingador” de Euclides da Cunha. Já no caso do Carandiru, dentre as testemunhas visuais estava um artista. Era Luiz Paulino, também conhecido pelo apelido Bizil, que, conforme costuma repetir, sobreviveu “por um milagre”, e viveu para contar acerca dessa chacina patrocinada pelo próprio Estado. Euclides da Cunha assistiu ao massacre como jornalista; já Luiz Paulino estava no meio dele.
Preso por duplo homicídio, naquele 2 de outubro de 1992 ele se encontrava encarcerado no Complexo: tinha, então, 25 anos. Oriundo de uma família evangélica, Luiz Paulino entrou para o mundo do crime ainda adolescente. Guardou distância da religião, a despeito de nunca ter renegado a fé cristã, que hoje professa. Assim, mesmo se considerando uma “ovelha desgarrada”, acreditou que “o Senhor” lhe teria enviado duas mensagens logo no início daquele terrível mês de outubro.
A primeira foi por meio de um sonho – quando “um portão imenso e reluzente se abriu no Carandiru”. Enfileirados, centenas de homens atravessavam aquelas grades e desapareciam. A imagem onírica lhe veio na madrugada daquele fatídico dia 2, véspera de eleições municipais. Bizil a interpretou como um alerta do que estava para acontecer. Esse seria um “sonho vingador” e premonitório
O Carandiru era reconhecido, a essas alturas, como uma bomba relógio encravada bem no coração da cidade de São Paulo; só faltava quem a detonasse. A ordem veio de cima: tropas da Polícia Militar invadiram a penitenciária, disparando pelo menos 3,5 mil tiros. Esse foi o episódio mais sangrento da história carcerária brasileira. Luiz Paulino presenciou muitas esquinas desse crime.
Bizil encontrava-se preso justamente no pavilhão 9, no 5º andar, e dividia um espaço exíguo com sete companheiros. O relato a seguir é do próprio Luiz Paulino, na entrevista que concedeu à revista Piauí, de julho de 2025: “Se a gente continuasse zanzando fora da cela, as tropas iam fuzilar todo mundo. Por isso, entramos de novo no xadrez. Para dificultar a ação dos PMs, espalhamos água e óleo de cozinha pelo chão. Logo depois, tiramos a roupa e nos deitamos de bruços em cima daquela lambuzeira, com as mãos sobre a cabeça”, conta ele. “Já perto da nossa cela, um dos policiais berrou: ‘Levanta, ô, Zé!’ Obedeci, e o maluco sentou o dedo na matraca. Só que a arma falhou, acredita? O sujeito, decepcionado, me mandou deixar o xadrez: ‘Pisa no veludo, Zé! Vai andando devagarinho.’”
Foi então que Luiz Paulino julgou ter recebido um segundo sinal divino. “Seja corajoso’, dizia uma voz vinda do além. ‘Você vai presenciar coisas horrorosas, mas não vai perecer … Vi soldados jogando corpos de presos no fosso do elevador e em caminhões de lixo. Escutei gente suplicando por misericórdia, levei muita porrada e senti o bafo assombroso da morte[1].”
Luiz Paulino desceu, então, os cinco andares do Complexo, passou por vários corredores poloneses, e alcançou o pátio central para se deparar com o próprio inferno localizado no Carandiru. Hoje, afirma ter saído “milagrosamente ileso” – explica em outra entrevista que ficara “invisível” – e que sua “missão”, a partir daquela data, seria tirar outras pessoas desse tipo de vida e, ao mesmo tempo, não permitir que a memória daquela barbárie restasse no silêncio.
No ano 2000, Bizil passou para o regime semiaberto, e com 28 anos o sobrevivente da chacina resolveu colocar em telas tudo o que viveu naquele dia 2 de outubro de 1992. Foi, aliás, no início dos anos 1980, quando ainda era interno do regime penitenciário, que Luiz Paulino passou por atividades socioculturais. Por lá, ele jogava futebol e, também, fazia aulas de expressão artística visual como uma forma, explica ele, “de se humanizar, de cuidar de si” e de não ser arrastado para qualquer contravenção. Assim, durante 12 dos 13 anos que permaneceu no Complexo do Carandiru, ele aprendeu pintura com professores, como um jamaicano, chamado Taylor, e o sr. José, um imigrante italiano. Ambos estavam no Pavilhão 6, onde ficavam os estrangeiros, e com eles o aprendiz usava seu tempo desenhando paisagens. Era com a arte que Bizil encontrava alguma liberdade.
Sobre a arte da barbárie
Luiz Paulino deixou a prisão um ano depois do episódio e faz tempo que conquistou a liberdade. Passou a se dedicar, então, a uma produção artística centrada na lembrança do massacre. Quando seu pai faleceu, como filho mais velho, herdou uma casa em Franco da Rocha e, a despeito de ter estudado teologia e direito, optou por viver de suas telas.
Assim, antes de abrir essa exposição na Galeria Central, em 2026, Luiz Paulino já havia participado de duas mostras individuais. A primeira, chamada “O Massacre do Carandiru, no dia 2 de outubro de 1992”, foi realizada no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro, em xxxx, e reuniu boa parte da sua produção. A outra, na FESPSP de São Paulo, foi inaugurada em 2024, e recebeu o título: “Inventário; o Massacre do Carandiru numa pintura múltipla da memória”. O artista também participou de mostras coletivas e algumas de suas obras hoje fazem parte dos acervos da Pinacoteca de São Paulo e do Museu Nacional de Belas Artes.
Para a presente exposição, exceto por uma obra, todas as demais estão sendo exibidas pela primeira vez. Há repetições de temas – como as cenas de lazer dos ingressos e as partidas de futebol; esporte ao qual se dedicou enquanto ainda estava na prisão. Também as pinturas com muitas marcas de sangue são recorrentes. A novidade, porém, é um conjunto de pátios vazios, e que recebem variações de luz, a depender dos horários dos dias. Aqui, Luiz Paulino faz e conversa com a história da arte.
A obra do artista guarda um estilo muito próprio. De um lado, está uma série de telas mais realistas e figurativas. A arquitetura do presídio aparece destacada nos trabalhos, sendo que, em muitas delas, surgem paredes altas, amareladas, só cortadas por janelas proporcionais e escuras. O formato opressivo da penitenciária como que emoldura esses quadros e descortina um espaço em contenção: abafado. O colorido rebaixado dialoga com as pequenas vidas que se movem no pátio. Antes do massacre, diminutas linhas amarelas seguem os movimentos de figurantes anônimos. Depois dele, os traçados tornam-se marcadamente vermelhos.
Quase como se fosse uma história em quadrinhos, o drama vai se desenhando por entre as telas – na relação que se estabelece entre elas. Os quadros ganham mais e mais vermelho, com a cor tomando o chão como se fosse uma larva incandescente. Já as janelas aparecem agora cheias de panos; quase borramentos. Em algumas delas, pendem tecidos, pedidos de paz, ou, ao menos de atenção, diante de uma sociedade que pretende isolar e muitas vezes exterminar sua população carcerária. É no pátio que as cenas explícitas do massacre ganham forma: corpos em boa parte nus, subjugados, contracenam com o sangue espalhado e os uniformes negros dos PMs, com suas linguagens corporais altivas. Armas apontadas de um lado; de outro, homens agachados, deitados e dominados, mas, ainda assim, sob a mira e o arbítrio das armas.
O cenário é aterrador e ganha ares de testemunho, quando o então prisioneiro parece se autorretratar como sobrevivente daquele inferno. Por sinal, o inferno é invocado em telas de teor menos realista, quando o próprio Luiz Paulino, salpicado de sangue, aparece rastejando ao chão e sendo abençoado por uma pomba do divino. Completam a cena, sombras aterradoras da PM, homens mortos ou agonizantes, chamas que se confundem com a opressão na terra e o degredo bíblico.
Interessante como, a despeito de ter sido testemunha ocular do Massacre, o artista alterna trabalhos quase documentais, com obras que incluem seus sonhos, visões e temas que parecem apocalípticos. Estranhos animais, parecem representar as feras soltas de um Estado que desistiu de cuidar das pessoas apenadas – o projeto era mesmo eliminá-las.
A técnica de Luiz Paulino se destaca no conjunto das telas: o colorido preciso, o jogo entre primeiro e segundo plano, a perspectiva que faz as edificações parecerem cavernas, o jogo dos corpos que opõe subjugação e violência; a prepotência frente à humilhação. Trata-se, portanto, não apenas de um registro, mas de um projeto artístico que não abdica do lugar da denúncia e do testemunho – de lembrar de não esquecer.
A arquitetura opressiva do pavilhão, o céu muito negro e os corpos vencidos contracenam com essa barbárie da civilização. Se Luiz Paulino conta, hoje em dia, que sua intenção foi preservar a memória dos presos mortos, e assim denunciar a desumanização do nosso sistema prisional, seus belos trabalhos também abrem mão de legenda explicativa. O conjunto, muito forte, lembra a série criada por Francisco Goya chamada “Os desastres da guerra”: 82 gravuras realizadas entre 1810-1820. A despeito das diferenças contextuais e de técnica, chama atenção como ambos agiam como testemunhas. No caso de Goya, vemos os horrores da Guerra Peninsular, com cenas de execuções, fome, mutilações e sofrimento da população civil. O conjunto é uma das mais importantes denúncias visuais acerca dos horrores da guerra. Já Luiz Paulino nos força a revisitar essa chacina que virou um lembrete incômodo acerca da violência estatal, da desumanização do sistema prisional e da persistente impunidade vigente no Brasil. Uma execução coletiva que expôs ao mundo a brutalidade do sistema penitenciário nacional.
Em Apocalipse now, filme de 1979, o diretor Francis Ford Coppola representa a insensatez da Guerra do Vietnã, e de todas as guerras, a partir de um personagem misterioso e ambivalente representado pelo ator Marlon Brando. Cansado de combater a violência, ele passou a praticá-la e assim a naturalizou. “— É o horror, é o horror”, repete.
Luiz Paulino negou-se a naturalizar o horror que presenciou no Massacre do Carandiru; ao contrário, fez dele linguagem visual. Virou um testemunho/ artista. Um artista/ testemunho, liberto a partir da sua arte.
Nota
[1] Luiz Paulino repetiu muitas de suas palavras na entrevista que concedeu a Yago Toscano da Galeria Central em ….