Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Automovel (22 de janeiro, 20 horas)   

Mário de Andrade passa o dia a atravessar a paisagem pedregosa do sertão potiguar em direção a Natal. Cruza por cidades como Caicó, Jardim do Seridó, Parelhas, Acarí, Currais Novos e Santa Cruz, chamando-lhe a atenção o ar de progresso que atinge algumas delas. Contudo, ainda sensibilizado pela “monstruosidade de grandezas” que é a seca do Nordeste, ele reafirma que seu diário não é um projeto literário, e repudia a própria vontade de transformar aquela dor real em mero recurso estético.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Automovel (22 de janeiro)

Atravesso Caicó, partindo pra vencer a última etapa dessa viagem. 7 e 40. Caicó me assombra, bem arrumada, casas novas. São casas pequenas, enfeitadas muito, no geral feiosas porêm se sente o progresso. “Aqui vai ser uma rua”. O que se vê é um conjunto de pedras desengonçadas, lages, blocos. E aí vai ser uma rua… E assim, grupos de casas novas, sem nenhuma espécie de vegetação, a gente tem uma impressão danada de monumentalidade. 

Essa impressão vai continuando estrada fora. Estrada excelente cortando uma paisagem quasi que exclusivamente de pedra. O chão é pedregulho só. A própria vegetação do deserto nordestino, rareia muito. Por momentos a gente fica cercada só de pedra e do chique-chique rasteiro que parece vegetação de pedra tambem. Os serrotes vão amansando. Larquezas formidaveis e no longe á direita a serra da Borborema menos recortada, ondulando estendida. A rodovia inteligentemente estudada vai no divisor das aguas entre o rio Seridó e o Barra Nova. E as cercas das fazendas por aqui são exclusivamente muros interminaveis de pedra. Os obras-de-arte da estrada, pontes de cimento, mata-burros de trilho, tudo reto. É monumental. Um monumental desolado, em que a monotonia do grandioso tem uma psicologia de perversão beaudelariana, amarga. 

As 9 cortamos Jardim do Seridó, uma cidadinha de Tarsila, toda colorida limpa e reta. Catita por demais, lembrando Araraquara por isso. Cidade pra inglês ver. Mas não tem dúvida que é um dos momentos de cor, mais lindos que já tive neste aprendizado pra turista. 

30 minutos depois tomamos café e agua verdadeira em Parelhas nascida ontem, com ar de saúde. A região do Seridó mostra com evidencia um ar de progresso que até agora eu não tinha sentido neste raide nem mesmo nas salinas. De fato é a região mais pregressista do Estado, velorizada pelo algodão “mocó” e facilitada pelos processos econômicos em uso. O trabalhador aqui, no geral, é meieiro. O proprietário das varzeas e dos açudes dá a terra, o proletario planta e colhe algodão, o resultado é metade pra cada um. Isso prende um bocado mais o proletário á região e o exodo de moços diz-que é menor aqui. Mas existe tambem. Em Caicó nos enumeram nomes de rapazes partidos ou em vésperas de partir pro sul e já encontramos um grupinho, seis ou oito, trouxa nas costas, pé na estrada, indo-se embora. 

Mas nesta viagem assim rapida, correndo pelo divisor das aguas, os sinais de progresso são apenas as cidades. Tambem quando sinão quando nos ramos desfolhados dos juremas estão presos flocos de algodão ficados dos fardos em viagem. E é só. Não se vê os açudes. No entanto a açudagem particular tem realizado milagres na região. Bastadizerque dos mais ou menos 1500 açudes do Rio Grande do Norte, me informaram que perto de 1200 estão no Seridó. 

Açudagem particular porquê o govêrno Federal mesmo… Passada Acarí as 11 e 28 logo topamos com o açude… que ia-se fazer de Gargalheira. Gastaram com as obras preparatorias um colosso de dinheiro, máqinas, transforte de material, salarios, construções de casas e, sim, os intermediarios. Passei. Construções por acabar… em ruínas, barracões, maquinario carissimo, barragem iniciada, tudo no abandono, inutil, coisa hedionda, crime famoso, desgraçados! 

Não é possível se pregar revolução nesse país. Na certa que haverá traidores. O que nós carecemos é dum cangaço secreto, matando friamente fulano que é gatuno, fulano que é burro, fulano que é abulico, assim. Matar. Matar friamente. Então o açude de Gargalheiras juro que já estava acabado, beneficiando a uma região produtora, prendendo gente no solo nordestino, enriquecendo o país. 

Almoçamos em Currais Novos e uma hora depois, 13 e 20, de novo entre pedra e chique-chique, as juremas sempre rareadas. Principia o facheiro pardo sujo, implorando licença pra se chamar de verde, anunciando a serra do Doutor. Agora é quasi só facheiro, uma facheirada, espeloteada beiradeando as nascentes do sêco Potengi. 

Mais um grupo de retirantes. Mulheres guindadas sobre badulaques de mudança que os 2 burros carregam. Homens de pé. Um gerico leva os caussuás cheinhos de crianças. De certo vão pro açude federal de Sta. Cruz onde já tem mais de 200 familias arranchadas… 

15 e 15. Sta. Cruz. Passamos. Os pneus já estão dando o prego. Paradas irritantes. Já estamos nas barras do sertão. Mais um grupo de rapazes, três, gente forte, trouxa no ombro. Entramos definitivamente na catinga, com a serra baiada por último espicaçando a planura. As camaras-de-ar não podem mais tambem. Abrimos numa carreira maluca fugindo da pane definitiva. 

Ás 17 e 40 fechamos o O da viagem topando com a estrada de Lages, tomad n manhã, 5 dias atrás. A boca-da-noite fecha rapida. Desilusoria como todo fim de viagem. Macaíba. Ás 19 e pico o triangulo eletrico da capelinha de S. Pedro no Alecrim. Natal. Mil cento e cinco quilomentros devorados. E uma indigestão formidavel de amarguras, de sensações desencontradas, de perplexidades, de odios. Um odio surdo… Quasi uma vontade de chorar… Uma admiração que me irrita. Um coração penando, rapazes, um coração penando de amor doloroso. Não estou fazendo literatura não. Eu tenho a coragem de confessar que gosto da literatura. Tenho feito e continuarei fazendo muita literatura. Aqui não. Repugna minha sinceridade de homem fazer literatura diante desta monstruosidade de grandezas que é a sêca sertaneja do Nordeste. Que miseria e quanta gente sofrendo… É milhor parar. Meu coração está penando por demais. 

MÁRIO DE ANDRADE