
Na próxima terça-feira, dia 8 de setembro, a partir das 19h, será lançado no Rio de Janeiro o livro Graciliano Ramos: vida e obra escrito por Wander Melo Miranda. O evento do novo lançamento da Companhia das Letras será na Livraria da Travessa (Rua Voluntários da Pátria, 97 – Botafogo) e contará com uma conversa entre o autor e Célia Pedrosa, seguida de uma sessão de autógrafos.
A nova biografia de Graciliano Ramos percorre a trajetória pessoal, política e literária do escritor, revelando aspectos pouco conhecidos de sua vida e sua relação com a literatura e a militância política. Ao recuperar também as diferentes formas pelas quais a crítica leu e reinterpretou sua obra ao longo do tempo, a biografia oferece não apenas um retrato de Graciliano, mas uma reflexão sobre os modos de pensar a literatura brasileira.
Confira abaixo entrevista exclusiva com o autor realizada por André Botelho. Publicamos, também, a orelha do novo livro de Wander Melo Miranda.
Entrevista com Wander Melo Miranda
Por André Botelho (UFRJ)
André Botelho: Conte-nos, por favor, um pouco sobre o processo de escrita da biografia de Graciliano Ramos que acaba de publicar pela Companhia das Letras.
Wander Melo Miranda: Desde meu Doutorado nos anos de 1980 venho me dedicando à leitura de Graciliano Ramos. O convite da Lilia e do Luiz para escrever a biografia do escritor inicialmente me assustou, mas com calma vi que poderia encarar a tarefa. Revi toda a obra do autor e grande parte da sua fortuna crítica. Ficou claro para mim que para falar do Graciliano como cidadão não poderia desvinculá-lo da sua atuação como artista. É uma relação visceral entre vida e obra, como poucos escritores entre nós.
André Botelho: O que leitores e leitoras podem esperar sobre as relações entre vida e obra de Graciliano no seu livro? A vida cria a obra ou vice-versa?
Wander Melo Miranda: Vida e obra estão de tal forma amalgamadas que há uma relação de mão dupla entre ambas. Tem uma declaração de Graciliano que sintetiza tudo isso. Diz ele: “Nunca pude sair de mim mesmo. E se as personagens se comportam de modo diferente é porque não sou um só”. Assim, o próprio autor instala sua obra no espaço biográfico, o que Antonio Candido tão bem percebeu ao intitular o livro que escreveu sobre Graciliano como “Ficção e confissão”.
André Botelho: Como é escrever a biografia de Graciliano, sendo você um renomado especialista nele e nas apropriações e ressonâncias da sua obra, inclusive em recriações tão inovadoras como no livro Em liberdade, de Silviano Santiago
Wander Melo Miranda: Tive de fazer força para tomar um certo distanciamento de início, mas depois vi que minha admiração pelo escritor é uma parte integrante da sua posição como intelectual e artista. “Em liberdade”, a mais ousada leitura de Graciliano e até agora a mais contemporânea na sua alta relevância literária e política, é um convite para abrir sempre caminho para novos significados que todo clássico comporta e exige de nós leitores. Italo Calvino dúzia que um clássico é um texto que nunca termina de dizer o que tem para dizer. Cabe a nós, de diversas gerações, tornar evidente essa premissa.
Graciliano Ramos: vida e obra
Se, por um lado, o legado literário de Graciliano Ramos é inescapável, amplamente estudado e conhecido — presente em todas as leituras escolares e representado por clássicos centrais do cânone brasileiro, como Vidas secas e S. Bernardo —, por outro, sua vida ainda permanece pouco debatida. A multifacetada biografia escrita por Wander Melo Miranda busca sanar essa lacuna ao compor o retrato de quem “encarnou como nenhum outro cidadão e artista brasileiro a capacidade de se desdobrar de múltiplas maneiras nesse homem político”.
Nascido em 1892, numa casa simples em Quebrangulo, norte de Alagoas, Graciliano encontrou a literatura de forma autodidata, descobrindo desde cedo a ironia e a dimensão iluminadora da linguagem. Ainda na infância, gestou a severidade com que viria a julgar a própria produção. Nesta biografia, pequenos atos da juventude servem de lente para interpretarmos as minúcias do estilo que o autor desenvolveria em suas obras-primas.
Acompanhamos, assim, o amadurecimento de Graciliano, que tem como experiência culminante sua prisão arbitrária e injusta, sem acusação formal ou julgamento, em 1936. O episódio, além do contato com outros presos políticos, foi decisivo para cimentar sua militância, sem permitir, no entanto, que ela servisse de instrumento de controle sobre sua obra literária.
Além de recuperar os acontecimentos da vida de Graciliano, Wander Melo Miranda aponta de que modo a crítica sobre o autor modificou a leitura de sua obra ao longo dos anos. A biografia torna-se, assim, não apenas o retrato de um escritor, mas também o espelho das formas de pensar a literatura no Brasil. Nestas páginas, o rigor obsessivo e a lucidez radical de Graciliano Ramos reaparecem com intensidade assombrosa.
Sobre o autor
Wander Melo Miranda é professor emérito da Faculdade de Letras da UFMG, crítico literário e tradutor. Publicou Corpos escritos (1992), sobre a obra de Graciliano Ramos e de Silviano Santiago, Nações literárias (2010) e Os olhos de Diadorim e outros ensaios (2019).