Centenário de Octavio Ianni | Ler a totalidade: Octavio Ianni e a literatura como conhecimento histórico, por Carlos Henrique Gileno

Dando continuidade à série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Carlos Henrique Gileno (Unesp), que mostra como, longe de constituir um interesse lateral, a literatura ocupa um lugar central na sociologia de Octavio Ianni.

Segundo o autor, o sociólogo a compreende como uma forma de conhecimento histórico, capaz de tornar inteligíveis experiências e contradições que escapam à linguagem conceitual. Sem jamais separar sociologia, história e cultura, Ianni faz das formas simbólicas uma via privilegiada para interpretar a modernidade brasileira e latino-americana.

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.

Boa leitura!


Ler a totalidade: Octavio Ianni e a literatura como conhecimento histórico

Por Carlos Henrique Gileno (Unesp)

A literatura ocupa o núcleo – não a periferia – da sociologia de Octavio Ianni. Pensar sua obra a partir desse vínculo não constitui exercício lateral nem movimento meramente comemorativo, mas via privilegiada de acesso ao que há de mais singular em sua reflexão sobre a modernidade. Em sua sociologia, a literatura não comparece como ilustração da vida social nem como ornamento cultural da análise, mas como forma histórica de conhecimento, capaz de condensar conflitos, expectativas e impasses que escapam à linguagem conceitual estrita.

A inteligibilidade da sociedade depende da atenção às mediações simbólicas por meio das quais a experiência social se organiza, se narra e se torna consciente de si. É isso que confere à literatura um lugar estrutural – e não acessório – no esforço de compreensão sociológica. Essa orientação inscreve Ianni na tradição crítica que jamais separou sociologia, história e forma cultural. Como em Georg Lukács, a forma literária aparece como problema histórico; como em Lucien Goldmann, é compreendida enquanto estrutura significativa, socialmente situada, capaz de articular experiência coletiva e elaboração simbólica.

A literatura, assim concebida, não reflete mecanicamente a sociedade. Reconfigura-a, tornando inteligíveis tensões internas que não se deixam apreender nem pela observação imediata nem pela abstração conceitual isolada. É por esse caminho que Ianni constrói leituras decisivas da modernidade brasileira e latino-americana, nas quais atraso, dependência e promessa de universalidade emergem como experiências historicamente vividas e narradas.

Não é casual que o único texto em que Octavio Ianni se dedica de modo direto e sistemático à relação entre sociologia e literatura tenha sido escrito tardiamente. Em “Sociologia e literatura” (1998), o autor condensa questões que atravessam toda a sua obra e formula de maneira explícita uma intuição presente desde os primeiros trabalhos: a de que a literatura constitui uma via privilegiada de acesso à experiência histórica, sobretudo em sociedades marcadas por processos contraditórios de modernização. 

Nesse ensaio, a literatura aparece como forma específica de conhecimento social, capaz de apreender dimensões da vida histórica que escapam tanto à observação empírica imediata quanto à abstração conceitual isolada. Isso exige do sociólogo atenção rigorosa à forma, à linguagem e às mediações simbólicas que organizam a experiência social. Contudo, essa centralidade não repousa sobre simplificações, exigindo elaboração conceitual rigorosa e deliberadamente avessa a esquematizações. Para Ianni, não há relação direta entre estrutura social e forma literária, mas um conjunto complexo de mediações – linguísticas, culturais, históricas e sociais – que reconfiguram a experiência antes que ela se converta em forma estética.

A obra literária só se torna inteligível quando situada na totalidade histórica contraditória e em permanente transformação, ainda que não se confunda com ela. A noção de totalidade mobilizada dialoga com a tradição marxista crítica sem se deixar capturar por leituras dogmáticas, preservando a autonomia relativa da forma sem desligá-la da história.

A exigência de apreender a totalidade – não enquanto soma de partes, mas estrutura articulada – traduzia-se também em sua prática pedagógica. Ao comentar, em sua sala, um trabalho final de disciplina que lhe apresentei quando cursava a pós-graduação na Unicamp, em meados dos anos 1990, sobre A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, formulou um conselho tão simples quanto revelador: para dominar o livro, era preciso lê-lo de trás para frente, do último capítulo ao primeiro.

Segui a orientação. A leitura assim conduzida tornou evidente tratar-se de uma obra composta por núcleos conceituais relativamente autônomos, mas rigorosamente encadeados, cuja inteligibilidade não dependia da ordem sequencial, e sim da apreensão do todo. Anos depois, ao ler Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, segundo o mesmo procedimento, compreendi plenamente o sentido daquele conselho. Em certos clássicos, a totalidade histórica não se revela por progressão linear, mas por múltiplas entradas, exigindo do leitor atenção rigorosa à forma enquanto condição do conhecimento.

A pedagogia da totalidade não se limitava ao método de leitura. Manifestava-se também no modo pelo qual Ianni conduzia seus seminários: partia sempre de questões amplas – a modernidade, o capitalismo, a dependência – para então mobilizar autores, conceitos e casos empíricos. Não ensinava teorias isoladas, mas formas de pensar historicamente. A literatura não era ilustração didática, mas problema teórico a ser enfrentado com o mesmo rigor dedicado à análise de processos econômicos ou políticos.

É nesse sentido que a literatura aparece como expressão de formas possíveis de consciência social. O que nela se manifesta não é a consciência individual isolada do autor, mas modos socialmente situados de perceber, interpretar e narrar o mundo, atravessados por limites e possibilidades históricas. A perspectiva permite compreender a literatura como espaço privilegiado de apreensão das contradições da modernidade, sobretudo em formações sociais periféricas. Em contextos marcados por processos desiguais e combinados de modernização, a literatura frequentemente antecipa problemas sociais antes mesmo que se tornem plenamente visíveis no plano institucional ou político, dando forma simbólica a experiências de fratura, ambivalência e expectativa inconclusa.

Ao reconhecer a potência cognitiva da literatura, Ianni não propõe a dissolução das fronteiras disciplinares nem a substituição da sociologia pela crítica literária. Ao contrário, sua posição exige ainda mais rigor do analista social, que deve ser capaz de transitar entre registros distintos de conhecimento sem confundi-los. A literatura amplia o horizonte da sociologia justamente porque obriga o pensamento social a confrontar aquilo que resiste à redução categorial – afetos, temporalidades dissonantes, ambivalências e experiências liminares. Nessa chave, a relação entre literatura e sociedade não constitui um apêndice cultural da análise sociológica, mas integra o núcleo de um pensamento atento à historicidade das formas e às múltiplas maneiras pelas quais a sociedade se pensa e se narra a si mesma.

A sensibilidade para as formas simbólicas não surge de modo abrupto no ensaio de 1998. Encontra-se amplamente elaborada em Ensaios de sociologia da cultura (1991), obra na qual Octavio Ianni investiga manifestações culturais diversas – mitos, ideologias, imaginários sociais, linguagens políticas – como expressões historicamente situadas de processos sociais mais amplos. Ainda que a literatura não figure nessa obra como objeto central, o modo de análise mobilizado permite leituras em claro paralelo com o tratamento que o autor posteriormente conferiria às obras literárias, sobretudo no que diz respeito à atenção à forma, à linguagem e às mediações simbólicas.

Nessa obra, a cultura não é concebida como epifenômeno decorativo da vida social, nem como esfera autônoma desligada das estruturas históricas. Ao contrário, aparece como dimensão constitutiva da experiência social, na qual se condensam conflitos, projetos e tensões próprias de formações sociais marcadas por processos contraditórios de modernização. A abordagem permite compreender práticas culturais e produções simbólicas como formas específicas de elaboração da experiência histórica, cuja inteligibilidade exige do analista um esforço interpretativo atento tanto às determinações estruturais quanto à lógica interna das formas expressivas.

É nesse ponto que se torna possível explicitar o diálogo implícito de Ianni com Marx e Weber. De Marx, herda a recusa em tratar a cultura como instância separada das condições materiais de existência – não há forma simbólica fora da história. De Weber, retém a atenção ao sentido subjetivamente visado, aos modos pelos quais os sujeitos atribuem significado às suas experiências e constroem orientações para a ação. A síntese não é eclética: estrutura e sentido se entrecruzam porque a experiência histórica é simultaneamente condicionada e significada, vivida e interpretada. A cultura – e, por extensão, a literatura – emerge como espaço no qual estrutura e sentido se entrecruzam, sem que um possa ser reduzido ao outro.

A reflexão de Octavio Ianni sobre literatura e cultura inscreve-se, de modo decisivo, num horizonte latino-americano. Desde seus primeiros trabalhos, a análise da produção simbólica aparece indissociável dos processos históricos que marcaram a formação social da região: colonialismo, dependência, modernização desigual e construção problemática das identidades nacionais.

Em obras como Imperialismo e cultura (1976) e A sociologia e o mundo moderno (1991), Ianni insiste na ideia de que a modernidade latino-americana não pode ser pensada como simples reprodução tardia de modelos europeus. O processo histórico da região é marcado pela coexistência de temporalidades distintas, pela persistência de heranças coloniais e pela incorporação subordinada ao capitalismo mundial.

A perspectiva permitiu a Ianni ler a literatura latino-americana não como expressão de identidades nacionais fixas, mas como registro das tensões constitutivas de sociedades marcadas pela colonialidade. A produção literária da região não ilustrava simplesmente a realidade social – recriava-a, dando forma narrativa a experiências de desenraizamento, hibridismo e resistência que desafiavam as categorias analíticas europeias.

A literatura não aparece apenas como texto estético, mas como forma de registro e interpretação da experiência histórica. Ao dar forma narrativa a processos como a dominação colonial, a formação das elites, a exclusão social e a busca por reconhecimento cultural, contribui para tornar inteligíveis dimensões da vida social que frequentemente escapam às categorias analíticas da sociologia.

É por isso que, em Ianni, a análise da cultura latino-americana se afasta tanto do nacionalismo cultural quanto do cosmopolitismo abstrato. A identidade cultural não é concebida como essência, mas como processo histórico em disputa, atravessado por relações de poder e por assimetrias globais.

O diálogo entre sociologia e literatura, formulado por Octavio Ianni, não constitui expediente metodológico acessório, mas exigência intelectual imposta pela própria complexidade da experiência histórica moderna. Mais do que um autor a ser citado, Ianni foi um pensador que ensinou a ler – textos, formas culturais e processos históricos – com atenção paciente à totalidade e às suas contradições.

No centenário de seu nascimento, a lição permanece atual. Em um momento em que as ciências sociais se veem desafiadas por novas formas de narrar a experiência – das periferias urbanas às disputas por memória, das literaturas indígenas às narrativas digitais –, a perspectiva de Ianni nos lembra que compreender a sociedade exige escutar como ela se narra, reconhecendo na literatura não apenas um objeto de análise, mas uma forma de conhecimento. Compreender a literatura como conhecimento histórico é reconhecer no legado de Ianni uma lição duradoura: a de que o rigor intelectual não se separa da abertura crítica às múltiplas formas pelas quais a sociedade se pensa, se narra e se transforma.


Sobre o autor

Carlos Henrique Gileno é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, onde também atua como docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Desenvolve pesquisas sobre a formação do pensamento político e social brasileiro e é líder do Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Cultura e Desenvolvimento (GEICD).