
Dando continuidade à série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Leonardo Belinelli (UFRRJ), que percorre os diferentes momentos em que a reflexão sobre a América Latina atravessa a trajetória intelectual de Octavio Ianni.
Como pensar a região para além da dependência e do imperialismo? Entre as décadas de 1960 e 1970, o autor mostra como a crítica de Ianni desloca o olhar para as dimensões culturais da dominação, redesenhando os contornos de sua sociologia crítica. Já em seus últimos trabalhos, sem deixar de investigar as novas dinâmicas do capitalismo global, Ianni recupera o pensamento social latino-americano como chave para interpretar os impasses históricos da região e renovar, mais uma vez, a imaginação sociológica.
Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.
Boa leitura!
Octavio Ianni e a América Latina: dependência, cultura e pensamento social
Por Leonardo Belinelli (UFRRJ)
Como seu mestre, Florestan Fernandes, e seu par, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni é autor de uma vasta obra sociológica voltada para a compreensão dos processos sociais que originaram e caracterizaram a emergência das sociedades modernas latino-americanas. O esforço coletivo dos paulistas, aos quais devemos somar e lembrar os de outros sociólogos brasileiros, como Luiz Aguiar da Costa Pinto, e latino-americanos, só ganha plena compreensão se situado nos anos 1960, época que representou uma inflexão histórica dramática para os países sul-americanos e seus intelectuais.
À esquerda, o principal acontecimento foi a vitória da Revolução Cubana, em 1959, declarada socialista em abril de 1961. A vitória de Castro na ilha caribenha influenciou diversas outras ações pela América Latina, como o Movimiento 14 de Mayo e a Frente Unido de Liberación Nacional (FULNA), ambos no Paraguai, a Frente Sandinista, criada por Carlos Fonseca Amador, na Nicarágua, e o Exército de Libertação Nacional, no Peru, entre outras. À direita, com apoio ostensivo dos Estados Unidos, muitos governos interpretados como “populistas” e/ou desenvolvimentistas sofreram golpes de Estado, como, entre outros, Arturo Frondizi (Argentina – 1962), João Goulart (Brasil – 1964) e Victor Paz Estenssoro (Bolívia – 1965).
Nesse contexto sociopolítico crítico, movimentado também por uma série de exílios sofridos, intelectuais latino-americanos procederam a uma série de revisões dos arcabouços até então utilizados para interpretar os processos de formação das sociedades modernas na região. O estruturalismo cepalino e a sociologia da modernização passaram a ser confrontados, cada vez mais, com desafios postos por categorias, problemáticas e interpretações calcadas no marxismo e no terceiro-mundismo. É nesse momento de ebulição teórica e prática que emerge a mais reconhecida contribuição do pensamento social latino-americano para a teoria social do século XX: a teoria da dependência.
Componente do Seminário Marx, Octavio Ianni estava preparado para ser um participante destacado desse processo de renovação intelectual do subcontinente. Como tantos outros intelectuais orientados por uma leitura renovada da obra de Marx, acertou suas contas com o populismo. No caso, O colapso do populismo (1968), além de ter se tornado “referência obrigatória entre todos os que se dedicavam a elaborar uma visão crítica sobre o período que a ditadura militar viera encerrar e sobre as alternativas que se abriam” (Reis, 2001: 349), já anunciava a sua integração à corrente crítica da dependência.
Depois de aposentado compulsoriamente, compõe o quadro de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) até o final dos anos 1970, onde, no entanto, nunca se sentiu completamente integrado (Santos, 2020). Lá, escreve Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1971), uma espécie de continuação da agenda de pesquisas iniciada ainda no Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (CESIT), centro de pesquisa fundado junto à cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da Universidade de São Paulo (FFCL-USP). No projeto que deu origem ao centro, cabia a Ianni realizar e orientar pesquisas sobre o Estado brasileiro.
A virada latino-americana: imperialismo, dependência e cultura
No mesmo ano da publicação de Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1971), Ianni publica Sociologia da sociologia latino-americana (1971), uma coletânea de ensaios críticos, orientados por uma perspectiva da sociologia do conhecimento, a respeito do pensamento sociológico ao sul da América. Nela, vemos um Ianni radicalizando sua crítica ao que chamava de “sociologia acadêmica” – identificada por ele com a sociologia da modernização – e defendendo uma “sociologia crítica”. A passagem de uma à outra aparece em sua obra por meio de uma reflexão cada vez mais profunda sobre o “imperialismo”, tema evitado pela “sociologia acadêmica” e, a seu ver, ponto de partida necessário para o desenvolvimento de uma versão crítica da sociologia. É dessa problemática que surgiria o conceito correlato de “dependência”, capaz de ensejar um ponto de vista latino-americano sobre o desenvolvimento do capitalismo.
A dificuldade no desenvolvimento desse ângulo próprio dos intelectuais latino-americanos estaria relacionada, por um lado, com a pobreza teórica dos partidos políticos de esquerda até então e, por outro, com a proibição do tema do imperialismo em jornais, revistas, editoras e universidades – em geral, afastados de pontos de vista contra-hegemônicos. Os dois problemas também explicariam as razões pelas quais o conceito de “dependência” se tornou tão difundido, ainda que ao custo de ter se tornado um “recurso semântico” carente de elaborações teóricas refinadas: permitiu aos marxistas tratarem, com nome diverso, os problemas do imperialismo, assim como se tornou uma categoria utilizável por autores não marxistas para explicar os desenvolvimentos problemáticos dos países da região.
O novo momento histórico inaugurado pelo acirramento dos conflitos políticos nos anos 1960 teria posto à lume não apenas a falha do desenvolvimento econômico em conduzir as massas à plena cidadania, como também o fato de que ele não implicou a eliminação da dependência econômica. Ianni reforça, aqui, a orientação da crítica da ideologia presente nas leituras semanais de Marx que empreendeu com seus colegas (Brito, 2019; Ianni, 1971). É especialmente interessante o encaminhamento que o sociólogo deu ao problema, pois vai, cada vez mais, centrar suas análises na dimensão cultural da dominação imperialista. Ou, em outras palavras, Ianni atribui especial peso ao papel da cultura, interpretada à luz materialista, nos processos de reprodução e mudança da sociedade.
Aqui, ganha força a relação entre a “dependência cultural” e a “cultura da dependência”, entendida como uma forma de manifestação da dependência estrutural combatida.
Note-se que a cultura da dependência é uma esfera particularmente significativa, quando queremos esclarecer o modo pelo qual se dá a metamorfose do imperialismo em dependência estrutural, e vice-versa. No âmbito das ideias, princípios e conceitos exprimem-se tendências e condições de possibilidades das relações, processos e estruturas que governam o pensamento e as ações dos grupos sociais ou da classe social dominante no país subordinado. Assim, a análise dos modos de pensamento dominantes, no país subordinado, é uma tarefa fundamental para o conhecimento da cultura da dependência e, por isso, das condições culturais (e não só ideológicas) da dependência estrutural (Ianni, 1971: 173-174).
O assunto ganharia desenvolvimento em Imperialismo e cultura (1974), coletânea aberta com o ensaio “A indústria cultural do imperialismo”, cuja primeira seção, sintomaticamente, é designada “Capitalismo e cultura”.
Entre o golpe de 1964 e o início da abertura democrática, Ianni realizou seus maiores esforços para compreender os múltiplos laços entre “imperialismo” e “dependência”. Ao que tudo indica, tais esforços o conduziram a colocar em crescente relevo o problema da relação entre cultura e política como elemento-chave na reprodução – mas também no questionamento – da ordem social autoritária.
Um farol para o enigma latino-americano: Ianni e o pensamento social
Ao tornar-se professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1979 – instituição à qual Florestan Fernandes havia se integrado dois anos antes – e, em 1986, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ianni parece inaugurar uma nova etapa do seu projeto intelectual. Em geral, destaca-se como Ianni passou a se dedicar a temáticas relacionadas à então chamada globalização (Arruda, 2004; Santos, 2024).
Sem dúvida, a afirmação procede, mas pode ser qualificada. Ao mesmo tempo em que investia esforços no desvendamento das novas dinâmicas internacionais do capitalismo, Ianni aprofunda sua inflexão no estudo do pensamento social latino-americano (incluído aí o brasileiro), como sugerem os ensaios “A questão nacional na América Latina”, “O labirinto latino-americano”, “Tendências do pensamento brasileiro” e “Enigmas do pensamento latino-americano”, além de sua introdução à edição brasileira de Ariel, de José Enrique Rodó, publicada pela editora da Unicamp. Assim, Ianni terá papel decisivo no desenvolvimento de pesquisas sobre o pensamento social latino-americano em São Paulo, especialmente orientadas pelos problemas mannheimianos e marxistas das “formas de pensar” e das “ideologias”, respectivamente.
Não se tratou, no entanto, de uma iniciativa que visava retomar a história do pensamento social por si mesma. O compromisso intelectual e político do sociólogo aparece no uso de termos que sugerem a complexidade do objeto e das tarefas postas em pleno processo de transição dos regimes no sul do continente. Para ele, a retomada das formulações do pensamento social latino-americano poderia servir como um farol (Santiago, 2000) que ajudasse a nos guiar para a saída dos “enigmas” e dos “labirintos” latino-americanos, marcados por uma “modernidade entre barroca e mágica, indoamericana e afroamericana, ibérica e ocidental, original e esquizofrênica” (Ianni, 2005: 7).
Nessa orientação, o termo-chave para as formulações de Ianni parece ser a “questão nacional” (Bastos, 2005) – o que estava longe de ser óbvio, se tivermos em mente os discursos encantados sobre o cosmopolitismo abstrato, atualizados sob o rótulo da “globalização”, que vigoravam nos anos 1990. Na contracorrente, Ianni insistia na capacidade dessa formulação de enfeixar reflexões relacionadas às desigualdades externas (nacionais) e internas (de classe), que marcavam o difícil processo de formação das sociedades nas quais a revolução burguesa não cumpriu o que dela se esperava. É desse prisma duplo que o sociólogo avaliava, em 1988, as razões do sucesso das “revoluções populares” ocorridas no subcontinente, as quais tinham como “um dos segredos […] o fato de que são revoluções nacionais, ao mesmo tempo que sociais” (Ianni, 1988: 37).
Como se vê, Ianni chegou ao final de sua carreira prolífica perseguindo os mesmos problemas com os quais a iniciou – sinal não apenas de coerência individual, mas também das dificuldades da transformação social na América Latina às quais se comprometeu desde cedo. Apesar disso, não o fez sempre do mesmo modo: suas formulações sobre a dependência o conduziram a um caminho próprio, no qual a relação entre cultura e política ganhou contornos particulares e o levou à ampliação do enfoque para o conjunto do pensamento latino-americano – enfoque cujo legado aparece, ainda que nem sempre de forma explicitada, naqueles que seguem seus passos.
Referências
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. (2004). Apresentação – Octavio Ianni, um mestre. In: IANNI, Octavio. Pensamento social no Brasil. Bauru: EDUSC/ANPOCS.
BASTOS, Elide Rugai. (2005). América Latina, um compromisso. In: IANNI, Octavio. Enigmas do pensamento latino-americano. Primeira Versão, n. 125. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/publicacoes/pf-publicacoes/primeira_versao-125.pdf. Acesso em: 30 jun. 2026.
BRITO, Leonardo O. B. de. (2019). Marxismo como crítica da ideologia: um estudo sobre os pensamentos de Fernando Henrique Cardoso e Roberto Schwarz. Tese (Doutorado em Ciência Política). São Paulo: Universidade de São Paulo.
IANNI, Octavio. (1988). A questão nacional na América Latina. Estudos Avançados. v. 2, n. 1.
IANNI, Octavio. (2005). Enigmas do pensamento latino-americano. Primeira Versão, n. 125. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/publicacoes/pf-publicacoes/primeira_versao-125.pdf. Acesso em: 30 jun. 2026.
REIS, Daniel Aarão. (2001). O colapso do colapso do populismo ou a propósito de uma herança maldita. In: FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
SANTIAGO, Silviano. (2000). Intérpretes do Brasil. In: SANTIAGO, Silviano (Org.). Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.
SANTOS, André Rocha. (2023). Uma sociologia crítica radical: Octavio Ianni no Cebrap e seus críticos. Contemporânea. São Carlos, v. 13, n. 1.
SANTOS, André Rocha. (2024). Vinte anos sem Octavio Ianni. A Terra é Redonda, 18 jun. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/vinte-anos-sem-octavio-ianni/. Acesso em: 30 jun. 2026.
Sobre o autor
Leonardo Belinelli é Professor do Departamento de Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (DDAS) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Seus trabalhos se concentram na área de Pensamento Político Brasileiro.
