
A BVPS publica hoje uma edição extra da Série Nordestes com o texto de João Candido Stringari (PPGS/UFRJ), “Navegar é preciso; viver não é preciso: Nordestes de Mário de Andrade”, sobre o lançamento da nova edição do diário de viagem de Mário de Andrade ao Nordeste (1928-1929), organizada por André Botelho (UFRJ) e Onildo Correa (PPGS/UFRJ) e publicada pela Casa Matinas.
O texto apresenta o vídeo do debate de lançamento, promovido pela Escola de Letras e pelo Departamento de Teoria e Estética do Teatro da UNIRIO, em um convite a todos e todas para o (re)assistirem.
O ensaio nos oferece uma chave de leitura para compreender as escolhas da nova edição: a separação do relato nordestino do diário anterior, ao Norte, amalgamado desde 1976 sob o título O turista aprendiz; e a preservação da grafia modernista, contra a normalização feita por Carlos Drummond de Andrade em A lição do amigo (1982). Essa restituição, aliás, tem nome de batismo emprestado. Nordestes é o primeiro volume de uma nova coleção da Casa Matinas, batizada, em gesto de gratidão pública ao trabalho de Flora Sussekind, com o título de um dos livros da autora: O Brasil não é longe daqui (1990). O título de Sussekind, professora da própria Unirio onde o livro foi lançado, condensa quase inteiramente o programa que atravessa o diário de Mário: a suspeita de que a alteridade mais radical não precisa ser buscada do outro lado do Atlântico, porque já mora, entranhada, a poucos dias de viagem da própria casa.
Boa leitura!
Navegar é preciso; viver não é preciso: Nordestes de Mário de Andrade
Por João Candido Stringari (PPGS/UFRJ).
Poucas experiências humanas resistem ao registro tanto quanto a viagem o faz. Talvez por isso a literatura de viagem seja tomada, desde sempre, como gênero fronteiriço: nem inteiramente relato factual, nem pura invenção, mas um território ambíguo em que a testemunha se confunde com o narrador e a paisagem descrita já nasce atravessada pelo olhar de quem a percorre. No Brasil, o gênero conheceu longa tradição associada sobretudo a viajantes estrangeiros (naturalistas, cronistas, missionários) fascinados pelo exotismo de uma paisagem tropical que, não raro, desconheciam por dentro. Mais raros, porém nem por isso menos relevantes, são os relatos produzidos pelos próprios brasileiros em busca de uma descoberta do seu país que, paradoxalmente, lhes era tão estrangeira quanto aos europeus que os haviam precedido nessa tarefa. Entre esses viajantes nacionais, poucos casos são tão emblemáticos, e tão estudados, revisitados, editados e reeditados, quanto o de Mário de Andrade, que decidiu trocar a Europa dos seus pares modernistas pelo interior do próprio país, e que resumiria essa escolha, anos depois, numa fórmula que se tornaria célebre: a de que era preciso promover o abrasileiramento do Brasil. É desse gesto, e de um de seus desdobramentos mais concretos, os relatos de sua viagem ao Nordeste, entre 1928 e 1929, que trata a nova edição lançada recentemente pela Casa Matinas, e é também desse gesto que trata o vídeo do debate promovido pela Escola de Letras e pelo Departamento de Teoria e Estética do Teatro da UNIRIO para celebrar o lançamento do livro. Vale a pena assistir à conversa na íntegra, e é a ela que este texto convida.
O relato nordestino de Mário de Andrade nunca foi, propriamente, um livro autônomo, podendo ser enquadrado até como um acidente arquivístico. Publicado originalmente em folhetins no periódico Diário Nacional, entre dezembro de 1928 e março de 1929, ele chegaria ao público pela primeira vez apenas décadas depois, reunido por Telê Ancona Lopez, em 1976, ao lado do diário da viagem anterior, a do Norte, com as duas viagens amalgamadas sob um único título, O turista aprendiz. Essa reunião, hoje se sabe com mais clareza, era parcialmente involuntária; o próprio Mário deixou um datiloscrito inacabado, com prefácio de 1943, referente à viagem ao Norte; o material da viagem ao Nordeste ficou apenas em forma de diário manuscrito e recortes de jornal, guardado na mesma pasta e usado por Mário como reserva de trechos para enriquecer a reescrita do relato amazônico; não chegou, ele próprio, a receber um tratamento datilográfico equivalente. A obra que a morte interrompeu, em 1945, longe de ser um objeto fechado, se assemelha mais a um processo em curso, e talvez seja essa a chave mais produtiva para lê-la, como um sistema em formação que gradualmente ganha suas próprias leis, um objeto com organização autônoma.
Agora, em 2026, a Casa Matinas lança uma nova edição, organizada por André Botelho (UFRJ) e Onildo Correa (PPGS/UFRJ), que separa o relato nordestino do diário da viagem ao Norte e o apresenta como livro autônomo, sob o título Nordestes: Diário de viagem (1928-1929). Essa separação, que não se trata de uma mera correção arbitrária, procura propor uma leitura possível dentro da própria lógica fragmentária que Mário nunca deixou de cultivar, em que cada versão sua era “definitiva”, porém, só até a próxima.
Tal lógica fragmentária explica também por que o título escolhido para a nova edição é Nordestes, no plural, palavra que o próprio Mário não usa, mas que os organizadores extraem do texto como contexto para o diagnóstico da nova edição. Ao longo do século XX, a crítica e o Estado fariam da região uma unidade sinônima de seca e de atraso; o diário de Mário de Andrade resiste a essa síntese fácil antes mesmo que ela se consolidasse. É um relato que se recusa à geografia ordeira: nele, como em Macunaíma, o espaço se “desgeografiza”, os lugares se comparam e se confundem, ecoando, para o Nordeste, o gesto que na viagem anterior fizera de Belém, no Pará, a capital da Polinésia. De certo modo, o olhar do turista que recolhe curiosidades regionais para depois classificá-las pode até ser importante, mas, aqui, a postura de um viajante que aceita ser interpelado pelo que encontra, sem pretensão de encontrar ali uma autenticidade brasileira original, parece ser muito mais interessante. Na viagem ao Nordeste, Mário está mais livre, mais afetivo; escreve “sobre as pernas”, como ele mesmo diz, mas com plena consciência da postura que ocupa, que muito se deve a um repertório de leitura sobre viagens que ele construiu. A diferença em relação à viagem ao Norte é flagrante: ali, na companhia da Nossa Senhora do Café, Olívia Guedes Penteado, e sob a chancela de Washington Luís, ele se viu enredado em solenidades intermináveis que transformaram a experiência num fiasco para suas ambições. No Nordeste, o contrário aparece: a viagem foi custeada em parte pelo jornal, e as crônicas nasceram da urgência do correio, da imediatez do encontro. Como escreveu a Rosário Fusco em janeiro de 1929: “só a empreitada de mandar o ‘Turista Aprendiz’ pro Diário Nacional […] um artiguete diário, você imagina o tempo que isso me toma. Além disso, viajando fico burro. A inteligência não reage, fica passiva, só recebendo, só recebendo.” É da passividade ativa, de uma certa disponibilidade para ser interpelado, que nasce o tom das crônicas nordestinas.
E tal disponibilidade para a alteridade, contudo, não era ingênua. Mário de Andrade viajava com o projeto de coletar manifestações da cultura popular, registrá-las, compreendê-las esteticamente. A viagem ao Nordeste pendula entre a pesquisa etnográfica e a missão cultural, e é precisamente essa oscilação que a torna fértil. O diário não é um caderno de campo no sentido estrito, mas um exercício de escrita literária que se apropria, com uma latente desfaçatez, do gênero etnográfico para reinventá-lo. A prática dos relatos de Mário buscou escapar ao modelo dos naturalistas viajantes, que se ocupavam da descrição sistemática da paisagem física, para se concentrar na paisagem humana: “adoro voluptuosamente a natureza, gozo demais porém, quando vou escrever ela não me interessa mais” (Andrade, 2015: 75). O que lhe interessa são os tipos humanos, os mitos, as músicas, os rituais e, sobretudo, o modo como essas manifestações se organizam em formas estéticas que poderiam alimentar um projeto de arte brasileira. É nesse sentido que sua narrativa se aproxima do que ele mesmo chamou, em carta a Drummond ainda em 1924, de “abrasileiramento do Brasil”, expressão que cunha, com humor, como remédio para o que batiza de “moléstia de Nabuco”: a separação, herdada de Joaquim Nabuco, entre um sentimento que seria brasileiro e uma imaginação que permaneceria irremediavelmente europeia. Contra esse diagnóstico de solidão estética do Novo Mundo, Mário insiste que o contingente brasileiro só enriquece a humanidade sendo brasileiro, sem sintetizar e dissolver as diferenças, mas evocando uma civilização entre civilizações possíveis.
Embora houvesse distância geográfica, a relação entre São Paulo e o Nordeste, para Mário, nunca foi uma abstração. A conexão entre as regiões se formalizou em iniciativas concretas, encabeçadas pelo modernista, como a Missão de Pesquisas Folclóricas que ele organizou em 1938, ou seja, quase uma década após sua viagem de 90 dias, quando dirigia o Departamento de Cultura de São Paulo. A equipe, coordenada por Luiz Saia e integrada pelo musicólogo Martin Braunwieser, percorreu cinco estados (Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão) e realizou o primeiro grande registro audiovisual sistemático da cultura popular brasileira, com cerca de 1.500 músicas gravadas em disco de acetato, seis rolos de filmagem, mais de mil fotografias e mais de seiscentas peças artesanais recolhidas. O propósito de Mário, como ele mesmo escreveu em ofício ao seu sucessor, era documentar uma “riqueza até agora inativa”, acervo que o resto do país desconhecia por falta de iniciativa institucional. A Missão, contudo, foi interrompida abruptamente quando Mário foi exonerado do Departamento de Cultura, em maio de 1938, após a posse do novo prefeito Prestes Maia. Ainda assim, antes de deixar o cargo, ele telegrafou secretamente à equipe, pedindo que prosseguisse com os registros em São Luís e Belém, ganhando assim mais alguns dias de trabalho. O acervo que resultou dessa empreitada, hoje parcialmente deteriorado, mas ainda impressionante, é o desdobramento prático do olhar que estimula as crônicas de Nordestes: o deslocamento da cultura popular do folclore pitoresco para o patrimônio nacional, e o reconhecimento de que São Paulo, longe de ser alheia a essa riqueza, tinha o privilégio de documentá-la.
Se há uma figura que concentra a simbiose entre erudito e popular, é a do cantador Chico Antônio, que oferece a Mário um ganzá, instrumento que dá nome ao grande projeto etnomusicológico que ficaria inacabado, Na pancada do ganzá, e cujo rosto — o do próprio cantador — não por acaso estampa a contracapa da nova edição da Casa Matinas. O episódio interessa sobretudo pelo que revela sobre o modo como Mário se relaciona com a cultura popular, para além de um mero tema a ser retratado, mas, principalmente, como uma forma a ser aprendida. Ele se diz divinizado ao ouvir aquele cantador que valia “mil Carusos”, e essa divinização, longe de ser o exotismo em que incorrem tantos viajantes, enceta justamente um reconhecimento de certa densidade estética que o afeta profundamente. Dar dignidade formal às expressões populares parece ser o projeto que anima toda a viagem. E é aqui que se distingue de Villa-Lobos, por exemplo, que sob essas lentes tratou o popular como tema e não se deixou transformar por ele. O que interessa a Mário de Andrade nas musicalidades populares é a forma, a estrutura, a linguagem, ou seja, precisamente aquilo que pode se tornar método, não assunto rotinizado. Por isso seu ensaio sobre música brasileira (1928), que um editor maldoso intitulou com o artigo definido, “A Música Brasileira”, contrariando a tese central do texto, é, como André Botelho e Maurício Hoelz propuseram (2021), o livro gêmeo de Macunaíma, sem o qual não se pode entender plenamente o projeto do autor: é a musicalidade, o pensamento musical, que constitui o próprio modo como Mário apreende e traduz a realidade que encontra; e nos relatos dessa viagem, de forma dissonante, tudo parece cantar no Nordeste.
Desse mesmo projeto, e não de um escrúpulo filológico avulso, nasce a decisão editorial mais radical da nova edição: preservar integralmente a grafia modernista do diário. E aqui a edição de Nordestes se confronta, ainda que sem o dizer, com outra coletânea de textos de Mário, publicada quarenta anos antes e organizada por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, amigo constante de Mário, guardião de uma correspondência de mais de vinte anos reunida em A lição do amigo (1982). Ao publicar as cartas recebidas do amigo, Drummond enfrentou o mesmo problema que hoje se recoloca: o que fazer com uma escrita que o próprio Manuel Bandeira chamava de “anárquica” e que Oneida Alvarenga, discípula de Mário, descrevia como um sistema ortográfico “assistemático”? A solução de Drummond foi a normalização discreta — devolver “si” a “se”, “milhor” a “melhor”, “sube” a “soube” —, justificada como um gesto de hospitalidade para com “o leitor novato”, que assim “deixaria de estranhar o texto à primeira abordagem”. Não é a originalidade ortográfica, argumentava Drummond, que faz a grandeza da obra de Mário.
O argumento não é frívolo, e vem de quem tinha autoridade afetiva para fazê-lo. Mas é precisamente contra ele que a presente edição se posiciona, ao devolver o texto sem qualquer correção de sintaxe ou vocabulário. Porque o próprio Mário, na mesma correspondência com Drummond, já havia explicado o que estava em jogo nessas grafias “erradas”: almejava uma estilização culta da língua popular, “muito pensada e repensada”, um esforço de fazer da fala cotidiana matéria de literatura tão legítima quanto a norma culta. “O povo não é estúpido quando diz ‘vou na escola’, ‘me deixe’, ‘carneirada'”, escreveu Mário a Drummond em 1925. “É antes inteligentíssimo nessa aparente ignorância porque sofrendo as influências da terra, do clima, das ligações e contatos com outras raças, das necessidades do momento e da adaptação, e da pronúncia, do caráter, da psicologia racial modifica aos poucos uma língua que já não lhe serve de expressão.” Corrigir essa escrita, ainda que em nome da leitura fácil, é justamente apagar o que nela é mais deliberado — certa aproximação entre o como somos e o como nos expressamos. Manter a grafia tal como saiu nos jornais é, portanto, discordar (com carinho, mas sem meio-termo) do mais fiel dos amigos de Mário, e insistir que o “leitor novato” de hoje, como o de 1982 ou até mesmo o de 1928, deveria antes se deixar estranhar pelo texto do que ser poupado dele. Drummond, ao “corrigir” as cartas, “matou o Mário ali”, como disse André Botelho; traiu exatamente aquilo que o escritor mais perseguiu, aquilo que, como o próprio Mário escreveu, seria a sua maior luta. A reedição de Nordestes restitui essa luta.
Essa restituição, aliás, tem nome de batismo emprestado. Nordestes é o primeiro volume de uma nova coleção da Casa Matinas, batizada, em gesto de gratidão pública ao trabalho de Flora Sussekind, com o título de um dos livros da autora: O Brasil não é longe daqui (1990). O título de Sussekind, professora da própria UNIRIO, onde o livro foi lançado, condensa quase inteiramente o programa que atravessa o diário de Mário: a suspeita de que a alteridade mais radical não precisa ser buscada do outro lado do Atlântico, porque já mora, entranhada, a poucos dias de viagem da própria casa. Nomear assim a coleção que abre com Nordestes é também declarar um método editorial, e reeditar Mário é um ato de aproximação de algo que, geográfica e afetivamente, nunca deixou de estar perto.
Fica, ao final, uma pergunta que ultrapassa esta edição específica: o que significa, hoje, ler Mário no original? Talvez seja menos uma reverência ao arquivo do que a aceitação de que a pluralidade de vozes ali registrada, a do etnógrafo, a do musicólogo, a do cronista irônico, a do inventor de personagens e mitos, não se resolve em síntese, nem em regionalismo, nem em texto definitivo. Os Nordestes no plural do título são, nesse sentido, a mesma aposta que animava as cartas trocadas com Drummond décadas antes: a de que abrasileirar-se não é uniformizar-se. É também o reconhecimento de que a separação entre o “como somos” e o “como nos expressamos” é uma ferida histórica da cultura brasileira, e Mário de Andrade dedicou sua vida a tentar cicatrizá-la. A “moléstia de Nabuco”, esse mal que insiste em separar sentimento e imaginação, ainda tem cura, mas só se o texto for lido, teimosamente, tal como foi escrito.
É esse texto, lido assim, sem correções, que se ouve no vídeo do lançamento de Nordestes, gravado na Escola de Letras da UNIRIO: André Botelho (UFRJ) em conversa com o professor Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (UFF), mediação de Lucia Ricotta (UNIRIO), seguida de uma leitura encenada das crônicas por doutorandos do Departamento de Teoria e Estética do Teatro.
