Centenário de Octavio Ianni | Octavio Ianni em fins do século XX, por Juan Michel Montezuma dos Santos

No novo post da série Centenário Octavio Ianni: o que pode a sociologia?, publicamos texto de Juan Michel Montezuma dos Santos (PPGS/USP), que interpreta os escritos de Ianni produzidos entre os anos 1990 e 2004 como expressão de um mesmo projeto intelectual.

Como a globalização, o Estado-nação, a sociedade civil mundial e o pensamento social brasileiro se articulam na obra tardia de Ianni? O autor mostra como essas reflexões compartilham uma infraestrutura teórico-conceitual fundada em uma leitura criativa de Marx e na compreensão das metamorfoses do capitalismo – mais do que um balanço de sua produção final, um esforço contínuo para renovar as categorias das ciências sociais diante de um tempo de profundas transformações.

Ao longo dos próximos meses, até o centenário de Octavio Ianni, a ser celebrado em outubro, a BVPS publicará, sempre às quartas-feiras, dois novos textos dedicados à análise de sua obra. Para saber mais sobre essa iniciativa, clique aqui. Outros textos podem ser conferidos aqui.

Boa leitura!



Octavio Ianni em fins do século XX

Por Juan Michel Montezuma dos Santos (PPGS/USP)

Em fins do século XX, fase final da sua carreira, o professor Octavio Ianni foi tão produtivo quanto em qualquer outro momento da sua trajetória intelectual. Ao menos, é isso que nos comunica o ato de coletar e organizar parte do seu patrimônio teórico, produzido nessa época e legado a nós. Entre o início da década de 1990 e o ano de sua passagem, em 2004, foram publicados 11 livros de sua autoria, sem contar novas edições de publicações anteriores. Também organizou quatro livros, contribuiu com capítulos, orelhas e prefácios para mais dezessete e publicou vinte e oito artigos acadêmicos. Destacamos aqui, nesse breve ensaio, apenas alguns dos seus livros, organizando-os em uma proposta de leitura cujo objetivo é deixar em evidência algumas das suas particularidades.

Podemos partir da premissa de que os temas gerais desses livros são: o desenvolvimento da sociedade nacional e das demais sociedades periféricas; o processo de globalização; a formação, ainda incipiente, da sociedade civil mundial; o sentido histórico-político da metamorfose do Estado-nação; as tradições intelectuais brasileiras e a modernização; o século XX; e as alternativas à modernização capitalista subordinada. Essa produção intelectual pode ser organizada, de maneira introdutória, da seguinte forma: i) ensaios sobre o Brasil e a América Latina – A ideia de Brasil moderno (1992) e O labirinto latino-americano (1993); ii) trilogia sobre o processo de globalização – A sociedade global (1992), Teorias da globalização (1995) e A era do globalismo (1997); iii) sínteses sobre a sociedade nacional, o capitalismo e a sociedade global em fins do século XX – Enigmas da modernidade-mundo (2000), A globalização e o retorno da questão nacional (2000), Capitalismo, violência e terrorismo (2004) e Pensamento social no Brasil (2004).

Os primeiros textos consistem em diagnósticos de Ianni sobre a História, a cultura, o povo, a nacionalidade e as sociedades latino-americanas. Já nas obras do segundo grupo, está esboçada a crítica geral de Ianni sobre o processo de globalização. E, por fim, o terceiro grupo de textos reúne os trabalhos de síntese, nos quais a reflexão política sobre os sentidos históricos da sociedade nacional, do capitalismo e da ordem global está mais destacada do que as análises de perfil mais morfológico sobre a globalização encontradas em textos anteriores. Esses últimos trabalhos possuem um aspecto testamental, na medida em que estão dedicados à análise de fenômenos cujo escopo completo só poderá ser observado no tempo longo. Neles, é como se o professor Ianni fosse um intelectual que especula de maneira mais livre sobre o que poderia vir a acontecer nessa nova etapa da História, da qual, enquanto homem já idoso, não participaria. Nem por isso deixaria de tomar partido por meio de sua escrita, legando às gerações seguintes de intelectuais suas principais interpretações sobre o que havia se dado no século em que viveu e sobre o que, por desventura ou ventura, parecia tender a acontecer no seguinte.

Resguardadas, obviamente, suas particularidades temáticas, podemos afirmar, em uma perspectiva generalista, que esses escritos compartilham uma infraestrutura teórico-conceitual comum: o método da economia política, tal como foi proposto por Karl Marx. O que implica dizer que, na elaboração intelectual do professor Ianni, é a caracterização dos elementos sociais no espaço que permitem a qualificação de uma dada infraestrutura econômica. Todavia, a caracterização desse conjunto de elementos, no qual estão inclusos constructos históricos e relações sociais, nunca se dá sem a crítica da historicidade que lhes é subjacente. Assim, levando em consideração essa historicidade, o professor Ianni avaliava as qualidades da totalidade social em movimento, manifestadas nos marcos do desenvolvimento econômico e na institucionalidade política, que fornecia o perfil da organização social.

Nesse sentido, a análise do professor Ianni assimilava a concretude do processo social como uma síntese da materialidade das formas pretéritas, atuais e tendentes, e dos sistemas dela derivados. Ianni assim interpretava a diacronia do social, pois partia das relações concretas dos indivíduos com o meio. O que significava que, em sua leitura, a objetificação das coisas somente se dá a partir da ação transformadora do trabalho, produto, por sua vez, de uma vontade expressada em toda interação com o meio habitado. O significado disso para a analítica do social é que os elementos no espaço da sociedade acabam sendo sempre reveladores de múltiplas referências históricas, possibilitando a elaboração da crítica exatamente sobre as nuances entre as formas sociais passadas, presentes e tendentes. O que acaba fazendo da sua teoria social uma interpretação crítica sobre as metamorfoses econômicas, políticas e culturais de uma dada época.

Contudo, mesmo tendo a economia política de Marx como infraestrutura teórico-conceitual, o professor Ianni, em seus escritos de fins do século XX, nunca fez um uso inflexível das suas categorias. As leis do desenvolvimento histórico que Marx investigou por meio da sua crítica ao capital estão em seus escritos apenas como uma noção norteadora sobre a relação entre a mudança e as interações contenciosas que produzem os arranjos entre a infraestrutura econômica e a superestrutura jurídico-política. Por isso, em sua leitura da globalização, a identificação dos anacronismos entre as formas de organização social do poder, hegemônicas durante o século XX, e os avanços nas relações entre capital e trabalho não se reduz à caracterização do lugar da luta de classes nessa morfologia social. O exercício de interpretação vai além, buscando qualificar quais são as possibilidades de intervenção política, tanto das classes dirigentes quanto das subalternas, nas novas condições espirituais e materiais que o capitalismo globalizado impôs à vida social.

Há, nesse gesto epistêmico, o traço distintivo da produção intelectual do professor Ianni em fins do século XX, pois nele se revela o esforço de elaborar uma crítica que vá além da constatação dos novos alentos de um sistema capitalista revigorado. Isso porque o professor Ianni interpretava a globalização não apenas como mais um ciclo de internacionalização do capital, mas também como o início de uma nova época. Um período que demandava das ciências sociais um novo repertório de noções, problemas, hipóteses e conceitos. O vocabulário herdado das tradições intelectuais nacionais e internacionais, bem como os campos semânticos que lhe davam sustentação, revelava-se insuficiente e problemático como instrumento para a elaboração de uma interpretação sistemática da realidade social.

Por essa razão, em fins do século XX, o passado, nacional ou global, é representado nos escritos de Ianni como uma reminiscência estranha à morfologia econômica, política e cultural do tempo presente. E a interpretação do moderno não está circunscrita necessariamente ao novo, mas aos elementos com os quais a sociedade está comprometida, garantindo-lhes a perpetuação no espaço. Se, nas fases que precederam essa, Ianni preocupava-se com aquilo que se nacionalizava na modernização capitalista brasileira, preocupava-se agora com o que se globalizava. Daí o seu interesse em investigar a composição da sociedade civil mundial e o lugar da sociedade nacional dentro desse novo ordenamento.

Essa tarefa geral, empreendida em todos os seus livros dedicados à globalização, começa sempre com o reconhecimento de que há um limite heurístico para as formas ideológicas difundidas pelo processo de globalização. Exatamente porque as relações entre capital e trabalho demonstram com clareza como os aspectos mais abstratos do processo social em curso são produzidos a partir de relações históricas correspondentes a um dado arranjo específico entre o simbólico e o material, apenas revelado nas contradições do desenvolvimento capitalista. O que compeliu o professor Ianni à elaboração de uma crítica social na qual as relações entre os elementos no espaço da sociedade precisam ser interpretadas em sua configuração imediata. O que, por conseguinte, significa que a questão da análise não fica restrita ao esforço de identificar as causas do fenômeno por meio da dedução histórica. Ao contrário desse tipo de esquematismo, a interpretação da morfologia social só pode, para Ianni, ter a sua diacronia interpretada a partir da sincronia dos elementos econômicos, políticos e culturais no espaço. Logo, a crítica não é um esforço em prol da revelação histórica, daquilo que transcende os limites de um dado período, mas, sim, do lugar das particularidades de uma dada época em um processo cujo escopo é mais amplo.

Residem aí as razões para o foco do professor Ianni em qualificar a morfologia das sociedades periféricas no processo de globalização e os efeitos das interações entre esses dois movimentos, no espaço e no tempo, sobre o lugar dessas ordens sociais no sistema interestatal capitalista. É por isso também que a sua investigação está centrada na problemática das formas políticas da modernização, pois, através dela, é possível compreender a historicidade subjacente aos arranjos entre a infraestrutura econômica e a superestrutura jurídico-política, em metamorfose sob o capitalismo globalizado. Dessa forma, o objetivo não é determinar quais seriam as ações dos blocos de poder e dos excluídos nesse novo ordenamento global, mas sim refletir sobre as possibilidades de intervenção política a partir de novos meios de representação, deliberação e luta.

Evidentemente, a arguição geral do professor Ianni convergia para a questão da cidadania, da soberania e da integração da sociedade brasileira à ordem internacional. E, ao abordar esse quadro em fins do século XX, ele tendia a partir da premissa de que o nacionalismo possuía uma espacialidade e uma proposta política limitadas, porém incongruentes com as novas formas de governação que surgiam naquele período de transição. Logo, a sociedade nacional, objeto, para Ianni, clássico das ciências sociais, demandava uma nova teoria, uma nova sociologia do desenvolvimento, retomando as seguintes velhas questões sob um novo ângulo: o que é o Estado-nação? Quais são os limites da sua soberania no espaço social globalizado? Como essa formação histórico-política exerce e pode vir a exercer a sua hegemonia em escala nacional e internacional?

As respostas, ou enunciados, que o professor Ianni começou a construir para respondê-las não são muito contundentes. Primeiramente, por conta do escopo da problemática, cuja plena sistematização demandava ao menos o desenrolar do primeiro quartel do século XXI. Em segundo lugar, porque o próprio Ianni, já idoso e de saúde fragilizada, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, era cônscio dos limites da sua observação. Ainda assim, no patrimônio teórico que nos legou, há considerações que podem ser tomadas como ponto de partida para todos aqueles que desejam continuar sua agenda de pesquisa.

A primeira seria a constatação de que há, de fato, uma mudança de estatuto na sociedade nacional. Uma mudança que não se encontra corporificada apenas na materialidade das relações entre capital e trabalho, mas também na consciência do descompasso entre a representação da sociedade nacional nas formas de consciência social tradicionais e a própria metamorfose desse ordenamento político-econômico. O que fazia a nação adentrar na busca não só da identificação do seu lugar no novo mapa-múndi, mas também do conceito que lhe definiria. Nesse contexto, a tarefa dos intelectuais não seria apenas a da racionalização, da crítica sobre o movimento geral que faz a sociedade voltar-se sobre si mesma em busca de definição, mas também da análise de um movimento mais amplo, no qual a institucionalidade, sob a força das transformações da economia política, fica em evidência ao buscar responder, de distintas formas, ao anacronismo que lhe é inerente no processo social.

A segunda consideração é que, se, de fato, há uma sociedade civil mundial em estágio incipiente de formação, trata-se de uma ordem que germina a partir da nação. Um tipo de ordem desgastada e, por isso, em declínio, onde as formas sociais pretéritas estão continuamente tensionadas em um presente estendido, superficialmente privado de um horizonte de transformação. Nessa experiência geral de fragmentação da reprodução da ordem pretérita, os antagonismos de classe são redefinidos na mesma proporção em que o capitalismo, enquanto processo civilizatório, ganha novos limites. O que singulariza o colonialismo, o imperialismo, o nacionalismo e o globalismo nesse novo período remete ao choque dessas forças sociais antagônicas.

A sociedade civil mundial, então, ordem multipolar que emerge das formações nacionais em conflito, é o novo nivelamento dos interesses antes espacialmente limitados por antigas formas de soberania. Interesses que, em fins do século XX, eram, na perspectiva do professor Ianni, muito mais globalistas, mesmo quando guardavam resquícios do imperialismo, do socialismo, do nacionalismo e de outras formas e alternativas políticas ao capital. Afinal, sua emergência revelava movimentos, partidos, mecanismos de representação e projeção de poder que só eram possíveis dentro da nova configuração global do capitalismo. Nessa nova época, a nação, defendia Ianni até o final, deveria estar integrada ao mundo, não apenas porque a integração era inexorável, mas, antes de tudo, porque esse, a seu ver, era o caminho para a preservação da diversidade, o combate ao autoritarismo, à xenofobia, ao racismo e aos fundamentalismos. Um caminho para a construção de uma globalidade, na qual o nacional demandava ser convertido, para além de signo, em base regional efetiva para um novo federalismo mundial.


Referências

IANNI, Octavio. (1992). A ideia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense.

IANNI, Octavio. (1993). O labirinto latino-americano. Petrópolis: Vozes.

IANNI, Octavio. (1995). Teorias da globalização. 17. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1999). A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (1999). Globalização e crise do Estado-nação. Estudos de Sociologia. v. 4, n. 6.

IANNI, Octavio. (2000). A globalização e o retorno da questão nacional. Primeira Versão. v. 90, p. 1-87.

IANNI, Octavio. (2000). Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (2002). A sociedade global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (2004). Capitalismo, violência e terrorismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

IANNI, Octavio. (2004). Pensamento social no Brasil. Bauru: EDUSC.

IANNI, Octavio. (2005). O negro e o socialismo.

Sobre o autor

Juan Michel Montezuma dos Santos é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia na Universidade de São Paulo (PPGS/USP), na linha de pesquisa em Teoria e História, e tem se dedicado ao estudo da obra de Octavio Ianni.