Série Nordestes | Oitenta anos de Geografia da Fome: Josué de Castro e as fomes brasileiras, por Adriana Salay

Se a fome não é da ordem da natureza, se é socialmente produzida, por que escolhê-la para os concidadãos desafortunados? Oitenta anos depois da publicação de Geografia da Fome, de Josué de Castro, a pergunta permanece incômoda — talvez ainda mais quando lembramos que as desigualdades sociais, mesmo em suas manifestações mais cruéis, nem sempre são percebidas como injustiça por parcela expressiva da sociedade brasileira.

No novo texto da série Nordestes, Adriana Salay, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), retorna ao clássico de 1946 para celebrar os oitenta anos desse importante livro brasileiro, que recebeu mais de quarenta resenhas na imprensa em seu ano de lançamento e alcançou, posteriormente, circulação internacional.

A efeméride, entretanto, é também ocasião para perguntar por que um diagnóstico formulado no imediato pós-guerra segue tão atual como chave de leitura do Brasil. O vaivém da fome nas últimas décadas, argumenta Salay, reafirma uma das intuições fundamentais de Josué de Castro: estruturalmente produzida pela sociedade, a fome aumenta ou diminui conforme decisões políticas. É sempre pertinente nos lembrarmos dessa verdade, sobretudo nas espirais da democracia brasileira, em que, a cada volta, está em jogo algo tão elementar quanto brutal: a possibilidade de milhões de brasileiros comerem ou não.

Boa leitura!


Oitenta anos de Geografia da Fome: Josué de Castro e as fomes brasileiras

Por Adriana Salay1 (USP).

Em 1946, um livro chegou às livrarias do Rio de Janeiro, pelas Edições Cruzeiro, que propunha tratar a fome brasileira não como uma fatalidade climática, um castigo ou um episódio extraordinário, como era lida à época, mas, sobretudo, como resultado de escolhas humanas. Geografia da Fome completa oitenta anos em 2026, e a data convida a uma pergunta: por que um diagnóstico formulado no imediato pós-guerra segue útil como chave de leitura do Brasil? A resposta vai em duas direções que este texto procura acompanhar. O primeiro analisa como as categorias de fome endêmica e de fome epidêmica organizaram o livro e reordenaram o sentido da palavra “fome” no debate público brasileiro. O segundo evidencia a trajetória de seu autor que recusou a separação entre ciência e a arena política e pagou por isso com o exílio.

Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 1908, filho de um pequeno comerciante de leite. Sem herança material a receber, ele apostou tudo na formação acadêmica. Entrou cedo na faculdade de Medicina, com documentos adulterados para driblar a idade mínima, e voltou a Pernambuco disposto a viver da clínica depois de formado. O jovem médico que anunciava tratamentos para emagrecer e engordar a clientela abastada e que preferia escrever nos jornais sobre psicanálise, cinema e literatura não dava pistas de que seria o futuro autor de uma das grandes interpretações do Brasil.

A inflexão veio pela fisiologia ou pelo que hoje podemos considerar nutrição. Aprovado em 1932, aos 24 anos, para a cadeira da Faculdade de Medicina do Recife, com uma tese sobre o problema fisiológico da alimentação no país, Josué estava preocupado com o metabolismo basal, as calorias e o rendimento dos corpos. Foi o contato com o nutricionista argentino Pedro Escudero, referência em vincular a alimentação às condições sociais na América Latina, que o impulsionou para além das paredes do consultório. O resultado foi o inquérito sobre as condições de vida das classes operárias do Recife, publicado em 1935. Não era o primeiro levantamento alimentar feito no Brasil, mas o recorte por bairros proletários permitiu enxergar o que as médias, muitas vezes, diluem. Castro mostrou a dependência direta entre renda e comida e a média de gasto com alimentação, que girava em torno de 70%, numa população urbana em crescimento. Ele localizou uma privação que não matava de uma vez, como as grandes crises de fome, mas corroía aos poucos por meio de doenças associadas. Ali começou a se desenhar o que sustentaria uma parte fundamental da obra posterior. Existia uma fome coletiva, estruturalmente produzida, que não se chamava fome.

O instrumento para dar forma a esse estudo veio da geografia. Josué se aproximou da disciplina ao participar da fundação da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais no Recife e, depois, ao circular pelo ambiente intelectual do Rio de Janeiro, para onde se mudou nos anos 1930 e onde a geografia francesa ganhou terreno. Do possibilismo de Vidal de La Blache, Josué assimilou a ideia de que o meio natural condiciona, mas não determina. O que define uma região é a interação entre o solo, o clima, a vegetação e a ação da sociedade sobre eles. Em 1937, em A Alimentação Brasileira à Luz da Geografia Humana, ensaiou, pela primeira vez, a divisão do país em áreas alimentares com base nessa ideia. Quase dez anos depois, com dados acumulados de inquéritos, estatísticas de consumo e pesquisas clínicas, publicou o livro que o consagrou.

Fome endêmica, fome epidêmica

O elemento analítico central de Geografia da Fome está na sua tipologia. Josué dividiu o Brasil em áreas de fome, nas quais pelo menos metade da população apresentava sinais evidentes de subnutrição, e em áreas de subnutrição, como o Centro-Oeste e o extremo Sul, onde o problema ocorria em proporções menores. E, nas áreas de fome, distinguiu duas modalidades que orientam o trabalho conceitual do livro.

A fome epidêmica é a fome das crises e seu território no Brasil era o sertão nordestino. Quando a seca interrompe o curso regular das coisas, instala-se um surto agudo e intenso, que empurra multidões para as estradas e para as capitais e que cede quando as chuvas voltam. É a fome que o Brasil letrado conhecia de longa data, aquela que a Grande Seca de 1877-1879 havia inscrito no imaginário nacional pelas fotografias dos retirantes e pelas crônicas de José do Patrocínio, e que a literatura, de Rodolfo Teófilo a Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, transformara em matéria de romance. Uma fome visível e escandalosa.

A fome endêmica é outra coisa. No Nordeste açucareiro e na região amazônica, argumentou Josué, a fome era perene, estrutural, fabricada pelas relações sociais que organizam o acesso à terra e ao alimento. Ali as pessoas comem, mas sempre de forma insuficiente e incompleta. Não há inanição em massa nem comoção nos jornais, mas há trabalhadores que adoecem com frequência e uma mortalidade que se distribui ao longo do ano ou em surtos de doenças associadas. O que a ciência da época preferia batizar de subnutrição, Josué insistiu em chamar pelo nome tabu: fome.

O livro saiu um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a fome nos campos de concentração e nos países devastados dominou a agenda internacional, e quando ocorreram a Conferência de Hot Springs, em 1943, e a criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1945, que são expressões disso. Nesse contexto, Josué sustentou uma tese segundo a qual a fome espetacular das catástrofes não era mais grave do que a privação que assolava a maior parte do planeta. Equiparar as duas significou deslocar a fome do terreno do evento para o da estrutura. A famosa fórmula que ele repetiu ao longo da vida sintetiza essa proposta: a fome é um fenômeno biológico com causas sociais. Não a produzem apenas a seca ou a guerra; sua produção vem, cotidianamente, de uma decisão social de não garantir a uma parcela da população o alimento necessário à reprodução da vida.

O Nordeste é, no livro, o único território brasileiro habitado simultaneamente pelas duas fomes, a epidêmica do sertão e a endêmica da zona açucareira. Por ser seu lugar de origem e por essa dupla condição, a região foi o lugar por excelência do pensamento de Josué e o alvo preferencial das políticas, dos projetos e das disputas que se seguiram. Quando, nos anos 1950 e 1960, o Nordeste se converteu em “área-problema” nacional, com a Sudene de Celso Furtado de um lado e o temor estadunidense de uma revolução camponesa de outro, foi em grande medida sobre o diagnóstico de Geografia da Fome e de sua produção que esse debate se assentou.

Reler o livro oitenta anos depois exige também apontar seus limites e o que não podia ser visto a partir do lugar e do momento em que foi escrito. As bases metodológicas da nutrição que Josué mobilizou, assim como boa parte dos inquéritos que utilizou, foram forjadas nos centros do capitalismo, como a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, e carregaram seus pressupostos. Transplantadas para a Amazônia, essas premissas geraram uma visão que hoje consideramos eurocêntrica. A maior parte da população da região, formada por povos tradicionais, não acessava comida pelo mercado, e seus sistemas alimentares mereceram do autor pouca atenção, quando não designações de economia destrutiva e de modos de vida atrasados. O padrão alimentar que Josué considerou desejável, centrado no leite, na carne bovina e nos ovos, era, por sua vez, um padrão europeu. Medida com essa régua, a floresta só podia aparecer como um obstáculo.

Registrar esse limite não diminui a importância da sua obra. Josué escreveu num momento em que a noção de desenvolvimento, moldada pela experiência europeia, era hegemônica, e ele mesmo a inscreveu. Esse movimento aparece, por exemplo, a partir da revisão que fez do livro para a sétima edição, em 1960, quando o vocabulário do subdesenvolvimento ganhou o centro de suas conclusões e o subtítulo “o dilema brasileiro: pão ou aço” passou a estampar a capa. A crítica que a obra merece é de natureza histórica, atenta às condições sociais de produção de suas ideias e não a invalida.

O intelectual que não se furtou

Apenas por Geografia da Fome ser um livro bem-sucedido, com mais de quarenta resenhas na imprensa em seu lançamento, o Prêmio José Veríssimo da Academia Brasileira de Letras, tradução francesa já em 1948 e, depois, com Geopolítica da Fome, edições em duas dezenas de idiomas e mais de um milhão de exemplares, Josué de Castro já seria um caso de consagração intelectual. Mas, do meu ponto de vista, o que o torna incontornável é, além disso, sua postura pública.

Antes e depois de 1946, Josué foi uma figura central do que chamo, na tese, de gestão da fome no Brasil. Participou da criação e da direção de órgãos como o Serviço de Alimentação da Previdência Social, o Instituto de Tecnologia Alimentar e a Comissão Nacional de Alimentação, organizou inquéritos, formou técnicos e disputou verbas e prioridades no âmbito do aparato de Estado. No plano internacional, presidiu o Conselho da FAO, fundou a Associação Mundial de Luta contra a Fome (Ascofam) e o Centro Internacional para o Desenvolvimento (CID).

Eleito deputado federal por Pernambuco pelo PTB em 1954 e reeleito em 1958, Josué também atuou na arena político-partidária com o argumento de que não haveria enfrentamento à fome endêmica sem reforma agrária. Num momento em que o projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek focou na industrialização, Josué e outros insistiram que, sem transformar a estrutura fundiária e as condições de vida do trabalhador do campo, a própria modernização ficaria sem base, pois não haveria alimento para as cidades, matéria-prima para a indústria, nem a formação de um mercado interno. A reforma agrária, que ele defendeu como absolutamente central para o desenvolvimento nacional, chegou a reunir apoio popular expressivo no início dos anos 1960. O dilema do subtítulo “o pão ou o aço” também representou esse impasse.

Em 1962, no governo de João Goulart, Josué tornou-se embaixador do Brasil junto à ONU, em Genebra. Quando do golpe de 1964, ocupava essa posição na Europa e constou na primeira lista de cassados. Josué nunca mais voltou a morar no Brasil. Morreu em Paris, em setembro de 1973, exilado, com grande prestígio internacional, que incluía seis indicações ao Prêmio Nobel e a homenagem, quando morreu, de instituições que iam do Vaticano à FAO. O projeto de uma possível reforma agrária, interrompido pelo golpe de 64, jamais foi realizado, embora os dispositivos legais para tanto ainda existam. E a fome, que foi seu objeto de pesquisa e sua causa pública, permaneceu.

Oitenta anos depois

A redemocratização reabriu o debate que a ditadura havia interditado e foi sob o patronato simbólico de Josué que se construíram o Consea, nos anos 1990, e o Fome Zero, a partir de 2003. Lula, no discurso de lançamento do programa, reivindicou expressamente a continuidade da obra do conterrâneo pernambucano. O país saiu do Mapa da Fome em 2014, mas voltou a ele poucos anos depois, quando o desmonte de políticas públicas, o desemprego e a inflação dos alimentos se somaram à pandemia e, em 2022, resultaram em trinta e três milhões de pessoas em situação grave de fome, segundo a Rede PENSSAN. Desde então, a recomposição das políticas fez os indicadores voltarem a melhorar e o Brasil saiu do Mapa da Fome novamente. Esse vaivém é a demonstração do que Josué defendeu. A fome, estruturalmente produzida pela sociedade, aumenta ou diminui conforme as decisões políticas.

As duas categorias do livro seguem operando, ainda que sob outros nomes. Hoje medimos a insegurança alimentar pela experiência relatada pelas famílias, e não pelos sinais clínicos que fundaram a noção de fome endêmica, mas a estrutura do fenômeno que Josué descreveu permanece reconhecível. As crises agudas continuam a existir, catalisadas por emergências, como as climáticas, ou por conflitos, e continuam a concentrar a atenção dos meios de comunicação. Da mesma forma, segue a privação cotidiana, distribuída pelos marcadores de classe, raça, gênero e território que organizam a desigualdade brasileira. Enxergar apenas a primeira continua sendo o erro que o livro apontou há oitenta anos.

Apesar de dar nome a escolas, institutos, cátedras e cozinhas solidárias, Josué de Castro é pouco lido nas universidades e, menos ainda, conhecido no debate público. Talvez esse cenário não aconteça em Pernambuco, onde o manguebeat o devolveu à memória popular. Reivindicá-lo neste aniversário significa, antes de tudo, aprender duas lições com sua trajetória. A primeira é perguntar sempre quem enuncia a fome, de que lugar social, com quais alianças e interesses, pergunta que vale inclusive para ele e para mim. A segunda é que, para que a fome se mantenha como problema político de primeira grandeza no Brasil, é necessário que haja quem se disponha a sustentá-la no espaço público, com todos os custos que isso implica. Entre a cadeira da presidência da FAO e o mangue do Recife, entre o livro e o mandato cassado, Josué mostrou que ciência e luta política não são esferas separadas da atuação profissional. Oitenta anos depois, num país que ainda fabrica fome todos os dias, essa talvez seja a herança mais importante que ele nos deixou e a menos negociável.

Nota

1 Adriana Salay Oliveira é professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu o mestrado e o doutorado em História Social ao estudar Josué de Castro. Sua pesquisa se dedica à história da fome e da segurança alimentar no Brasil. Fora da academia, foi cofundadora do Quebrada Alimentada, projeto social de alimentação na Vila Medeiros, em São Paulo, e atua nos debates sobre políticas públicas de alimentação no país.

Referências

CASTRO, Josué de. (2022 [1946]). Geografia da Fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. São Paulo: Todavia.

CASTRO, Josué de. (1951). Geopolítica da Fome. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil.

REDE Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – PENSSAN. (2022). II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil [livro eletrônico]: II VIGISAN. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert; Rede PENSSAN.