Sociológicas | As mulheres das grotas e veredas, por Maria Moraes

O acaso tem uma grande importância para a história; e os acontecimentos históricos não seguem uma linha reta. Com essa noção, Maria Moraes (UFSCar) compartilha os labirintos da vida de duas mulheres do campo, Dona Maria e Dona Francisca, nesta primeira edição da série Sociológicas após as eleições.

O texto é sensível. Dona Maria e Dona Francisca, bem como outras camponesas desse Brasil infindo, possuem o que boçais autoritários se recusam a enxergar: uma dose de humanidade que, já naquele 1989, fez Maria Moraes crer que as dores do nosso presente poderiam, sim, ser enfrentadas; que há esperança saindo das grotas e das veredas, aprendizados capazes de nos tornar melhores cidadãos. Assim como ela se dispôs a olhar por dentro dos labirintos – e isso a ajudou se tornar uma pesquisadora imbuída da práxis e do pensamento crítico, que foi além dos muros do gueto universitário –, Maria Moraes nos convida, diante do preocupante cenário político brasileiro, a visitar esse pedaço de dor, esperança e luta.

Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica.

Boa leitura!


As mulheres das grotas e veredas1

Por Maria Moraes (UFSCar)

E mais caminhava. Topar um vivente é que era mesmo grande raridade. Um homenzinho distante roçando, lembrando, ou uma mulherzinha fiando a estriga na roça ou tecendo em seu tear de pau, na porta de uma choça de buriti toda… Outra velha que estava fumando o pito de barro. Mas ele enrolava a cara no chale, não se ajuizaram os olhos dela. Mulher é gente tão infeliz. João Guimarães rosa. Grande sertão: veredas.

Em 1989, realizei uma pesquisa no Vale do Rio Jequitinhonha2, com o objetivo de compreender o processo migratório para a agricultura paulista. A pesquisa resultou na gravação de 46 fitas cassete, 79 questionários e 86 fichas sobre migração. Um dos elementos-chave da pesquisa foi o entendimento das migrações permanentemente temporárias para São Paulo, ou seja, os migrantes permaneciam nos locais de destino apenas durante a fase da colheita de produtos, tais como, café, cana e laranja. Findo o período de seis a nove meses, retornavam aos locais de origem, para regressarem novamente, no ano seguinte. Era um viver transitório entre o cá e o lá. Desta sorte, fui compreendendo os dois espaços, o cá e o lá, como espaços/territórios, que, embora separados geograficamente, estavam imbricados pela mesma lógica da acumulação dos capitais da agricultura paulista.

Assim, conheci o Vale e as mulheres das grotas e veredas. Percorri muitos povoados de Minas Novas, Turmalina, Berilo e Chapada do Norte. Fui, paulatinamente, descortinando o mundo da vida camponesa, quilombola, pautado pela fome, miséria, destradicionalização, lutas, esperas, esperanças e resiliência3. A seguir, por meio do uso da narrativa, apresento às/aos leitores/as, os labirintos deste mundo da vida, de duas mulheres, tão distantes e, ao mesmo tempo, tão perto: Dona Maria e Dona Francisca.

Mulher é como engenho. Roda sem parar.

Um dos instrumentos da metodologia da pesquisa era, como dito acima, o questionário, visando captar o quantitativo referente aos dados da produção agrícola e também do uso do tempo, segundo os sexos. O objetivo era, mormente, verificar o uso do tempo por homens e mulheres nas distintas unidades de produção doméstica. Aos poucos, esse questionário foi se mostrando incapaz de dar conta de toda a diversidade do real. Em todo caso, como investigadora ciosa do emprego da metodologia científica, continuei aplicando-o em diversas unidades de produção, até que cheguei à roça de dona Maria, que estava colhendo algumas espigas de milho seco. Vestia uma saia escura e possuía os cabelos protegidos por um lenço branco, amarrado à moda das demais camponesas do Vale. Após ouvir-me atentamente, iniciei o preenchimento do questionário, cujas perguntas iniciais versavam sobre o uso do tempo com horários bem definidos, segundo as distintas atividades. O objetivo da noção do po era voltado para a compreensão do cotidiano laboral feminino, bem como a precisão da dupla jornada. De qualquer forma, o modelo tinha como base a vida das mulheres trabalhadoras urbanas e também a divisão do tempo produtivo (fora da casa) e reprodutivo (na casa). Assim, numa das colunas havia o registro de todos os horários da jornada de trabalho, desde o momento do despertar até o deitar. Na outra coluna, eram discriminadas as atividades, segundo os respectivos horários.

À medida que ia respondendo às perguntas, notei que minha entrevistada não sabia me dizer com precisão a atividade que ela desenvolvia às seis horas ou às seis e trinta minutos. Insistia em me dizer que fazia tudo ao mesmo tempo: coava o café, cuidava das crianças e também das galinhas; varria o terreiro e limpava a casa. Lavava a roupa; preparava o almoço e depois ia para a roça com o sol a prumo. Guiava-se pelo sol. Não sabia ler nem escrever. Não possuía relógio. Seu tempo era o tempo cíclico, e não o linear da sociedade urbana e orientada por práticas capitalistas e do assalariamento dos trabalhadores. Após alguns minutos de desconforto em relação às perguntas, ela me disse: Uai, quem trabalha na roça não tem essas coisas de tempo dividido, não. Faz aqui, faz ali. Mulher é como engenho, não para de rodar.

Até aquele momento, não havia lhe dito nada sobre tempo dividido, noção cara aos estudos dessa temática. Ela, por si mesma, com sua arguta inteligência, havia chegado a essa conclusão. Com essa lição, aprendi que o modelo de questionário que tinha em mãos não era o mais adequado para aquela realidade. Assim, deixei-o de lado e aprofundei a entrevista com dona Maria. Aprendi o significado do “rodar sem parar como engenho”: metáfora da jornada justaposta, do tempo não dividido, não recortado, e das múltiplas atividades desenvolvidas ao mesmo tempo, sem a cisão do espaço produtivo (roça) e do espaço reprodutivo (casa). Casa e roça, além do quintal, formavam a simbiose espacial por onde ela “rodava sem parar”. E mais ainda. A disposição das tarefas seguia o movimento da Terra ao redor do Sol, de forma bastante precisa. O seu tempo não era o tempo cronológico do relógio, definido segundo as horas e minutos, porém o da manhã, do meio-dia, da tarde e o da noite.

Fui descobrindo pelo relato de Dona Maria que, enquanto havia uma jornada justaposta para as mulheres, elas rodavam sem parar; havia uma jornada única para os homens. A divisão sexual do trabalho existia apenas em relação aos homens, que concentravam suas atividades no trabalho agrícola, e não para as mulheres. A preconcepção da divisão sexual, no nível do discurso, em que as mulheres só trabalhavam na roça como ajuda ao trabalho do homem e por precisão, refletia as representações sociais ali existentes. Outros depoimentos foram revelando ainda que as mulheres participavam de todas as tarefas do processo de trabalho agrícola, ou seja, preparavam a terra, plantavam, carpiam e colhiam. Não havia, para os diferentes produtos, uma divisão, às vezes, concebida como natural, em que os homens preparam a terra, as mulheres semeiam e “ajudam” na carpa e colheita.

Essas informações tornaram visível e real a participação das mulheres em todas as fases do processo produtivo agrícola, desmistificando as concepções de que o trabalho da roça é pesado e, portanto, é um trabalho dos homens e que as mulheres só trabalham quando há precisão. Por outro lado, a real participação das mulheres no trabalho não lhes conferia o mesmo estatuto que os homens. Ou seja, mesmo exercendo o mesmo trabalho, elas não eram consideradas iguais aos homens. Trabalho idêntico não significa igualdade social (no sentido dos gêneros) entre homens e mulheres. O trabalho não é causa da diferenciação entre homens e mulheres. Ele apenas reflete esta diferenciação que lhe preexiste, diferenciação que impregna todo o tecido social, e não apenas a esfera do trabalho. Pude, então, perceber que, além dos atributos de desqualificação de “ajuda”, “precisão” ao trabalho da mulher, presentes no interior da unidade doméstica, a troca de dias, relação costumeira entre as diferentes unidades domésticas, refletia igualmente os caracteres diferenciadores entre homens e mulheres. Havia, na verdade, uma universalização dessa diferenciação. Por isso, é necessário frisar que as relações de gênero não são relações que dizem respeito apenas à esfera doméstica, privada. E mais, não são relações que se prendem a uma ideologia como falsa consciência existente apenas nas cabeças das pessoas, como meras ideias. Muito ao contrário. São relações presentes em todas as esferas e imbuídas de elementos pensados e reais, no sentido de que refletem o real e também o determinam.

Havia, além de uma divisão sexual rígida no tocante à troca de dias, uma sobrevalorização do trabalho do homem em relação ao trabalho da mulher. Segundo os costumes vigentes, até então, um dia do trabalho do homem equivalia a dois dias de trabalho da mulher. Portanto, o trabalho da mulher “valia” a metade do trabalho do homem. Em algumas comunidades, sequer os homens aceitavam trocar dias com as mulheres.

Enfim, a conversa com dona Maria foi puxando o fio das relações de gênero ali existentes, e muitas outras Marias me forneceram outras tantas informações sobre o mundo do trabalho feminino no Vale, acentuando e apontando as discriminações, bem como desmistificando o trabalho feminino como leve ou meramente ajuda.

A divisão da comida

Na sequência das entrevistas, dirigi-me, juntamente com meus dois auxiliares de pesquisa, à casa de dona Francisca. Também estava só. Aliás, a presença de mulheres sozinhas era uma constante, dado o fato de que a maioria dos homens já havia migrado para São Paulo ou outros estados, dentre eles, Mato Grosso, onde muitos deles foram escravizados. As mulheres dali eram conhecidas como “viúvas de maridos vivos”4 Era por volta de meio-dia. Logo depois da apresentação, antes mesmo de iniciar a entrevista, ela me perguntou: vocês já almoçaram? Diante da resposta (impensável) negativa, ela me disse: vou lhes preparar algo para comer. Não reparem: só tenho mandioca no quintal. Ainda que quase lhe implorasse para não se incomodar, pois voltaríamos à cidade em seguida e lá almoçaríamos, ela preparou a mandioca para comermos.

Os ensinamentos advindos de várias pesquisas com camponeses, sejam da sociologia ou da antropologia, revelam que a solidariedade prevalecente nesse meio social é recortada pela solidariedade mecânica, ao contrário daquela das sociedades complexas, onde predomina a solidariedade orgânica. Essa lição, aprendi assim que iniciei meus estudos de Ciências Sociais, ao tomar contato com a sociologia de Durkheim. Mas não apenas isso. A comida preparada, resultante desse gesto de solidariedade a pessoas desconhecidas, num contexto de quase ausência absoluta de alimentos, revelou os sentimentos estruturantes da psicogênese daquela mulher, frutos do meio social ao qual pertencia. Solidariedade, cooperação — palavras em desuso nas sociedades pós-modernas, dominadas pelo egocentrismo e individualismo extremados — faziam parte das práticas individuais e sociais e também da estruturação da personalidade dos camponeses. Ali não vi nenhuma criança abandonada. Ainda que as “fraquezas da terra e da gente” fossem reais e duras, o pouco ou o quase nada era dividido, compartilhado.

Dona Francisca jamais soube o que seu gesto provocou em mim. A partir dele, passei a pertencer àquela “comunidade de destino”, segundo as palavras de Ecléa Bosi. Ou seja, passei a enxergar o invisível, o não dito, o escondido, sob o manto da migração. Em vez de ver somente o trabalho, via os trabalhadores e trabalhadoras; ao invés de refletir sobre a migração e suas diferentes teorias, tentei compreender os migrantes em suas buscas e esperanças. Tornei-me parceira de suas lutas por direitos mínimos, como carteira assinada, transporte e moradia adequados, salários melhores, e, mais ainda, por serem reconhecidos como trabalhadores, e não como “gente de fora”, como mercadoria barata, facilmente descartada e substituível. Tornei-me uma pesquisadora interessada não apenas na colheita de dados para futuras publicações, porém uma pesquisadora imbuída da práxis e do pensamento crítico que procuravam ir além dos muros do gueto universitário, buscando compreender o mundo, mas também transformá-lo. Tentativa de pôr em prática uma das teses centrais de Marx, na sua crítica ao pensamento dos filósofos neo-hegelianos de seu tempo. Doravante, além da parceria com a Pastoral dos Migrantes, já mencionada, participei de inúmeros eventos acadêmicos e não acadêmicos sobre migrações e também de vários embates travados contra a superexploração dos trabalhadores, mormente aqueles referentes às Audiências Públicas, ocorridas em razão das mortes por exaustão no eito dos canaviais paulistas. Nesses encontros, novas parcerias foram se constituindo, inter allia, com a Promotoria Pública de Campinas (PRT15) do estado de São Paulo (Silva, 2006).

Agnes Heller afirmava que o acaso tem uma grande importância para a história. Defendia a tese de que os acontecimentos históricos não seguem uma linha reta. Os casuais, os que não são previstos, também são importantes para mudar o curso da história. O almoço na casa de dona Francisca teve esse papel para a história de minha vida enquanto pesquisadora e também em minhas práticas cotidianas. Dividir, somar, multiplicar foram verbos mais conjugados por mim, a partir de então.

Notas

1 Texto extraído do capítulo da coletânea: SILVA, M. A. M. Lições do Vale. In: NOGUEIRA, M.D. P. (Org.). Vale do Jequitinhonha. Educação e trabalho. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p.17-36, 2013.

2 A pesquisa contou com o apoio da FUNDUNESP e CNPq.

3 Ver a respeito SILVA, Maria Aparecida de Moraes. Errantes do fim do século. São Paulo: Edunesp, 1999.

4 Ver a respeito o premiado curta-documentário “Viúvas de Maridos Vivos”, do artista mineiro Leandro Júnior, exibido no International Cell Phone Cinema. Disponível em: https://www.facebook.com/watch/?v=2441302362919851. Acesso em 10 de março de 2026.

Referências

SILVA, M. A. M. et Al. (2006). Do karoshi no Japão à birola no Brasil: as faces do trabalho no capitalismo mundializado. Revista NERA, UNESP, p. 74-108.