BVPS Acervo: escolher a democracia | Bacurau não é para principiantes, por Glaucia Villas Bôas

Bacurau é aqui e agora. Republicamos o ensaio de Glaucia Villas Bôas, escrito em 2019 para a BVPS, como um chamado. Contrapondo-se às leituras que reduziram o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles a um elogio à barbárie, Bacurau emerge no ensaio como uma evocação – e uma convocação – da capacidade dos grupos considerados subalternos de se organizar e liderar movimentos de resistência à violência e de luta por uma existência mais digna.

Num país encurralado, em que a democracia é posta à prova nas eleições, quem ainda acredita na força de uma comunidade que se defende? Vale a pena ver o filme de novo!


Bacurau não é para principiantes

Por Glaucia Villas Bôas

Considera-se o Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, um Tropa de Elite de esquerda, um filme à moda Tarantino, um elogio à barbárie e à violência. Bacurau é ainda filme pretensioso, tentativa fracassada de retrato do Brasil dos últimos tempos. Obra datada. Esses comentários, creio, não atentam para certas sutilezas (cf. Escorel, 2019; Musse, 2019; Chiarelli, 2019). Bacurau não é filme que mereça leitura rápida nem ao pé da letra. Chamar a evocação dos jogos eletrônicos representados pela ação mortífera dos “estrangeiros” ou “turistas” (que põem a cidadezinha fora do mapa) de apelo ao ultrapassado imperialismo norte-americano é, no mínimo, ingenuidade ou má-fé. Basta ver os jogos que entretêm tantas crianças diariamente no WhatsApp. Ou apreciar em Fortnite a alegria de Ramirez, a destruir os “inimigos” com sua picareta. A estética da matança altamente tecnologizada e comandada por drones é o que os diretores efetivamente introduzem no filme como alegoria da violência, que, se não vivemos corpo a corpo e cotidianamente, olhamos com um misto de espanto, naturalidade e indiferença nas imagens dos jornais ou filmes de TV. Os war games não me parecem datados.

O filme exibe a população de uma cidade do Nordeste brasileiro que representa outras cidades daquela região, símbolo de um Brasil encurralado. Uma população de várias cores de pele, gorda, magra, feia, bonita, de prostitutas, professor, médico, criança, dona de birosca, bandido gay, bandido hétero, prefeito, curandeiro. Finalmente um filme que mostra um conjunto de pessoas e não apenas um ou dois personagens contando histórias de si mesmos. Bacurau é história de comunidade isolada dos grandes centros, que simplesmente não tem água, mas celulares. Imagine-se um bairro da Zona Sul carioca sem água porque seus moradores não têm acesso a uma represa recém-construída pelo poder público, e a pequena coletividade fica à espera de um caminhão de água potável, que, não fosse a proteção de um bandido, poderia levar uns tiros e deixar de abastecer o local. Nem se concebe imaginar isso. Mas é o que ocorre em Bacurau. A entrada difícil do caminhão numa estrada esburacada e tortuosa é cena preciosa em que o espectador se sente entrando ele também em Bacurau, situada num fim de mundo sem água, a depender da proteção de um bandit d’honneur (Pereira de Queiroz, 1968). A distância e a dificuldade em entrar na cidade denotam a recusa hoje frequente no horizonte intelectual de se observar um conjunto, uma coletividade, uma unidade. Acostumou-se a ver ruínas e fragmentos. Em seguida, a cena de muitos braços levantando a mala trazida por Teresa (Barbara Colen) com vacinas e remédios para guardá-la em lugar seguro evidencia a coesão dos moradores de Bacurau. Isolados, mas coesos. Logo de início, o espectador intelectualizado se surpreende com a unidade que estrutura o filme, com a coesão do povo da cidadezinha.

Bacurau reatualiza a tradição forte de filmes sobre o Nordeste brasileiro, como disse Ângela Leite Lopes (2019), e relembra também uma tradição importante de estudos sociológicos sobre a região e sobre o Brasil – de Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, ao Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios (1976), de Maria Isaura Pereira de Queiroz. Evidencia a falência do poder público ao focalizar a miséria de municípios brasileiros numa nova interpretação da realidade nordestina. Miséria de cara nova, sem a figura do grande proprietário de terras e da antiga e infalível presença do padre católico a ele aliado. Sem pau de arara procurando caminhão à beira da estrada em direção ao Sul nem casa de pau a pique exibindo criança de pé no chão desidratada. Só a figura do prefeito permanece, modernizado em suas vestimentas, equipamento, carro e linguajar. Ele incorpora a fraqueza do sistema político local (estadual e federal), cujos representantes só aparecem em tempo de eleição para trocar cabotinamente remédios com prazo de validade vencido e livros atirados ao chão pelos votos dos habitantes locais. A cidade padece da violência material e simbólica imposta pelo sistema político que, no filme, metaforicamente, tem o apoio dos donos de drones, portadores de armas vintage e roupas que se reconhecem em qualquer joguinho eletrônico, dispostos a matar, manipulando os dispositivos eficientes de seu game.

Maria Isaura, uma das primeiras mulheres sociólogas, investigou, no início dos anos 1950, em trabalho de campo no município de Santa Brígida, as mudanças que ocorriam nas coletividades pobres e dominadas do interior baiano. Ela teve a coragem de levantar a hipótese ousada de que os grupos sociais considerados subalternos eram capazes de se organizar e liderar movimentos em favor da melhoria de suas condições de vida. Ao formular sua hipótese, Maria Isaura invertia a crença, até hoje comum, de que aqueles grupos são incapazes de ação em benefício próprio, uma vez que se acredita que estejam naturalmente presos ao imobilismo, à espera de um movimento que os retire das duras condições em que vivem, iluminando suas mentes. Nas pesquisas que compõem o livro O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios (1976), o leitor percebe que, para a autora, os grupos e indivíduos dominados, sujeitos ao poder de mando, tinham capacidade de discernimento e, no limite, sabiam das condições estreitas de suas escolhas.

“Mulheres e crianças de Santa Brígida, carregando pedras para a construção da Igreja, 1957”. Foto retirada do livro Os cangaceiros, de Maria Isaura Pereira de Queiroz

Relembro as pesquisas de Maria Isaura porque noto que os moradores de Bacurau também não se prendem ao imobilismo nem esperam a chegada de um salvador à cidade. Retirados do mapa e cercados por atiradores assassinos, eles fazem uso do melhor de suas tradições de luta, das armas do cangaço, de seus bandidos de honra, das técnicas de luta guardadas no museu da cidade. Defendem-se legitimamente. O espanto do espectador com o fazer justiça com as próprias mãos (que se inscreve em algumas das críticas ao filme) resulta de sua desatenção, primeiro, à situação de violência que levaria ao massacre da população da cidade, segundo, à capacidade de discernimento dos moradores de Bacurau numa situação extrema. Resulta ainda do costumeiro temor (compreensível, aliás) da desordem, do excesso de rebeldia dos dominados e da balbúrdia que causam mal-estar e insegurança às camadas médias urbanas.

Finalmente, há um desconhecimento profundo do Museu de Bacurau. O filme é uma evocação das lutas populares e tradicionais, dos quilombos, dos movimentos messiânicos, de Canudos, do Contestado, do cangaço, de Maria Bonita, das Ligas Camponesas. A violência que essas lutas retratam só se compreende quando se ilumina a violência entranhada nas vísceras à qual estão sujeitos há séculos os seus personagens. Compreensão indispensável para a formulação de um juízo que não se limite a concordar ou discordar da atitude dos moradores de Bacurau nem a comparar Bacurau aos westerns norte-americanos.

Se considerarmos que falar de unidade e coesão, ou do discernimento das camadas comuns da população e de sua capacidade de lutar por melhores condições de vida, é coisa do passado, Bacurau é filme datado. Se considerarmos ainda que falar da memória das lutas populares por uma vida melhor não é adequado porque, finalmente, elas retratam uma coletividade coesa que não mais tem relevância para a construção de uma memória nacional (também porque já não existe nação), neste caso, sim, Bacurau é filme ultrapassado. Mas, se houver alguma condescendência com os esforços recentes de se buscar uma nova interpretação do Brasil em meio a todas as fragmentações, vale a pena ver o filme de novo.

Referências

CHIARELLI, Tadeu. (2019). Bacurau, o cinema, o cinemão e a “videoarte”. Arte!Brasileiros, 16 de outubro. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/opiniao/bacurau-o-cinema-o-cinemao-e-a-videoarte/.

ESCOREL, Eduardo. (2019). Celebração da barbárie. Revista Piauí, 28 de agosto. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/bacurau-celebracao-da-barbarie/.

LEITE LOPES, Ângela. (2019). Depois de assistir Bacurau… Texto publicado no Facebook.

MUSSE, Ricardo. (2019). Sobre Bacurau. Revista Fórum, 8 de outubro. Disponível em: https://revistaforum.com.br/cultura/sobre-bacurau-por-ricardo-musse/.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1968). Os cangaceiros: les bandits d’honneur brésiliens. Paris: Julliard.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1976). O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa-Omega.

Sobre a autora

Glaucia Villas Bôas é professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora do CNPq e colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS/UFRJ). Publicou, entre outros livros, Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro (2006), A recepção da sociologia alemã no Brasil (2006), A vocação das ciências sociais (2007), Um vermelho não é um vermelho: estudos sociológicos sobre as artes visuais (2016), Forma privilegiada: a arte concreta no Rio de Janeiro de 1946 a 1959 (2022) e Mário Pedrosa, crítico de arte e da modernidade (2023).