BVPS Acervo: Escolher a democracia | Financeirização, fundos de pensão e impactos sobre o mundo do trabalho, por Mateus Santana

Quem decide o que se faz com a poupança de quem trabalha? Dando início à última semana da ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia, republicamos texto escrito para série Economia & Sociedade, onde Mateus Santana (UFRRJ) mostra como a maximização do valor ao acionista subordinou empresas e trabalhadores a metas financeiras, e como os fundos de pensão, formados pela previdência dos próprios trabalhadores, acabaram reforçando a precarização e a desigualdade. Quando as decisões econômicas que moldam a vida coletiva escapam a qualquer controle democrático, a democracia se esvazia. Escolher a democracia é também disputar a quem as finanças devem servir.


Financeirização, fundos de pensão e impactos sobre o mundo do trabalho

Mateus Ubirajara Silva Santana (UFRRJ)

A financeirização é um processo complexo e multifacetado que abarca diversos fenômenos, como a expansão dos produtos e serviços financeiros nas últimas quatro décadas, a dominância do setor financeiro sobre o industrial e o crescimento dos ativos financeiros em relação aos ativos reais. De modo geral, representa a centralidade que as finanças adquiriram para os vários agentes econômicos – empresas, famílias, investidores e o próprio Estado. Em uma abordagem seminal sobre o tema, Braga (1985; 2017) define a financeirização como um padrão sistêmico de riqueza, isto é, uma nova forma de gerir, definir e realizar a riqueza, na qual a finança se torna elemento fundamental no cálculo dos diversos agentes econômicos.

Embora haja diferentes concepções teóricas a seu respeito – incluindo as interpretações de autores regulacionistas, pós-keynesianos e marxistas –, há certo consenso de que o fenômeno está ligado às transformações capitalistas dos anos 1970 e 1980, que culminaram nas políticas de desregulamentação e liberalização financeira após a ruptura de Bretton Woods. Esse processo marcou a transição do regime de acumulação fordista (1945-1975) para o regime flexível (a partir de 1975), levando à reestruturação produtiva e à nova gestão corporativa que incorporou a dimensão financeira como estratégia central de recomposição e ampliação das fontes de lucro.

Uma das principais abordagens para entender os efeitos da financeirização sobre as empresas e sobre a nova forma de acumulação de capital é a de Lazonick e O’Sullivan (2000). Os autores chamam a atenção para uma transformação fundamental no âmbito corporativo: a introdução da lógica da maximização do valor ao acionista (maximizing shareholder value) e a substituição do princípio de reter e reinvestir (retain and reinvest), típico do regime fordista, pela estratégia de reduzir custos e distribuir lucros aos acionistas (downsize and distribute), característica do regime financeirizado.

Nesse sentido, argumentam que há uma mudança radical nas estratégias empresariais e na forma como as empresas investem, produzem e realizam seus lucros. Enquanto no modelo fordista os investimentos da firma estavam voltados fundamentalmente à produção – sendo financiados, em larga medida, pelos lucros passados –, com a introdução de critérios e práticas orientados à valorização dos ativos financeiros o foco desloca-se para a maximização do valor acionário, a redistribuição de lucros aos acionistas e as práticas de reestruturação com foco no corte de custos.

A partir dos anos 1980, investidores institucionais – como fundos de pensão, fundos mútuos, seguradoras e fundos soberanos – passaram a deter grande parte das ações das empresas. Esses acionistas exigem retornos rápidos e elevados, pressionando diretorias e conselhos administrativos a priorizar estratégias de maximização do valor acionário. Indicadores como o Market Value Added (MVA) e o Economic Value Added (EVA) tornaram-se fundamentais para mensurar e divulgar o valor agregado das empresas, enquanto práticas como a recompra de ações (buyback) tornaram-se instrumentos cruciais para impulsionar o preço das ações (Mazzucato, 2020).

O crescimento do poder dos acionistas ocorre justamente no contexto dos anos 1970, quando a teoria da agência, de Jensen e Meckling (1976), ganha força ao questionar o papel dos administradores e da gerência nos resultados das empresas. Os autores argumentam que os gerentes tendem a perseguir seus próprios interesses e não necessariamente os dos proprietários (acionistas). Isso justificaria a adoção de mecanismos de controle e incentivos aos executivos – como a remuneração atrelada ao valor das ações – para alinhar as decisões corporativas à maximização do valor acionário. O oferecimento de altos salários, stock options (ações da própria empresa) e bonificações por desempenho foi uma das formas encontradas para alinhar esses interesses e incentivar a administração a adotar práticas orientadas à valorização dos ativos financeiros.

O impulsionamento do valor financeiro da empresa implica a necessidade de adoção de práticas de reestruturação e flexibilização com foco no corte de custos, inclusive com pessoal. As práticas de offshoring (deslocamento de plantas produtivas para regiões do globo onde a mão de obra é mais barata), de lean manufacturing (produção enxuta), o aumento das terceirizações – tanto de atividades produtivas quanto da força de trabalho – e a adoção de contratos de trabalho mais flexíveis são formas que as empresas encontraram de reduzir custos e, ao mesmo tempo, sinalizar ao mercado o compromisso com a geração de valor acionário (Mazzucato, 2020).

Essas práticas tiveram forte impacto sobre o mundo do trabalho. No modelo fordista de produção, a gestão administrativa priorizava, de modo geral, os investimentos e os retornos de longo prazo, bem como os aportes em P&D, voltados à inovação e à competitividade da companhia. Os salários dos altos executivos (CEOs) dependiam do sucesso da organização como um todo, que, por sua vez, apoiava-se nos lucros operacionais retidos e na busca por estratégias inovadoras de investimento. Por isso, os contratos de trabalho tendiam a ser de longo prazo, baseados no compromisso e na confiança entre trabalhadores e empregadores, visando assegurar a continuidade do negócio.

Era comum o oferecimento de promoções baseadas no desempenho e no mérito, além de benefícios e garantias – como planos previdenciários e seguros – que visavam assegurar a permanência do trabalhador na empresa e diminuir a rotatividade. Os trabalhadores tinham estabilidade e contavam, em grande medida, com contratos formais de trabalho. A relação entre gerência e trabalhadores baseava-se na confiança, uma vez que o conflito entre capital e trabalho era reconhecido entre as partes, e os empregadores buscavam mitigá-lo, inclusive por meio da oferta de benefícios (Appelbaum et al., 2013).

Com as novas estratégias corporativas orientadas à maximização do valor financeiro, a empresa passou a ser vista como uma coleção de ativos que devem ser administrados com a finalidade de gerar mais valor ao acionista. Assim, quando a empresa apresenta baixo desempenho econômico, demissões ou rebaixamento de salários surgem como soluções para reduzir custos operacionais e transmitir ao mercado o compromisso com a reestruturação, visando impulsionar o valor acionário e atrair novos investidores.

Como apontam Dardot e Laval (2016), um dos efeitos dessas práticas é o maior disciplinamento dos trabalhadores ao valor acionário. Estes devem interiorizar não só “as novas normas de eficiência produtiva e desempenho”, mas também “as coerções da rentabilidade financeira da empresa”:

A extensão e a intensificação das lógicas de mercado tiveram efeitos muito patentes na organização do trabalho e nas formas de emprego da força de trabalho. O que a lógica do poder financeiro fez foi apenas acentuar o disciplinamento dos assalariados submetidos a uma exigência de resultados cada vez maior. A busca obsessiva de mais-valor na bolsa implicou não apenas a garantia aos proprietários do capital de um crescimento contínuo de seus rendimentos, à custa dos assalariados […], como também e, sobretudo, traduziu-se pela imposição de normas de rentabilidade mais elevadas em todas as economias, em todos os setores e em todos os escalões da empresa (Dardot & Laval, 2016: 225-226).

O acirramento da concorrência em escala global, a introdução de métricas internacionais de performance empresarial e a busca pela maximização do valor ao acionista ampliaram a pressão não apenas sobre os executivos, mas sobre todos os trabalhadores, que, assim como os departamentos da companhia, passam a ser considerados uma espécie de “centro de lucro” individual, devendo gerar resultados para a empresa.

Outro efeito decorrente desse processo foi o aumento da desigualdade entre os chamados trabalhadores blue collar (colarinho azul) e white collar (colarinho branco), particularmente nos Estados Unidos, onde a financeirização tem se verificado de forma mais acentuada. O fechamento de plantas produtivas nos anos 1980, aliado às práticas de enxugamento de pessoal, levou ao aumento das demissões e ao rebaixamento dos salários dos trabalhadores ligados diretamente à produção. Ao mesmo tempo, a remuneração dos altos executivos cresceu exponencialmente. Bivens e Kandra (2022) mostram que a remuneração dos CEOs das 350 maiores empresas norte-americanas aumentou 1.460% em 2022 em relação a 1978.

A grande contradição desse processo é que os fundos de pensão atuaram como vetores na introdução desses dispositivos e técnicas de financeirização no âmbito corporativo, sobretudo nos Estados Unidos (Gillan & Starks, 2000). Reunindo a poupança previdenciária dos trabalhadores e atuando como investidores institucionais de grandes corporações, esses fundos tiveram – e ainda têm – participação decisiva na definição de práticas de governança corporativa orientadas à maximização do valor acionário e, simultaneamente, nas práticas de reestruturação produtiva e na exigência permanente de corte de custos, inclusive com pessoal. Grandes fundos de pensão norte-americanos, como o CalPERS (California Public Employees’ Retirement System) e o CalSTRS (California State Teachers’ Retirement System), foram centrais no processo de reestruturação das corporações estadunidenses ao longo das décadas de 1980 e 1990, que culminou em estratégias de desinvestimento produtivo, cortes de custos e imposição de critérios financeiros de rentabilidade (Fox, 2010: 333).

A participação de representantes sindicais na administração dos fundos de pensão também evidencia a contradição desse processo. No caso norte-americano, a atuação de representantes dos trabalhadores nesses fundos tem ocorrido em convergência com os interesses dos shareholders, mantendo fidelidade à lógica da “maximização do valor ao acionista” (Sauviat, 2005; Lordon, 2000). No Brasil, desde os anos 1990, organizações sindicais – como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical – reivindicam participação nos conselhos dos fundos de pensão, alegando que, enquanto representantes dos trabalhadores, poderiam redirecionar os recursos desses fundos para atividades “éticas” e produtivas (Jardim, 2009). Nesse sentido, uma maior participação de representantes da classe trabalhadora nos fundos de pensão poderia reduzir seu caráter “rentista” e criar condições para ampliar o nível de emprego e renda na economia.

Crítico da inserção dos sindicatos no universo dos fundos de pensão, Francisco de Oliveira (2003) aponta para uma crescente dissociação entre as organizações de representação da classe trabalhadora e sua base, afirmando que lideranças sindicais teriam se convertido em uma nova elite sindical, gestora de fundos de pensão – o que evidencia a paradoxal incorporação do trabalho às engrenagens da acumulação financeira. A poupança dos trabalhadores, em vez de servir como instrumento de proteção social, passa, em muitos casos, a alimentar o próprio mecanismo de valorização do capital que sustenta a lógica da financeirização, reforçando as desigualdades e fragilizando os vínculos coletivos de solidariedade.

A financeirização tem, assim, transformado profundamente a dinâmica de acumulação, gestão e realização da riqueza no capitalismo contemporâneo, reconfigurando a própria relação entre capital e trabalho. As empresas, em grande medida, passaram a orientar suas estratégias à maximização do valor acionário, submetendo executivos e trabalhadores a métricas de desempenho financeiro e gerando impactos profundos sobre o mundo do trabalho, com a ampliação da precarização e da desigualdade social. A atuação dos investidores institucionais, especialmente dos fundos de pensão, evidencia o caráter paradoxal desse processo, na medida em que a poupança dos trabalhadores é mobilizada para sustentar políticas que, muitas vezes, são contrárias aos seus próprios interesses.


Referências

APPELBAUM, Eileen & BATT, Rose & CLARK, Ian. (2013). Implications of financial capitalism for employment relations research: evidence from breach of trust and implicit contracts in private equity buyouts. British Journal of Industrial Relations, v. 51, n. 3.

BRAGA, José Carlos de Souza. (1985). Temporalidade da riqueza: uma contribuição à teoria da dinâmica capitalista. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

BRAGA, José Carlos de Souza et al. (2017). For a political economy of financialization: theory and evidence. Economia e Sociedade, Campinas, v. 26.

BIVENS, Josh & KANDRA, Jori. (2022). CEO pay has skyrocketed 1,460% since 1978. Economic Policy Institute. Disponível em: https://www.epi.org/publication/ceo-pay-has-skyrocketed-1460-since-1978/. Acesso em: nov. 2025.

DARDOT, Pierre & LAVAL, Christian. (2016). A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo.

FOX, Justin. (2010). O mito dos mercados racionais: uma história de risco, recompensa e decepção em Wall Street. Rio de Janeiro: BestSeller.

GILLAN, Stuart & STARKS, Laura. (2000). Corporate governance proposals and shareholder activism: the role of institutional investors. Journal of Financial Economics.

JARDIM, Maria A. Chaves. (2009). Entre a solidariedade e o risco: sindicatos e fundos de pensão em tempos de governo Lula. São Paulo: Annablume Editora.

JENSEN, Michael & MECKLING, William. (1976). Theory of the firm: managerial behavior, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economics, v. 4, n. 3.

LAZONICK, William & O’SULLIVAN, Mary. (2000). Maximizing shareholder value: a new ideology for corporate governance. Economy and Society Review, v. 29, n. 1, feb.

LORDON, Frédéric. (2021). Capitalisme, piège à cons? Mirage de la démocratie actionnariale. Paris: Raisons d’agir.

MAZZUCATO, Mariana. (2020). O valor de tudo: produção e apropriação na economia global. São Paulo: Portfolio-Penguin.

OLIVEIRA, Francisco de. (2003). Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo.

Sobre o autor

Mateus Ubirajara Silva Santana é Doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor do Adjunto do Departamento de Ciências Econômicas (DeCE) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).