
Encerrada a Ocupação BVPS Acervo: escolher a democracia, a equipe da BVPS reafirma seu compromisso com a comunicação pública da ciência e com a democracia como o único ambiente propício ao florescimento de conhecimento relevante e de diálogos plurais e inclusivos para e com a sociedade brasileira.
Leia nossos agradecimentos às autoras e aos autores que participaram da nossa ação, que não foi a primeira desse tipo.
Agradecimentos
A BVPS tem a missão de comunicar o conhecimento científico e os resultados de pesquisas acadêmicas nas áreas da sociologia, das ciências sociais e da literatura comparada, especialmente. No início da pandemia de Covid-19, no Simpósio Mundo Social e Pandemia, mobilizamos 69 sociólogas e sociólogas, de instituições de pesquisa de 18 países e cinco continentes, para refletir sobre os desafios impostos pela emergência sanitária. Agora diante de outra conjuntura crítica, entre os dias 6 e 23 de outubro de 2026, voltamos a nos mobilizar para discutir a importância crucial da escolha da democracia em face do autoritarismo e do negacionismo científico. Intentamos, assim, dar prosseguimento à nossa missão.
A repercussão dessa última iniciativa indicou tanto fronteiras quanto obstáculos para nossa atuação. Publicações que ultrapassaram 20 mil acessos alcançaram públicos muito além dos círculos acadêmicos habituados à controvérsia de posições, ao debate fundado na argumentação e nos fatos e à convivência com o dissenso. Ao mesmo tempo, nossa conta no Instagram foi alvo de ataques que levaram à sua derrubada. O episódio expõe uma dupla dificuldade. De um lado, as plataformas não constituem espaços públicos de debate: são propriedade de grandes corporações, que operam seus algoritmos sem qualquer transparência e decidem, por critérios próprios e inacessíveis ao escrutínio, o que circula e o que desaparece. De outro, a intolerância que nos atingiu opera justamente sob a retórica da liberdade de expressão e da livre circulação de ideias, usadas como fachada “democrática” para a difusão de ideologias reacionárias e projetos políticos regressivos. A democracia não pressupõe a ausência de conflitos nem a concordância entre posições divergentes, mas exige que as divergências sejam expressas, argumentadas e discutidas sem recurso à intimidação ou ao silenciamento, o que implica recusar legitimidade a quem participa do debate apenas para suprimir as condições que o tornam possível.
Às vésperas do segundo turno das eleições, ainda não sabemos quais serão seus resultados nem suas consequências para iniciativas acadêmicas como a nossa. Sabemos, contudo, o que construímos até aqui, de forma pioneira e já longeva. Prestes a completar, no ano que vem, dez anos de atividades diárias e contínuas, a BVPS vem compondo um acervo excepcional pela alta qualidade de suas contribuições, pela diversidade de perspectivas intelectuais e, sobretudo, pela experimentação de formas e sentidos inovadores de produzir e comunicar conhecimento. Estamos cientes de que nosso trabalho acadêmico, coletivo, gratuito e voluntário, está ajudando a mudar o modo tradicional como a própria comunidade científica via – e ainda vê – a divulgação científica: nossa aposta, consciente e planejada, tem sido a de quebrar as hierarquias sociais não apenas entre os saberes, mas também no interior da própria cadeia de produção e comunicação do conhecimento com a sociedade. Em lugar de um conhecimento esotérico para poucos que depois – e só depois – de estabelecido pode, quase como uma concessão, ser traduzido e divulgado (quando não se fala, sintomaticamente, em “vulgarizado”) para um público mais amplo, propomos e perseguimos com tenacidade uma comunicação de ordem reflexiva: capaz de conectar o aperfeiçoamento das pesquisas – testando e problematizando seus resultados no decorrer de sua criação – a uma forma de comunicação pública mais ampla que a ultraespecializada dos periódicos científicos. Essa escolha é, ela mesma, democrática. Se a ciência não for mais que uma autoridade distante, a desinformação continuará deslegitimando as instituições e a democracia. Comunicar a pesquisa em processo, com suas dúvidas e controvérsias à vista, é o modo mais eficaz de mostrar que a ciência não é um dogma a ser aceito, mas um método a ser compreendido, e que também nos leva a compreender o mundo que compartilhamos.
Este post é apenas para agradecer às autoras e aos autores que apoiam nossa concepção de trabalho, que gostam de conversar com a sociedade e, em especial, àqueles e àquelas que, nos últimos dias, participaram de um verdadeiro tour de force coletivo, mobilizando diferentes áreas do conhecimento, temas e pontos de vista, para argumentar sobre a urgência, hoje, no Brasil e no mundo, de se escolher a democracia.
Equipe BVPS
André Botelho (UFRJ)
Guilherme Prates (UFRJ)
João Mello (UFRJ)
João Candido Stringari (UFRJ)
Karim Helayel (UFRJ)
Maria Caroline Tresoldi (UFRJ)
Maria Fernanda Argileu (UFRJ)
Maria Gabriella de Faria (UFRRJ)
Mauricio Hoelz (UFRRJ)
Miguel Cunha (UFRRJ)
Nichollas Capote (UFRJ)
Onildo Correa (UFRJ)
Rennan Pimentel (IESP-UERJ)
